{"id":1726,"date":"2016-09-05T08:00:00","date_gmt":"2016-09-05T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1726"},"modified":"2022-05-05T00:30:50","modified_gmt":"2022-05-05T03:30:50","slug":"narcos-e-a-retorica-conservadora-na-narrativa-da-guerra-as-drogas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1726","title":{"rendered":"NARCOS e a ret\u00f3rica conservadora na narrativa da guerra \u00e0s drogas"},"content":{"rendered":"<div>Por Licio Caetano do Rego Monteiro<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\"><o:p><\/o:p><\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"right\" style=\"text-align: right;\"><\/div>\n<table cellpadding=\"0\" cellspacing=\"0\" style=\"float: left; margin-right: 1em; text-align: left;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/3.bp.blogspot.com\/-I2rT9mrm2-c\/V8x0QERlSdI\/AAAAAAAABOE\/8F64t2Fv4Jog0SGf0elDb29oc0CWM9lzQCLcB\/s1600\/narcos03.jpg\" style=\"clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"400\" src=\"https:\/\/3.bp.blogspot.com\/-I2rT9mrm2-c\/V8x0QERlSdI\/AAAAAAAABOE\/8F64t2Fv4Jog0SGf0elDb29oc0CWM9lzQCLcB\/s400\/narcos03.jpg\" width=\"270\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\">Cartazes da s\u00e9rie Narcos, da Netflix.<br \/>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.cinecompipoca.com.br\/veja-os-novos-posters-da-nova-serie-da-netflix-narco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">CineComPipoca<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div style=\"text-align: justify;\">A s\u00e9rie Narcos \u00e9 como um caminh\u00e3o cheio de mercadorias importadas dos EUA para o p\u00fablico latino-americano que tenta passar a fronteira no sentido norte-sul. Mas entre mercadorias l\u00edcitas e de qualidade, o motorista escondeu a carga mais valiosa: subst\u00e2ncias que prometem entorpecer o p\u00fablico para aceitar uma vers\u00e3o enlatada da hist\u00f3ria da guerra \u00e0s drogas na Am\u00e9rica Latina.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A sinopse diz que \u00e9 sobre Pablo Escobar. Mas \u00e9 sobre a guerra \u00e0s drogas. E a julgar pelo fato de que alguns meses depois de seu lan\u00e7amento o governo do Estado do Rio de Janeiro solicitou \u00e0 DEA que abrisse uma representa\u00e7\u00e3o na cidade do Rio de Janeiro em 2015, parece que o filme \u00e9 parte ativa na propaga\u00e7\u00e3o dos mecanismos que mant\u00eam a falida guerra \u00e0s drogas ainda ativa na Am\u00e9rica Latina, alimentando os clich\u00eas que inibem qualquer reflex\u00e3o mais cr\u00edtica sobre a quest\u00e3o das drogas na Am\u00e9rica Latina.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O presente artigo enfoca a narrativa anticomunista t\u00edpica da Guerra Fria inserida na narrativa da Guerra \u00e0s Drogas e atualizada pela s\u00e9rie Narcos, em exibi\u00e7\u00e3o no Netflix.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a name='more'><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A narrativa do narco-comunismo e a soma de todos os medos<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na d\u00e9cada de 1980, a Guerra \u00e0s Drogas ultrapassou as fronteiras dos EUA, mas a prepara\u00e7\u00e3o para atravessar a fronteira se inicia na d\u00e9cada anterior, no governo Nixon. Nos anos 1970 o objetivo da guerra ainda era interno, para defender a \u201cfam\u00edlia americana\u201d da contracultura hippie associada tamb\u00e9m ao pacifismo contr\u00e1rio \u00e0 guerra do Vietn\u00e3. O principal vil\u00e3o era a hero\u00edna. O aumento significativo do consumo e aprova\u00e7\u00e3o de severas leis antidrogas engendram a cria\u00e7\u00e3o do Drug Enforcement Administration (DEA) em 1973. A exporta\u00e7\u00e3o do discurso jur\u00eddico-pol\u00edtico e do estere\u00f3tipo pol\u00edtico-criminoso da droga d\u00e1 seus primeiros passos nos anos 1970, com efeitos em praticamente toda a Am\u00e9rica Latina, onde ocorrem mudan\u00e7as de legisla\u00e7\u00e3o para controle de drogas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na d\u00e9cada de 1980 o combate \u00e0s drogas ganha ares de cruzada internacional, deslocando-se o combate para os pa\u00edses de produtores de drogas de origem org\u00e2nica, principalmente a coca\u00edna, cujo consumo \u00e9 incrementado nos EUA a partir da metade da d\u00e9cada anterior. \u00c9 o que Rosa Del Olmo chamou de discurso jur\u00eddico transnacional sobre as drogas. A Guerra Fria ainda estava quente na Am\u00e9rica Latina, com guerrilhas ativas nos Andes e na Am\u00e9rica Central e ditaduras apoiadas pelo governo norte-americano. O degelo, no entanto, era eminente. A pol\u00edtica externa dos EUA no per\u00edodo Carter havia come\u00e7ado a lan\u00e7ar sinais de que a estrat\u00e9gia de sustenta\u00e7\u00e3o das ditaduras estava se desgastando. O recurso a ret\u00f3ricas nacionalistas exacerbadas de alguns generais, como no Peru e na Argentina, poderia levar a efeitos n\u00e3o-desejados pelos EUA, como ocorrera com a Guerra das Malvinas, em 1982. E se a crise do bloco socialista ainda n\u00e3o estava evidente, j\u00e1 era poss\u00edvel notar a perda de f\u00f4lego da URSS em fomentar uma revolu\u00e7\u00e3o internacional no quintal norte-americano. Portanto, o prosseguimento da guerra suja contra os comunistas na Am\u00e9rica Latina cada vez mais se mostrava como uma opera\u00e7\u00e3o imperial de controle pol\u00edtico e militar dos s\u00faditos revoltosos, e n\u00e3o como uma defesa do hemisf\u00e9rio ocidental contra o avan\u00e7o do comunismo e muito menos uma alian\u00e7a para o progresso, formula\u00e7\u00f5es t\u00edpicas dos anos 1960 p\u00f3s-Revolu\u00e7\u00e3o Cubana.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, a Guerra \u00e0s Drogas se beneficia da legitimidade da cruzada anticomunista diante da opini\u00e3o p\u00fablica norte-americana, mas ao mesmo tempo renova a ret\u00f3rica anticomunista predominante atribuindo \u00e0s guerrilhas e governos socialista o r\u00f3tulo de serem narcotraficantes. Essa fus\u00e3o discursiva pode ter ocorrido ora de forma intencional e estrat\u00e9gica, ora de forma meramente oportunista. Mas n\u00e3o precisamos recorrer a uma \u201cteoria da conspira\u00e7\u00e3o\u201d para dizer que essa vincula\u00e7\u00e3o foi conveniente para alimentar uma raz\u00e3o de Estado que justificasse a presen\u00e7a militar e a manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00edses latino-americanos mesmo ap\u00f3s o fim da Guerra Fria. Desde a Doutrina Monroe, em 1823, sucessivas amea\u00e7as foram utilizadas para legitimar a a\u00e7\u00e3o \u201cprotetora\u201d e \u201cbenevolente\u201d dos norte-americanos na Am\u00e9rica Latina atrav\u00e9s da deposi\u00e7\u00e3o de governos leg\u00edtimos, opera\u00e7\u00f5es e invas\u00f5es militares, assassinatos, conspira\u00e7\u00f5es, bloqueios econ\u00f4micos, instala\u00e7\u00e3o de bases, espionagem, corrup\u00e7\u00e3o de governantes, financiamento de grupos armados, etc. A Guerra \u00e0s Drogas \u00e9 s\u00f3 mais uma a fazer parte da soma de todos os medos. E dentro dessa soma, n\u00e3o se pode negar que a Guerra \u00e0s Drogas tenha se tornado um dos principais elementos do discurso de amea\u00e7a nessas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Essa constru\u00e7\u00e3o artificial promovida pela pol\u00edtica norte-americana \u00e9 citada no filme nas cenas dos bastidores na Embaixada norte-americana na Col\u00f4mbia, em que tr\u00eas ag\u00eancias, o DEA, a CIA e o grupo militar (Comando Sul) trocam informa\u00e7\u00f5es, cooperando ou disputando prioridades. O momento chave ocorre no epis\u00f3dio em que a embaixadora norte-americana parabeniza os agentes do DEA por terem descoberto a \u201cconex\u00e3o narco-comunista\u201d, ao apreenderem, com um ex-agente da CIA que estava trabalhando para Pablo Escobar, fotografias dos traficantes carregando drogas numa pista de pouso da Nicar\u00e1gua, ent\u00e3o governada pela Frente Sandinista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional. Os sandinistas haviam chegado ao poder em 1979 e governo era formado por uma frente de nove organiza\u00e7\u00f5es de diferentes matizes ideol\u00f3gicos, que convergiam numa pol\u00edtica nacionalista e popular. O fato de um assessor de um membro de uma das organiza\u00e7\u00f5es que compunham o governo sandinista ter sido identificado na foto apreendida foi levado por Reagan \u00e0 televis\u00e3o como uma comprova\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo entre traficantes de drogas e os sandinistas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Embora a fus\u00e3o entre a ret\u00f3rica anticomunista e antidrogas possa ter funcionado para alguns objetivos norte-americanos, sua import\u00e2ncia n\u00e3o foi t\u00e3o grande no fim da Guerra Fria. A Guerra \u00e0s Drogas j\u00e1 come\u00e7ava a andar com as pr\u00f3prias pernas, enquanto as guerrilhas socialistas eram derrotadas militarmente ou abriam m\u00e3o da luta armada para se inserirem nas disputas eleitorais, perdendo assim o apelo emocional para mobilizar uma raz\u00e3o intervencionista. Mas a ret\u00f3rica da amea\u00e7a narco-comunista ganha especial import\u00e2ncia nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000 justamente para rotular as guerrilhas ainda ativas nos Andes, casos do Partido Comunista do Peru (Sendero Luminoso), no Peru, e das For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia \u2013 Ex\u00e9rcito do Povo (FARC-EP) na Col\u00f4mbia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A s\u00e9rie Narcos n\u00e3o problematiza a vers\u00e3o norte-americana da \u201cconex\u00e3o narco-comunista\u201d. Pelo contr\u00e1rio, agrega \u00e0 fala do narrador-personagem a descri\u00e7\u00e3o de fatos fict\u00edcios ou descontextualizados que conduzem a uma narrativa para refor\u00e7ar a ret\u00f3rica anticomunista com base nas acusa\u00e7\u00f5es de vincula\u00e7\u00e3o com o tr\u00e1fico de drogas. Ao mesmo tempo, n\u00e3o mencionam em nenhum momento o papel da CIA no est\u00edmulo ao tr\u00e1fico de drogas na Am\u00e9rica Central como fonte de financiamento dos contras que combatiam os sandinistas na Nicar\u00e1gua nem o chamado Baile Rojo, que resultou na morte de 5 mil militantes de esquerda na m\u00e3o de narcos e paramilitares colombianos na d\u00e9cada de 1980, nem tampouco a prote\u00e7\u00e3o da CIA a Montesinos no Peru na d\u00e9cada de 1990, homem forte do governo Fujimori comprovadamente envolvido com o tr\u00e1fico de drogas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Chile \u00e0 beira do caos em 1973?<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A estrat\u00e9gia discursiva anticomunista do filme se inicia logo na primeira cena ap\u00f3s os cr\u00e9ditos do primeiro epis\u00f3dio. O narrador-personagem Steve Murphy, agente norte-americano do DEA, conta sobre uma opera\u00e7\u00e3o policial em que ele fornece informa\u00e7\u00f5es que permitem \u00e0 pol\u00edcia colombiana atacar um sic\u00e1rio de Escobar chamado Poison. A cena violenta mostra uma chacina numa boate, com muitos mortos. Murphy ent\u00e3o pede que n\u00e3o o julguem como vil\u00e3o, pois o bem e o mal se confundem numa guerra como aquela em que ele estava metido. E ent\u00e3o come\u00e7a a narrar a hist\u00f3ria do Cartel de Medell\u00edn dizendo que vil\u00f5es podem fazer coisas boas. A cena se desloca ent\u00e3o para um deserto chileno onde se d\u00e1 a seguinte narra\u00e7\u00e3o:<\/div>\n<blockquote style=\"margin-left: 4cm; text-align: justify;\"><p>Nixon achou que um general chileno era um dos mocinhos, porque ele odiava os comunistas. Ent\u00e3o, n\u00f3s ajudamos Pinochet a tomar o poder. Depois Pinochet acabou matando milhares de pessoas. Talvez ele n\u00e3o seja um dos mocinhos. Mas, \u00e0s vezes, os vil\u00f5es fazem coisas boas. Ningu\u00e9m sabe, mas em 1973 o Chile estava a caminho de se tornar o maior centro processador e exportador de coca\u00edna do mundo. Havia desertos para esconder laborat\u00f3rios e quil\u00f4metros de litoral n\u00e3o patrulhado para despachar o produto. Mas Pinochet estragou a festa. Ele fechou 33 laborat\u00f3rios e prendeu 346 traficantes. Depois, sendo Pinochet, mandou matar todos eles.<\/p><\/blockquote>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esse pequeno trecho inicial j\u00e1 guarda em si o mote anticomunista da narrativa de Murphy. Um fato ou acontecimento \u2013 a exist\u00eancia de laborat\u00f3rios de refino de coca\u00edna no Chile no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970 \u2013 \u00e9 superdimensionado para caracterizar a ess\u00eancia de uma situa\u00e7\u00e3o: o v\u00ednculo entre narcotr\u00e1fico e comunistas. O Chile, ent\u00e3o governado pelo socialista Allende, estava a caminho do caos (argumento usado pelos direitistas chilenos para justificar o golpe em 1973), que era se \u201ctornar o maior centro processador e exportador de coca\u00edna do mundo\u201d, pois tinha desertos (!) para esconder laborat\u00f3rios e um litoral n\u00e3o patrulhado (considerando que a droga deveria sair principalmente por embarca\u00e7\u00f5es).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o carece de sentido. Em primeiro lugar, o consumo de coca\u00edna em 1973 ainda era muito baixo em seu principal mercado consumidor, os EUA, para engendrar a cria\u00e7\u00e3o de um grande \u201ccentro processador e exportador de coca\u00edna\u201d. Em segundo lugar, desertos nunca foram os melhores lugares para se esconder nada, muito menos laborat\u00f3rios de coca\u00edna. Em terceiro lugar, o pr\u00f3prio filme demonstra posteriormente a import\u00e2ncia das rotas a\u00e9reas do Cartel de Medell\u00edn para o litoral norte-americano para a consolida\u00e7\u00e3o do \u201cimp\u00e9rio\u201d de Escobar. As vantagens log\u00edsticas da Col\u00f4mbia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de coca e \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o via rotas a\u00e9reas e mar\u00edtimas para o principal mercado consumidor s\u00e3o extremamente superiores \u00e0s do Chile, com a estreita e militarizada fronteira com Peru e Bol\u00edvia e a dist\u00e2ncia f\u00edsica em rela\u00e7\u00e3o aos EUA. Portanto, a ideia de que o Chile pudesse estar chegando na d\u00e9cada de 1970 a uma situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica similar \u00e0 Col\u00f4mbia dos anos 1980 s\u00f3 se justifica como uma reinven\u00e7\u00e3o do passado \u00e0 luz dos medos presentes, esse procedimento recorrente no filme de Padilha que podemos chamar de intrus\u00e3o de medos externos ao tempo dieg\u00e9tico da narrativa.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas a narrativa ainda nos brinda com o elogio das \u201ccoisas boas\u201d que o vil\u00e3o Pinochet fez ao \u201cacabar com a festa\u201d (como se o Chile de Allende fosse o Club Medell\u00edn de Escobar), fechando 33 laborat\u00f3rios e matando 346 traficantes chilenos (logo depois de dizer que Pinochet havia matado milhares de pessoas, implicitamente socialistas e comunistas). Al\u00e9m do recurso \u00e0 \u201cconta de mentiroso\u201d, citando n\u00fameros exatos para dar credibilidade ao fato, a narrativa deixa no ar a poss\u00edvel associa\u00e7\u00e3o entre o massacre perpetrado por Pinochet contra milhares de militantes de esquerda, a execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria extrajudicial de traficantes de drogas no deserto chileno e a opera\u00e7\u00e3o policial colombiana contra um sic\u00e1rio de Escobar que resulta numa chacina dentro de uma boate. \u00c9 esse o convite do narrador-personagem para deixar de lado as distin\u00e7\u00f5es entre o bem e o mal e reconhecer as coisas boas que os vil\u00f5es fazem.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na inten\u00e7\u00e3o de mostrar o \u201clado bom\u201d de Pinochet, esqueceram de colocar no roteiro as graves den\u00fancias, feitas por um general chileno ex-comandante da DINA, de que o filho de Pinochet, sob sua prote\u00e7\u00e3o, havia organizado um laborat\u00f3rio para a produ\u00e7\u00e3o de coca\u00edna que era exportada para a Europa durante meados dos anos 1980.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>M-19 e o Escobar bolivariano<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o da Verdade sobre os Acontecimentos do Pal\u00e1cio de Justi\u00e7a, publicado em 2010, indica a confirma\u00e7\u00e3o de um poss\u00edvel pacto entre Cartel e M-19 para a tomada do Pal\u00e1cio, ocorrida em novembro de 1985. Em 1979, o M-19 havia iniciado sequestros dos chefes do tr\u00e1fico. Como resposta, os narcos criaram o MAS, Morte aos Sequestradores, grupo que serviu basicamente para promover assassinatos de guerrilheiros. Em 1982, o M-19 aceita liberar a irm\u00e3 de Uchoa. Dali em diante \u00e9 que se especula poss\u00edveis acordos do M-19 com o Cartel de Medell\u00edn, como indicam os depoimentos de ex-traficantes colhidos por ocasi\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade iniciada em 2008. O acordo entre o M-19 e o Cartel de Medell\u00edn pode ter ocorrido no per\u00edodo entre 1982 e 1985, ou se estendido at\u00e9 depois disso. A alian\u00e7a \u00e9 conjuntural e espec\u00edfica com uma das organiza\u00e7\u00f5es armadas de esquerda existentes na Col\u00f4mbia. Mesmo ap\u00f3s a desmobiliza\u00e7\u00e3o do M-19, em 1989, os narcos, atrav\u00e9s do MAS, continuaram perseguindo lideran\u00e7as do M-19, tendo assassinado o candidato a presidente Carlos Pizarro Le\u00f3ngomez em 1991. Isso depois de o M-19 ter tentado negociar diretamente com o MAS o fim dos assassinatos. A mesma trajet\u00f3ria de hostilidade e aproxima\u00e7\u00e3o entre o Cartel e o M-19 n\u00e3o se aplica a outras guerrilhas colombianas e aos partidos de esquerda, que foram sistematicamente combatidas pelos narcos na d\u00e9cada de 1980.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O epis\u00f3dio da espada de Bol\u00edvar doada a Escobar parece fict\u00edcio. De fato, o M-19 havia assaltado o museu e roubado a espada, que foi devolvida ao governo em 1989, no processo de desmobiliza\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o h\u00e1 qualquer registro hist\u00f3rico que aponte essa entrega da espada de Bol\u00edvar a Pablo Escobar, numa cena de capitula\u00e7\u00e3o em que o l\u00edder guerrilheiro se ajoelha diante do chefe do Cartel de Medell\u00edn. Os roteiristas devem ter catado a ideia na autobiografia do filho de Escobar, em que consta que ele brincava com a espada de Bol\u00edvar quando era crian\u00e7a, donde se deduz que a espada esteve sob a posse de Escobar. Faltou explicar como a espada foi parar novamente nas m\u00e3os do M-19 para que o grupo a devolvesse ao museu em 1989.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O exagero da cena est\u00e1 dentro da linha narrativa da s\u00e9rie que busca em v\u00e1rios momentos vincular a imagem do tr\u00e1fico \u00e0 dos guerrilheiros e governos de esquerda na Am\u00e9rica Latina. A pr\u00f3pria simbologia da espada de Bol\u00edvar, \u00e0 qual o pr\u00f3prio narrador-personagem faz refer\u00eancia, passa a funcionar como uma intrus\u00e3o do passado (a liberta\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Espanhola) e do futuro (o bolivarianismo propagado por Hugo Ch\u00e1vez na Venezuela) num contexto do tempo presente dieg\u00e9tico do filme, que simbolicamente \u201crouba\u201d a espada de Bol\u00edvar como signo de liberta\u00e7\u00e3o, associando-a ao \u201cmaior criminoso\u201d da hist\u00f3ria recente da Am\u00e9rica Latina.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o do M-19 n\u00e3o se encerra por a\u00ed. A guerrilheira Elisa, namorada do l\u00edder do M-19, fica t\u00e3o horrorizada com o acordo entre a guerrilha e Pablo Escobar que resolve desertar do grupo, buscar prote\u00e7\u00e3o com uma colega de trabalho norte-americana (esposa do agente do DEA, que havia dito \u00e0 Elisa que seu marido era chefe de limpeza da Embaixada norte-americana), denunciar o perigo eminente (que ela ainda n\u00e3o sabia, mas seria a tomada do Pal\u00e1cio da Justi\u00e7a) e ainda se apaixonar pelo outro agente do DEA (no melhor estilo bondgirl). Quando a colega a confronta por ter mentido ao n\u00e3o dizer que era uma comunista, Elisa responde (sem nem questionar a mentira da colega de que o marido faxineiro da Embaixada era agente do DEA): \u201cEu n\u00e3o sou uma comunista. Eu luto contra as injusti\u00e7as, a corrup\u00e7\u00e3o, as desigualdades. Eu me apaixonei por um homem\u201d. Ou seja, a mulher guerrilheira n\u00e3o \u00e9 comunista, ela luta contra injusti\u00e7as, desigualdades (como se isso estivesse em oposi\u00e7\u00e3o ao comunismo), mas tamb\u00e9m n\u00e3o por vontade pr\u00f3pria, mas por ter se apaixonado pelo guerrilheiro. Faltou pouco para o filme n\u00e3o acusar o M-19 de aliciamento de mulheres vulner\u00e1veis. Mas a benevol\u00eancia dos americanos \u00e9 t\u00e3o grande que os agentes arriscam a pr\u00f3pria reputa\u00e7\u00e3o (o agente Pe\u00f1a nega ter transado com a comunista, pois, em suas palavras, seria \u201cantiamericano\u201d) e o emprego (darem abrigo a uma fugitiva comunista sem autoriza\u00e7\u00e3o) para proteger a \u00fanica prova que ligaria Escobar ao ataque do M-19 no Pal\u00e1cio da Justi\u00e7a.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O acordo entre Escobar e uma guerrilha socialista e a carinhosa prote\u00e7\u00e3o dos americanos \u00e0 guerrilheira desertora devem ser vistas em contraste com o massacre promovido pelos narcotraficantes e for\u00e7as paramilitares a eles ligado contra os militantes de esquerda de diversas organiza\u00e7\u00f5es durante toda a d\u00e9cada de 1980. A Col\u00f4mbia estava \u00e0 beira de se tornar o Chile de Pinochet, dado o alto grau de repress\u00e3o pol\u00edtica que resultou na morte de cinco mil militantes de esquerda, incluindo dois candidatos \u00e0 presid\u00eancia, senadores, deputados, sindicalistas, professores, advogados, jornalistas e toda a sorte de pessoas. Para a narrativa ficar coerente, o confronto do Cartel de Medell\u00edn se d\u00e1 unicamente com os candidatos liberais Gal\u00e1n e Gaviria, apoiados e protegidos pelos norte-americanos enquanto a guerra suja contra os comunistas prosseguia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Noriega comprado pela esquerda para traficar coca\u00edna?<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A passagem mais nonsense da s\u00e9rie ocorre no epis\u00f3dio em que os agentes do DEA acusam o ditador panamenho Manuel Noriega de ser narcotraficante. Estamos em 1989, no per\u00edodo que precede o assassinato do candidato liberal Luiz Carlos Gal\u00e1n. A essa altura, Noriega j\u00e1 havia sido descartado pelos norte-americanos e, apesar dos servi\u00e7os prestados \u00e0 CIA, assim como Saddan Hussein, Bin Laden e Montesinos, deixou de ser ca\u00e7ador para virar a ca\u00e7a. A acusa\u00e7\u00e3o de narcotr\u00e1fico foi a causa belli da invas\u00e3o do Panam\u00e1 em dezembro de 1989, que resultou na pris\u00e3o e deporta\u00e7\u00e3o de Noriega para os EUA. O di\u00e1logo entre os agentes do DEA e da CIA na Col\u00f4mbia n\u00e3o pode ter acontecido em 1989, quando Noriega j\u00e1 era formalmente acusado de tr\u00e1fico de drogas pelos EUA desde 1988 e isso n\u00e3o seria nenhuma novidade trazida pelo DEA. Mas tirando esse detalhe, relevado pela necessidade de condensar o tempo na narrativa cinematogr\u00e1fica, o choque entre o DEA e a CIA \u00e9 algo recorrente nessas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, quando a Guerra \u00e0s Drogas se fundia com as a\u00e7\u00f5es de contra-insurg\u00eancia. Ent\u00e3o quando os agentes do DEA acusam Noriega de ser traficante, a rea\u00e7\u00e3o do comandante militar e do agente da CIA \u00e9 de surpresa. Afinal, sendo ele um aliado norte-americano, conclui-se que n\u00e3o era metido com o tr\u00e1fico. A fal\u00e1cia vem ent\u00e3o na seguinte l\u00f3gica: Noriega \u00e9 \u201cmeu amigo\u201d, mas se foi pego com drogas, ent\u00e3o \u00e9, na verdade, \u201camigo do meu inimigo\u201d. Para o espectador desatento que j\u00e1 aceitou todas os absurdos anteriores, entubar mais essa n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, mesmo com o seguinte di\u00e1logo (Epis\u00f3dio 5, minuto 5:40 a 7:15):<\/div>\n<blockquote><p><i><br \/><\/i><i>MURPHY (agente do DEA) \u2013 Embaixadora, isso \u00e9 informa\u00e7\u00e3o de escuta n\u00e3o oficial. N\u00f3s interceptamos uma conversa entre traficantes.<\/i><i><br \/><\/i><i>EMBAIXADORA \u2013 O qu\u00ea? Quais traficantes?<\/i><i><br \/><\/i><i>MURPHY &#8211; \u201cParecia Pablo Escobar\u201d<\/i><i><br \/><\/i><i>PE\u00d1A (outro agente do DEA) \u2013 \u201cTemos quase certeza. Era dif\u00edcil saber. A liga\u00e7\u00e3o estava ruim. Estavam ligando do Panam\u00e1\u201d<\/i><i><br \/><\/i><i>EMBAIXADORA &#8211; \u201cDo Panam\u00e1?\u201d (surpresa)<\/i><i><br \/><\/i><i>MURPHY &#8211; \u201cEles [os traficantes] sabem que Gal\u00e1n [candidato a presidente da Col\u00f4mbia] vai vencer, sabem que ele apoia a extradi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o v\u00e3o ficar parados, esperando serem mandados de volta aos EUA\u201d<\/i><i><br \/><\/i><i>PE\u00d1A &#8211; \u201cEmbaixadora, dizem que Manuel Noriega est\u00e1 dando ref\u00fagio aos traficantes e possivelmente pontos de remessa para coca\u00edna\u201d.<\/i><i><br \/><\/i><i>GENERAL \u2013 \u201cEst\u00e3o transferindo as opera\u00e7\u00f5es para o Panam\u00e1?\u201d (riso de deboche) \u201cIsso \u00e9 bobagem, Pe\u00f1a&#8230; Desculpe, Embaixadora. Por um lado, voc\u00ea diz que Escobar est\u00e1 negociando com comunistas. Agora diz que ele negocia com Manuel Noriega. N\u00e3o pode afirmar as duas coisas\u201d.<\/i><i><br \/><\/i><i>OWEN (agente da CIA) \u2013 \u201cManuel Noriega nos ajudou a lutar contra o comunismo em toda a Am\u00e9rica Latina nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. Considero uma ofensa a tentativa do DEA de sujar o nome dele\u201d.<\/i><i><br \/><\/i><i>Narra\u00e7\u00e3o do Steve Murphy: \u201cEu n\u00e3o podia deixar de rir. Direita, esquerda&#8230; Para Manuel Noriega, o importante era o dinheiro. Quando Bush [pai] era chefe da CIA, Noriega fingia odiar o comunismo para que os EUA ignorassem o fato de que ele estava envolvido com o tr\u00e1fico. Quando Noriega percebeu que poderia ganhar mais dinheiro transportando drogas com a ajuda dos comunistas, ele mudou de time. Ent\u00e3o, invadimos o Panam\u00e1 e prendemos o \u2018Cara de Abacaxi\u2019. Mas isso foi s\u00f3 depois [dezembro de 1989]. Por enquanto, o amigo de confian\u00e7a e aliado era um agente da CIA de direita que estava ganhando dinheiro com Bush e com os traficantes\u201d.<\/i><\/p><\/blockquote>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o d\u00e1 pra deixar de rir mesmo, mas \u00e9 de chorar. Como algu\u00e9m consegue escrever uma narra\u00e7\u00e3o destas? N\u00e3o bastasse desconsiderar a comprovada liga\u00e7\u00e3o da CIA com o tr\u00e1fico de drogas, denunciada pelo senador John Kerry em 1986, na triangula\u00e7\u00e3o para financiar armas para os Contras (grupos que lutavam contra a guerrilha sandinista na Nicar\u00e1gua), o narrador ainda inverte a acusa\u00e7\u00e3o, dizendo que Noriega, agente da CIA durante duas d\u00e9cadas, \u201ctransportava drogas com a ajuda dos comunistas\u201d. A\u00ed o narrador j\u00e1 chega ao ponto de considerar o Cartel de Medell\u00edn como sendo sin\u00f4nimo de comunistas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Para ser coerente com a narrativa que busca transcender o bem e o mal, o roteiro poderia incluir esses dados que evidenciam as contradi\u00e7\u00f5es da guerra \u00e0s drogas e da contra-insurg\u00eancia comandadas pelos EUA na Am\u00e9rica Latina. Mas n\u00e3o h\u00e1 transcend\u00eancia alguma, o bem ou \u00e9 americano, ou n\u00e3o \u00e9 o bem.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>O fardo do homem branco<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A trajet\u00f3ria do narrador-personagem Steve Murphy \u00e9 bastante significativa a respeito da auto-imagem que os art\u00edfices da Guerra \u00e0s Drogas buscam criar.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Uma s\u00e9rie televisiva n\u00e3o \u00e9 feita para o espectador refletir racionalmente sobre cada fato hist\u00f3rico narrado. O espectador deve ser capturado pela emo\u00e7\u00e3o. Os personagens despertam empatia do p\u00fablico, empatia cujo radical se origina no grego pathos, tem a ver com a paix\u00e3o, ou seja, algo que prende, comove, mas geralmente tamb\u00e9m cega \u2013 e pode, como no sentido do termo ingl\u00eas \u201cpathetic\u201d, nos tornar um tanto pat\u00e9ticos. Quando pegamos detalhadamente os fatos hist\u00f3ricos e suas inser\u00e7\u00f5es na trama de Narcos, numa leitura mais atenta do roteiro, algumas informa\u00e7\u00f5es aparecem mais claras, algo que o ritmo acelerado que conduz o espectador envolvido com o filme n\u00e3o permite fazer.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Outro fator tamb\u00e9m contribui para aceita\u00e7\u00e3o imediata do discurso que entremeia a saga do DEA na Am\u00e9rica Latina: o narrador-personagem e a maneira como ele \u00e9 caracterizado. Steve Murphy \u00e9 o narrador, e ele fala em nome da vis\u00e3o norte-americana sobre a Guerra \u00e0s Drogas, mais at\u00e9 do que a vis\u00e3o do DEA, que talvez revelasse algumas fissuras mais profundas na rela\u00e7\u00e3o entre as ag\u00eancias dos EUA, principalmente no que se refere ao papel da CIA no tr\u00e1fico de drogas. Cada palavra do que diz \u00e9 dita como verdade. Como ele \u00e9 bom, logo representa o bem e diz a verdade. Veja a cena em que ele se apresenta. A narra\u00e7\u00e3o diz \u201cMeu nome \u00e9 Steve Murphy, agente do DEA. Como pode ver, estou profundamente envolvido na Col\u00f4mbia\u201d, enquanto aparece a imagem de Steve abra\u00e7ando uma crian\u00e7a ao lado de sua esposa. Compare por exemplo com o narrador-personagem de House of Cards, Frank Underwood. A primeira cena apresenta Frank matando \u00e0 sangue frio um cachorro com suas pr\u00f3prias m\u00e3os. \u00c9 a senha para o espectador entender que se trata de um cara mau e aceitar sua narra\u00e7\u00e3o c\u00ednica \u2013 o que n\u00e3o impede de gostarmos do protagonista. J\u00e1 Murphy n\u00e3o migra para Col\u00f4mbia sem o seu gatinho de estima\u00e7\u00e3o, que por pouco n\u00e3o \u00e9 retido no aeroporto pelos malvados burocratas colombianos. Ou seja, o cara \u00e9 o bem, toda hora, em todos os sentidos. A cena do gatinho \u00e9 a mais apelativa nesse sentido.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Para dar credibilidade \u00e0 sua narra\u00e7\u00e3o, Murphy \u00e9 apresentado como um sujeito \u00edntegro. Nenhum detalhe permite ao espectador pens\u00e1-lo de forma diferente. Ningu\u00e9m sente empatia por uma institui\u00e7\u00e3o como o DEA, ou por um Estado, como os Estados Unidos. Mas o espectador deve sentir empatia por Steve Murphy, que ali funciona como a correia de transmiss\u00e3o de valores morais superiores, conectando os atos mais \u00edntimos do personagem \u00e0 pol\u00edtica externa norte-americana. O roteirista \u00e9 de uma fidelidade canina \u00e0 narrativa da benevol\u00eancia norte-americana, compar\u00e1vel \u00e0quela que o sic\u00e1rio Poison dedica a Pablo Escobar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Steve Murphy n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o agente do DEA mais \u00edntegro, incorrupt\u00edvel, inteligente e corajoso, mas \u00e9 tamb\u00e9m um cara que o espectador m\u00e9dio gostaria de apresentar \u00e0 pr\u00f3pria filha, ele \u00e9 belo, recatado e do lar. Steve Murphy fica se sentindo mal por ter atirado e matado um traficante em fuga quando ainda atuava em Miami. Steve age por um dever maior, enfrentar a coca\u00edna que invade os EUA, como outrora seu pai fez na II Guerra quando invadiram Pearl Harbor. Steve salva um beb\u00ea que seria morto por um sic\u00e1rio e o adota. Steve recrimina o policial que tortura. At\u00e9 a mulher de Steve \u00e9 uma santa. N\u00e3o \u00e9 cleptoman\u00edaca como a mulher do tamb\u00e9m agente da DEA Hank Schrader, de Breaking Bad. A mulher de Steve vai para a Col\u00f4mbia trabalhar como enfermeira num servi\u00e7o m\u00e9dico para a popula\u00e7\u00e3o pobre. Ela aceita a ado\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a encontrada numa favela de Medell\u00edn. Ela protege a guerrilheira desertora.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Vamos ent\u00e3o demonstrar essa constru\u00e7\u00e3o do agente Murphy como o mito da benevol\u00eancia norte-americana. Os EUA s\u00e3o atacados em seu territ\u00f3rio, o narrador diz que a coca\u00edna de Pablo invadiu o pa\u00eds (talvez tenham criado um dispositivo para obrigarem compulsoriamente os americanos a cheirarem o p\u00f3), que entre 1979 e 1984 foram 3.245 pessoas assassinadas em Miami (donde se presume que foram todos homic\u00eddios causados pelo tr\u00e1fico de drogas e, mais ainda, por colombianos). \u201cOs cretinos pisaram em nossa terra\u201d, diria o pai de Steve sobre Pearl Harbor. A frase \u00e9 citada para justificar que a guerra contra a coca\u00edna da Col\u00f4mbia era a sua guerra, seu dever. Interessante formula\u00e7\u00e3o, o pai de Steve teve que ir \u00e0 guerra no Pac\u00edfico para defender sua p\u00e1tria, Steve teve que ir \u00e0 Col\u00f4mbia, pois o consumo de drogas nos EUA seria o equivalente a uma invas\u00e3o japonesa.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o o americano sai do seu conforto para vingar a viola\u00e7\u00e3o da qual foi v\u00edtima. Ele vai at\u00e9 o quinto dos infernos, que no caso fica em algum pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina, para cumprir sua miss\u00e3o. Mas essa defesa dos EUA se transforma num valor a ser difundido, ele vai tamb\u00e9m salvar a Col\u00f4mbia de si mesma. Porque a guerra \u00e0s drogas \u00e9 uma forma de livrar a Col\u00f4mbia de sua sina.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Essa narrativa \u00e9 a reedi\u00e7\u00e3o do fardo do homem branco, aquele poema criado na passagem do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX para mostrar o quanto \u00e9 trabalhoso para os her\u00f3is homens brancos civilizados terem que dominar e explorar os malditos selvagens para o bem dos pr\u00f3prios selvagens, sem nem mesmo esperar destes um agradecimento pelo ato civilizat\u00f3rio que representa o exerc\u00edcio do poder imperial. \u201cTomai o fardo do Homem Branco &#8211; Envia teus melhores filhos \/ V\u00e3o, condenem seus filhos ao ex\u00edlio \/ Para servirem aos seus cativos (&#8230;)\u201d Ali\u00e1s, a narrativa central da guerra \u00e0s drogas pressup\u00f5e essa atualiza\u00e7\u00e3o do discurso neocolonial.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em sua primeira temporada a s\u00e9rie j\u00e1 conseguiu uma indica\u00e7\u00e3o para o Globo de Ouro. A caixa de resson\u00e2ncia dos senhores da guerra \u00e0s drogas est\u00e1 muito bem avaliada pelos pr\u00f3prios senhores. A segunda temporada come\u00e7ou em 2 de setembro de 2016, aguardemos o festival de besteira que ainda teremos que assistir. Mas pior mesmo \u00e9 ter que assistir ao vivo \u00e0 abertura do escrit\u00f3rio da DEA no Rio de Janeiro, a convite do pr\u00f3prio secret\u00e1rio de seguran\u00e7a, dois meses depois da estreia da s\u00e9rie no Netflix e do enorme sucesso obtido no Brasil. Nenhuma campanha publicit\u00e1ria seria t\u00e3o eficiente para a DEA quanto a s\u00e9rie Narcos.<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><i><b>Licio Caetano do Rego Monteiro<\/b><\/i> \u00e9&nbsp;<span style=\"text-align: right;\">Professor Adjunto do Departamento de Geografia e Pol\u00edticas P\u00fablicas (UFF\/Angra)<\/span><\/p>\n<div align=\"right\" style=\"text-align: right;\"><o:p><\/o:p><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Licio Caetano do Rego Monteiro Cartazes da s\u00e9rie Narcos, da Netflix.Fonte: CineComPipoca<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[654],"tags":[],"class_list":["post-1726","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume3"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1726","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1726"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1726\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2190,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1726\/revisions\/2190"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}