{"id":1584,"date":"2022-01-31T09:00:00","date_gmt":"2022-01-31T12:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2022-05-24T17:09:34","modified_gmt":"2022-05-24T20:09:34","slug":"os-estudos-de-seguranca-internacional-e-a-triplice-fronteira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1584","title":{"rendered":"Os Estudos de Seguran\u00e7a Internacional e a Tr\u00edplice Fronteira"},"content":{"rendered":"<p>Volume 9 | N\u00famero 88 | Jan. 2022<\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/41Vo7yRE2eL._SX328_BO1-204-203-200_-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/41Vo7yRE2eL._SX328_BO1-204-203-200_-2.jpg\" width=\"212\"><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">Por Micael Alvino da Silva<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esse texto \u00e9 um di\u00e1logo proposto entre a leitura de Barry Buzan e Lene Hansen (2012) e a inser\u00e7\u00e3o internacional da Tr\u00edplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai (TF). O livro \u00e9 uma hist\u00f3ria intelectual do posicionamento das diferentes abordagens nos debates sobre Estudos de Seguran\u00e7a Internacional (ESI). A TF \u00e9 uma regi\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul que entrou na agenda de seguran\u00e7a internacional principalmente ap\u00f3s os ataques terroristas aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001. O objetivo desse texto \u00e9 refletir sobre como os estudos internacionais sobre a TF podem ser posicionados no espectro mais amplo dos ESI e qual seria um caminho te\u00f3rico-metodol\u00f3gico apropriado para seu estudo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A Evolu\u00e7\u00e3o dos Estudos de Seguran\u00e7a Internacional \u00e9 uma leitura obrigat\u00f3ria para estudantes de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Constitui-se em referencial b\u00e1sico para disciplinas cl\u00e1ssicas da \u00e1rea como Estudos Estrat\u00e9gicos e Estudos para a Paz. Como se prop\u00f5e a analisar a hist\u00f3ria desde o surgimento dos ESI at\u00e9 a edi\u00e7\u00e3o original do livro (em 2008), \u00e9 de se esperar que o livro passe por todas as tem\u00e1ticas relevantes da sub\u00e1rea desde o p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial at\u00e9 o p\u00f3s-Guerra Fria, adentrando nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI. Antes de abordar a quest\u00e3o da TF, duas pondera\u00e7\u00f5es: o contexto ocidental e a identidade dupla dos ESI.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sobre o contexto ocidental, os autores nos advertem que os ESI, assim como a \u00e1rea de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, s\u00e3o \u201cde nascen\u00e7a\u201d anglo-americanas e \u201cbaseada em uma concep\u00e7\u00e3o ocidental de Estado\u201d que pressup\u00f5e \u201crelev\u00e2ncia pol\u00edtica e emp\u00edrica limitada para grande parte do mundo n\u00e3o ocidental\u201d (BUZAN e HANSEN, 2012, p. 48-9). Tamb\u00e9m \u00e9 importante destacar que boa parte da produ\u00e7\u00e3o impactante dos ESI deve ser lida com certos cuidados por vezes indicados pelos pr\u00f3prios autores do campo dos ESI. No cl\u00e1ssico O Choque de Civiliza\u00e7\u00f5es, por exemplo, Samuel Huntington adverte seus leitores a n\u00e3o considerar o livro como uma obra de ci\u00eancia social, mas uma leitura interpretativa do mundo p\u00f3s-Guerra Fria (HUNTINGTON, 1997, p. 12).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Barry Buzan e Lene Hansen resumem um aspecto importante dos ESI, a saber, sua identidade dupla: acad\u00eamica e pol\u00edtica. Nesse sentido, os ESI n\u00e3o s\u00e3o conduzidos exclusivamente pelo processo de descoberta cient\u00edfica, mas tamb\u00e9m \u201cpelo seu engajamento no mundo da pol\u00edtica e pela influ\u00eancia do mundo da pol\u00edtica sobre eles\u201d, de modo que nos EUA, por exemplo, \u00e9 normal que escritores de ESI passem \u201cuma parte de suas carreiras na academia ou Think Tanks e parte delas no governo\u201d (BUZAN e HANSEN, 2012, p. 87). Essas pondera\u00e7\u00f5es sobre o contexto ocidental e a identidade dupla devem soar como alertas para os iniciantes na tem\u00e1tica sob o risco de incorrer em equ\u00edvocos de an\u00e1lise, especialmente ao se deparar com produ\u00e7\u00f5es que representam mais algum tipo de \u201cpropaganda\u201d do que estudos de \u201cqualidade acad\u00eamica\u201d (BUZAN e HANSEN, 2012, p. 254).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Uma das perspectivas de estudo sobre a TF \u00e9 aquela denominada internacionalista, cujos autores se preocupam com a inser\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o na agenda internacional de seguran\u00e7a ap\u00f3s 11 de setembro de 2001 (SILVA, 2021). Ainda que a Am\u00e9rica Latina tenha atra\u00eddo \u201cum interesse relativamente pequeno\u201d por n\u00e3o possuir \u201ccentralidade estrat\u00e9gica\u201d (BUZAN e HANSEN, 2012, p. 276-7), a TF foi incorporada na agenda de seguran\u00e7a internacional por suspeitas de v\u00ednculo com o terrorismo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A leitura de Buzan e Hansen nos permite situar esse conjunto de an\u00e1lises de internacionalista no contexto dos eventos hist\u00f3ricos e da evolu\u00e7\u00e3o dos ESI. No contexto hist\u00f3rico, \u00e9 poss\u00edvel associar o caso da Tr\u00edplice Fronteira no \u00e2mbito de uma constata\u00e7\u00e3o do per\u00edodo p\u00f3s-Guerra Fria. A prop\u00f3sito, \u00e9 central considerar as concep\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a objetivas (exist\u00eancia de amea\u00e7a), subjetivas (exist\u00eancia de amea\u00e7a que pode variar entre superestimada, racional e subestimada) e discursivas (sem exist\u00eancia de condi\u00e7\u00e3o material, s\u00e3o constru\u00eddas) (BUZAN e HANSEN, 2012, p. 66-68). Em que pese o fato de que essas constru\u00e7\u00f5es podem ser muito mais em torno de um \u201crisco\u201d do que de uma \u201camea\u00e7a\u201d, \u201cas concep\u00e7\u00f5es discursivas de seguran\u00e7a\u201d ocuparam \u201cuma parte central das abordagens ampliadoras desde os anos 1980\u201d (BUZAN e HANSEN, 2012, p. 366).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As abordagens ampliadoras (P\u00f3s-estrututuralismo, feminismo, p\u00f3s-colonialismo, construtivismo e Escola de Copenhague) s\u00e3o apresentadas em contraste com as abordagens tradicionalistas (Estudos Estrat\u00e9gicos e Estudos para a Paz). Para o estudo da Tr\u00edplice Fronteira, a aus\u00eancia de \u201cprovas\u201d do nexo com o terrorismo leva \u00e0 conclus\u00e3o de que h\u00e1 muito mais o \u201crisco\u201d do que a \u201camea\u00e7a\u201d. Nesse sentido, as abordagens discursivas oferecem melhores explica\u00e7\u00f5es do que aquelas baseadas em concep\u00e7\u00e3o objetiva ou subjetiva de seguran\u00e7a.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Dentre as abordagens ampliadoras, a Escola de Copenhague parece oferecer um caminho mais promissor para o estudo de regi\u00f5es inseridas no mapa da seguran\u00e7a internacional nos moldes da Tr\u00edplice Fronteira. Dessa escola, as contribui\u00e7\u00f5es mais distintas s\u00e3o os conceitos de seguran\u00e7a social e securitiza\u00e7\u00e3o. Esse conceito, em especial, \u00e9 altamente recomend\u00e1vel para os internacionalistas que optam pelo estudo da TF, uma vez que pode ser definido como \u201cos processos pelos quais grupos de pessoas concebem algo como amea\u00e7a\u201d (BUZAN e HANSEN, 2012, p. 72).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A partir da Escola de Copenhague, \u201ca maneira de estudar securitiza\u00e7\u00e3o \u00e9 estudar o discurso e as constela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas\u201d. S\u00e3o considerados como atores de securitiza\u00e7\u00e3o certos \u201cl\u00edderes pol\u00edticos, burocratas, governos, lobistas e grupos de press\u00e3o\u201d (BUZAN, WAEVER e WILDE, 1998, p. 25; 40). Nesse sentido que a leitura de A Evolu\u00e7\u00e3o dos Estudos de Seguran\u00e7a Internacional permite-nos fazer coro \u00e0 essa abordagem que j\u00e1 vem sido considerada em trabalhos sobre a TF (AMARAL, 2010; VILLA, 2014; CASTRO, no prelo). Por fim, ressalta-se que o processo de conceber a regi\u00e3o como amea\u00e7a passa pelos discursos dos governos que s\u00e3o reverberados pela m\u00eddia, sem desconsiderar os \u201cacad\u00eamicos de<i> Think Tanks\u201d<\/i>.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Refer\u00eancias&nbsp;<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">AMARAL, A. B. D. <i>A Tr\u00edplice Fronteira e a Guerra ao Terror.<\/i> Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">BUZAN, B.; HANSEN, L. <i>A evolu\u00e7\u00e3o dos Estudos de Seguran\u00e7a Internacional.<\/i> S\u00e3o Paulo: EDUNESP, 2012.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">BUZAN, B.; WAEVER, O.; WILDE, J. D. <i>Security: A New Framework for Analysis<\/i>. London: Lynne Rienner Publishers, 1998.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">CASTRO, I. C. S. Contestando a Guerra ao Terror: as respostas brasileiras \u00e0s suspeitas de terrorismo. In: SILVA, M. A. D.; CASTRO, I. C. S. Al\u00e9m dos Limites: <i>A Tr\u00edplice Fronteira nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais Contempor\u00e2nea<\/i>s. S\u00e3o Paulo: Alameda, no prelo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">HUNTINGTON, S. <i>Choque de civiliza\u00e7\u00f5es e a recomposi\u00e7\u00e3o da ordem mundial.<\/i> Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">SILVA, M. A. D.; CASTRO, I. C. S. <i>Al\u00e9m dos Limites: A Tr\u00edplice Fronteira nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais Contempor\u00e2neas<\/i>. S\u00e3o Paulo: Alameda, 2021.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">SILVA, M. A. Entre antrop\u00f3logos e internacionalistas: as perspectivas acad\u00eamicas p\u00f3s-11 de setembro. In: SILVA, M. A. D.; CASTRO, I. C. S. <i>Al\u00e9m dos Limites: A Tr\u00edplice Fronteira nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais Contempor\u00e2neas<\/i>. S\u00e3o Paulo: Alameda, 2021.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">VILLA, R. D. O Paradoxo da Macrossecuritiza\u00e7\u00e3o: Quando a Guerra ao Terror n\u00e3o Securitiza Outras &#8220;Guerras&#8221; na Am\u00e9rica do Sul. <i>Contexto Internacional, <\/i>Rio de Janeiro, 36, n. 2, jul.\/dez. 2014. 349-383<span style=\"font-family: &quot;Times New Roman&quot;, serif; text-align: justify;\">.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: &quot;Times New Roman&quot;, serif; text-align: justify;\"><br \/>\n<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-style: italic;\"><br \/>\n<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p><span style=\"font-style: italic;\"><\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Micael Alvino da Silva<\/b> \u00e9 Historiador, Doutor em Hist\u00f3ria pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), e professor de Hist\u00f3ria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana (Unila). Foi pesquisador no National Archives (Washington, Estados Unidos), no Arquivo Hist\u00f3rico do Itamaraty (Rio de Janeiro) e no Arquivo P\u00fablico do Paran\u00e1 (Curitiba). Publicou dezenas de artigos acad\u00eamicos e cinco livros, dentre eles A Segunda Guerra Mundial e a Tr\u00edplice Fronteira (Edunila, 2021).<\/div>\n<div style=\"clear: both; text-align: right;\">\n<p style=\"font-family: &quot;Times New Roman&quot;, serif; line-height: normal; margin: 0cm 0cm 12pt; text-align: justify;\"><o:p><\/o:p><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"clear: both; text-align: right;\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 9 | N\u00famero 88 | Jan. 2022 Por Micael Alvino da Silva<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1987,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[647,660],"tags":[],"class_list":["post-1584","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-resenhas","category-volume9"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1584","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1584"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1584\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1988,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1584\/revisions\/1988"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1987"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1584"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1584"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1584"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}