{"id":1709,"date":"2017-04-10T11:30:00","date_gmt":"2017-04-10T14:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1709"},"modified":"2022-05-05T00:30:50","modified_gmt":"2022-05-05T03:30:50","slug":"a-atualidade-geopolitica-de-spykman-politica-de-contencao-equilibrio-de-poder-e-disputa-territorial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1709","title":{"rendered":"A atualidade geopol\u00edtica de Spykman:  pol\u00edtica de conten\u00e7\u00e3o, equil\u00edbrio de poder e disputa territorial"},"content":{"rendered":"<p>Por Bernardo Salgado Rodrigues<\/p>\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-HeCcyN-GO20\/WOuVe-9yuMI\/AAAAAAAAA4o\/T0bugdvbd4ksoMx1dXTGsDF45LETth4uQCLcB\/s1600\/Spykman.jpg\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" src=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-HeCcyN-GO20\/WOuVe-9yuMI\/AAAAAAAAA4o\/T0bugdvbd4ksoMx1dXTGsDF45LETth4uQCLcB\/s1600\/Spykman.jpg\" \/><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Dentre as an\u00e1lises que foram realizadas durante o pr\u00f3logo da Guerra Fria, os preceitos do geopol\u00edtico Nicholas John Spykman se destacam na vis\u00e3o estrat\u00e9gica de longo prazo tanto em uma vis\u00e3o estadunidense como sovi\u00e9tica e &#8220;antecipa o quadro b\u00e1sico e as estrat\u00e9gias dominantes das rela\u00e7\u00f5es internacionais do p\u00f3s-guerra&#8221;. (COSTA, 1992, p.176) Spykman pleiteava uma pol\u00edtica de poder sustentada na seguran\u00e7a nacional dos Estados Unidos e, ao teorizar durante a 2\u00aa Guerra Mundial, a contemporaneidade de seus conceitos consiste no uso de ferramentas metodol\u00f3gicas instrutivas para a compreens\u00e3o da geopol\u00edtica e da pol\u00edtica de seguran\u00e7a dos Estados Unidos, desde o in\u00edcio da Guerra Fria at\u00e9 a Guerra ao Terror. <\/p>\n<p>A denominada &#8220;pol\u00edtica de conten\u00e7\u00e3o&#8221; foi um termo utilizado no final da d\u00e9cada de 1940 a fim de inflamar a opini\u00e3o p\u00fablica no pre\u00e2mbulo da Guerra Fria. Tal pol\u00edtica &#8220;se tornou o slogan-chave que liga a atmosfera interna e as opera\u00e7\u00f5es externas em uma \u00fanica frente e garante a passagem do New Deal para a Doutrina Truman&#8221; (ANDERSON, 2015, p.39), garantindo uma pol\u00edtica nacional que instaurava a prerrogativa de interferir em qualquer parte do globo a partir do discurso sobre os perigos do comunismo e a necessidade de sua conten\u00e7\u00e3o para a seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p><a name='more'><\/a><\/p>\n<p>O perigo do comunismo\/nacionalismo, que se faz presente na formula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica norte-americana, vem sendo substitu\u00eddo pelo terrorismo internacional como discurso&nbsp;para a base da estrat\u00e9gia de alian\u00e7as internacionais, bases militares e guerras por procura\u00e7\u00e3o a fim de garantir a seguran\u00e7a estadunidense no sistema internacional, evitar a propaga\u00e7\u00e3o de ideais contr\u00e1rios aos preceitos liberais democr\u00e1ticos e aumentar a influ\u00eancia militar, econ\u00f4mica e pol\u00edtica em distintos pa\u00edses do globo, uma vez que o terrorismo n\u00e3o possui uma base territorial centralizada. <\/p>\n<p>Outro conceito chave para compreender a import\u00e2ncia de Spykman na atualidade \u00e9 o equil\u00edbrio de poder. A partir de uma proje\u00e7\u00e3o azimutal equidistante centrada no Polo Norte que demonstra uma proximidade geogr\u00e1fica entre a Am\u00e9rica do Norte e a Eur\u00e1sia atrav\u00e9s dos Oceanos Atl\u00e2ntico e Pac\u00edfico e do Mar \u00c1rtico (COSTA, 1992, p.178), refor\u00e7a a necessidade do equil\u00edbrio de poder na Eur\u00e1sia:<\/p>\n<blockquote><p><i>Spykman n\u00e3o dissimula o fato de que uma teoria estrat\u00e9gica e a conseq\u00fcente pol\u00edtica de defesa dos EUA, para a guerra e a situa\u00e7\u00e3o mundial que a sucedesse, envolviam for\u00e7osamente o reconhecimento de que o pa\u00eds, como grande pot\u00eancia global, ao defender-se, o faria atrav\u00e9s de movimentos, alian\u00e7as e ofensivas que o projetariam como for\u00e7a determinante no chamado equil\u00edbrio do poder mundial. (COSTA, 1992, p.171)<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Caso a Eur\u00e1sia fosse dominada por um \u00fanico poder, acumularia uma for\u00e7a n\u00e3o compensada que poderia se projetar para o Oceano Atl\u00e2ntico e Pac\u00edfico e, em um movimento de pin\u00e7as, cercar o hemisf\u00e9rio ocidental, uma vez que &#8220;era o cerco potencial da Am\u00e9rica pela Eur\u00e1sia ou da Eur\u00e1sia pela Am\u00e9rica que definiria neste s\u00e9culo as grandes linhas da pol\u00edtica mundial.&#8221; (MELLO, 1999, p.103-105) Para Spykman (apud TOSTA, 1984, p.78), \u201ca possibilidade de cercar ou ser cercado depende dos potenciais do poder de ambos os mundos e da capacidade de integrar-se ou n\u00e3o, cada um deles, em uma s\u00f3 unidade ou coaliz\u00e3o pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o deste dilema seria &#8220;uma participa\u00e7\u00e3o direta americana no equil\u00edbrio de poder eurasi\u00e1tico para manter divididas e neutralizadas as for\u00e7as pol\u00edtico-militares da Europa e do Extremo Oriente&#8221; (MELLO, 1999, p.118), n\u00e3o dispondo de recursos excedentes que pudessem colocar em perigo a seguran\u00e7a e os interesses estrat\u00e9gicos dos Estados Unidos. Assim, ocasionaria em um excedente de poder norte-americano para projetar-se nos dois oceanos e fixar sua primeira linha de defesa transoce\u00e2nica nas duas bordas, tanto da Europa como da \u00c1sia, consistindo no &#8220;principal vetor da grande estrat\u00e9gia estadunidense na pol\u00edtica mundial.&#8221; (MELLO, 1999, p.97-98)<\/p>\n<p>A disputa territorial consiste num elemento central da an\u00e1lise da pol\u00edtica internacional e na formula\u00e7\u00e3o da grande estrat\u00e9gia americana contempor\u00e2nea. Ao examinar o mapa-m\u00fandi e as duplas frentes oce\u00e2nicas da Eur\u00e1sia e dos Estados Unidos, Spykman definiu a zona estrat\u00e9gica do poder mundial capaz de compensar o dom\u00ednio da massa continental eurasiana e essencial para a pol\u00edtica de seguran\u00e7a norte-americana: o <i>Rimland<\/i>. Para ele, o &#8220;caminho circunferencial mar\u00edtimo&#8221; (COSTA, 1992, p.179) consistiria &#8220;numa vasta zona tamp\u00e3o de conflitos entre o Poder Terrestre e o Poder Mar\u00edtimo&#8221; (TOSTA, 1984, p.76), determinando o <i>Rimland<\/i> como poder anf\u00edbio de expans\u00e3o tanto pelo mar como por terra, cujas \u00e1reas marginais da Eur\u00e1sia seriam, &#8220;com sua orienta\u00e7\u00e3o mar\u00edtima, crucial para o contato com o mundo exterior&#8221; (KAPLAN, 2013, p.98), ressaltando a import\u00e2ncia das &#8220;f\u00edmbrias mar\u00edtimas que contornavam a grande plan\u00edcie central da Eur\u00e1sia&#8221;. (MELLO, 1999, p.120)<\/p>\n<p>Geograficamente, a tese do <i>Rimland<\/i> compreende as zonas marginais da Europa, Oriente M\u00e9dio, subcontinente indiano e Extremo Oriente, entre o &#8220;anel des\u00e9rtico e montanhoso que circundava a plan\u00edcie siberiana e, por outro lado, com o semic\u00edrculo mar\u00edtimo que contornava o continente eurasiano&#8221; (MELLO, 1999, p.120), assim como &#8220;a \u00e1rea de contato entre o litoral da Eur\u00e1sia e o cord\u00e3o de mares marginais que a cercam&#8221; (TOSTA, 1984, p.79) e constituindo-se como &#8220;a via expressa mar\u00edtima do tr\u00e1fego comercial e militar da Ilha Mundial, conectando \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio ao Leste Asi\u00e1tico&#8221;. (KAPLAN, 2013, p.104)<\/p>\n<p>A disputa e o controle em torno do <i>Rimland<\/i> consistiram no &#8220;centro nevr\u00e1lgico da disputa americano-sovi\u00e9tica&#8221; (MELLO, 1999, p.129) durante toda a Guerra Fria e, atualmente, da contenda com a R\u00fassia e China. Para os Estados Unidos, era pe\u00e7a chave para o seu per\u00edmetro de seguran\u00e7a a conten\u00e7\u00e3o do expansionismo na Eur\u00e1sia atrav\u00e9s do &#8220;avan\u00e7o da primeira linha de defesa estadunidense para a borda eurasiana e a montagem de alian\u00e7as militares com os pa\u00edses anf\u00edbios e insulares do Velho Continente&#8221; (MELLO, 1999, p.131), constatados nos pactos militares norte-americanos no auge da Guerra Fria e que se fazem presentes at\u00e9 os dias de hoje:&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/p>\n<blockquote><p><i>a) a OTAN (Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte), alian\u00e7a dos Estados Unidos com os pa\u00edses do Rimland europeu, que vedava o acesso russo \u00e0 periferia ocidental da Eur\u00e1sia e ao oceano Atl\u00e2ntico; b) a OTASE (Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Sudeste Asi\u00e1tico), alian\u00e7a dos Estados Unidos com os pa\u00edses do Rimland asi\u00e1tico, que bloqueava aos russos as sa\u00eddas para o oceano Pac\u00edfico; c) CENTO (Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado Central), alian\u00e7a dos Estados Unidos com os pa\u00edses do Rimland do Oriente M\u00e9dio, que fechava aos russos as passagens para o golfo P\u00e9rsico e o oceano \u00cdndico. (MELLO, 1999, p.132).<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Em outros termos, em um sistema internacional an\u00e1rquico, o principal objetivo da pol\u00edtica externa de cada Estado consiste na preserva\u00e7\u00e3o e no aumento de excedente de poder, em um esfor\u00e7o para neutralizar o poder de outros Estados com o objetivo de obter uma supremacia internacional (MELLO, 1999, p.96). Uma interpreta\u00e7\u00e3o da atualidade geopol\u00edtica (em favor dos Estados Unidos) de Spykman gira em torno desses tr\u00eas conceitos: 1) pol\u00edtica de conten\u00e7\u00e3o, mantendo uma situa\u00e7\u00e3o de indiscut\u00edvel hegemonia no Hemisf\u00e9rio Ocidental; 2) equil\u00edbrio de poder, assegurando o controle na Eur\u00e1sia para evitar que se estabele\u00e7a um centro de poder excessivamente influente na Europa e no Extremo Oriente; 3) <i>Rimland<\/i>, impedindo o seu controle pelas for\u00e7as russas, isolando-as no interior da Eur\u00e1sia sem acesso aos mares quentes e, no caso chin\u00eas, buscando o cerco de seu acesso ao Mar do Sul da China e posterior acesso a Bacia do Pac\u00edfico. Um dos cl\u00e1ssicos da geopol\u00edtica ainda serve de sustent\u00e1culo para a compreens\u00e3o mais apuradas acerca dos embates geopol\u00edticos e geoecon\u00f4micos mundiais contempor\u00e2neos. <\/div>\n<p><b><br \/><\/b><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p>ANDERSON, Perry. <i>A pol\u00edtica externa norte-americana e seus te\u00f3ricos.<\/i> S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2015.<\/p>\n<p>COSTA, Wanderley Messias da. <i>Geografia Pol\u00edtica e Geopol\u00edtica: <\/i>discursos sobre o territ\u00f3rio e o poder. S\u00e3o Paulo: Hucitec; Edusp, 1992.<\/p>\n<p>KAPLAN, Robert. <i>A vingan\u00e7a da geografia:<\/i> a constru\u00e7\u00e3o do mundo geopol\u00edtico a partir da perspectiva geogr\u00e1fica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013<\/p>\n<p>MELLO, Leonel Itaussu Almeida. <i>Quem tem medo da geopol\u00edtica?<\/i> S\u00e3o Paulo: Hucitec; Edusp, 1999.<\/p>\n<p>TOSTA, Octavio. <i>Teorias geopol\u00edticas.<\/i> Rio de Janeiro: Biblioteca do Ex\u00e9rcito, 1984.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bernardo Salgado Rodrigues Dentre as an\u00e1lises que foram realizadas durante o pr\u00f3logo<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[655],"tags":[],"class_list":["post-1709","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume4"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1709","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1709"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1709\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2232,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1709\/revisions\/2232"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1709"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1709"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1709"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}