{"id":1666,"date":"2018-06-18T19:50:00","date_gmt":"2018-06-18T22:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1666"},"modified":"2022-05-05T00:30:49","modified_gmt":"2022-05-05T03:30:49","slug":"o-papel-da-guerra-na-conformacao-da-ordem-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1666","title":{"rendered":"O papel da guerra na conforma\u00e7\u00e3o da ordem mundial"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><b>Volume 5 | N\u00famero 49 | Jun. 2018<\/b><\/p>\n<p><\/p>\n<div style=\"text-align: right;\">Por Bernardo Salgado Rodrigues*<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-Bl-I0UjO6K8\/VZFdj-B29jI\/AAAAAAAAAec\/chPaHtAy0p4rsu0iUahE-EIEwjxQz3W5QCPcBGAYYCw\/s1600\/1885-imperialismo.jpg\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"452\" data-original-width=\"329\" height=\"320\" src=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-Bl-I0UjO6K8\/VZFdj-B29jI\/AAAAAAAAAec\/chPaHtAy0p4rsu0iUahE-EIEwjxQz3W5QCPcBGAYYCw\/s320\/1885-imperialismo.jpg\" width=\"232\" \/><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Desde a constata\u00e7\u00e3o dos primeiros primatas, a viol\u00eancia acompanhou o homo sapiens em seu processo evolucion\u00e1rio. Neste trajeto, com a forma\u00e7\u00e3o de grupos n\u00f4mades surgiram tamb\u00e9m os primeiros conflitos internos, que se separavam dos conflitos externos com outros grupos, interpretado como a forma primitiva do fen\u00f4meno da guerra, que se transforma numa condi\u00e7\u00e3o da unidade e da identidade interna de cada um destes grupos ou tribos. A guerra, tal qual a conhecemos na atualidade, somente viria a surgir com a forma\u00e7\u00e3o das fronteiras territoriais e com a ascens\u00e3o dos primeiros imp\u00e9rios e civiliza\u00e7\u00f5es, aproximadamente no terceiro mil\u00eanio antes da Era Crist\u00e3, se generalizando e se transformando no principal instrumento organizado e sistem\u00e1tico de conquista e de domina\u00e7\u00e3o entre os povos e os imp\u00e9rios. Qualitativamente, a guerra come\u00e7a a sofrer uma mudan\u00e7a substancial a partir dos s\u00e9culos X e XI d.C., com o aumento da competi\u00e7\u00e3o interna e da centraliza\u00e7\u00e3o do poder, com o in\u00edcio da expans\u00e3o externa dos pequenos poderes territoriais europeus que dariam origem aos Estados nacionais da Era Moderna, com o Tratado de Vestf\u00e1lia de 1648, e com o papel do poder e da guerra na forma\u00e7\u00e3o, expans\u00e3o e globaliza\u00e7\u00e3o do sistema europeu de Estados e economias nacionais.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Essa originalidade dos europeus \u2212 tanto na cria\u00e7\u00e3o dos Estados nacionais como em fazer da pr\u00f3pria guerra um mecanismo regular de acumula\u00e7\u00e3o de riqueza e, simultaneamente, fazer da acumula\u00e7\u00e3o da riqueza um instrumento regular de conquista e acumula\u00e7\u00e3o de poder \u2212 transformou a guerra em componente sist\u00eamico do processo de expans\u00e3o do poder e do territ\u00f3rio dos Estados e do pr\u00f3prio sistema estatal como um todo dentro e fora da Europa. Num sistema global de poder que se configura pela assimetria, hierarquia e competi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um elo hist\u00f3rico entre a guerra e o estabelecimento de um mercado mundial e economia global, cuja ordem econ\u00f4mica e pol\u00edtica internacional se configura como vari\u00e1vel dependente e, como vari\u00e1vel independente, a guerra.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a name='more'><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Numa vis\u00e3o de longa dura\u00e7\u00e3o, verifica-se que a guerra \u00e9 um elemento presente na conforma\u00e7\u00e3o do sistema internacional. Constata-se que de 1480 a 1800, no auge do Mercantilismo, num sistema ainda em forma\u00e7\u00e3o, com aumento do com\u00e9rcio e forma\u00e7\u00e3o dos Imp\u00e9rios mar\u00edtimos e cujo dom\u00ednio do mar era o dom\u00ednio do mundo, a cada dois ou tr\u00eas anos iniciou-se em algum lugar um novo conflito internacional expressivo; de 1800 a 1944, no per\u00edodo da Pax Brit\u00e2nica, de hegemonia brit\u00e2nica pautada no livre com\u00e9rcio, na ind\u00fastria\/poder naval, no equil\u00edbrio europeu, com o triunfo da industrializa\u00e7\u00e3o via Revolu\u00e7\u00e3o Industrial no ber\u00e7o do capitalismo, a cada um ou dois anos; a partir da Segunda Guerra Mundial, na conforma\u00e7\u00e3o da Pax Americana, mais ou menos um a cada quatorze meses.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nos per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o da ordem mundial, de disputa entre pa\u00edses referente aos seus projetos mundiais, s\u00e3o comumente percebidos atos de viol\u00eancia, de turbul\u00eancia e disputa entre pot\u00eancias, no qual nenhuma consegue impor seu modelo \u00e0s demais. Nestas ocasi\u00f5es, tr\u00eas fatores aparecem como vari\u00e1veis constantes: ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias desafiantes; crises pol\u00edticas e\/ou econ\u00f4micas, c\u00edclicas, conjunturais e\/ou estruturais; e a guerra. Ou seja, diferentemente de teorias da &#8220;paz perp\u00e9tua&#8221;, &#8220;estabilidade hegem\u00f4nica&#8221;, &#8220;democracia e livre mercado visando \u00e0 paz internacional&#8221;, a guerra se intensifica quantitativa e qualitativamente, num movimento progressivo dos conflitos que configuram a ordem internacional de acordo com os interesses dos grandes centros de poder internacional no momento em que tal ordem \u00e9 estabelecida.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XX, o sistema interestatal se universalizou definitivamente, junto com suas guerras cada vez mais globalizadas. Com a Segunda Guerra Mundial (1939-45), h\u00e1 uma nova configura\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as principais pot\u00eancias, cuja ordem internacional estabelecida ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial (1914-1917) n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade de poder relativo entre os Estados. A vit\u00f3ria dos Aliados consolidou o sistema da Guerra Fria com dois grandes p\u00f3los de poder: EUA e URSS. No per\u00edodo que se seguiu, o sistema internacional passou por mudan\u00e7as significativas, com a cria\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es multilaterais (ONU, FMI e BIRD), reconstru\u00e7\u00e3o da Europa (Plano Marshall), surgimento de novos Estados, cria\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o ouro-d\u00f3lar (posteriormente d\u00f3lar flex\u00edvel) e o estabelecimento do sistema hemisf\u00e9rico de defesa (OTAN), sob a hegemonia dos EUA. Com a Guerra Fria, h\u00e1 um sistema de administra\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internacionais, permitindo dois sistemas antag\u00f4nicos conviverem em relativa \u201charmonia\u201d, com a aceita\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de influ\u00eancias dos EUA e URSS.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Paradoxalmente e ao contr\u00e1rio do que muitos autores preconizaram \u00e0 \u00e9poca, como o cl\u00e1ssico &#8220;fim da hist\u00f3ria&#8221; de Fukuyama, o fim da Guerra Fria trouxe a guerra de volta para o epicentro do sistema internacional. Foram 47 interven\u00e7\u00f5es militares americanas \u2013 algumas chamadas de \u201chumanit\u00e1rias \u2212 na d\u00e9cada de 90, come\u00e7ando com a Guerra do Golfo e a Guerra dos Balc\u00e3s, em 1991 e 1992, seguindo com a guerra quase cont\u00ednua do \u201cGrande Oriente M\u00e9dio\u201d, de 2001 at\u00e9 hoje. A possibilidade e potencialidade da guerra \u00e9 mais iminente num contexto de desequil\u00edbrio global, cuja cria\u00e7\u00e3o de amea\u00e7as, como a amea\u00e7a verde (majoritariamente Estados isl\u00e2micos radicais), a amea\u00e7a vermelha (Venezuela, Coreia do Norte), a amea\u00e7a \u00e9tnico-religiosa, a amea\u00e7a s\u00edria, a amea\u00e7a do Estado Isl\u00e2mico, servem de prerrogativas para a continua\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina da guerra. H\u00e1 ainda, a crescente tens\u00e3o b\u00e9lica atual, entre a OTAN e a R\u00fassia, na Europa Central e no Mar Negro, e entre os EUA, a China, e o Jap\u00e3o, no Sul do Pac\u00edfico, que consistem em embates de grandes pot\u00eancias econ\u00f4micas, militares e nucleares.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A guerra consiste num fen\u00f4meno central do sistema e da ordem internacional, seja atrav\u00e9s da sua rela\u00e7\u00e3o com o sistema tribut\u00e1rio, desenvolvimento tecnol\u00f3gico e acumula\u00e7\u00e3o de capital. Ela est\u00e1 no princ\u00edpio das hierarquias e rela\u00e7\u00f5es de poder, cujo principal objetivo sempre foi a \u201cvit\u00f3ria\u201d, e atrav\u00e9s da vit\u00f3ria, a imposi\u00e7\u00e3o dos argumentos e valores vitoriosos, e sobre a pr\u00f3pria maneira de construir a paz e a \u00e9tica internacional. Por esta raz\u00e3o, a paz lograda atrav\u00e9s da vit\u00f3ria acaba se transformando, muitas vezes, no principal motivo da guerra seguinte, dos derrotados de hoje contra os vitoriosos de ontem, na busca da \u201crepara\u00e7\u00e3o\u201d e do restabelecimento do \u201cequil\u00edbrio de for\u00e7as\u201d que existia antes do primeiro conflito.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><i><br \/><\/i><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><i>* Este texto foi produzido a partir das discuss\u00f5es realizadas no Col\u00f3quio &#8220;Sobre a Guerra&#8221;, realizado de Setembro de 2016 a Agosto de 2017, pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Economia Pol\u00edtica Internacional da UFRJ.<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 5 | N\u00famero 49 | Jun. 2018 Por Bernardo Salgado Rodrigues* Desde<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[656],"tags":[],"class_list":["post-1666","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume5"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1666"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1666\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2247,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1666\/revisions\/2247"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}