{"id":1766,"date":"2015-08-20T18:04:00","date_gmt":"2015-08-20T21:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1766"},"modified":"2024-03-27T17:49:53","modified_gmt":"2024-03-27T20:49:53","slug":"na-hora-da-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1766","title":{"rendered":"Na hora da crise"},"content":{"rendered":"<p>Por Tiago Nasser Appel<br \/>\nPublicado originalmente no site Carta Maior de 19\/08\/2015. <a href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Cultura\/Na-hora-da-crise\/39\/34286\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Acesse o link aqui.<\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nO livro, \u201cHist\u00f3ria, Estrat\u00e9gia e Desenvolvimento: para uma geopol\u00edtica do capitalismo\u201d, do cientista pol\u00edtico Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori, cai como uma luva no meio da crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica vivida pela sociedade brasileira, nesta segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI. Mais do que isto, o livro de Fiori: reanima o mundo das ideias e da esquerda brasileira numa \u00e9poca em que esta se encontra tomada por um verdadeiro marasmo intelectual, combalida pelo estadismo t\u00edmido do seu principal representante no poder e amedrontada pelo ressurgimento do fascismo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas Fiori \u00e9 hoje muito mais do que um representante da intelectualidade brasileira de esquerda, e n\u00e3o digo isso para desmerecer os esfor\u00e7os de um sem-n\u00famero de cr\u00edticos que escrevem regularmente nos (n\u00e3o muitos) peri\u00f3dicos de esquerda que desafiam a mediocridade atual do jornalismo brasileiro. Digo isso porque acredito que o pensador ga\u00facho desenvolveu nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas \u2013 e nesse sentido Hist\u00f3ria, Estrat\u00e9gia e Desenvolvimento \u00e9 apenas a fotografia atual de uma pesquisa em curso que remonta \u00e0 d\u00e9cada de 1980 \u2013 uma verdadeira teoria da hist\u00f3ria, mesmo que o pr\u00f3prio Fiori, sempre comedido e despretensioso, se recuse em concordar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a name=\"more\"><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 pe\u00e7o perd\u00e3o antecipada aos historiadores e fil\u00f3sofos da ci\u00eancia pelo uso livre da express\u00e3o \u201cteoria da hist\u00f3ria\u201d. Com ela queremos dizer que Fiori \u2013 na veia de mestres como Marx, Weber, Tocqueville e, mais recentemente, Wallerstein e Michael Mann \u2013 desenvolveu uma meta-narrativa pr\u00f3pria para a interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Uma meta-narrativa \u00e9, literalmente, uma narrativa contida al\u00e9m da pr\u00f3pria narrativa que a originou. A teoria marxista da luta de classes, por exemplo, foi escrita com base em observa\u00e7\u00f5es das disputas pol\u00edticas pelo excedente socioecon\u00f4mico produzido pelas sociedades industriais nonocentistas, disputas estas em que figuravam duas classes centrais: a burguesia e o proletariado. Mas a narrativa da luta de classes foi estendida aos s\u00e9culos precedentes porque, como diz um amigo meu, n\u00e3o se explica o s\u00e9culo XIX a partir do s\u00e9culo XIX. Isto \u00e9, se quisermos fazer mais do que an\u00e1lise de conjuntura \u2013 novamente, sem desmerecer a an\u00e1lise de conjuntura \u2013 precisamos identificar padr\u00f5es e recorr\u00eancias que nos possam ser \u00fateis para explicar e descortinar o maior n\u00famero poss\u00edvel de processos hist\u00f3ricos. Neste sentido, meta-narrativas inovadoras s\u00e3o aquelas que, ao identificar novos padr\u00f5es na hist\u00f3ria, isto \u00e9, ao nos oferecer novos instrumentos para reler a hist\u00f3ria, nos permitem extrair li\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas para o presente.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A teoria do Poder Global de Fiori \u00e9, a meu ver, uma das meta-narrativas de vanguarda da atualidade. Como todas as outras, ela tamb\u00e9m se baseia numa narrativa original que, ali\u00e1s, ainda preenche a maior parte das p\u00e1ginas dos escritos do autor: o surgimento e desenvolvimento do sistema interestatal capitalista. Em sua narrativa do funcionamento do sistema, Fiori identificou as seguintes recorr\u00eancias gerais (2014: 36-45): (1) nenhum caso de desenvolvimento econ\u00f4mico nacional bem-sucedido pode ser explicado a partir de fatores exclusivamente end\u00f3genos, no sentido de que o desenvolvimento sempre obedeceu a estrat\u00e9gias desenhadas em resposta a grandes desafios sist\u00eamicos, sobretudo geopol\u00edticos; (2) por conseguinte, todos os pa\u00edses \u201cvitoriosos\u201d se desenvolveram dentro de tabuleiros geopol\u00edticos altamente competitivos e, por isso, compartilharam um sentimento constante de cerco e amea\u00e7a externa, amea\u00e7a esta que ocupou lugar central no desenho dos objetivos estrat\u00e9gicos de suas pol\u00edticas de desenvolvimento e industrializa\u00e7\u00e3o; (3) mesmo o \u201csucesso\u201d dos pequenos pa\u00edses desenvolvidos, que enriqueceram sem tornar-se grandes pot\u00eancias, n\u00e3o pode ser explicado sem que se leve em conta a sua posi\u00e7\u00e3o territorial decisiva dentro da competi\u00e7\u00e3o das grandes pot\u00eancias, posi\u00e7\u00e3o esta que lhes permitiu abdicar de sua autonomia em mat\u00e9ria de defesa e pol\u00edtica externa em troca do acesso privilegiado aos mercados e capitais da pot\u00eancia protetora; (4) todos os pa\u00edses que se transformaram em grandes pot\u00eancias capitalistas enfrentaram, no momento de sua arrancada, rebeli\u00f5es sociais, \u201crevolu\u00e7\u00f5es burguesas\u201d ou guerras civis que estiveram invariavelmente associadas \u00e0 amea\u00e7a de invas\u00e3o externa; (5) neste sentido, essas rebeli\u00f5es\/revolu\u00e7\u00f5es foram cruciais para a cria\u00e7\u00e3o de um n\u00facleo estrat\u00e9gico unido e coeso dentro do pr\u00f3prio Estado, n\u00facleo este que conseguiu sustentar objetivos estrat\u00e9gicos ao longo do tempo e apesar de eventuais mudan\u00e7as de governo ou regime pol\u00edtico; (6) todas as pot\u00eancias foram expansivas desde o momento da consolida\u00e7\u00e3o de seus centros de poder internos e utilizaram suas economias nacionais como instrumento de poder a servi\u00e7o de suas estrat\u00e9gias imperialistas, no sentido de que a lideran\u00e7a do capitalismo sempre esteve nas m\u00e3os dos capitais privados e das economias que, apoiados no poder internacional de seus Estados, conseguiram operar na contram\u00e3o das leis de mercado; (7) as grandes pot\u00eancias vencedoras sempre impuseram as pr\u00f3prias moedas como moedas de refer\u00eancia, que nunca foram escolha dos mercados e sim subproduto da guerra e da vit\u00f3ria da superpot\u00eancia; (8) os t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica das grandes pot\u00eancias sempre tiveram maior credibilidade do que os t\u00edtulos dos outros Estados n\u00e3o porque elas seguiram os preceitos liberais da responsabilidade fiscal \u2013 elas desrespeitaram sistematicamente os preceitos da ortodoxia econ\u00f4mica em nome da luta por mais poder \u2013, mas porque a expans\u00e3o cont\u00ednua dos seus territ\u00f3rios econ\u00f4micos supranacionais e zonas de influ\u00eancia, juntamente com a imposi\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria moeda, lhes deu condi\u00e7\u00f5es infinitamente superiores de arcar com seus \u201ccompromissos\u201d financeiros.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">As linhas acima narram uma clara anteced\u00eancia temporal e l\u00f3gica do mundo do poder e da conquista sobre o mundo dos mercados e da economia. O privil\u00e9gio dado \u00e0 guerra tamb\u00e9m fez Fiori encontrar as origens do sistema interestatal capitalista em \u201cexplos\u00f5es expansivas\u201d no tabuleiro geopol\u00edtico Europeu, entre aproximadamente 1150 e 1650. Neste per\u00edodo as guerras europeias transformaram-se numa atividade cont\u00ednua cuja enorme press\u00e3o competitiva tornou imperiosa a necessidade de se obter mais receita e recursos materiais e humanos, at\u00e9 o momento em que a repeti\u00e7\u00e3o permanente desse est\u00edmulo autorit\u00e1rio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de excedente socioecon\u00f4mico marcou uma ruptura original na Europa, o nascimento das primeiras Economias-Nacionais. Com seu nascimento, a rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica entre o conflito e o desenvolvimento cresceu exponencialmente \u00e0 medida que as necessidades criadas pela guerra excederam a capacidade de tributa\u00e7\u00e3o e levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de sistemas nacionais de cr\u00e9dito. Estes sistemas, baseados em \u00faltima inst\u00e2ncia na d\u00edvida p\u00fablica dos Estados nacionais, foram desde sempre e s\u00e3o at\u00e9 hoje o principal espa\u00e7o de acumula\u00e7\u00e3o de capital, de acumula\u00e7\u00e3o do dinheiro pelo dinheiro.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esses <i>insights<\/i> apontam para uma clara inova\u00e7\u00e3o te\u00f3rica frente aos cl\u00e1ssicos estudos da rela\u00e7\u00e3o entre a guerra e o capitalismo. Autores como Tilly, Parker, Kennedy e McNeill j\u00e1 mostraram h\u00e1 tempo como a guerra e a necessidade de receita for\u00e7aram as nascentes economias europeias a se burocratizar e modernizar, e como esse processo criou a infraestrutura social que possibilitou a ascens\u00e3o do capitalismo. No entanto, eles n\u00e3o criaram uma meta-narrativa t\u00e3o poderosa (t\u00e3o geral) porque aceitaram implicitamente que a maturidade do capitalismo assinalava uma mudan\u00e7a qualitativa radical na rela\u00e7\u00e3o entre conflito e desenvolvimento, como se o mundo do capital tivesse se autonomizado do mundo do poder.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a narrativa de Fiori nos convence de que o desenvolvimento dos mercados privados de cr\u00e9dito e dos capitais nacionais n\u00e3o pode ser desvinculado do movimento de expans\u00e3o e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, internacionaliza\u00e7\u00e3o dos Estados. Esta depend\u00eancia do capitalismo para com o mundo do poder n\u00e3o \u00e9 apenas evidenciada \u2013 como aceitam muitos economistas \u2013 pelos in\u00fameros exemplos de crises econ\u00f4micas em que o \u201ccapitalismo\u201d foi resgatado pela interven\u00e7\u00e3o do Estado, mas principalmente pelo car\u00e1ter necessariamente nacional do capital.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em Hist\u00f3ria, Estrat\u00e9gia e Desenvolvimento, Fiori escancara a ingenuidade daqueles \u2013 tanto marxistas como liberais \u2013 que trabalham com categorias abstratas de capital, como se algum capital pudesse ser acumulado fora do territ\u00f3rio econ\u00f4mico criado e sustentado pelo poder dos Estados. Nesse sentido, a suposta internacionaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo que presenciamos nos \u00faltimos s\u00e9culos \u00e9, no fundo, resultado da progressiva amplia\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios econ\u00f4micos supranacionais de determinadas pot\u00eancias ganhadoras e, por isso, \u00e9 sempre \u2013 paradoxalmente \u2013 a internacionaliza\u00e7\u00e3o de determinado capital, com nome, sobrenome e nacionalidade particulares, e denominado, igualmente, em uma moeda particular, nacional, cuja internacionaliza\u00e7\u00e3o acompanha pari passu a expans\u00e3o do poder do Estado soberano emissor.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que neste sistema \u00e9 logicamente imposs\u00edvel que um pa\u00eds se desenvolva sem conquistar posi\u00e7\u00f5es monop\u00f3licas que s\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, escassas e desiguais (s\u00e3o parte do territ\u00f3rio econ\u00f4mico de determinada pot\u00eancia). Diz Fiori (p. 28): \u201cn\u00e3o h\u00e1 como uma economia nacional se expandir simplesmente por meio do jogo das trocas, nem h\u00e1 como uma economia capitalista se desenvolver de forma ampliada e acelerada sem que ela esteja associada a um Estado com projeto de acumula\u00e7\u00e3o de poder e de transforma\u00e7\u00e3o ou modifica\u00e7\u00e3o da ordem internacional estabelecida\u201d. E, como a hist\u00f3ria nos mostrou v\u00e1rias vezes, \u00e9 claro que as pot\u00eancias que j\u00e1 ganharam v\u00e3o lutar com unhas e dentes para proteger as suas posi\u00e7\u00f5es monop\u00f3licas das pot\u00eancias ascendentes: o pr\u00f3prio discurso liberal \u2013 sempre patrocinado pelas pot\u00eancias ganhadoras \u2013 de que os pa\u00edses podem crescer e se desenvolver pela \u201cvia dos mercados\u201d, sem um projeto ascendente, sempre foi um poderoso instrumento ideol\u00f3gico para manter a periferia do sistema no \u201candar de baixo\u201d, para sorver de antem\u00e3o toda a energia criativa de potenciais desafiadores da ordem estabelecida e faz\u00ea-los aceitar a sua posi\u00e7\u00e3o subalterna no sistema internacional de poder.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas, perguntariam os mais cr\u00edticos, se o desenvolvimento capitalista \u00e9 inteiramente um subproduto da competi\u00e7\u00e3o por poder entre Estados Nacionais, por que os epis\u00f3dios anteriores e extra-europeus de intensa competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica n\u00e3o deram origem a esta ruptura original? A hip\u00f3tese de Fiori \u00e9 que, embora certamente tenha havido outros momentos na hist\u00f3ria de \u201cexplos\u00f5es expansivas\u201d de poder e riqueza, elas n\u00e3o produziram a ruptura para a \u201cmodernidade\u201d porque elas foram mais cedo ou mais tarde abortadas por unifica\u00e7\u00f5es territoriais do tipo imperial (Imp\u00e9rio Romano, Chin\u00eas, Persa, Otomano, Mugal, etc.) que fizeram cessar a competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e, portanto, a energia que faz o sistema dar saltos qualitativos.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 exatamente aqui, friso eu, que encontramos o Fiori mais original, o Fiori que produz teoria da hist\u00f3ria. A tentativa de destrinchar esse \u201csistema de unidades de poder competitivas\u201d necessariamente o levou, cronologicamente falando, para muito antes do capitalismo. Para a meta-narrativa ser geral e consistente, era preciso explicar quando esse sistema original de competi\u00e7\u00e3o por poder, esse prime mover da hist\u00f3ria, produzia as rupturas e quando ele n\u00e3o as produzia. A tentativa de construir essa teoria geral levou o ga\u00facho a desenvolver o que ele mesmo chama de uma metaf\u00edsica do poder, cujas caracter\u00edsticas ele mais uma vez resume no pref\u00e1cio do Hist\u00f3ria, Estrat\u00e9gia e Desenvolvimento.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Num esfor\u00e7o te\u00f3rico interdisciplinar que empresta conceitos da f\u00edsica, da antropologia e da biologia, Fiori desenvolve uma teoria do poder que j\u00e1 seria suficiente para coloc\u00e1-lo ao lado dos grandes mestres aludidos no in\u00edcio dessa resenha. Tal como o conceito de capital de Marx, que parece acometer-se de uma energia irresist\u00edvel que o obriga a se valorizar para continuar existindo, o \u201cpoder\u201d, em Fiori (p. 18-20), \u00e9 fluxo, \u00e9 energia, \u00e9 a\u00e7\u00e3o e movimento. Tal como o capital em Marx, o poder \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o que se constitui e define pela disputa e luta cont\u00ednua pelo pr\u00f3prio poder: ele \u00e9, portanto, (1) limitado \u2013 se fosse absoluto, n\u00e3o haveria competi\u00e7\u00e3o e, portanto, ele n\u00e3o existiria; (2) relativo \u2013 se algum v\u00e9rtice ganha poder, outro necessariamente perde; (3) heteroest\u00e1tico \u2013 qualquer varia\u00e7\u00e3o de poder provoca sempre uma rea\u00e7\u00e3o imediata das partes desfavorecidas, que buscam recompor o \u201cequil\u00edbrio\u201d inicial de poder; (4) expansivo e \u201ctriangular\u201d \u2013 se as rela\u00e7\u00f5es de poder fossem bin\u00e1rias e fechadas sobre si mesmas, transformar-se-iam num jogo de soma zero, por isso a fronteira (o \u201cterceiro\u201d v\u00e9rtice) \u00e9 necess\u00e1ria para exercer uma press\u00e3o competitiva a um sistema que, de outro modo, entraria em equil\u00edbrio e, portanto, em entropia.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Vale a pena dedicar algumas linhas a este quarto ponto, pois os conceitos da termodin\u00e2mica s\u00e3o essenciais para o entendimento da metaf\u00edsica do poder de Fiori. A segunda lei da termodin\u00e2mica diz que a quantidade de entropia (desordem) de um sistema isolado tende a aumentar com o tempo at\u00e9 alcan\u00e7ar o equil\u00edbrio t\u00e9rmico, onde a \u201cdesordem\u201d \u00e9 m\u00e1xima porque n\u00e3o h\u00e1 mais complexidade, onde h\u00e1 apenas um todo homog\u00eaneo. O conceito de desordem parece aqui contra intuitivo, mas um exemplo simples ir\u00e1 clare\u00e1-lo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Se despejarmos a \u00e1gua de uma chaleira aquecida numa panela com \u00e1gua fria, a maior energia potencial da \u00e1gua mais quente ir\u00e1 imediatamente se distribuir entre as mol\u00e9culas da \u00e1gua mais fria, at\u00e9 o equil\u00edbrio termodin\u00e2mico ser alcan\u00e7ado. Quando isto acontece, perdemos complexidade (ordem) porque \u201cperdemos\u201d energia para sempre, isto \u00e9, o calor, ap\u00f3s distribu\u00eddo, n\u00e3o est\u00e1 mais dispon\u00edvel para realizar trabalho. A entropia, definida como calor irrecuper\u00e1vel, aumentou.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A analogia com o mundo do poder \u00e9 direta. Enquanto na f\u00edsica o grau de desorganiza\u00e7\u00e3o de um sistema tende a aumentar caso ele n\u00e3o receba est\u00edmulos externos contr\u00e1rios, no mundo do poder as unidades pol\u00edticas tendem a perder dinamismo quando cessa a press\u00e3o externa. O Poder, assim, \u00e9 uma energia que se desenvolve no desequil\u00edbrio, uma energia que desafia a for\u00e7a termodin\u00e2mica que age, quase que instantaneamente, para minimizar ou mesmo dissipar os desequil\u00edbrios. Portanto, se nos \u00faltimos 1000 anos o sistema que se originou na Europa manteve-se em movimento, sem grandes retrocessos ou estagna\u00e7\u00f5es, \u00e9 porque conseguiu manter-se suficientemente competitivo para contrabalan\u00e7ar esta tend\u00eancia natural, \u201cf\u00edsica\u201d, ao equil\u00edbrio.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas engana-se quem acredita que a teoria de Fiori n\u00e3o tem valor heur\u00edstico fora da competi\u00e7\u00e3o entre Estados Nacionais. Ela nos ajuda, por exemplo, a explicar o surgimento dos primeiros Estados, que os antrop\u00f3logos pol\u00edticos admitem ter sido resultado direto do aumento da competi\u00e7\u00e3o territorial entre grupos humanos que foram se sedentarizando ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o Neol\u00edtica (ado\u00e7\u00e3o da agricultura). Mas, principalmente, a teoria de Fiori nos mostra como o conflito entre grupos humanos, uma vez iniciado, cria os seus pr\u00f3prios mecanismos de retroalimenta\u00e7\u00e3o, pois gera dilemas de seguran\u00e7a em que o pr\u00f3prio poder passa a ser a \u201cmoeda de troca\u201d da disputa. Isto \u00e9, embora a competi\u00e7\u00e3o e a guerra se originem inicialmente de um estado fundamental de escassez, a competi\u00e7\u00e3o e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a guerra se alimentam da desconfian\u00e7a e do impulso por poder que elas pr\u00f3prias criam. Quando o \u201coutro\u201d \u00e9 considerado um potencial inimigo, sua pr\u00f3pria exist\u00eancia suscita amea\u00e7a, pois \u201cele\u201d pode um dia atacar. Por isso, devem-se tomar precau\u00e7\u00f5es e aumentar o pr\u00f3prio poder. O problema \u00e9 que isso sempre ser\u00e1 interpretado como uma a\u00e7\u00e3o ofensiva pela outra parte, gerando um cl\u00e1ssico dilema de seguran\u00e7a do qual \u00e9 imposs\u00edvel escapar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Assim, o conflito gera uma acumula\u00e7\u00e3o de poder permanente que em determinadas circunst\u00e2ncias permite grandes rupturas qualitativas, como o surgimento de novas esp\u00e9cies, se recorrermos \u00e0 teoria evolucion\u00e1ria e \u00e0 sociobiologia, de novos tipos de agrupamentos humanos, dos Estados e, mais recentemente, do capitalismo. Mas mesmo no capitalismo, e n\u00e3o poderia ser diferente dado o ponto de partida de Fiori, o poder, por natureza desigual, assim\u00e9trico e relativo, continua sendo a moeda universal mediante a qual todos os outros objetivos (e. g., riqueza) podem ser conquistados.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Embora a obra de Fiori n\u00e3o tenha car\u00e1ter explicitamente normativo, n\u00e3o poder\u00edamos terminar essa resenha sem rascunhar como a teoria da hist\u00f3ria que ele desenvolve pode nos ajudar a reavivar o debate sobre o desenvolvimento. \u00a0Desde 2003 o o governo brasileiro vem sendo conduzido por uma coaliz\u00e3o de for\u00e7as que conseguiu patrocinar um t\u00edmido \u201ccapitalismo de Estado\u201d e uma pol\u00edtica externa relativamente aut\u00f4noma. Mas esta coaliz\u00e3o enfraqueceu-se sobremaneira a partir do momento em que Brasil deixou de contar a seu favor com o boom das commodities da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo, e agora corre o risco de se desintegrar com a debandada do congresso e os ataques di\u00e1rios da m\u00eddia conservadora e ultr-liberal.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esses ataques, no entanto, apenas revelam a cada vez mais importante posi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica do Brasil no novo mapa mundial que est\u00e1 se desenhando. Iniciativas como a Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai e os Bancos de Desenvolvimento dos BRICS apontam para um mundo cada vez mais bipolar, reminiscente da Guerra Fria, e prenhe de oportunidades de alian\u00e7as estrat\u00e9gicas e de desenvolvimento. Este mundo contar\u00e1 com a presen\u00e7a relativa cada vez menor da Europa \u2013 fustigada pela sua crise interna e pelo malogro absoluto de suas guerras civilizacionais na \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio \u2013 e ver\u00e1 regi\u00f5es como o Pac\u00edfico e a Am\u00e9rica do Sul cada vez mais disputadas pelos dois blocos principais de poder que caracterizar\u00e3o as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas: um liderado pelos Estados Unidos e outro liderado pela China.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A Am\u00e9rica do Sul e o Brasil, em particular, ter\u00e3o, portanto, que decidir se perseguem uma estrat\u00e9gia aut\u00f4noma ou se aderem \u00e0s zonas de influ\u00eancia de uma das duas grandes pot\u00eancias. Mas contra toda ideologia, a hist\u00f3ria nos mostra que n\u00e3o \u00e9 principalmente a \u201cescolha\u201d por uma pot\u00eancia particular o que promove o desenvolvimento, mas sim a capacidade de se articular uma estrat\u00e9gia nacional que aproveite as oportunidades e saiba exigir as contrapartidas que os sucessivos quadros geopol\u00edticos oferecem, em menor ou maior grau.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tiago Nasser Appel Publicado originalmente no site Carta Maior de 19\/08\/2015. 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