{"id":1778,"date":"2015-05-25T09:33:00","date_gmt":"2015-05-25T12:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1778"},"modified":"2024-03-27T17:47:35","modified_gmt":"2024-03-27T20:47:35","slug":"caminhos-tortuosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1778","title":{"rendered":"Caminhos tortuosos"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Por Suellen Lannes<\/p>\n<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><\/div>\n<p>Alguns livros t\u00eam o poder de deixar marcas, profundamente, inc\u00f4modas que geram uma inquieta\u00e7\u00e3o permanente e constantes questionamentos, normalmente pouco compreendidos e solucionados. Um dos livros que mais gerou isso em mim foi a obra de Albert Memmi, \u201cRetrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador\u201d. Tunisiano, Memmi vai escrever um relato sobre o que \u00e9 ser um colonizado e os efeitos da coloniza\u00e7\u00e3o sobre uma sociedade. Existem in\u00fameras obras sobre esse assunto, mas o inc\u00f4modo gerado em mim, por Memmi, foi o foco de sua an\u00e1lise, nos efeitos psicol\u00f3gicos e sociais dessa domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esse tipo de efeito \u00e9 dific\u00edlimo de ser estudado e analisado, principalmente se levarmos em considera\u00e7\u00e3o as normas cient\u00edficas, e desconfio que perdure muito mais tempo na sociedade, criando ra\u00edzes e ajudando a construir e consolidar uma imagem deteriorada do colonizado.<\/div>\n<p><a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">As inquietudes geradas por esse livro fizeram com que eu passasse a ler mais sobre coloniza\u00e7\u00e3o e imperialismo, procurando compreender de que forma o colonizador influ\u00eancia o colonizado. Desde ent\u00e3o, esse tem sido tema da minha pesquisa, a qual est\u00e1 longe de achar alguma resposta plaus\u00edvel.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Nessas andan\u00e7as pela mente dos colonizadores me deparei com uma figura peculiar que demonstra esse efeito psicol\u00f3gico gerado pelo fen\u00f4meno da coloniza\u00e7\u00e3o, o crist\u00e3o maronita N\u00e9gib Azoury (1873-1916), um dos &#8220;pais&#8221; do nacionalismo \u00e1rabe.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Tendo um primeiro contato com os seus escritos, logo se tem a impress\u00e3o que se trata de um escritor franc\u00eas, entusiasta das institui\u00e7\u00f5es liberais francesas. De origem s\u00edria, N\u00e9gib estudou na \u00c9cole libre des sciences politiques, em Paris, e foi funcion\u00e1rio do imp\u00e9rio otomano at\u00e9 1904, quando retornou a Paris, onde viveu por um tempo at\u00e9 se instalar no Cairo, onde morreria em 1916. Logo que chegou a Paris fundou a Ligue de la Patrie Arabe\u00a0(Liga da P\u00e1tria \u00c1rabe), na qual conclamava ser o expoente de um nacionalismo \u00e1rabe. As atividades dessa liga se limitaram a emiss\u00e3o de manifestos em defesa da forma\u00e7\u00e3o de uma uni\u00e3o de pa\u00edses \u00e1rabes [1]. Posteriormente, ele vai publicar, durante um curto per\u00edodo de tempo (1907-8), o peri\u00f3dico L\u2019ind\u00e9pendance arabe\u00a0(A independ\u00eancia \u00e1rabe). Ele \u00e9 resultado de suas ideias, j\u00e1 previamente defendidas no livro, publicado em 1905, Le R\u00e9veil de la nation \u00e1rabe\u00a0(O despertar da na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe) (HOURANI, 2005).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em Le r\u00e9veil, Azoury faz uma an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio otomano com outros pa\u00edses, em especial as pot\u00eancias europeias, e exalta a necessidade das prov\u00edncias \u00e1rabes em romper com o imp\u00e9rio otomano, procurando a sua independ\u00eancia visando uma p\u00e1tria \u00fanica. Somado a esse movimento, de acordo com Azoury, emergia um movimento sionista voltado a construir uma na\u00e7\u00e3o judaica no territ\u00f3rio otomano. Esses dois movimentos seriam antagonistas e fadados ao conflito.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Um pequeno detalhe salta aos olhos do leitor desse pequeno livro. Azoury vai definir as fronteiras dessa nova na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe a partir de todos os pa\u00edses da \u00c1sia que falam \u00e1rabe, mas n\u00e3o inclui o Egito e o Norte da \u00c1frica. Para ele, o Egito n\u00e3o era \u00e1rabe no pleno sentido da palavra e o autor era contr\u00e1rio ao nacionalismo eg\u00edpcio propagado por Mustafa Kamil, o qual era caracterizado por uma postura pr\u00f3-isl\u00e2mica e otomana, seguindo o movimento nacionalista presente entre as elites otomanas. Nas palavras de Hourani, Azoury segue o pensamento afirmando que os eg\u00edpcios \u201cn\u00e3o s\u00e3o capazes de governar a si mesmos, deveriam ser gratos pela boa administra\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica\u201d (HOURANI, 2005, grifo nosso).<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Apesar de pouco influenciar nesse suposto mundo \u00e1rabe, o livro de Azoury teve bastante influ\u00eancia nas elites francesas e refor\u00e7ou a imagem de um imp\u00e9rio otomano em frangalhos, onde movimentos nacionalistas estavam eclodindo, mas precisavam do consentimento da Europa para conquistarem o sucesso. Algumas cr\u00edticas com rela\u00e7\u00e3o ao livro e aos manifestos de Azoury afirmam que suas ideias sobre um movimento pol\u00edtico de cunho nacional nos pa\u00edses \u00e1rabes eram improcedentes, apesar da exist\u00eancia de movimentos culturais nacionalistas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em seus \u00faltimos anos de vida, Azoury morou no Cairo, Egito, justamente o pa\u00eds que n\u00e3o faria parte dessa nova na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe. Exerceu a fun\u00e7\u00e3o de secret\u00e1rio das rela\u00e7\u00f5es exteriores de um \u201cPartido dos Jovens Eg\u00edpcios\u201d, cujo programa era a cria\u00e7\u00e3o de um governo representativo (HOURANI, 2005) em colabora\u00e7\u00e3o com os ingleses, os quais dominavam diretamente a pol\u00edtica eg\u00edpcia desde 1882. Em linhas gerais, Azoury procurava legitimar o poder imperialista da Inglaterra no Egito e no imp\u00e9rio otomano.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Tempos depois de escrever o livro, Azoury vai assumir que n\u00e3o era porta-voz de um movimento nacional \u00e1rabe, muito menos tal movimento estava sendo constru\u00eddo no mundo \u00e1rabe. Ele vai afirmar que o seu objetivo era criar esse sentimento (KRAMER, 2011). Apesar da na\u00e7\u00e3o ser uma \u201ccomunidade imaginada\u201d, seguindo o conceito e Benedict Anderson, a forma como ela \u00e9 pensada, imaginada tem rela\u00e7\u00e3o com o contexto social dos povos que a imaginam. No caso \u00e1rabe, a influ\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es \u00e1rabes, como o califado, mas sim as institui\u00e7\u00f5es liberais brit\u00e2nicas e francesas, s\u00e3o as ideias xen\u00f3fobas que marcam o s\u00e9culo XIX.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00a0Nesse momento n\u00e3o consigo deixar de lembrar do livro de Albert Memmi. Apesar de querer ser porta-voz dos \u00e1rabes, Azoury, assim como outros pensadores de mundos colonizados ou sob o julgo imperialista, nunca pensou a partir do mundo \u00e1rabe. Suas influ\u00eancias e ideias eram pensadas a partir da mente do colonizador, do imperialista. Sua forma de pensar o mundo era ocidental e com isso legitimava as a\u00e7\u00f5es imperialistas e coloniais desse ocidente. O contato com novas ideias \u00e9 louv\u00e1vel, mas perde m\u00e9rito quando a mente do colonizado vira a mente do colonizador.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[1] Muito se questiona se essa Liga de fato existiu. Em seus \u00faltimos anos na Fran\u00e7a, as autoridades francesas investigaram Azoury e n\u00e3o descobriram nada que comprovasse a exist\u00eancia dessa Liga. Al\u00e9m disso, a Liga \u00e9 composta apenas por Azoury e mais uma pessoa.<\/div>\n<p>Refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">HOURANI, Albert. O pensamento \u00e1rabe na era liberal: 1789-1939.\u00a0S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2005.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">KRAMER, Martin Seth. Arab Awakening and Islamic Revival: The politics of Ideas in the Middle East.\u00a0Transaction Publishers, 2011.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Suellen Lannes Alguns livros t\u00eam o poder de deixar marcas, profundamente, inc\u00f4modas<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[653],"tags":[],"class_list":["post-1778","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1778","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1778"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1778\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3050,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1778\/revisions\/3050"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1778"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1778"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1778"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}