{"id":1790,"date":"2015-02-07T00:49:00","date_gmt":"2015-02-07T02:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1790"},"modified":"2024-03-27T17:33:42","modified_gmt":"2024-03-27T20:33:42","slug":"uns-mais-iguais-que-os-outros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1790","title":{"rendered":"Uns mais iguais que os outros"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Por Julia Monteath de Fran\u00e7a<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">\n<div style=\"text-align: left;\"><i>\u201cEm \u00faltima inst\u00e2ncia, o essencialismo dos<\/i><\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">\n<div style=\"text-align: left;\"><i>direitos humanos (os seres humanos j\u00e1 possuem os direitos)\u00a0<\/i><i>propicia a ignor\u00e2ncia e a passividade, ao inv\u00e9s\u00a0<\/i><i>de promover o conhecimento e a a\u00e7\u00e3o.\u201d<\/i>[1]<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">\n<div style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">\n<div style=\"text-align: left;\">(Joaquin Herrera Flores)<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Amanh\u00e3 completar\u00e1 um m\u00eas depois do triste epis\u00f3dio na sede do seman\u00e1rio franc\u00eas Charlie Hebdo, em Paris. Antes de mais nada, vou confessar que pouco li sobre o caso. Apesar de muito pipocar e por todos os lados \u2013 \u00e9 na linha do tempo do Facebook, \u00e9 no e-mail, \u00e9 no celular, hoje em dia n\u00e3o tem muito por onde escapar das informa\u00e7\u00f5es e, pior, das desinforma\u00e7\u00f5es -, li menos do que gostaria e absorvi menos do que li. Dito isto, esclare\u00e7o desde j\u00e1 que minhas reflex\u00f5es daqui para frente ser\u00e3o pouco fundadas no grande e acalorado debate que se abriu depois do incidente. Na verdade est\u00e3o muito mais para divaga\u00e7\u00f5es sobre algumas hist\u00f3rias com as quais tive contato nesse come\u00e7o de ano. De fato, meu objetivo com esse texto n\u00e3o \u00e9 focar no evento ocorrido h\u00e1 um m\u00eas no 11\u00ba arrondisssement de Paris, mas em tr\u00eas hist\u00f3rias com as quais, gra\u00e7as aos avan\u00e7os da tecnologia, tive contato no \u00faltimo m\u00eas. Descreverei os casos brevemente.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a name=\"more\"><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">1. Chalie Hebdo<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">O epis\u00f3dio est\u00e1 fresco na mente de todos n\u00f3s, afinal ocorreu j\u00e1 neste ano que mal come\u00e7ou. Os acusados: dois irm\u00e3os franceses de origem \u00e1rabe. Para aqueles que procuram maiores reflex\u00f5es sobre o tema, recomendo o tema de nossa especialista do m\u00eas de janeiro, Jana\u00edna Pinto,<a href=\"http:\/\/www.dialogosinternacionais.com.br\/2015\/01\/quarta-do-especialista-do-micro-ao.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: blue;\"> Do micro ao macro: o que esconde o apelo \u00e0 liberdade de express\u00e3o?<\/span><\/a>. Foi curioso acompanhar de longe o movimento de divis\u00e3o das pessoas entre aqueles que defendiam as publica\u00e7\u00f5es do peri\u00f3dico e os contr\u00e1rios \u2013 os \u201cje suis chalie\u201d e os \u201cje suis pas charlie\u201d, ou seja qual for a <i>hashtag <\/i>encontrada para se expressar. N\u00e3o acho que seja o caso de se voltar ao tempo em que se tinha uma lei contra a blasf\u00eamia, ou algo parecido. Nesse sistema internacional em que nos encontramos, crescemos, criamos, e morremos, religi\u00e3o vai muito al\u00e9m da cren\u00e7a e a cr\u00edtica n\u00e3o pode ser impedida. A diferen\u00e7a nesse epis\u00f3dio, \u00e9 o que a cr\u00edtica em quest\u00e3o carrega de hist\u00f3rico em si mesma. Aqui cito o artigo <a href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/833\/palavras-e-metralhadoras-9110.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: blue;\">Palavras e Metralhadoras<\/span><\/a>, de Vladimir Safatle, na Carta Capital: \u201cLiberdade de express\u00e3o nunca significou, nem nunca significar\u00e1, dizer qualquer coisa de qualquer forma\u201d.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">2. Adnan Syed<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esse personagem me surgiu a partir do <i>podcast <\/i><a href=\"http:\/\/serialpodcast.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: blue;\">Serial <\/span><\/a>[2], tamb\u00e9m de regularidade semanal, mas, como uma s\u00e9rie, com temporadas. At\u00e9 ent\u00e3o conhecia pouco dessa tecnologia, mas n\u00e3o apenas por gostar do h\u00e1bito do r\u00e1dio, mas tamb\u00e9m por adorar policiais, essa hist\u00f3ria me prendeu. Acontece que esse policial conta uma hist\u00f3ria do fant\u00e1stico mundo da vida real. O <i>podcast <\/i>apresenta o caso do assassinado de uma estudante americana de 18 anos e origem coreana, Hae Min Lee, em Baltimore, Maryland, Estados Unidos [3]. O caso aconteceu em janeiro de 1999 e em fevereiro do mesmo ano, com base no depoimento pouco preciso de uma \u00fanica pessoa e sem nenhuma outra prova material ou de qualquer tipo, o ex-namorado da menina, Adnan, foi condenando \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua aos 19 anos de idade (hoje em dia com 34 anos). Al\u00e9m da aus\u00eancia de provas e a parca investiga\u00e7\u00e3o, me chamou aten\u00e7\u00e3o nessa hist\u00f3ria algo que s\u00f3 foi desenvolvido no d\u00e9cimo epis\u00f3dio: a origem do r\u00e9u, que \u00e9 um jovem pouco abastado e de fam\u00edlia mul\u00e7umana, de origem paquistanesa.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">3. Kalief Browder<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Tal constata\u00e7\u00e3o me fez associar outra hist\u00f3ria que havia lido um pouco antes em outro peri\u00f3dico, The New Yorker: a de <a href=\"http:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2014\/10\/06\/law-3?%20utm_source=tny&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=dailyemail&amp;mbid=nl_093014_Daily&amp;CUST_ID=29951254&amp;spMailingID=7163519&amp;spUserID=NjI1MzYxOTg2MjYS1&amp;spJobID=523245849&amp;spReportId=NTIzMjQ1ODQ5S0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: blue;\">Kalief Browder<\/span><\/a>. Browder \u00e9 um jovem negro do Bronx, Nova York, e foi preso voltando de uma festa para casa, prestes a completar 17 anos de idade . Mais uma vez, sem nenhuma prova al\u00e9m do testemunho pouco preciso de uma \u00fanica pessoa. Por j\u00e1 ter passagens pela pol\u00edcia, como \u00e9 parte do hist\u00f3rico de grande parte dos jovens negros do Bronx, Browder foi mantido na pris\u00e3o, sendo sua liberdade taxada em um valor que definitivamente n\u00e3o estaria a seu alcance. Enfim, Browder seguiu estrat\u00e9gia de defesa ligeiramente diferente da de Adnan. Apesar de ter passado \u201capenas\u201d tr\u00eas anos em uma das mais famosas pris\u00f5es da regi\u00e3o [4], tendo sido libertado em 2013, os efeitos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos para a pessoa s\u00e3o evidentes nesse jovem.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o negro, \u00e9 o mul\u00e7umano, \u00e9 o \u00e1rabe, \u00e9 o imigrante, \u00e9 o pobre&#8230; todos parte de minorias-maiorias marginalizadas e acusadas, vivendo em uma sociedade de iguais t\u00e3o desiguais. Eventualmente, terroristas. O que me chamou aten\u00e7\u00e3o a ponto de juntar essas tr\u00eas hist\u00f3rias \u00e9 a viol\u00eancia contida nos preconceitos coloniais que carregamos at\u00e9 hoje. J\u00e1 dizem os estudiosos da decolonialidde \u2013 para mais sobre essa corrente, recomendo o artigo de Larissa Rosevics, <a href=\"http:\/\/www.dialogosinternacionais.com.br\/2014\/11\/do-pos-colonial-decolonialidade.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: blue;\">Do p\u00f3s-colonial \u00e0 decolonialidade<\/span><\/a> &#8211; acabamos com a coloniza\u00e7\u00e3o, mas ainda n\u00e3o nos desfizemos das amarras coloniais. Ainda s\u00e3o elas que orientam as nossas rela\u00e7\u00f5es, desde as cotidianas at\u00e9 as internacionais. Definitivamente j\u00e1 passou da hora de se desfazer de tais amarras e um dos caminhos propostos \u00e9 do giro decolonial, que se concretiza \u201c[n]a abertura e a liberdade do pensamento e de formas de vida-outras (economias-outras, teorias pol\u00edticas outras) [&#8230;].\u201d [5]<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>[1] Herrera Flores citado por Costas Douzinas, em\u00a0DOUZINAS, Costas. \u201cO Fim dos Direitos Humanos\u201d. S\u00e3o Leopoldo: Unisinos, 2009, p. 41.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[2] Serial \u00e9 um <i>spin-off<\/i>\u00a0do programa This American Life, apresentado por Sarah Koenig e produzido por Koenig e Julie Snyder.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[3] Baltimore \u00e9 uma das maiores cidades do estado de Maryland, nos Estados Unidos e uma das mais populosas do pa\u00eds. Baltimore j\u00e1 foi uma cidade de ind\u00fastrias, mas hoje em dia, depois de um dram\u00e1tico processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, passa por uma fase preocupante, com altas taxas de desemprego e com uma parcela significativa de sua popula\u00e7\u00e3o (um quarto da popula\u00e7\u00e3o total e cerca de 37% de suas crian\u00e7as) vivendo em situa\u00e7\u00e3o de pobreza.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">[4] Rikers, uma ilha no Rio East, com pouco menos de 162 hectares, entre Queens e Bronx. De cada oito milh\u00f5es de pessoas vivendo na cidade de Nova York, algo em torno de onze mil est\u00e3o confinados em suas pris\u00f5es, sendo que a maioria em Rikers.<\/p>\n<p>[5] Tradu\u00e7\u00e3o livre. MIGNOLO, Walter. \u201cEl pensamiento decolonial: desprendimiento y apertura \u2013 um manifiesto\u201d. In: CASTRO-G\u00d3MEZ, Santiago; GROSFOGUEL, Ram\u00f3n (Eds.). El giro descolonial: reflexiones para una diversidad epist\u00e9mica m\u00e1s all\u00e1 del capitalismo global. Bogot\u00e1, Siglo del Hombre Editores; Universidad Central; Instituto de Estudios Contempor\u00e1neos y Pontif\u00edcia Universidad Javeriana, Istituto Pensar, 2007, p. 29.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Julia Monteath de Fran\u00e7a \u201cEm \u00faltima inst\u00e2ncia, o essencialismo dos direitos humanos<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[653],"tags":[],"class_list":["post-1790","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1790"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1790\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3038,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1790\/revisions\/3038"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}