{"id":1706,"date":"2017-05-10T09:00:00","date_gmt":"2017-05-10T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1706"},"modified":"2022-05-05T00:30:50","modified_gmt":"2022-05-05T03:30:50","slug":"sobre-a-novidade-macron","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1706","title":{"rendered":"Sobre a &#8220;novidade&#8221; Macron"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Por Wagner Sousa<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<table align=\"center\" cellpadding=\"0\" cellspacing=\"0\" style=\"margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/thumb\/f\/f4\/Emmanuel_Macron_par_Claude_Truong-Ngoc_avril_2015.jpg\/800px-Emmanuel_Macron_par_Claude_Truong-Ngoc_avril_2015.jpg\" style=\"margin-left: auto; margin-right: auto;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"320\" src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/thumb\/f\/f4\/Emmanuel_Macron_par_Claude_Truong-Ngoc_avril_2015.jpg\/800px-Emmanuel_Macron_par_Claude_Truong-Ngoc_avril_2015.jpg\" width=\"213\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">Por Claude Truong-Ngoc \/ Wikimedia Common <\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A vit\u00f3ria do &#8220;centrista&#8221; Emmanuel Macron na elei\u00e7\u00e3o presidencial francesa fez, nas palavras da m\u00eddia hegem\u00f4nica, o mundo (especialmente a Europa) &#8220;respirar aliviado.&#8221; Venceu o europe\u00edsta, aquele que, nas palavras do colunista Clovis Rossi, da Folha de S. Paulo, trouxe &#8221; ar fresco no esclerosado ambiente pol\u00edtico&#8221;. O ex-banqueiro da Casa Rothschild e ex-ministro da Economia de Fran\u00e7ois Hollande, que se declara &#8220;nem de direita, nem de esquerda&#8221; seria o nome ideal a superar as clivagens ideol\u00f3gicas tradicionais. N\u00e3o foi a \u00fanica an\u00e1lise nessa linha.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 tamb\u00e9m os preveem a volta de Marine Le Pen nas elei\u00e7\u00f5es de 2022, como favorita para o pleito. A vit\u00f3ria da extrema-direita teria sido apenas adiada.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O que, afinal, significa a vit\u00f3ria de Macron e de seu &#8220;En Marche&#8221;?<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a name='more'><\/a><br \/>O primeiro ponto a se destacar \u00e9 a divis\u00e3o da sociedade francesa, os quatro primeiros colocados no primeiro turno, da esquerda representada por Jean-Luc M\u00e9lenchon \u00e0 extrema-direita de Marine Le Pen, situaram-se em torno dos 20%, sem uma diferen\u00e7a expressiva entre eles.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O segundo ponto \u00e9 a desest\u00edmulo do eleitor em comparecer neste segundo turno, registrado na alta absten\u00e7\u00e3o, a maior em d\u00e9cadas, em face \u00e0s op\u00e7\u00f5es apresentadas. Ou seja, o &#8220;novo&#8221; venceu, mas n\u00e3o despertou muito entusiasmo. Foi vitorioso devido ao recha\u00e7o \u00e0 extrema-direita no segundo turno e teve ligeira vantagem ante \u00e0s demais op\u00e7\u00f5es no primeiro turno.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O terceiro e \u00faltimo ponto \u00e9 que Macron foi o candidato, agora presidente eleito, do establishment econ\u00f4mico franc\u00eas e global. \u00c9 tamb\u00e9m o presidente desejado tamb\u00e9m pelo establishment pol\u00edtico alem\u00e3o e europeu. Foi apoiado pelos socialistas e republicanos, a centro-esquerda e a centro-direita tradicionais da Fran\u00e7a no segundo turno e teve apoio informal da Hollande no primeiro turno, \u00e0s custas do candidato de seu pr\u00f3prio partido, Benoit Hamon, mais \u00e0 esquerda, mas que carregou na campanha o fardo da impopularidade dos socialistas no poder. Mas, para tanto, Macron teve de se apresentar como cr\u00edtico a estas mesmas elites, portando uma mensagem de &#8220;renova\u00e7\u00e3o&#8221; pol\u00edtica e aprofundamento da integra\u00e7\u00e3o europeia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Apesar da boa vontade da m\u00eddia com o novo presidente o entusiasmo j\u00e1 bastante contido n\u00e3o deve demorar muito tempo em se transformar em impopularidade. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para crer que Macron ter\u00e1 desempenho, com o passar do tempo, muito melhor do que Fran\u00e7ois Hollande e Nicolas Sarkozy, que amargaram alta impopularidade.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As raz\u00f5es principais para o desalento franc\u00eas est\u00e3o na moeda comum e no projeto europeu, o mesmo que Macron se prop\u00f5e a revitalizar. E por qu\u00ea? Fa\u00e7amos um retorno no tempo para compreender.<br \/>O \u00faltimo governo franc\u00eas que prop\u00f4s e executou pol\u00edtica econ\u00f4mica nacionalista e n\u00e3o convergente com a Alemanha foi o de Fran\u00e7ois Miterrand, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980. Nacionaliza\u00e7\u00f5es, protecionismo e subs\u00eddios estavam no cerne da estrat\u00e9gia econ\u00f4mica. A integra\u00e7\u00e3o europeia era tamb\u00e9m questionada e se propunha inclusive algumas medidas de retorno \u00e0 soberania nacional.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Estas pol\u00edticas resultaram em melhor desempenho em termos de crescimento econ\u00f4mico, comparado aos vizinhos europeus, no cen\u00e1rio de recess\u00e3o global daquele momento, induzida pela pol\u00edtica de juros altos e d\u00f3lar forte dos EUA. Membro, no entanto, do Sistema Monet\u00e1rio Europeu, o mecanismo que definia as paridades entre as moedas da ent\u00e3o Comunidade Econ\u00f4mica Europeia, a Fran\u00e7a tamb\u00e9m apresentou taxas um pouco mais elevadas de infla\u00e7\u00e3o e &#8220;contribuiu&#8221; para certa instabilidade cambial, em um ambiente de consolida\u00e7\u00e3o da pol\u00edticas de corte ortodoxo, que tinham na Alemanha o principal defensor no continente. A instabilidade cambial fazia com o que o objetivo do Sistema Monet\u00e1rio Europeu, justamente estabilizar as paridades, n\u00e3o ocorresse. Ou seja, foi enorme a press\u00e3o para que os franceses &#8220;se adaptassem&#8221;. Em 1984, em linha com o defendido pelo ent\u00e3o Ministro da Finan\u00e7as e futuro Comiss\u00e1rio Europeu Jaques Delors, a Fran\u00e7a adota o receitu\u00e1rio ortodoxo na economia, com medidas de austeridade fiscal e se lan\u00e7a na defesa do fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es europeias e das compet\u00eancias comunit\u00e1rias. Tal movimento teve sua express\u00e3o maior com o Tratado de Maastricht (1993), a cria\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia e da moeda comum, o euro.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A partir da guinada promovida pelo governo Miterrand, em 1984, a pol\u00edtica europeia francesa consistiu essencialmente em europeizar as institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, o que significava promover liberaliza\u00e7\u00f5es, mas fundamentalmente europeizar o marco alem\u00e3o e o banco central da Alemanha, o que se expressou na cria\u00e7\u00e3o do euro e do Banco Central Europeu.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Diferentemente do que imaginavam os formuladores franceses a cria\u00e7\u00e3o de um banco central e de uma moeda em n\u00edvel europeu, funcionando nos moldes desejados pelos alem\u00e3es ( o estatuto do BCE foi copiado do estatuto do Bundesbank, por exemplo) aprofundou as assimetrias em vez de reduzi-las. A Alemanha assumiu posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a regional, o que ficou explicito ap\u00f3s a crise de 2008 e a imposi\u00e7\u00e3o germ\u00e2nica aos demais europeus da austeridade como o &#8220;rem\u00e9dio&#8221; para enfrent\u00e1-la. A Fran\u00e7a, cada vez mais, passou a lugar secund\u00e1rio na defini\u00e7\u00e3o dos rumos do bloco, embora seja um pa\u00eds fundamental para a continuidade da UE.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Como a Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 longe de ser um Estado (\u00e9 um acordo entre na\u00e7\u00f5es com \u00e1reas de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica comum) n\u00e3o possui as institui\u00e7\u00f5es adequadas para que a pol\u00edtica monet\u00e1ria possa ser instrumento de uma pol\u00edtica em prol do crescimento. A Uni\u00e3o Europeia possui or\u00e7amento pequeno (em torno de 1% do PIB regional, no Brasil a Uni\u00e3o federal tem em torno de 25% do PIB), n\u00e3o possui Tesouro, t\u00edtulos de d\u00edvida, previd\u00eancia, legisla\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria, legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, dentre outros, em n\u00edvel europeu. Os fundos regionais de aux\u00edlio \u00e0s \u00e1reas menos desenvolvidas s\u00e3o claramente insuficientes. Portanto os Estados Nacionais abdicaram do controle da pol\u00edtica monet\u00e1ria em nome da institui\u00e7\u00e3o regional e se v\u00eaem, o que est\u00e1 associado a isto, constrangidos a executar pol\u00edtica fiscal bastante restritiva.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A promessa de Macron de &#8220;revitalizar&#8221; a integra\u00e7\u00e3o com, por exemplo, o estabelecimento de um Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as europeu ter\u00e1 pouco efeito se n\u00e3o houver de fato europeiza\u00e7\u00e3o de muitas quest\u00f5es, como as elencadas logo acima.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O problema para os &#8220;europe\u00edstas&#8221; \u00e9 que projeto europeu, como explicou historiador brit\u00e2nico Alan Milward em &#8220;The European Rescue of the Nation State&#8221; nunca foi, de fato, o projeto de uma federa\u00e7\u00e3o supranacional e sim a concep\u00e7\u00e3o de uma nova arquitetura pol\u00edtica europeia que permitisse a volta da atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos Estados Nacionais europeus no p\u00f3s-guerra.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A Fran\u00e7a do novo presidente deve insistir no caminho percorrido nas \u00faltimas d\u00e9cadas pelas administra\u00e7\u00f5es socialistas e republicanas (gaullista) das pol\u00edticas liberalizantes. S\u00f3 uma profunda reforma verdadeiramente europeizante poderia significar alento para a Uni\u00e3o Europeia e seus povos. Mas isto significaria transferir poder para Bruxelas e os Estados, principalmente os mais poderosos, em especial a Alemanha, n\u00e3o est\u00e3o dispostos a faz\u00ea-lo. Nem mesmo a Fran\u00e7a, que sempre buscou a europeiza\u00e7\u00e3o para conter os alem\u00e3es.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na impossibilidade da reforma europeia a sa\u00edda seria a volta ao Estado Nacional, n\u00e3o a vers\u00e3o xen\u00f3foba proposta por Le Pen mas a ousadia de uma &#8220;Sexta Rep\u00fablica&#8221; defendida pela &#8220;Fran\u00e7a Insubmissa&#8221; de M\u00e9lenchon, com profundas reformas visando atacar a desigualdade, o desemprego estrutural, a precariza\u00e7\u00e3o, com a defesa de um papel mais ativo para o Estado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas esta proposta, embora tenha tido mais adeptos que em 2012, n\u00e3o foi ao segundo turno.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Talvez no futuro se diga que a Uni\u00e3o Europeia e o euro ganharam cinco anos de sobrevida neste 07 de maio de 2017.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><i><b><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3431718131964173\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wagner Sousa<\/a> <\/b>\u00e9&nbsp;<\/i><i>Doutorado em Economia Pol\u00edtica Internacional pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013)<\/i>, <i>onde tamb\u00e9m realizou o P\u00f3s-Doutorado. Possui Gradua\u00e7\u00e3o em Direito pela Faculdade de Direito de Curitiba (2001) e Mestrado em Sociologia pela Universidade Federal do Paran\u00e1 (2004).<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Wagner Sousa Por Claude Truong-Ngoc \/ Wikimedia Common A vit\u00f3ria do &#8220;centrista&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[655],"tags":[],"class_list":["post-1706","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume4"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1706"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1706\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2229,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1706\/revisions\/2229"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}