{"id":1677,"date":"2018-01-15T08:01:00","date_gmt":"2018-01-15T10:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1677"},"modified":"2022-05-05T00:30:49","modified_gmt":"2022-05-05T03:30:49","slug":"integracao-regional-em-tempos-de-crise-desafios-politicos-e-dilemas-teoricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1677","title":{"rendered":"Integra\u00e7\u00e3o regional em tempos de crise: desafios pol\u00edticos e dilemas te\u00f3ricos*"},"content":{"rendered":"<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Volume 5 | N\u00famero 44 | Jan. 2018<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b><br \/><\/b><\/p>\n<div style=\"text-align: right;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">Por Bernardo Salgado Rodrigues<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/thumb\/6\/63\/Latin_America_(orthographic_projection).svg\/1200px-Latin_America_(orthographic_projection).svg.png\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"800\" data-original-width=\"800\" height=\"200\" src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/thumb\/6\/63\/Latin_America_(orthographic_projection).svg\/1200px-Latin_America_(orthographic_projection).svg.png\" width=\"200\" \/><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em tempos de crise, repensar a integra\u00e7\u00e3o no atual contexto \u00e9 o objetivo dos pa\u00edses sul-americanos que buscam autonomia pol\u00edtico-econ\u00f4mica e proje\u00e7\u00e3o de poder no sistema internacional. Os ensinamentos progressistas da d\u00e9cada de 2000, como a ALBA, a UNASUL, a CELAC, servem de base para a reconstru\u00e7\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o regional contempor\u00e2nea \u2212 ainda que pass\u00edveis de cr\u00edticas \u2212 , que vem sendo lapidados a passos largos na atual conjuntura pol\u00edtica regional com o retorno das pol\u00edticas liberais. <\/p>\n<p>Esse novo ciclo conservador, de alinhamento aos pa\u00edses desenvolvidos em detrimentos dos fluxos regionais, intensifica as converg\u00eancias e diverg\u00eancias pol\u00edticas nos processos contempor\u00e2neos de integra\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. A d\u00e9cada de 2010 vem sendo marcada como um per\u00edodo de crises pol\u00edticas e ascens\u00e3o de governos liberais, colocando-se em questionamento os modelos de integra\u00e7\u00e3o dos anos 2000. Tal mudan\u00e7a pol\u00edtica reflete as disputas no interior dos Estados, no interior dos blocos comerciais e das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas supranacionais, e abrange um modelo de propostas integracionistas que privilegia tratados de livre com\u00e9rcio e\/ou bilaterais que, ao verificar a posi\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses sul-americanos na hierarquia internacional de poder, somente tende a refor\u00e7ar o \u00f4nus e preju\u00edzo econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social dos mesmos. <\/p>\n<p>H\u00e1 um dom\u00ednio total de interesses nos aparelhos do Estado, uma depend\u00eancia econ\u00f4mica (prim\u00e1rio-exportadores), pol\u00edtica (dominantes-dominados), ideol\u00f3gica (Consenso de Washington) e te\u00f3rica (coloniza\u00e7\u00e3o do pensamento), que influenciam negativamente projetos de integra\u00e7\u00e3o aut\u00f4nomos e soberanos. N\u00e3o \u00e9 uma crise, como rotineiramente \u00e9 proposto, e sim um programa, com a tentativa de consolida\u00e7\u00e3o de um modelo pol\u00edtico-econ\u00f4mico, que j\u00e1 se mostrou fracassado no passado e gera crise social exponencial no presente. <\/p>\n<p><a name='more'><\/a><\/p>\n<p>Desta forma, ao refletir sobre os desafios da Integra\u00e7\u00e3o Regional enquanto campo de estudos interdisciplinar em constru\u00e7\u00e3o, pode-se visualizar tr\u00eas projetos de integra\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, um embate hist\u00f3rico com influ\u00eancias e projetos distintos. <\/p>\n<p>O primeiro pode ser denominado de &#8220;Integra\u00e7\u00e3o hemisf\u00e9rica&#8221; ou &#8220;Integra\u00e7\u00e3o monroniana&#8221;. Influenciado pela Doutrina Monroe (1823), que &#8220;estabeleceu como principio a conhecida f\u00f3rmula de &#8216;Am\u00e9rica para os americanos&#8217;, o que realmente significa para os (norte) americanos, porque servia a seus interesses<a href=\"https:\/\/www.blogger.com\/blogger.g?blogID=2974965557809810859#_ftn1\">[1]<\/a>&#8221;  (BORON, 2013, p.64), os Estados Unidos assentavam suas reais pretens\u00f5es no hemisf\u00e9rio ocidental contra as pretens\u00f5es hegem\u00f4nicas das pot\u00eancias europ\u00e9ias, ratificando o in\u00edcio da sua proje\u00e7\u00e3o de poder em sua \u00e1rea de influ\u00eancia direta, a Am\u00e9rica Latina. Assim, coube a Am\u00e9rica Latina ser a destinat\u00e1ria da primeira doutrina de pol\u00edtica externa elaborada pelos estadunidenses, que significaria, antes de tudo, \u201cuma aut\u00eantica autoproclama\u00e7\u00e3o de \u2018direitos naturais\u2019 de uma \u2018jovem pot\u00eancia\u2019 que emergia do outro lado do Atl\u00e2ntico, para o livre exerc\u00edcio de sua pol\u00edtica de expans\u00e3o nesta parte do globo.\u201d (COSTA, 1992, p.66) Atualmente, influenciados por essa Doutrina, consiste em projetos de integra\u00e7\u00e3o hemisf\u00e9ricos (tais como a ALCA e TPP), assim como acordos bilaterais que s\u00e3o, em sua ess\u00eancia, semelhantes para todos os pa\u00edses latino-americanos e sem espa\u00e7o para discuss\u00e3o devido a assimetria de poder de persuas\u00e3o, beneficiando o capital estrangeiro e empresas transnacionais estadunidenses. Assim, o objetivo principal dos Estados Unidos vem consistindo na vigil\u00e2ncia latino-americana preventiva, de controle hemisf\u00e9rico unilateral, mantendo o dom\u00ednio geoestrat\u00e9gico a fim de deter pot\u00eancias competidoras regionais atrav\u00e9s de mecanismos pol\u00edticos, militares e econ\u00f4micos na promo\u00e7\u00e3o de uma pretensa paz, democracia e livres mercados. <\/p>\n<p>O segundo projeto seria uma &#8220;Integra\u00e7\u00e3o balcanizada&#8221;, com caracter\u00edsticas de fragmenta\u00e7\u00e3o, influenciada pela coloniza\u00e7\u00e3o e de la\u00e7os com as antigas metr\u00f3poles. Diferentemente da Am\u00e9rica Portuguesa, que ap\u00f3s a independ\u00eancia se tornou um \u00fanico pa\u00eds, a Am\u00e9rica Espanhola se fragmentou em distintos pa\u00edses devido, entre outros motivos, a falta de liga\u00e7\u00f5es diretas das regi\u00f5es entre si e o controle que as elites crioulas e locais assumiram nas lutas pela independ\u00eancia. Uma vez que as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas das col\u00f4nias eram  realizadas diretamente com as metr\u00f3poles (devido ao isolamento geogr\u00e1fico e pol\u00edtico entre as diversas regi\u00f5es do imp\u00e9rio espanhol), esses fluxos eram  mais intensos do que entre os centros administrativos (futuras capitais dos pa\u00edses independentes) entre si. A independ\u00eancia espanhola realizou o rompimento das rela\u00e7\u00f5es entre col\u00f4nias e metr\u00f3pole, mas conservou estruturas sociais herdadas do antigo sistema colonial. Al\u00e9m disso, a independ\u00eancia pol\u00edtica n\u00e3o se transformou em independ\u00eancia econ\u00f4mica, impondo a depend\u00eancia econ\u00f4mica latino-americana \u00e0s grandes pot\u00eancias capitalistas do s\u00e9culo XIX, principalmente Inglaterra e Estados Unidos, que intensificavam projetos de desuni\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses independentes com vistas a enfraquec\u00ea-los. Enfim a fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Am\u00e9rica espanhola, em detrimento de uma integra\u00e7\u00e3o dos rec\u00e9m-formados pa\u00edses independentes, pode ser explicada pelo pr\u00f3prio sistema colonial, cuja aus\u00eancia de um poder pol\u00edtico institucionalizado na fase posterior \u00e0 independ\u00eancia abriu espa\u00e7o \u00e0s m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es autonomistas do latif\u00fandio, surgindo lideres locais das diferentes fra\u00e7\u00f5es da classe dominante que preferiam a manuten\u00e7\u00e3o de seus privil\u00e9gios locais atrelados ao setor externo, que possuem influ\u00eancia na fragmenta\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses latino-americanos at\u00e9 a atualidade. <\/p>\n<p>O terceiro e \u00faltimo projeto tamb\u00e9m possui ra\u00edzes no s\u00e9culo XIX, sendo denominado de &#8220;Integra\u00e7\u00e3o bolivariana&#8221; ou &#8220;Integra\u00e7\u00e3o latino-americana soberana&#8221;. Os chamados libertadores, dentre eles Sim\u00f3n Bol\u00edvar com a \u201cP\u00e1tria Grande\u201d, e Jos\u00e9 Mart\u00ed com a \u201cUnidade latino-americana\u201d, apesar de n\u00e3o utilizarem o termo \u201cintegra\u00e7\u00e3o regional\u201d ou \u201cintegra\u00e7\u00e3o latino-americana\u201d, possu\u00edam em seus escritos nuances te\u00f3ricas integracionistas. Desde ent\u00e3o, o pensamento de ambos os autores rumou firmemente no sentido da compreens\u00e3o de que seria necess\u00e1rio romper os v\u00ednculos de domina\u00e7\u00e3o e de depend\u00eancia com os pa\u00edses de elevado desenvolvimento industrial capitalista. Desta forma, propuseram a forma\u00e7\u00e3o de uma nacionalidade geograficamente extensa (Grande Liga de Na\u00e7\u00f5es), que fosse capaz de engendrar a defesa e o progresso econ\u00f4mico das rec\u00e9m formadas na\u00e7\u00f5es numa vis\u00e3o geopol\u00edtica e soberana conjunta, de car\u00e1ter emancipador antiimperialista e integracionista, a fim de ratificar um maior poder de persuas\u00e3o diante das demais grandes pot\u00eancias. Ainda assim, essa identidade e unidade latino-americana n\u00e3o seriam o simples sentimento fraterno por uma comunidade de origem e de idioma, e sim algo muito mais profundo, &#8220;da necessidade hist\u00f3rica da unidade latino-americana como a \u00fanica maneira, para os povos do Sul, de subsistir e se desenvolver como identidade sociocultural independente frente ao imperialismo estadunidense.\u201d (RODR\u00cdGUEZ, 2006, p.125) <\/p>\n<p>A m\u00e1xima de que &#8220;a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o se encontra dividida por ser &#8216;subdesenvolvida&#8217;, mas, sim, \u00e9 &#8216;subdesenvolvida&#8217; por estar dividida&#8221; (RAMOS, 2012, p.33), \u00e9 um fato hist\u00f3rico que se encontra cada vez mais atual. A integra\u00e7\u00e3o latino-americana (ou bolivariana) \u00e9 um imperativo geopol\u00edtico vis-\u00e0-vis a crescente competi\u00e7\u00e3o interestatal e a concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o de capital, poder e riqueza no sistema internacional, cujo ciclo conservador da d\u00e9cada de 2010, de matiz hemisf\u00e9rica e\/ou fragmentadora, \u00e9 um retrocesso para a autonomia e soberania regional. <\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><br \/>BORON, Atilio. <i>Am\u00e9rica Latina en la geopol\u00edtica del imperialismo.<\/i> Buenos Aires: Ediciones Luxemburg, 2013. <\/p>\n<p>COSTA, Wanderley Messias da. <i>Geografia pol\u00edtica e geopol\u00edtica.<\/i> S\u00e3o Paulo: Hucitec; Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo, 1992. <\/p>\n<p>RAMOS, Jorge Abelardo. <i>Hist\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o latino-americana<\/i>. 2. ed. Florian\u00f3polis: Insular, 2012. <\/p>\n<p>RODR\u00cdGUEZ, Pedro Pablo. <i>Mart\u00ed e as duas Am\u00e9ricas.<\/i> S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2006. <\/p>\n<p>* O presente texto \u00e9 fruto dos debates realizados no XVI Congresso Internacional FOMERCO (F\u00f3rum Universit\u00e1rio Mercosul), realizado em Salvador, sede da UFBA, nos dias 27, 28 e 29 de Setembro de 2017.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogger.com\/blogger.g?blogID=2974965557809810859#_ftnref1\">[1]<\/a> &#8220;La Doctrina Monroe estableci\u00f3 como principio la conocida f\u00f3rmula de \u2018Am\u00e9rica para los americanos\u2019, que en realidad quiere decir para los (norte) americanos, porque ello conven\u00eda a sus intereses.\u201d<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 5 | N\u00famero 44 | Jan. 2018 Por Bernardo Salgado Rodrigues Em<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[656],"tags":[],"class_list":["post-1677","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume5"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1677","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1677"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1677\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2255,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1677\/revisions\/2255"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}