{"id":1608,"date":"2020-08-17T16:57:00","date_gmt":"2020-08-17T19:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1608"},"modified":"2022-05-05T00:30:44","modified_gmt":"2022-05-05T03:30:44","slug":"as-contribuicoes-marxistas-ao-debate-teorico-das-relacoes-internacionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1608","title":{"rendered":"As contribui\u00e7\u00f5es marxistas ao debate te\u00f3rico das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Volume 7 | N\u00famero 74 | Ago. 2020<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-oRJ03lAYfVQ\/WDSDccwr4yI\/AAAAAAAAAzY\/XfzCUs-wOSAvcn1hwtEVH9fWKNAjblUKgCPcBGAYYCw\/s1280\/board-game-529586_1280.jpg\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"928\" data-original-width=\"1280\" height=\"297\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-oRJ03lAYfVQ\/WDSDccwr4yI\/AAAAAAAAAzY\/XfzCUs-wOSAvcn1hwtEVH9fWKNAjblUKgCPcBGAYYCw\/w410-h297\/board-game-529586_1280.jpg\" width=\"410\"><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">Por Henrique Paiva<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O mito fundador das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais como ci\u00eancia \u00e9 a aporia diante da quest\u00e3o de como evitar uma nova barb\u00e1rie da dimens\u00e3o da I Guerra Mundial. O esfor\u00e7o acad\u00eamico para se responder a esse dilema, particularmente nas universidades brit\u00e2nicas e americanas, resultou em teorias mais interessadas em oferecer solu\u00e7\u00f5es convenientes para o projeto de poder das grandes pot\u00eancias no p\u00f3s-guerra do que refletir sobre as fontes reais da instabilidade sist\u00eamica, como, por exemplo, as desigualdades estruturais decorrentes do imperialismo.<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn1\">[1]<\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Duas correntes principais surgem desse contexto: o realismo e o institucionalismo. \u00c9 ineg\u00e1vel que ambas apresentam uma relevante constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica das din\u00e2micas do campo internacional, mas n\u00e3o se furtam a proporem estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o. O realismo concentra-se em estrat\u00e9gias de equil\u00edbrio de poder em um sistema internacional an\u00e1rquico. O institucionalismo enfatiza a necessidade de elabora\u00e7\u00e3o de normas e de cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es que mitigassem os efeitos da anarquia internacional<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn2\">[2]<\/a>. Esses receitu\u00e1rios davam conta das necessidades narrativas e estrat\u00e9gicas do jogo de poder das grandes pot\u00eancias; afinal, toda teoria \u00e9 interessada, toda mesmo. Como aponta Robert Cox: \u201cTeoria \u00e9 sempre para algu\u00e9m e para algum prop\u00f3sito\u201d<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn3\">[3]<\/a>.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Dependendo do contexto geopol\u00edtico e do governo da situa\u00e7\u00e3o, as portas girat\u00f3rias que unem a alta c\u00fapula estatal e a torre de marfim da academia fizeram com que acad\u00eamicos se tornassem consultores pol\u00edticos e que estadistas fossem al\u00e7ados \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de analistas acad\u00eamicos. Com isso, as teorias obtiveram um vi\u00e9s de confirma\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica expressivo. Por serem teorias portadoras de receitu\u00e1rios de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o realismo e o institucionalismo foram elevados \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201cprofecias autorrealiz\u00e1veis\u201d<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn4\">[4]<\/a>.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esse condom\u00ednio realista-institucionalista dominou amplamente o espectro te\u00f3rico das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais at\u00e9 o final da Guerra Fria. O que a narrativa anglo-sax\u00e3 dominante sobre o campo cient\u00edfico das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais n\u00e3o coloca \u00e9 que o debate a respeito das rela\u00e7\u00f5es internacionais tem sua cosmog\u00eanese nos debates da Segunda Internacional Socialista, com as reflex\u00f5es de Vladimir L\u00eanin e Karl Kautsky. As contribui\u00e7\u00f5es marxistas s\u00e3o fundamentalmente internacionalistas, mas amplamente relegadas nos estudos das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn5\">[5]<\/a>. A rela\u00e7\u00e3o entre saber e poder definitivamente n\u00e3o \u00e9 irrelevante, j\u00e1 alertava Michel Foucault<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn6\">[6]<\/a>.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a name=\"more\"><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O fim da Guerra Fria trouxe, tardiamente, para o campo das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais reflex\u00f5es h\u00e1 muito presentes na Filosofia e nas Ci\u00eancias Sociais: as contribui\u00e7\u00f5es da Escola de Frankfurt, a virada lingu\u00edstica, o p\u00f3s-modernismo, o p\u00f3s-estruturalismo, o construtivismo, os estudos de g\u00eanero, a sociologia hist\u00f3rica e a teoria cr\u00edtica. Somente a partir do final do s\u00e9culo XX, as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais passaram a discutir sua metateoria, a ponderar sobre sua ontologia, sua metodologia e principalmente sua epistemologia.<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn7\">[7]<\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 verdade que a sociologia hist\u00f3rica<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn8\">[8]<\/a> resgatou o materialismo, com autores como Charles Tilly, John Hall, Michael Mann e Theda Skocpol, e que a teoria cr\u00edtica<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn9\">[9]<\/a> reuniu as ideias neogramscinianas, a partir das contribui\u00e7\u00f5es de Robert Cox, Stephen Gill, Mark Rupert e Andreas Bieler; contudo, as teorias marxistas stricto sensu continuaram sendo silenciadas nos debates te\u00f3ricos das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Desde a aus\u00eancia de registro nos manuais de RI a cerca dos debates da Segunda Internacional at\u00e9 a virada p\u00f3s-positivista das RI, o marxismo n\u00e3o recebeu a sistematiza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o do excelente trabalho de Fred Halliday<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn10\">[10]<\/a>.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Karl Marx, em \u201cO Capital\u201d e em os \u201cGrundisse\u201d<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn11\">[11]<\/a>, elabora uma profunda an\u00e1lise do funcionamento do sistema e da sociedade capitalista. Marx antecipa a forma\u00e7\u00e3o do mercado mundial e o perfil cosmopolita de consumo das burguesias nos diferentes Estados. Marx, como analista de conjuntura, tamb\u00e9m produziu diversos artigos sobre os imp\u00e9rios ultramarinos, a coloniza\u00e7\u00e3o, a imposi\u00e7\u00e3o de d\u00edvida e o protecionismo. Apesar de todas essas contribui\u00e7\u00f5es, Marx n\u00e3o sistematizou formalmente uma obra sobre as rela\u00e7\u00f5es internacionais e o imperialismo<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn12\">[12]<\/a>. Coube aos pensadores marxistas subsequentes a tarefa de coligir os seus insights sobre a arena interestatal capitalista e, assim, formular teses marxistas sobre as rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o marxista produz, desde o final do s\u00e9culo XIX, uma vasta e consistente obra sobre a din\u00e2mica internacional; no entanto, ainda era preciso encontrar os excertos em que realmente se sistematizou uma teoria de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Era imperioso para o debate te\u00f3rico das RI essa tarefa de pesquisa t\u00e3o herc\u00falea quanto necess\u00e1ria. Nesse sentido, importante passo na dire\u00e7\u00e3o do horizonte de an\u00e1lise internacional marxista foi dado com o trabalho realizado brilhantemente por Luiz Felipe Os\u00f3rio, no livro \u201cImperialismo, Estado e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais\u201d<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn13\">[13]<\/a>.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O primeiro grande debate, que se estende de 1870 a 1945<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn14\">[14]<\/a>, re\u00fane os int\u00e9rpretes pioneiros de Marx: Rudolf Hilferding, Rosa Luxemburgo, Karl Kautsky, Nikolai Bukharin e Vladimir L\u00eanin. \u00c9 importante ressaltar que, se \u00e9 poss\u00edvel criticar o bin\u00f4mio te\u00f3rico realismo-institucionalismo como estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o se pode deixar de reconhecer, conforme Os\u00f3rio o fez, que esses autores precursores carregavam \u201cem uma m\u00e3o a caneta dos estudos e na outra o rifle da batalha\u201d. Todavia, o sucesso te\u00f3rico e pr\u00e1tico conquistado pelo bin\u00f4mio anglo-sax\u00e3o s\u00f3 teve equival\u00eancia para as teses formuladas por L\u00eanin, ainda assim, por um per\u00edodo curto de tempo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O segundo debate ocorre durante a Guerra Fria, de 1945 a 1991<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn15\">[15]<\/a>, e apresenta um grupo amplo de escolas que podem ser chamadas de neomarxistas: a corrente do capital monopolista (Paul Baran e Paul Sweezy), os te\u00f3ricos da depend\u00eancia (Andre Gunder Frank, Ruy Mauro Marini, Theot\u00f4nio dos Santos e V\u00e2nia Bambirra), e os pensadores do sistema-mundo e das trocas desiguais (Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi e Samir Amin). As contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas refletem as quest\u00f5es desse per\u00edodo que caracterizou-se pela ascens\u00e3o hegem\u00f4nica dos Estados Unidos; pela polariza\u00e7\u00e3o com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica; por outras experi\u00eancias de comunismo real; pela concilia\u00e7\u00e3o em torno do Estado de bem-estar social no centro capitalista; e pela industrializa\u00e7\u00e3o tardia e seletiva na periferia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Por fim, o terceiro debate, que se inicia em meio as decis\u00f5es unilaterais estadunidenses a partir da d\u00e9cada de 1970; passando pela intensifica\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o financeira nos anos 1990 e pelo colapso do regime sovi\u00e9tico; at\u00e9 o momento atual de decomposi\u00e7\u00e3o do acordo social-democrata de bem-estar social<a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftn16\">[16]<\/a>. Esse debate contempor\u00e2neo foi dividido em tr\u00eas campos: o politicismo, o parcial politicismo e a plena cr\u00edtica. Na vertente politicista, apresenta-se os autores Michael Hardt, Antonio Negri, Leo Panitch, Sam Gindin e Ellen Wood; na parcial politicista, David Harvey e Alex Callinicos; na plena cr\u00edtica, Evgeni Pachukanis, Christel Neus\u00fcss, Klaus Busch, Claudia von Braunm\u00fchl, Joachim Hirsch, Alysson Mascaro e China Mi\u00e9ville.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O pensamento marxista revela a natureza expansiva do capitalismo e suas contradi\u00e7\u00f5es, como as disputas entre as burguesias nacionais e suas concorrentes estrangeiras, a tend\u00eancia \u00e0 oligopoliza\u00e7\u00e3o dos mercados, a submiss\u00e3o da periferia pela exporta\u00e7\u00e3o dos capitais, a sujei\u00e7\u00e3o da atividade produtiva \u00e0 l\u00f3gica financeira e, assim, a concentra\u00e7\u00e3o de riqueza, o aumento da desigualdade de renda, a eclos\u00e3o de dist\u00farbios sociais, a intensifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia internamente e o recurso \u00e0 guerra como resultante da crise e como portadora do resultado almejado pelas pot\u00eancias capitalistas que se sagrarem vitoriosas. A crise \u00e9 parte estrutural e definidora do capitalismo, assim como a guerra \u00e9 o motor de reprodu\u00e7\u00e3o da crise.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O marxismo relembra que o sistema capitalista funciona em um ambiente comum a todos os operadores: o mercado mundial; e que os operadores desse sistema s\u00e3o os Estados com suas economias nacionais. O mercado mundial seria, portanto, uma forma universal e o Estado, a forma pol\u00edtica, onde se desenvolvem as rela\u00e7\u00f5es complexas e contradit\u00f3rias entre os atores sociais nas condi\u00e7\u00f5es materiais existentes. A convers\u00e3o do Estado moderno em Estado nacional se processa em torno da l\u00f3gica capitalista. E, embora, o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista se realize dentro dos Estados, \u00e9 somente no \u00e2mbito internacional que se tem a dimens\u00e3o da hierarquiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os pol\u00edticos e econ\u00f4micos em torno dos centros din\u00e2micos do capitalismo.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As diferentes contribui\u00e7\u00f5es marxistas resgatam a no\u00e7\u00e3o perdida de que o Estado capitalista n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que surge de modo espont\u00e2neo e isolado. O Estado capitalista surgiu coletivamente como um sistema de Estados, em um contexto geogr\u00e1fico muito espec\u00edfico de disputas territoriais, de circula\u00e7\u00e3o comercial, de imposi\u00e7\u00e3o de tributos e de incipiente produ\u00e7\u00e3o industrial em uma Europa dividida, mas que foi capaz de produzir um sistema de acomoda\u00e7\u00e3o (ao menos temporariamente e sempre com altos e baixos) das disputas intraeuropeias pela expans\u00e3o dos interesses do capital nos projetos ultramarinos. O sistema interestatal \u00e9 constituinte do capitalismo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As reflex\u00f5es marxistas destacam que a domina\u00e7\u00e3o capitalista se processa por meio das rela\u00e7\u00f5es entre Estados. A hierarquiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de sociabilidade capitalista obedece ao nexo do imperialismo. O imperialismo \u00e9 o v\u00ednculo que confere liga \u00e0s rela\u00e7\u00f5es que de fato existem no campo internacional. Compreender o imperialismo \u00e9 conhecer as entranhas que d\u00e3o organicidade ao capitalismo. Por sua vez, compreender o capitalismo \u00e9 a chave anal\u00edtica que revela o jogo geopol\u00edtico por tr\u00e1s da acumula\u00e7\u00e3o de riqueza e de poder no sistema interestatal. Portanto, para conhecer todas essas estruturas profundas das rela\u00e7\u00f5es internacionais, \u00e9 imperioso conhecer as contribui\u00e7\u00f5es marxistas ao debate te\u00f3rico das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, seja qual for sua matriz de pensamento te\u00f3rico.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito, se toda teoria \u00e9 interessada, ent\u00e3o seria determinante se escolh\u00eassemos nossa matriz te\u00f3rica a partir de uma perspectiva \u00e9tica de emancipa\u00e7\u00e3o intelectual cr\u00edtica e de promo\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa, democr\u00e1tica, popular, respeitadora da diversidade, e comprometida com a solidariedade entre os povos.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><i><b>Henrique Paiva<\/b> \u00e9 Henrique Paiva \u00e9 professor do Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Defesa (IRID), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UF<\/i>RJ).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><i>Este artigo foi originalmente apresentado como resenha do livro Imperialismo, Estado e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, de Luiz Felipe Os\u00f3rio, e posteriormente adaptado e convertido em artigo para a revista Di\u00e1logos Internacionais.<\/i><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><i><br \/>\n<\/i><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><i><br \/>\n<\/i><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Refer\u00eancias:<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref1\">[1]<\/a> Sobre a g\u00eanese e a autoimagem das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, sugere-se a leitura de mais dois textos: HOFFMANN, Stanley. An American Social Science: International Relations. Dedalous, 1977, v. 106, n. 3; e SMITH, Steve. The self-images of a discipline: a genealogy of International Relations theory. In: BOOTH, Ken; SMITH, Steve. International Relations theory today. Cambridge: Polity Press, 1995.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref2\">[2]<\/a> Sobre o dom\u00ednio realista e institucionalista e sua s\u00edntese neorrealismo-institucionalismo neoliberal, sugere-se a leitura dos seguintes textos: BALDWIN, David. Neoliberalism, neorealism, and world politics. In: BALDWIN, David. Neorealism and neoliberalism: the contemporary debate. Nova York: Columbia University Press; e BUZAN, Barry. The timeless wisdom of realism? In: SMITH, Steve; BOOTH, Ken; ZALEWSKI, Marysia. International theory: positivism &amp; beyond. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref3\">[3]<\/a> COX, Robert. Social forces, states and world orders: beyond International Relations theory. In: KEOHANE, Robert. <i>The neorealism and its critics.<\/i> New York: Columbia, 1986.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref4\">[4]<\/a> Conceito desenvolvido por Merton em MERTON, Robert. <i>Social theory and social structure<\/i>. New York: Free Press, 1968.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref5\">[5]<\/a> Sobre a presen\u00e7a do Marxismo no debate te\u00f3rico das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, sugere-se a leitura de OLE, Woever. The rise and fall of interparadigm debate. In: SMITH, Steve; BOOTH, Ken; ZALEWSKI, Marysia. International theory: positivism and beyond. Cambridge: Cambridge University Press, 1996; e HALLIDAY, Fred. Um encontro necess\u00e1rio: o materialismo hist\u00f3rico e as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. In: HALLIDAY, Fred. Repensando as rela\u00e7\u00f5es internacionais. Porto Alegre: Ed UFRGS, 2007.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref6\">[6]<\/a> FOUCAULT, Michel. <i>Microf\u00edsica do poder.<\/i> Rio de Janeiro: Graal, 1989; e FOUCAULT, Michel. <i>A ordem do discurso<\/i>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2014.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref7\">[7]<\/a> Sobre o debate p\u00f3s-positivista, sugere-se a leitura de VASQUEZ, John. The post-positivist debate: reconstructing scientific inquiry and International Relations theory after enlightment\u2019s fall. In: BOOTH, Ken; SMITH, Steve. International Relations theory today. Cambridge: Polity Press, 2004; e SMITH, Steve. Positivism and beyond. In: SMITH, Steve; BOOTH, Ken; ZALEWSKI, Marysia. International theory: positivism &amp; beyond. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref8\">[8]<\/a> Sobre a Sociologia Hist\u00f3rica nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, recomenda-se HOBDEN, Stephen; HOBSON, John. Historical Sociology of International Relations. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref9\">[9]<\/a> Sobre a Teoria Cr\u00edtica nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, recomenda-se GILL, Stephen. <i>Gramsci, materialismo hist\u00f3rico e rela\u00e7\u00f5es internacionais. <\/i>Rio de Janeiro: Ed UFRJ, 2007.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref10\">[10]<\/a> HALLIDAY, Fred. <i>Repensando as rela\u00e7\u00f5es internacionais<\/i>. Porto Alegre: Ed UFRGS, 2007.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref11\">[11]<\/a> MARX, Karl. O capital. Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica. Livro I: o processo de produ\u00e7\u00e3o do capital. S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2013; MARX, Karl. O capital. Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica. Livro II: o processo de circula\u00e7\u00e3o do capital. S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2014; MARX, Karl. O capital. Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica. Livro III: o processo global da produ\u00e7\u00e3o capitalista. S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2017; e MARX, Karl. Grundisse. Manuscritos econ\u00f4micos de 1857-1858: esbo\u00e7os da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2011.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref12\">[12]<\/a> Para uma leitura com \u00eanfase na longa dura\u00e7\u00e3o do processo de consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo, sugere-se BRAUDEL, Fernand. A din\u00e2mica do capitalismo. Rio de Janeiro: Rocco, 1987; BEAUD, Michel. Hist\u00f3ria do capitalismo: de 1500 at\u00e9 nossos dias. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2004; e DOBB, Maurice. A evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref13\">[13]<\/a> OS\u00d3RIO, Luiz Felipe. I<i>mperialismo, Estado e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/i>. S\u00e3o Paulo: Ideias &amp; Letras, 2018.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref14\">[14]<\/a> Quem se interessar por resgatar ra\u00edzes mais profundas na antropologia econ\u00f4mica, recomenda-se GRAEBER, David. D\u00edvida: os primeiros 5.000 anos. S\u00e3o Paulo: Tr\u00eas Estrelas, 2016; e POLANYI, Karl. A grande transforma\u00e7\u00e3o: as origens da nossa \u00e9poca. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref15\">[15]<\/a> Para aprofundar as reflex\u00f5es contempor\u00e2neas sobre as consequ\u00eancias da difus\u00e3o do liberalismo que somente liberaliza o que interessa ao centro capitalista, sugere-se CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada: a estrat\u00e9gia do desenvolvimento em perspectiva hist\u00f3rica; e BENSA\u00cfD, Daniel. Os irredut\u00edveis: teoremas da resist\u00eancia para o tempo presente. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2008.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"applewebdata:\/\/5b680c13-bfb1-46a1-96df-4db440f2540d#_ftnref16\">[16]<\/a> Para se conhecer melhor a dimens\u00e3o do capitalismo financeiro na atualidade, recomenda-se a leitura de PIKETTY, Thomas. O capital no s\u00e9culo XXI. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2014; e de FERGUSON, Niall. A ascens\u00e3o do dinheiro: a hist\u00f3ria financeira do mundo. S\u00e3o Paulo: Planeta, 2017. Ambos os autores apresentam uma consistente base de dados, embora Ferguson fa\u00e7a uma leitura mais metalista da moeda e Piketty, mais cartalista.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 7 | N\u00famero 74 | Ago. 2020 Por Henrique Paiva O mito<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1951,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[646,658],"tags":[],"class_list":["post-1608","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-volume7"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1608"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1608\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2010,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1608\/revisions\/2010"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1951"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}