{"id":1755,"date":"2015-12-07T09:09:00","date_gmt":"2015-12-07T11:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1755"},"modified":"2024-03-27T17:52:35","modified_gmt":"2024-03-27T20:52:35","slug":"o-poder-ocidental-o-fundamentalismo-religioso-e-as-raizes-dos-ataques-de-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1755","title":{"rendered":"O Poder Ocidental, o Fundamentalismo Religioso e as Ra\u00edzes dos Ataques de Paris"},"content":{"rendered":"<p>Por Ricardo Zort\u00e9a Vieira<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">No dia 13 de novembro \u00faltimo, terroristas isl\u00e2micos atacaram Paris. Apesar do ineditismo da viol\u00eancia islamita em solo franc\u00eas, do ponto de vista ocidental o mais assustador nos ataques n\u00e3o foi propriamente a sua letalidade, mas a sua autoria: O Estado Isl\u00e2mico, tido como uma amea\u00e7a cr\u00edtica pelo seu fundamentalismo religioso, e, sobretudo, pelo seu car\u00e1ter territorial e expansionista. O ISIS nega a no\u00e7\u00e3o ocidental de fronteiras e soberanias nacionais, ao inv\u00e9s disso adotando uma vis\u00e3o pr\u00e9-vestfaliana de autoridade universal baseada em princ\u00edpios \u00e9ticos e religiosos. De fato, ainda que o Estado Isl\u00e2mico controle hoje um territ\u00f3rio cont\u00edguo no Iraque e S\u00edria, ele j\u00e1 \u00e9 o detentor da lealdade de organiza\u00e7\u00f5es territoriais na L\u00edbia e I\u00eamen, e de outras organiza\u00e7\u00f5es islamitas na Pen\u00ednsula do Sinai e na Nig\u00e9ria. O expansionismo do ISIS parece assim reviver o medo de um retorno de um grande califado isl\u00e2mico pr\u00e9-moderno e de um confronto de civiliza\u00e7\u00f5es. Entretanto, apesar dos medos que se afloram ap\u00f3s os atentados de Paris, o ISIS n\u00e3o \u00e9 propriamente o despertar da \u201calma isl\u00e2mica\u201d submersa pela hegemonia do Ocidente e das cren\u00e7as modernas, mas a expans\u00e3o de uma ideologia fundamentalista religiosa que somente pode ter lugar devido a situa\u00e7\u00e3o criada por um s\u00e9culo de proje\u00e7\u00e3o do poder ocidental no Oriente M\u00e9dio.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a name=\"more\"><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A ideologia do ISIS \u00e9 o Wahhabismo, uma interpreta\u00e7\u00e3o fundamentalista do islamismo sunita primeiro formulada por Muhammad ibn Abd al-Wahhab, um estudioso nascido no pequeno vilarejo de Uyayna, no centro da pen\u00ednsula Ar\u00e1bica, em 1708. O Wahhabismo deixou de ser uma pequena seita marginal e adquiriu import\u00e2ncia quando Al-Wahhab se aliou ao chefe tribal Muhammad ibn Saud, que passou a utilizar a ideologia e a sua no\u00e7\u00e3o de Jihad, ou guerra santa, para justificar e energizar o seu movimento expansivo na Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica, que daria origem ao Primeiro Estado Saudita. Entre 1811 e 1818 os sauditas e seus aliados wahhabis atacaram as possess\u00f5es do Imp\u00e9rio Otomano na S\u00edria, Iraque e sobretudo no Hejaz, regi\u00e3o oeste da Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica onde se encontram as cidades sagradas de Meca e Medina. Nesse conflito, contudo, os sauditas foram derrotados pelos Otomanos e seus aliados Eg\u00edpcios, tiveram seu Estado destru\u00eddo, e assim a influ\u00eancia da sua vers\u00e3o radical do Isl\u00e3 ficou restrita \u00e0s regi\u00f5es perif\u00e9ricas da pen\u00ednsula por todo o restante do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar na I Guerra Mundial, quando o Reino Unido resolveu se aliar \u00e0s tribos \u00e1rabes contra os turcos otomanos. Ap\u00f3s o conflito, Londres e Paris se encarregaram de destruir o Imp\u00e9rio Otomano, removendo o maior obst\u00e1culo para que os Sauds e seus aliados Wahhabis finalmente lograssem a conquista do Hejaz e assim a guarita das cidades sagradas de Meca e Medina. Logo depois, nos anos 1920 e 1930, os Sauds, com ajuda brit\u00e2nica e americana, e se apoiando na mil\u00edcia Wahhabi Ikhwan, estruturaram o seu Segundo Estado, a Ar\u00e1bia Saudita que conhecemos hoje. No processo, os Al-Sauds acabaram por entrar em conflito com alguns elementos dos Ikhwan que haviam se convertido em amea\u00e7a \u00e0 alian\u00e7a com Londres ao atacarem possess\u00f5es inglesas no Iraque. Entretanto, ao inv\u00e9s de eliminar a mil\u00edcia, o rei Abdulaziz Ibn Saud a transformou na atual Guarda Nacional Saudita. Al\u00e9m disso, os wahhabis receberam em troca do apoio aos Sauds o controle sobre as institui\u00e7\u00f5es legais e religiosas do novo Estado saudita. Esse acordo dura at\u00e9 hoje, com os descendentes de Muhammad ibn Abd al-Wahhab, a fam\u00edlia Al-Shaykh, detendo o cargo de Grande Mufti, a maior autoridade religiosa do pa\u00eds, e tendo status somente inferior ao pr\u00f3prio cl\u00e3 dos Saud.<\/p>\n<p>No p\u00f3s-II Guerra, a Ar\u00e1bia Saudita passou a desempenhar o papel de aliada chave dos EUA no Oriente M\u00e9dio, sendo fundamental para a conten\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia sovi\u00e9tica na regi\u00e3o, para a reestrutura\u00e7\u00e3o dos setores de energia e finan\u00e7a global nos anos 1970, e para o combate de advers\u00e1rios locais do poder americano. Em todas essas empreitadas, a alian\u00e7a Saudi-americana em v\u00e1rios momentos se op\u00f4s e ativamente buscou neutralizar e destruir as v\u00e1rias for\u00e7as progressistas, moderadas ou laicas que apareciam na regi\u00e3o. Por um lado, esses ataques aos governos progressistas foram motivados porque eles eram aliados efetivos ou potenciais da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Por outro, porque contavam com programas nacionalistas para garantir sua base de apoio dom\u00e9stica e que assim violavam os interesses das empresas ocidentais, ou porque demonstravam ter maior capacidade de acumular e gerir recursos b\u00e9licos e econ\u00f4micos, se convertendo assim em potenciais \u201chegemons regionais\u201d sob a \u00f3tica de Washington.<\/p>\n<p>O padr\u00e3o de boicote e destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de governos progressistas no Oriente M\u00e9dio pelos EUA e Ar\u00e1bia Saudita acabou abrindo caminho para a expans\u00e3o do fundamentalismo religioso direta e indiretamente. Diretamente, a Ar\u00e1bia Saudita patrocinou e financiou diversos movimentos fundamentalistas Wahhabis, como a pr\u00f3pria Al-Qaeda do milion\u00e1rio saudita Osama Bin-Laden. De fato, a estrat\u00e9gia saudita, pelo menos desde os anos 1970, foi utilizar o Wahhabismo como uma esp\u00e9cie de escudo ideol\u00f3gico contra a influ\u00eancia de advers\u00e1rios geopol\u00edticos extra-regionais, como a URSS, e regionais, sobretudo o Ir\u00e3. Indiretamente, o boicote americano com apoio saudita aos governos progressistas com forte base popular levou a sua deslegitima\u00e7\u00e3o e substitui\u00e7\u00e3o por governos islamitas. Esse processo \u00e9 bem ilustrado pelo caso iraniano: Em 1953, EUA e Reino Unido derrubaram na Opera\u00e7\u00e3o Ajax o governo progressista de Mohammed Mossadegh, o substituindo pelo regime do X\u00e1 Mohammed Reza Pahlavi. Em 1979, o regime ditatorial e brutalmente repressivo do X\u00e1, tendo sua base social completamente erodida, foi rapidamente derrubado pela Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica do Aiatol\u00e1 Khomeini.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 25, as a\u00e7\u00f5es da alian\u00e7a Saudi-americana, e seus efeitos, tem se intensificado. Assim, os EUA e Ar\u00e1bia Saudita derrotaram militarmente o Iraque de Saddam Hussein na Guerra do Golfo. Depois, Washington submeteu Bagd\u00e1 a 12 anos de embargo econ\u00f4mico, para finalmente invadir o pa\u00eds e destruir o regime do Partido Baath em 2003. A Invas\u00e3o do Iraque, al\u00e9m de eliminar um dos \u00faltimos dos regimes laicos e modernizadores do Oriente M\u00e9dio, abriu um novo campo para a disputa geopol\u00edtica entre as duas pot\u00eancias isl\u00e2micas da regi\u00e3o, o Ir\u00e3 e a Ar\u00e1bia Saudita. Nessa disputa, o Ir\u00e3 armou e apoiou as mil\u00edcias xiitas do Sul do Iraque, e finalmente logrou al\u00e7ar o pol\u00edtico xiita Nouri Al-Maliki ao poder em Bagd\u00e1.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o de Maliki, juntamente com as alian\u00e7as com Bashar al-Assad na S\u00edria e com o Hizbollah no L\u00edbano, gerou uma situa\u00e7\u00e3o de relativa proemin\u00eancia regional iraniana sobre os sauditas. A Ar\u00e1bia Saudita buscou recuperar o terreno perdido, ent\u00e3o, refor\u00e7ando sua tradicional estrat\u00e9gia do \u201cescudo ideol\u00f3gico\u201d wahhabi, e apoiando a dissemina\u00e7\u00e3o dessa ideologia na s\u00edria de Bashar Al-Assad e no Norte do Iraque, onde uma popula\u00e7\u00e3o sunita se encontrava marginalizada com a destitui\u00e7\u00e3o do Partido Baath e a ascens\u00e3o do governo xiita de Maliki. O ISIS \u00e9 um resultado dessas iniciativas de \u201cguerra ideol\u00f3gica\u201d colocadas em pr\u00e1tica pela Ar\u00e1bia Saudita, iniciativas que por sua vez s\u00e3o apenas um \u00faltimo cap\u00edtulo na estrat\u00e9gia de longo prazo dos sauditas de buscar seguran\u00e7a, interna e externa, na ideologia Wahhabi e na neutraliza\u00e7\u00e3o dos governos moderados e nacionalistas no Oriente M\u00e9dio, em estreita colabora\u00e7\u00e3o com as pot\u00eancias ocidentais e os EUA.<\/p>\n<p>Dadas as origens de longo prazo do ISIS e da atual situa\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio, fica claro que uma solu\u00e7\u00e3o somente poderia advir de uma ruptura com o padr\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o ocidental na regi\u00e3o. Em outras palavras, os EUA e as pot\u00eancias ocidentais precisam de algum modo romper com a sua tradi\u00e7\u00e3o de longa data de se aliar com regimes ultraconservadores dentro do Oriente M\u00e9dio. Uma ruptura desse tipo, entretanto, dificilmente viria de Washington. Isso porque os EUA temem hoje, como sempre temeram no passado, que governos modernizadores possam se converter em pot\u00eancias regionais que limitem a proje\u00e7\u00e3o e o acesso do poder americano em termos locais, e se aliem a Grandes Pot\u00eancias rivais dos EUA, como a R\u00fassia e a China, ao n\u00edvel global. Em resumo, do ponto de vista americano, segue sendo mais seguro apoiar regimes tradicionais altamente dependentes, em tecnologia, mercados, financiamento e assist\u00eancia militar, como o s\u00e3o a Ar\u00e1bia Saudita e os emirados do Golfo, apesar dos efeitos colaterais que essa pol\u00edtica acarreta, entre eles o pr\u00f3prio terrorismo isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>Apesar da posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria dos EUA, somente se um dos pa\u00edses da regi\u00e3o lograr adquirir os meios de poder necess\u00e1rios para regular ou eliminar as proje\u00e7\u00f5es de poder extra-regionais que a atual din\u00e2mica de disputas geopol\u00edticas entre os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e entre as pot\u00eancias globais, e, portanto, os est\u00edmulos ao radicalismo religioso, cessar\u00e3o. Somente assim o combust\u00edvel representado pela destrui\u00e7\u00e3o da guerra e da dissemina\u00e7\u00e3o do discurso fundamentalista pelos aliados do ocidente na regi\u00e3o vai ser cortado. O surgimento dessa pot\u00eancia regional, capaz de dissuadir ou pelo menos negociar em uma posi\u00e7\u00e3o de for\u00e7a perante as Grandes Pot\u00eancias, se algum dia se materializar, depender\u00e1 de um processo longo (que j\u00e1 pode ter se iniciado), e das disputas pelo poder entre as pr\u00f3prias Grandes Pot\u00eancias. De qualquer forma, est\u00e1 claro que \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o a amplia\u00e7\u00e3o, do poder americano ou das pot\u00eancias ocidentais sobre a regi\u00e3o a \u00fanica chance de um Oriente M\u00e9dio livre do barbarismo fundamentalista.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ricardo Zort\u00e9a Vieira No dia 13 de novembro \u00faltimo, terroristas isl\u00e2micos atacaram<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[653],"tags":[],"class_list":["post-1755","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1755"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1755\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3068,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1755\/revisions\/3068"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}