{"id":1747,"date":"2016-03-07T10:31:00","date_gmt":"2016-03-07T13:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1747"},"modified":"2024-03-27T17:54:35","modified_gmt":"2024-03-27T20:54:35","slug":"espacos-sobre-a-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1747","title":{"rendered":"Espa\u00e7os sobre a mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<div style=\"clear: both; text-align: justify;\">Por Julia Monteath Fran\u00e7a<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tema f\u00e1cil de se tratar ou mesmo definir. Consciente ou inconscientemente, a forma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o geralmente implica a formula\u00e7\u00e3o de um ide\u00e1rio nacional que precisa ser permanentemente reformulado e adaptado \u00e0s viv\u00eancias e experi\u00eancias do grupo a que se reporta. Um elemento fundamental para esta a imagem que a na\u00e7\u00e3o faz de si mesma \u00e9 a mem\u00f3ria nacional, associada \u00e0 autoimagem dominante em cada per\u00edodo da hist\u00f3ria nacional. A no\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria, que muitas vezes nos remeta \u00e0 ideia de lembran\u00e7a, passa necessariamente pela constru\u00e7\u00e3o do esquecimento \u2013 esquecimento este que recorrentemente recai sobre o campo pol\u00edtico.<br \/>\n<a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<p>Toda e qualquer sociedade, ao selecionar aquilo que acredita valer a pena lembrar-se e, ao mesmo tempo, aquilo de que acredita ser melhor esquecer, estabelece uma rela\u00e7\u00e3o com seu passado a partir da qual este se reconstr\u00f3i e passa a afetar ativamente o processo de (re)formula\u00e7\u00e3o de sua identidade, bem como as formas de conduta da popula\u00e7\u00e3o. Assim, a constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva, ou mem\u00f3ria social, de certa forma tamb\u00e9m influencia a rela\u00e7\u00e3o da sociedade com o futuro. No entanto, este processo de constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser visto como uma repeti\u00e7\u00e3o exata do passado, mas sim como uma permanente reconstru\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias vividas que se d\u00e1 a partir da intera\u00e7\u00e3o dos atores sociais envolvidos e que depende de diversos fatores para acontecer. A cria\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria social \u00e9 uma importante parte do processo de constru\u00e7\u00e3o da identidade nacional, \u00e9 ela que determina a percep\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica nacional e dos objetivos pol\u00edticos a longo prazo e os atores sociais, no seu conjunto, aprendem com essas recorda\u00e7\u00f5es (DUSSEL, FINOCCHIO e GOJMAN, 2006).<\/p>\n<p>Um momento na hist\u00f3ria das experi\u00eancias de algumas na\u00e7\u00f5es em que este ponto \u00e9 facilmente percebido \u00e9 o da transi\u00e7\u00e3o de regimes autorit\u00e1rios para a democracia. Um dos temas mais importantes neste momento espec\u00edfico, que envolve n\u00e3o apenas quest\u00f5es pol\u00edticas mas tamb\u00e9m \u00e9ticas, \u00e9 o de como lidar com viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos cometidas por governos autorit\u00e1rios. As solu\u00e7\u00f5es para este impasse variam de Estado para Estado: podem ser encontradas na anistia e nos perd\u00f5es, em tribunais de concilia\u00e7\u00e3o ou, ainda, no julgamento dos acusados e das institui\u00e7\u00f5es estatais envolvidas na repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Deste modo, \u00e9 crucial entender como a popula\u00e7\u00e3o vai lidar com a elite do regime anterior, especificamente no que diz respeito \u00e0s viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos cometidas durante este regime. Neste sentido, \u00e9 importante perceber, por exemplo, se a transi\u00e7\u00e3o resultou da derrubada do regime, como foi o caso da Argentina, ou se ela foi negociada entre uma elite democr\u00e1tica e as for\u00e7as do antigo regime, como no caso da \u00c1frica do Sul [1]. A partir da rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7a entre os agentes sociais a transi\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ganhar forma e a de fato se concretizar. Para perceber tal mudan\u00e7a, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio analisar em que medida as pol\u00edticas de \u201cverdade e justi\u00e7a\u201d se converteram em elementos centrais das transi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Muitos s\u00e3o os fatores que devem ser levados em considera\u00e7\u00e3o ao se analisar a constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria nacional. A forma com que cada pa\u00eds resolve lidar com o seu passado \u00e9 condicionada em grande medida por suas experi\u00eancias e mem\u00f3rias de acontecimentos passados, tanto de um passado recente como de um passado mais long\u00ednquo. Al\u00e9m destes, outros elementos tamb\u00e9m determinam a forma como as novas democracias enfrentam seus passados autorit\u00e1rios e, mais concretamente, as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos como, por exemplo, o contexto internacional em que a transi\u00e7\u00e3o se insere. \u00c9 justamente por ser t\u00e3o peculiar de um pa\u00eds tais experi\u00eancias que cada qual acha sua pr\u00f3pria solu\u00e7\u00e3o, sendo a transi\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica de cada sociedade.<\/p>\n<p>Tanto a Argentina quanto a \u00c1frica do Sul possuem caracter\u00edsticas hist\u00f3ricas e sociais bastante distintas, o que levou a processos tamb\u00e9m distintos de transi\u00e7\u00e3o. Mas, em ambos os casos, a forma como esta constru\u00e7\u00e3o \u00e9 feita, influencia diretamente na forma como a democracia vai ser constru\u00edda em cada pa\u00eds. Da mesma forma, ela tamb\u00e9m determina o processo de constru\u00e7\u00e3o de identidade nacional que, por sua vez, influencia diretamente a forma como a sociedade vai lidar com pol\u00edtica nacional no futuro. Por isso \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia se pensar na mem\u00f3ria nacional de uma sociedade e na maneira como ela foi constru\u00edda para se entender a rela\u00e7\u00e3o deste povo com seu passado e com seu presente, bem como as suas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas presentes e futuras. Neste sentido, pensar em \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 importante para entender como se constituem as diferentes tentativas de dar sentido ao passado a partir do presente, reelaborando-o constantemente, com uma inevit\u00e1vel proje\u00e7\u00e3o para o futuro.<\/p>\n<p>Nestes casos, \u00e9 justamente por ser uma situa\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a, de ruptura com seu passado, que a sociedade se v\u00ea obrigada a lidar com a realidade autorit\u00e1ria do momento anterior de modo que esta possa auxiliar na constru\u00e7\u00e3o de um novo regime, um regime democr\u00e1tico. No entanto, n\u00e3o devemos esquecer, a mem\u00f3ria social \u00e9 constru\u00edda todo dia e n\u00e3o \u00e9 exclusivo de novas democracias.<\/p>\n<p>Nota<\/p>\n<p>[1] Os exemplos da Argentina e da \u00c1frica do Sul s\u00e3o aqui mencionados por representarem duas formas distintas de lidar com a mem\u00f3ria de um passado autorit\u00e1rio e repressivo na transi\u00e7\u00e3o para um regime democr\u00e1tico. Tanto em um quanto no outro caso, apesar de servir a prop\u00f3sitos diferentes, a verdade \u00e9 tida como uma condi\u00e7\u00e3o fundamental para a transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancia<\/b><br \/>\nDUSSEL, I.; FINOCCHIO, S.; GOJMAN, S. (2006) Haciendo memoria en el pa\u00eds de nunca m\u00e1s. 2\u00aa ed. Buenos Aires: Eudeba.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Julia Monteath Fran\u00e7a Na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tema f\u00e1cil de se tratar ou<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[654],"tags":[],"class_list":["post-1747","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume3"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1747","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1747"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1747\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3076,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1747\/revisions\/3076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1747"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1747"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1747"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}