{"id":1599,"date":"2021-03-15T09:00:00","date_gmt":"2021-03-15T12:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2022-05-05T00:30:44","modified_gmt":"2022-05-05T03:30:44","slug":"yin-e-yang-a-organicidade-entre-civis-e-militares-na-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1599","title":{"rendered":"Yin e Yang: a organicidade entre civis e militares na China"},"content":{"rendered":"<p>Volume 8 | N\u00famero 79 | Mar. 2021<\/p>\n<div><\/div>\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/work-1000618_640-1.jpg\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"426\" data-original-width=\"640\" height=\"266\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/work-1000618_640-1-300x200.jpg\" width=\"400\" \/><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div><\/p>\n<div><\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: right;\">Por Diogo Calazans Corr\u00eaa<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A ascens\u00e3o da Rep\u00fablica Popular da China enquanto superpot\u00eancia no s\u00e9culo XXI levou, naturalmente, \u00e0 um aumento significativo do n\u00famero de pesquisas e estudos sobre o gigante asi\u00e1tico. Investiga\u00e7\u00f5es cient\u00edficas sobre seu crescimento econ\u00f4mico, seu sistema pol\u00edtico e sua r\u00e1pida industrializa\u00e7\u00e3o se multiplicaram e continuam a se multiplicar a uma velocidade cada vez maior. Dentre os temas mais recorrentes no contexto ocidental atual, particularmente no americano (por se tratar de uma quest\u00e3o estrat\u00e9gica), est\u00e1 o conceito de \u201cfus\u00e3o militar-civil\u201d (\u519b\u6c11\u878d\u5408).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O termo surgiu oficialmente pela primeira vez em um relat\u00f3rio de Hu Jintao, ex-vice presidente da China, apresentado ao 17\u00ba Congresso do Partido Comunista Chin\u00eas em 2007. No referido relat\u00f3rio, o pol\u00edtico chin\u00eas situa a \u201cfus\u00e3o militar-civil\u201d como um princ\u00edpio diretivo importante para a consolida\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o do poder da China, de acordo com as caracter\u00edsticas pr\u00f3prias do pa\u00eds. O conceito substitui a concep\u00e7\u00e3o anterior de \u201cintegra\u00e7\u00e3o civil-militar\u201d (\u519b\u6c11\u7ed3\u5408), cuja diferen\u00e7a vai al\u00e9m da altera\u00e7\u00e3o linguistica-sem\u00e2ntica (FRITZ, 2019).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-align: start;\"><br \/><\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-align: start;\">Figura 1: Ocorr\u00eancia dos termos FMC e ICM nos Planos de 5 anos da China.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/CALAZAN-2B010321-1.png\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"472\" data-original-width=\"1004\" height=\"188\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/CALAZAN-2B010321-1-300x141.png\" width=\"400\" \/><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<p style=\"border: none; font-family: &quot;Helvetica Neue&quot;; font-size: 11pt; line-height: 22px; margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\"><\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">(Fonte: FRITZ, 2019)<\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O ajuste taxon\u00f4mico denota um relacionamento mais complexo entre os setores civil e militar, deixando de lado o enfoque majorit\u00e1rio no desenvolvimento tecnol\u00f3gico em materiais de defesa e estreitando a liga\u00e7\u00e3o entre as atividades de ambos de forma mais ampla. O n\u00edvel de coordena\u00e7\u00e3o \u00e9 mais profundo, indo al\u00e9m da mera combina\u00e7\u00e3o intersetorial de elementos e agentes, atrelando o desenvolvimento do segmento civil e do segmento militar de forma mais equilibrada, com respaldo institucional e incremento de dispositivos legais (FRITZ, 2019)<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Muitos estrategistas e pesquisadores ao redor do mundo esbo\u00e7aram certo grau de surpresa ao tomarem nota da nova pol\u00edtica\/estrat\u00e9gia chinesa em torno da \u201cfus\u00e3o militar-civil\u201d. Entretanto, este n\u00e3o \u00e9 exatamente um entendimento \u201cnovo\u201d no contexto chin\u00eas. A pr\u00f3pria ideia\/terminologia que a antecedeu (\u201cintegra\u00e7\u00e3o civil-militar\u201d) \u00e9 antiga, tendo seus contornos institucionais iniciais na gest\u00e3o de Deng Xiaoping, em meados de 1978 (KANIA, 2019).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O alto n\u00edvel de estreiteza entre o Partido Comunista Chin\u00eas e o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Popular surge desde \u00e0 alian\u00e7a entre ambos para derrotar os japoneses e expulsarem os representantes do Partido Nacionalista Chin\u00eas (que governava a China desde 1928), resultando na ascens\u00e3o dos revolucion\u00e1rios comunistas ao poder em 1949. Esta colabora\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica se origina no escopo de atua\u00e7\u00e3o das guerrilhas chinesas, que levaram \u00e0 fus\u00e3o das elites pol\u00edtica e militar (VIEIRA, 2018).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, o caso Chin\u00eas n\u00e3o se enquadra completamente nas formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, fundamentalmente ocidentais, que versam sobre as intera\u00e7\u00f5es civil-militar. O consenso de que existiriam caracter\u00edsticas pr\u00f3prias das elites pol\u00edtica e militar, que supostamente afastariam-nas em termos de papel e atribui\u00e7\u00f5es e gerariam tens\u00f5es entre os segmentos n\u00e3o \u00e9 verificada no caso chin\u00eas. A dicotomia autonomia-subordina\u00e7\u00e3o existe, mas n\u00e3o \u00e9 necessariamente conflituosa, muito pelo contr\u00e1rio. O que h\u00e1 de fato \u00e9 uma complexifica\u00e7\u00e3o dos limites de atua\u00e7\u00e3o entre os setores, mas que \u00e9 coordenado por um alinhamento tanto ideol\u00f3gico quanto pol\u00edtico-estrat\u00e9gico, que suprime poss\u00edveis colis\u00f5es de interesses (VIEIRA, 2018).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div>\n<p style=\"border: none; font-family: &quot;Helvetica Neue&quot;; line-height: 22px; margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\"><span lang=\"ES-TRAD\" style=\"font-family: &quot;Times New Roman&quot;, serif; line-height: 24px;\">Figura 2: Estrutura de governan\u00e7a da China.<span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/span><\/p>\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/c72f073f0f5ffca54b85bbbf85b6dc9df2847209-1.jpg\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"460\" data-original-width=\"624\" height=\"295\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/c72f073f0f5ffca54b85bbbf85b6dc9df2847209-1.jpg\" width=\"400\" \/><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<p style=\"border: none; font-family: &quot;Helvetica Neue&quot;; font-size: 11pt; line-height: 22px; margin: 0cm 0cm 0.0001pt;\"><\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>(Fonte: NIE\/BBC Online, 2012)<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A fronteira difusa entre o partido e o Estado faz com que as lideran\u00e7as pol\u00edticas extrapartid\u00e1rias e o alto escal\u00e3o da c\u00fapula partid\u00e1ria sejam frequentemente confundidos. N\u00e3o por acaso, todos os ex-presidentes chineses ocuparam o cargo de presidente da Comiss\u00e3o Militar Central (com exce\u00e7\u00e3o de Hua Guofeng, pois o \u00f3rg\u00e3o mencionado ainda n\u00e3o existia). Entretanto, a intimidade e coes\u00e3o dos agentes pol\u00edticos se traduz pragmaticamente por meio da subordina\u00e7\u00e3o constitucional de todos eles ao Partido Comunista Chin\u00eas, garantindo que as for\u00e7as armadas estejam presentes na execu\u00e7\u00e3o e no planejamento da pol\u00edtica nacional, ao mesmo tempo inibindo qualquer tentativa de golpe ou tomada de poder (VIEIRA, 2018).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Tal configura\u00e7\u00e3o estrutural n\u00e3o exclui o paradoxo da problem\u00e1tica civil-militar, de que a delega\u00e7\u00e3o de poder \u00e0 institui\u00e7\u00e3o que tem como responsabilidade proteger a comunidade pol\u00edtica pode tornar esta mesma institui\u00e7\u00e3o uma amea\u00e7a aos seus cidad\u00e3os. Isso porque, por um lado, as for\u00e7as armadas devem ser fortes o bastante para prevalecer nas guerras contra eventuais inimigos. Por outro, a conduta dos militares deve ser observada de modo que n\u00e3o se torne predat\u00f3ria nem destruidora da pr\u00f3pria sociedade a qual deve\/deveria representar (FEAVER, 1999).&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em tese, sob a perspectiva huntingtoniana de profissionaliza\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas e subordina\u00e7\u00e3o ao poder pol\u00edtico, o modelo adotado pela China seria perigoso, pois penderia para o extremo do paradoxo onde as for\u00e7as armadas tenderiam \u00e0 tomada de poder (HUNTINGTON, 1996).  J\u00e1 sob o alento da concep\u00e7\u00e3o janowitziana, o sucesso de tal estrutura residiria justamente na simbiose de elementos civis e militares. A concess\u00e3o de autoridade pol\u00edtica \u00e0s lideran\u00e7as militares levariam \u00e0 uma maior estabilidade no relacionamento com o segmento civil e na sociedade como um todo (JANOWITZ, 1967).&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A abordagem model\u00edstica da ci\u00eancia pol\u00edtica parece um pouco confusa justamente pelo adendo discutido anteriormente, em que grande parte da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica na \u00e1rea interseccional de rela\u00e7\u00f5es civis-militares sob este prisma n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o estudos de caso de pa\u00edses asi\u00e1ticos. Tentar importar tais teorias para pa\u00edses com contextos e viv\u00eancias distintas pode levar a tr\u00eas possibilidades: i) ao delineamento te\u00f3rico do modelo explicar suficientemente bem a conjuntura na qual ele foi aplicado; ii) \u00e0 derrubada do poder geral de explica\u00e7\u00e3o de um determinado modelo; iii) \u00e0 particulariza\u00e7\u00e3o de enquadramento e explica\u00e7\u00e3o de tal modelo frente \u00e0 novos condicionantes. Como o subcampo das rela\u00e7\u00f5es civis-militares incorpora elementos de diferentes disciplinas, recorrer \u00e0 abordagens de outra natureza pode se apresentar enquanto um bom caminho para responder \u00e0 limita\u00e7\u00e3o dos modelos oferecidos pelo enfoque dos analistas pol\u00edticos.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica-quantitativa da distribui\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as das for\u00e7as armadas pelo governo chin\u00eas aponta para uma redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de representantes militares nas principais institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do pa\u00eds. Esta diferen\u00e7a \u00e9 particularmente vis\u00edvel quando se analisa a presen\u00e7a do corpo militar no Politburo (principal ente pol\u00edtico da estrutura governativa chinesa). Em contrapartida, h\u00e1 um aumento significativo do or\u00e7amento de defesa do gigante asi\u00e1tico, bem como da participa\u00e7\u00e3o de membros das for\u00e7as armadas chinesas em exerc\u00edcios externos e opera\u00e7\u00f5es de natureza internacional (COLLEY, 2019).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p>Tabela 1: O decl\u00ednio do Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Popular enquanto ator pol\u00edtico formal<\/p><\/div>\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/thediplomat-pbsc-chart-1.jpg\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"430\" data-original-width=\"767\" height=\"224\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/thediplomat-pbsc-chart-1.jpg\" width=\"400\" \/><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div><\/div>\n<div><span style=\"font-size: x-small;\">(Fonte: COLLEY, 2019)<\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Uma considera\u00e7\u00e3o importante diz respeito \u00e0 Marinha do Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Popular. Boa parte dos interesses estrat\u00e9gicos contempor\u00e2neos da China preconizam e demandam uma atua\u00e7\u00e3o predominante de sua Marinha, o que tem significado, na pr\u00e1tica, uma multiplica\u00e7\u00e3o de responsabilidades e atribui\u00e7\u00f5es desta for\u00e7a em espec\u00edfico. Apesar disso, a participa\u00e7\u00e3o de integrantes da dimens\u00e3o naval na Comiss\u00e3o Militar Central, principal \u00f3rg\u00e3o militar na estrutura de governan\u00e7a pol\u00edtica-militar da China, nunca passou de 10% do total de membros, atualmente possuindo apenas um representante da Marinha chinesa (COLLEY, 2019).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Estas tend\u00eancias apontam novamente para a profissionaliza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas da China, tendo em vista a redu\u00e7\u00e3o formal de representatividade pol\u00edtica no \u00e2mbito das institui\u00e7\u00f5es chinesas respons\u00e1veis pela tomada de decis\u00e3o e direcionamento pol\u00edtico. Concomitante \u00e0 isso, o incremento do or\u00e7amento de defesa e das tarefas eminentemente militares que venham a satisfazer os imperativos institu\u00eddos pela pol\u00edtica refor\u00e7am o aprofundamento de um foco dos militares em sua atividade-fim, ou seja, da prem\u00eancia no estudo e emprego dos meios de for\u00e7a para a defesa nacional e a prote\u00e7\u00e3o dos interesses de seu pa\u00eds.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As organiza\u00e7\u00f5es militares n\u00e3o s\u00e3o organismos isolados, sem interfer\u00eancia qualquer de aspectos gerais externos \u00e0 elas. Isso \u00e9 menos verdade ainda no contexto chin\u00eas, onde a dist\u00e2ncia entre o mundo civil e o mundo militar n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o n\u00edtidas. As transforma\u00e7\u00f5es societais, nos mais variados espectros (tecnol\u00f3gico, cultural, pol\u00edtico, identit\u00e1rio), refletem na arquitetura normativa fundacional das for\u00e7as armadas. Esta influ\u00eancia leva a ado\u00e7\u00e3o de novos modelos de organiza\u00e7\u00e3o e funcionamento, que podem afetar de maneiras e intensidades diferentes as rela\u00e7\u00f5es entre civis e militares.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Diante disso, Charles Moskos (1977) elaborou uma concep\u00e7\u00e3o transicional entre dois \u201ctipos ideais\u201d de organiza\u00e7\u00e3o militar, onde um modelo substituiria o outro conforme a cad\u00eancia e passo das transforma\u00e7\u00f5es que ocorrem na comunidade pol\u00edtica a qual pertencem. O modelo tradicional, denominado \u201cinstitucional\u201d, \u00e9 caracterizado pelos valores normativos (honra, servi\u00e7o, disciplina), compensa\u00e7\u00f5es por meio de benef\u00edcios n\u00e3o financeiros, prest\u00edgio baseado no reconhecimento coletivo, estrutura verticalizada e performance avaliada qualitativamente. O modelo emergente, denominado \u201cocupacional\u201d, \u00e9 marcado pelos valores da economia de mercado, compensa\u00e7\u00f5es baseadas em b\u00f4nus salariais, prest\u00edgio pautado na remunera\u00e7\u00e3o, estrutura horizontalizada e desempenho avaliado quantitativamente (MOSKOS, 1977).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Todo modelo possui vantagens e desvantagens. O tipo \u201cocupacional\u201d possui como benef\u00edcio a agilidade gerencial, uma vez que \u00e9 horizontalizado, a avalia\u00e7\u00e3o quantitativa permite uma an\u00e1lise mais precisa da efici\u00eancia e da efic\u00e1cia dos processos e o recrutamento de oficiais mais especializados. Em contrapartida, enfrenta algumas dificuldades no sentido da profissionaliza\u00e7\u00e3o, visto que os est\u00edmulos s\u00e3o predominantemente monet\u00e1rios, assim como os benef\u00edcios e o reconhecimento\/prest\u00edgio. Como o comprometimento est\u00e1 mais ligado \u00e0 quest\u00f5es financeiras e n\u00e3o mais ao senso de pertencimento, de servi\u00e7o \u00e0 na\u00e7\u00e3o e valores irremedi\u00e1veis, a organiza\u00e7\u00e3o militar come\u00e7a a se aproximar da l\u00f3gica empresarial, com todas as suas idiossincrasias. Todos estes quesitos levam a uma dificuldade em conceder coes\u00e3o \u00e0 estrutura militar e interfere nas rela\u00e7\u00f5es entre civis e militares.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O caso chin\u00eas mais uma vez se mostra peculiar frente as tend\u00eancias exibidas pelos estudos sociol\u00f3gicos e pol\u00edticos das democracias liberais. Assim como no caso da subordina\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por parte do corpo militar, a estrutura das for\u00e7as armadas na China mostram-se flex\u00edveis o suficiente para abarcar caracter\u00edsticas do tipo ocupacional, sem perder a coes\u00e3o provida pelo tipo institucional. Depreendida do alinhamento das for\u00e7as armadas com o partido, a coer\u00eancia segue sob a \u00e9gide da conflu\u00eancia ideol\u00f3gica que permeia toda a estrutura pol\u00edtica chinesa e se traduz enquanto hierarquia de prioridades e de poder por meio de a\u00e7\u00f5es objetivadas pelos planejamentos integrados no escopo civil e militar (VIEIRA, 2018; FRITZ, 2019; KANIA, 2019).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Os frutos de uma pol\u00edtica de longo-prazo para o desenvolvimento da economia chinesa fornece a moderniza\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica do modelo ocupacional, mas sem se desviar das diretrizes estabelecidas pela estrat\u00e9gia nacional que, no final das contas, \u00e9 determinada pelo Partido Comunista Chin\u00eas. A China mostra mais uma vez uma capacidade incomum de se conciliar a gest\u00e3o pol\u00edtica centralizada com a complexidade econ\u00f4mica que se destaca pelos ciclos iterativos constantes, descentralizados e horizontais, alimentando e retroalimentando a inova\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis de hierarquia da sociedade chinesa, resultando em ganhos produtivos exponenciais, mantendo os determinantes que constam no projeto de na\u00e7\u00e3o que vislumbram (VIEIRA, 2018; FRITZ, 2019; KANIA, 2019).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Recentemente, mais uma vez incorporando aspectos alternativos de uma concep\u00e7\u00e3o e outra (confirmando uma tend\u00eancia aparentemente contradit\u00f3ria), o Comit\u00ea Permanente do Politburo aprovou uma revis\u00e3o da Lei de Defesa Nacional, no 13\u00ba Congresso Nacional do Povo ocorrido no final de 2020, com a nova legisla\u00e7\u00e3o entrando em vigor no in\u00edcio de 2021. Foram examinados cinquenta e quatro artigos da lei original, excluindo-se tr\u00eas deles integralmente e adicionando-se mais seis outros, com o documento final totalizando setenta e quatro artigos, que s\u00e3o organizados em doze cap\u00edtulos (SARKAR, 2021).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Entre as mudan\u00e7as mais significativas est\u00e1 o fortalecimento institucional da Comiss\u00e3o Militar Central, concedendo-a maior autonomia e preval\u00eancia sobre a tomada-de-decis\u00f5es relativa \u00e0 defesa nacional, o que inclui n\u00e3o s\u00f3 o emprego das for\u00e7as, mas tamb\u00e9m a mobiliza\u00e7\u00e3o de ativos civis e militares \u00e0 servi\u00e7o da prote\u00e7\u00e3o do Estado chin\u00eas. Em tese, como a Comiss\u00e3o Militar Central \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o eminentemente militar, o controle civil sobre as for\u00e7as armadas possivelmente seria enfraquecido diante das mudan\u00e7as na referida lei, ainda que Xi Jinping seja o comandante da Comiss\u00e3o (SARKAR, 2021).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, a nova Lei de Defesa Nacional estimula a coordena\u00e7\u00e3o nacional ao incentivar a articula\u00e7\u00e3o intersetorial p\u00fablico-privada, incrementando a capacidade de avan\u00e7o em pesquisa e desenvolvimento industrial de interesse da defesa, como principalmente as \u00e1reas de cibern\u00e9tica, tecnologia aeroespacial e armamento convencional. O est\u00edmulo de integra\u00e7\u00e3o multidimensional entre os segmentos civil e militar tamb\u00e9m se estende para a \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o e da gest\u00e3o sist\u00eamica, de modo a suportarem os esfor\u00e7os no sentido de robustecimento e operacionaliza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da defesa nacional (SARKAR, 2021).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Por mais paradoxal que seja, a estrutura pol\u00edtica chinesa parece ser capaz de compatibilizar  os preceitos da \u201cfus\u00e3o militar-civil\u201d desenvolvida pela alta c\u00fapula do Partido Comunista Chin\u00eas com elementos de profissionaliza\u00e7\u00e3o estabelecidos pelo arcabou\u00e7o te\u00f3rico constru\u00eddo por Samuel Huntington e pelas contradi\u00e7\u00f5es dos tipos ideias de Charles Moskos. Ao mesmo tempo que o drag\u00e3o chin\u00eas fortalece institucionalmente os mecanismos de coopera\u00e7\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o entre as elites civil e militar, as for\u00e7as armadas parecem cada vez mais aceitarem o dom\u00ednio da pol\u00edtica e direcionarem seus esfor\u00e7os em torno de tarefas concernentes \u00e0 sua raz\u00e3o existencial, ao mesmo tempo que incorpora moderniza\u00e7\u00f5es organizacionais sem perder o alinhamento pol\u00edtico-direcional com o partido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Assim como acontece com seu modelo econ\u00f4mico, o modelo de relacionamento civil-militar  da China n\u00e3o encontra par\u00e2metros an\u00e1logos. Para o desespero dos deterministas, ou daqueles que procuram por respostas com contornos minimamente bem delineados, assim como o Yin e o Yang na cultura chinesa, a intera\u00e7\u00e3o entre civis e militares na civiliza\u00e7\u00e3o milenar \u00e9 complexa demais para ser reduzida \u00e0 um conjunto de teoremas at\u00e9 o presente momento. Ela \u00e9 org\u00e2nica, fluida e parece mudar e se adequar conforme as necessidades de cada tempo e de cada era.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Bibliografia<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">COLLEY, C. K. How Politically Influential Is China\u2019s Military? <i>The Diplomat<\/i>, 27 de abril de 2019, dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/thediplomat.com\/2019\/04\/how-politically-influential-is-chinas-military\/\">https:\/\/thediplomat.com\/2019\/04\/how-politically-influential-is-chinas-military\/<\/a>, acessado em 1 de novembro de 2019.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">FEAVER, P. D. Civil-Military Relations. Annual Review of Political Science. 2: 211\u2013241, 1999.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">FRITZ, A. China\u2019s Evolving Conception of Civil-Military Collaboration. <i>Center for Strategic &amp; International Studies,<\/i> 2 de agosto de 2019, dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.csis-cips.org\/news\/2019\/8\/2\/chinas-evolving-conception\">http:\/\/www.csis-cips.org\/news\/2019\/8\/2\/chinas-evolving-conception<\/a>, acessado em 28 de outubro de 2019.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">HUNTINGTON, S. P. <i>O Soldado e o Estado: <\/i>Teoria e Pol\u00edtica das Rela\u00e7\u00f5es entre Civis e Militares. Rio de Janeiro: Biblioteca do Ex\u00e9rcito, 1996.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">JANOWITZ, M. <i>O soldado profissional: e<\/i>studo social e pol\u00edtico. GRD, 1967<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">KANIA, E. In Military-Civil Fusion, China is Learning Lessons from the United States and Starting to Innovate. <i>The Strategy Bridge, <\/i>27 de agosto de 2019, dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/thestrategybridge.org\/the-bridge\/2019\/8\/27\/in-military-civil-fusion-china-is-learning-lessons-from-the-united-states-and-starting-to-innovate\">https:\/\/thestrategybridge.org\/the-bridge\/2019\/8\/27\/in-military-civil-fusion-china-is-learning-lessons-from-the-united-states-and-starting-to-innovate<\/a>, acessado em 28 de outubro de 2019.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">MOSKOS, C. From Institution to Occupation: Trends in Military Organization. <i>Armed Forces &amp; Society.<\/i> 4(1): 41\u201350, 1977.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">NIE, W. Saiba como a China \u00e9 governada. <i>BBC News<\/i>, 9 de novembro de 2012, dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2012\/11\/121108_china_governanca_mm.shtml\">https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2012\/11\/121108_china_governanca_mm.shtml<\/a>, acessado em 1 de novembro de 2019.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">SARKAR, S. New law allows Xi to bypass Chinese cabinet in matters of national security. <i>Hindustan Times<\/i>, 5 de janeiro de 2021, dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.hindustantimes.com\/world-news\/new-law-allows-xi-to-bypass-chinese-cabinet-in-matters-of-national-security\/story-IwwMPEFq3lzfRnRtlBLRjM.html\">https:\/\/www.hindustantimes.com\/world-news\/new-law-allows-xi-to-bypass-chinese-cabinet-in-matters-of-national-security\/story-IwwMPEFq3lzfRnRtlBLRjM.html<\/a>, acessado em 11 de mar\u00e7o de 2021.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">VIEIRA, V. C. C. Drag\u00e3o de papel ou de grafite? A moderniza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de defesa na China entre a depend\u00eancia e a autonomia. <i>Meridiano 47<\/i>, vol. 19, 2018.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><i><b>Diogo Calazans Corr\u00eaa<\/b> \u00e9 bacharel em Defesa e Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestrando em Ci\u00eancias Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Ex\u00e9rcito (ECEME). Trabalhou no Comit\u00ea Interamericano contra o Terrorismo (CICTE) na Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) em Washington, D.C. e atualmente trabalha como Trainee em Gest\u00e3o P\u00fablica pela Vetor Brasil.<\/i><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<blockquote><p><b>Como citar: <\/b><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote style=\"text-align: justify;\"><p>CORR\u00caA, Diogo Calazans. Yin e Yang: a organicidade entre civis e militares na China. <i>Di\u00e1logos Internacionais,<\/i> vol.8, n.79, mar. 2021. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.dialogosinternacionais.com.br\/2021\/03\/087921-1.html<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 8 | N\u00famero 79 | Mar. 2021 Por Diogo Calazans Corr\u00eaa A<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1882,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[646,659],"tags":[],"class_list":["post-1599","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-volume8"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1599"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1599\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2001,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1599\/revisions\/2001"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1882"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}