{"id":1773,"date":"2015-06-29T13:29:00","date_gmt":"2015-06-29T16:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1773"},"modified":"2024-03-27T17:48:32","modified_gmt":"2024-03-27T20:48:32","slug":"guerra-e-paz-na-teoria-do-imperialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1773","title":{"rendered":"Guerra e Paz na Teoria do Imperialismo"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Por: Larissa Rosevics<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A transi\u00e7\u00e3o entre os s\u00e9culos XIX e XX representa um momento decisivo para a constru\u00e7\u00e3o da agenda de debate da Economia Pol\u00edtica Internacional, da qual a Teoria do Imperialismo \u00e9 parte fundamental. Isso se deve ao fato de que, as concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas desenvolvidas, principalmente pelos marxistas, em torno da problem\u00e1tica do Imperialismo t\u00eam, na expans\u00e3o do poder econ\u00f4mico europeu associada \u00e0 expans\u00e3o do poder pol\u00edtico, os elementos explicativos para as rela\u00e7\u00f5es de conflito presentes no sistema interestatal e as contradi\u00e7\u00f5es presentes no pr\u00f3prio capitalismo. Em rela\u00e7\u00e3o ao Imperialismo, as teorias desenvolvidas se prop\u00f5em a dar uma explica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para o expansionismo europeu dos s\u00e9culos XIX e XX e para as guerras imperialistas entre os Estados.<br \/>\n<a name=\"more\"><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O termo ganhou popularidade com o livro \u201cImperialismo: um estudo\u201d de 1902 escrito por John Hobson, um jornalista brit\u00e2nico contratado por um peri\u00f3dico ingl\u00eas para cobrir a Segunda Guerra dos B\u00f4eres na \u00c1frica do Sul. Impressionado com a brutalidade do conflito e com a crise econ\u00f4mica pela qual passava a Inglaterra, como as altas taxas de desemprego, Hobson desenvolveu o seguinte argumento: o Imperialismo seria uma consequ\u00eancia de ajustes desadequados dentro do sistema capitalista, no qual, uma minoria abastada poupa demasiado enquanto uma maioria empobrecida n\u00e3o disp\u00f5e de poder de compra suficiente para consumir todos os frutos da industrializa\u00e7\u00e3o moderna. O \u201cprocesso civilizador\u201d que caberia aos europeus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1frica e a \u00c1sia, seria desviado pela luta entre Estados por territ\u00f3rios e mercado para a comercializa\u00e7\u00e3o de mercadorias advindas dos pa\u00edses industrializados e\/ou para a reprodu\u00e7\u00e3o do capital excedente europeu. Hobson n\u00e3o baseou seu trabalho na teoria marxista para explicar o Imperialismo e sim na observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica da conjuntura hist\u00f3rica que viveu. Contudo, sua obra influenciou diferentes te\u00f3ricos marxistas a debater sobre o fen\u00f4meno.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Marx e Engels tamb\u00e9m n\u00e3o sinalizaram em suas obras o intuito de desenvolver uma teoria explicativa das rela\u00e7\u00f5es entre os Estados, nem do sistema interestatal capitalista (termo este cunhado muitas d\u00e9cadas depois de suas mortes). Em seus textos, o capitalismo \u00e9 apresentado como um sistema econ\u00f4mico em fase de desenvolvimento, de car\u00e1ter expansionista e universalizante, o que significa que o seu alcance tenderia ao n\u00edvel global em que, paulatinamente todas as regi\u00f5es do planeta seriam integradas ao sistema, as suas formas de reprodu\u00e7\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es de poder dele derivadas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria dos s\u00e9culos XIX e XX demonstra que esse processo de expans\u00e3o e universaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo n\u00e3o se deu de maneira simples e pacifica. Te\u00f3ricos marxistas como Rudolf Hilferding, Karl Kautski, Rosa de Luxemburgo, Nikolai Bukh\u00e1rin e Lenin buscaram explicar esse movimento expansionista do capital e as guerras dele derivadas, atrav\u00e9s da conceitua\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno do Imperialismo. Marcos del Roio distingue os te\u00f3ricos marxistas do Imperialismo em dois grupos: aqueles considerados como \u201creformistas\u201d e aqueles considerados \u201crevolucion\u00e1rios\u201d.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Segundo Roio, para os te\u00f3ricos \u201creformistas\u201d, como Rudolf Hilferding e Karl Kautski, o Imperialismo \u00e9 entendido como um desvio, uma deforma\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do processo de desenvolvimento do capitalismo, ocasionado pelo excesso de produ\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses capitalistas e pela escassez de demanda por produtos. Os argumentos de ambos os autores aproximam-se bastante daqueles desenvolvidos por Hobson, em que a busca por novos mercados para os produtos e para o capital excedente, bem como por condi\u00e7\u00f5es monopol\u00edsticas de aquisi\u00e7\u00e3o de manufaturas e de produ\u00e7\u00e3o levaram os pa\u00edses europeus as disputas por territ\u00f3rios na \u00c1sia e na \u00c1frica entre os s\u00e9culos XIX e XX. Ou seja, entre as consequ\u00eancias presentes no Imperialismo est\u00e3o as Guerras entre as pot\u00eancias europeias pelos espa\u00e7os \u201cn\u00e3o-capitalistas\u201d.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esses te\u00f3ricos s\u00e3o chamados de \u201creformistas\u201d porque eram defensores da paz e da organiza\u00e7\u00e3o do capital como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que o capitalismo pudesse seguir seu curso \u201cnatural\u201d e \u201ccivilizador\u201d, incorporando novos territ\u00f3rios at\u00e9 que todas as economias nacionais se tornassem capitalistas e o processo de mudan\u00e7a para outro sistema econ\u00f4mico pudesse acontecer.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Os te\u00f3ricos \u201crevolucion\u00e1rios\u201d, como Rosa de Luxemburgo, Nikolai Bukh\u00e1rin e Lenin, trouxeram uma perspectiva diferente da problem\u00e1tica imperialista. Para eles, o Imperialismo, e os conflitos dele derivados, s\u00e3o elementos intr\u00ednsecos ao capitalismo, ou, como destacou Lenin, \u201cuma fase superior do desenvolvimento capitalista\u201d que poderia levar \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o do proletariado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Para Rosa de Luxemburgo, por exemplo, o Imperialismo era tido como o movimento de express\u00e3o pol\u00edtica da acumula\u00e7\u00e3o do capital na sua luta por res\u00edduos de espa\u00e7os considerados como \u201cn\u00e3o-capitalistas\u201d. Estes espa\u00e7os que ainda n\u00e3o haviam sido integrados ao capitalismo, forneciam condi\u00e7\u00f5es de lucro que se tornavam cada vez mais dif\u00edceis de serem alcan\u00e7adas na Europa: a dos lucros extraordin\u00e1rios causados pela explora\u00e7\u00e3o exclusiva\/monopol\u00edstica dos mercados. O Imperialismo moderno, originado segundo Lenin por volta de 1880 como uma fase do desenvolvimento do capitalismo, acirra as contradi\u00e7\u00f5es inerentes ao pr\u00f3prio capitalismo e as rela\u00e7\u00f5es entre capital e Estado, causando viol\u00eancia e guerra. O papel do Estado, inclusive, \u00e9 fundamental, pois, al\u00e9m dele auxiliar na acumula\u00e7\u00e3o de capital no mercado interno, tamb\u00e9m promove, atrav\u00e9s das armas, a defesa dos interesses do capital no mercado internacional. Os te\u00f3ricos \u201crevolucion\u00e1rios\u201d, portanto, defendiam a transforma\u00e7\u00e3o das guerras imperialistas em guerras civis revolucion\u00e1rias, em que seria promovida a ascens\u00e3o do proletariado ao poder. A paz s\u00f3 poderia existir, de fato, quando o sistema capitalista fosse superado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A Teoria do Imperialismo do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, como tantas outras teorias que envolvem as rela\u00e7\u00f5es internacionais, \u00e9 profundamente eurocentrada. Alguns te\u00f3ricos, inclusive, destacam em seus textos o car\u00e1ter \u201ccivilizador\u201d do capitalismo, ao integrar o mundo num mesmo sistema econ\u00f4mico. A hist\u00f3ria demonstrou que essa integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o significou dar condi\u00e7\u00f5es dignas de vida a essas popula\u00e7\u00f5es.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Quase cem anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de um dos livros mais influentes sobre o assunto, o \u201cImperialismo: fase suprema do capitalismo\u201d escrito por Lenin em 1916, os europeus assistem, quase inertes, a entrada de milhares de imigrantes, em busca de refugio dos conflitos nos limites da Europa e de um <i>welfare state<\/i> que, constru\u00eddo \u00e0s custas de muitos desses povos, esfacela-se dia ap\u00f3s dia. H\u00e1 muito mais consequ\u00eancias sobre a Guerra, a Paz e o Imperialismo do que os seus te\u00f3ricos poderiam julgar.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">DOUGHERTY, James; PFALTZGRAFF, Robert. Economia pol\u00edtica internacional. In: _____________. <i>Rela\u00e7\u00f5es Internacionais: as teorias em confronto<\/i>. Lisboa: Gradiva, 2003. p. 529-639.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">FIORI, Jos\u00e9 Luis. Globaliza\u00e7\u00e3o, hegemonia e imp\u00e9rio. In: TAVARES, Maria da Concei\u00e7\u00e3o; FIORI, Jo\u00e9 Luis (org). P<i>oder e dinheiro: uma economia pol\u00edtica da globaliza\u00e7\u00e3o<\/i>. 2.ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1997. p.87-147.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">LENIN, Vladmir. <i>Os princ\u00edpios do socialismo e da guerra.<\/i> In: BRAILLARD, Philippe. Teoria das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 1990.p. 164-176.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">LENIN, Vladmir. <i>O imperialismo:<\/i> fase superior do capitalismo. S\u00e3o Paulo: Ed. Centauro, 2005.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">ROIO, Marcos del. Uma nota sobre a teoria do imperialismo (1902-1916). <i>Anais do IV Col\u00f3quio Internacional Marx Engels<\/i>, Campinas, 2009. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.unicamp.br\/cemarx\/ANAIS%20IV%20COLOQUIO\/comunica%E7%F5es\/GT3\/gt3m4c6.pdf\">http:\/\/www.unicamp.br\/cemarx\/ANAIS%20IV%20COLOQUIO\/comunica%E7%F5es\/GT3\/gt3m4c6.pdf<\/a>. Acesso em 10 jun.2015.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Larissa Rosevics A transi\u00e7\u00e3o entre os s\u00e9culos XIX e XX representa um<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[653],"tags":[],"class_list":["post-1773","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1773","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1773"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1773\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3054,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1773\/revisions\/3054"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1773"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1773"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1773"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}