{"id":1786,"date":"2015-03-27T18:36:00","date_gmt":"2015-03-27T21:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1786"},"modified":"2024-03-27T17:34:40","modified_gmt":"2024-03-27T20:34:40","slug":"dead-aid-1-dando-o-peixe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1786","title":{"rendered":"Dead Aid #1 \u2013 Dando o peixe"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Por Julia Monteath de Fran\u00e7a<\/div>\n<div><\/div>\n<p><span style=\"text-align: justify;\">Nascida e crescida em Lusaka, Zambia, Dambisa Moyo teve a oportunidade que \u00e9 pouco comum e ainda menos aproveitada de sair de seu pa\u00eds para dar continuidade aos seus estudos nos Estados Unidos e na Inglaterra. Possui M.B.A. da American University, em Washington D.C., e M.P.A. da Kennedy School of Government, em Harvard. J\u00e1 o doutorado (D.Phil.) em Economia foi feito em Oxford, na St. Antony\u2019s College, sob orienta\u00e7\u00e3o de Paul Collier. Al\u00e9m do not\u00e1vel curr\u00edculo acad\u00eamico, Moyo trabalhou para duas grandes institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de nosso tempo: Banco Mundial e Goldman Sachs, como consultora.<\/span><a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Apesar da trajet\u00f3ria mainstream, por assim dizer, Moyo defende em seu livro <i>Dead Aid &#8211; Why Aid is Not Working and How There is a Better Way For Africa<\/i> uma tese pouco ortodoxa [1]. Em poucas palavras ela afirma que a ajuda internacional enviada \u00e0 \u00c1frica nos \u00faltimos sessenta anos, pelo menos, n\u00e3o apenas n\u00e3o solucionou os problemas do continente, como, na realidade, \u00e9 parte significativa das causas desses problemas.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O livro est\u00e1 dividido em duas partes, a apresenta\u00e7\u00e3o aqui no blog, seguir\u00e1 a mesma divis\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Parte I:<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Segundo Moyo, existe uma cultura de obriga\u00e7\u00e3o moral assumida pelos pa\u00edses do ocidente para ajudar a \u00c1frica, intensificada com o fim do per\u00edodo colonial. Ela esclarece que diferencia tr\u00eas tipos de ajuda internacional: (i) ajuda humanit\u00e1ria ou emergencial \u2013 conhecido por todos, comumente se tratam de respostas a cat\u00e1strofes humanas e ambientais; (ii) ajuda baseada na caridade \u2013 aquela em que pessoas e\/ou organiza\u00e7\u00f5es encaminham montantes, normalmente voltados para uma causa espec\u00edfica (por exemplo, levar meninas a escolas ou enviar uma quantidade determinada de medicamento a \u00e1reas com alta incid\u00eancia de certas doen\u00e7as) [2]; e (iii) \u00a0ajuda internacional entre governos \u2013 configuram transfer\u00eancias internacionais entre governos, seja a partir de uma configura\u00e7\u00e3o bilateral ou multilateral, diretamente ou atrav\u00e9s de institui\u00e7\u00f5es financeiras. A ajuda foco de sua an\u00e1lise \u00e9 a terceira [3], que movimenta a maior parte de todo o montante direcionado \u00e0 \u00c1frica: nos \u00faltimos sessenta anos, a \u00c1frica recebeu mais de 1 trilh\u00e3o de d\u00f3lares desse tipo de ajuda e, segundo ela, nada melhorou. De fato, argumenta ela, ao se debru\u00e7ar sobre determinados aspectos econ\u00f4micos, at\u00e9 piorou [4].<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Para explicar os diversos motivos pelos quais a ajuda internacional fracassou em cumprir suas promessas originais, ela retoma a pr\u00f3pria origem desse modelo, em meados do s\u00e9culo XX, quando alguns economistas preocupados com o processo de crescimento identificaram a seguinte rela\u00e7\u00e3o causal (bastante simplificada): a poupan\u00e7a atrairia o investimento que, por sua vez, impulsionaria o crescimento.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Neste momento, muitos pa\u00edses subdesenvolvidos de maneira geral e os pa\u00edses africanos de maneira especial se encontravam em fase inicial do processo de desenvolvimento, muitos dos quais ainda dando os primeiros passos para se desfazer de seus laos coloniais. O argumento dos economistas para estes pa\u00edses era de que eles, por ainda serem muito pobres, n\u00e3o tinham a poupan\u00e7a necess\u00e1ria para atrair o investimento que os levaria ao crescimento econ\u00f4mico. Logo, encontraram na ajuda internacional uma ferramenta para substituir fazer o papel dessa poupan\u00e7a. Assim, a sequ\u00eancia l\u00f3gica para esses pa\u00edses passaria a ser: ajuda internacional, investimento, crescimento. E, n\u00e3o apenas, este crescimento traria, enfim, a redu\u00e7\u00e3o da pobreza.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Moyo segue apresentando como nas d\u00e9cadas subsequentes, a obriga\u00e7\u00e3o moral continuou e, mesmo que a ajuda ganhasse outras roupagens e justificativas te\u00f3ricas por n\u00e3o apresentar os resultados esperados, a pr\u00e1tica da transfer\u00eancia de dinheiro para os pa\u00edses africanos se manteve, assim como se mant\u00e9m at\u00e9 os dias de hoje.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Acontece que, como se sabe, a alavanca do crescimento e do desenvolvimento n\u00e3o chegou ao continente at\u00e9 hoje, com a exce\u00e7\u00e3o de alguns pa\u00edses pontuais e de certos momentos de otimismo. At\u00e9 hoje, os indicadores econ\u00f4micos e sociais do continente s\u00e3o alarmantes. Ainda mais preocupante \u00e9 a dificuldade que os pa\u00edses t\u00eam de achar uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento, que n\u00e3o seja dependente da ajuda internacional.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Ela argumenta que esse modelo levou a uma depend\u00eancia da ajuda internacional por parte dos pa\u00edses africano, muito pela posi\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel dos governos, recebendo dinheiro sem ter que apresentar nada em contrapartida e sem nenhuma obriga\u00e7\u00e3o de transpar\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o desses recursos. Esse ambiente favoreceu as pr\u00e1ticas de corrup\u00e7\u00e3o e passou a funcionar como um ciclo vicioso retroalimentado.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Em poucas palavras, o argumento de Moyo \u00e9 que os governos africanos ficaram mal acostumados, por assim dizer, com esse fluxo permanente de entrada de divisas, e se esfor\u00e7aram pouco para buscar alternativas que os tornassem independentes dessa renda e, mais ainda, que engatasse o in\u00edcio do processo de crescimento e desenvolvimento. \u00c9 a velha hist\u00f3ria da diferen\u00e7a entre dar o peixe&#8230;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&#8212;&#8212;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Notas:<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[1]\u00a0Tese esta que, por exemplo, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5utDdxveaJc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bill Gates discorda<\/a>.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[2] Sobre esta categoria de ajuda ela chama aten\u00e7\u00e3o que pode ajudar a resolver uma quest\u00e3o pontual, mas n\u00e3o ajuda o pa\u00eds a se desenvolver.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[3] Para facilitar, ser\u00e1 tratada aqui como ajuda internacional.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[4] Por exemplo, o n\u00famero de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza aumentou. Fonte: Banco Mundial.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Julia Monteath de Fran\u00e7a Nascida e crescida em Lusaka, Zambia, Dambisa Moyo<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[653],"tags":[],"class_list":["post-1786","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1786","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1786"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1786\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3042,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1786\/revisions\/3042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1786"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1786"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1786"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}