{"id":1808,"date":"2014-11-07T19:07:00","date_gmt":"2014-11-07T21:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1808"},"modified":"2024-03-27T17:29:23","modified_gmt":"2024-03-27T20:29:23","slug":"brasil-missoes-de-paz-e-congo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1808","title":{"rendered":"Brasil, miss\u00f5es de paz e Congo"},"content":{"rendered":"<p>Por Suellen Lannes<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">No \u00faltimo dia 05 de novembro, o Di\u00e1rio Oficial publicou um decreto presidencial prorrogando o servi\u00e7o ativo do general-de-divis\u00e3o Carlos Alberto dos Santos Cruz no comando da For\u00e7a de Paz na Miss\u00e3o de Estabiliza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo (do ingl\u00eas United Nations Organization Stabilization Mission in the Democratic Republic of the Congo ou, simplesmente, MONUSCO). Santos Cruz foi comandante da Miss\u00e3o de Paz do Haiti, entre 2006 e 2009. Seu papel de destaque fez com que a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) solicitasse ao governo brasileiro a sua retirada da reserva e volta para ativa, visando a atua\u00e7\u00e3o no Congo. Assim, em abril de 2013 ele retorna a ativa, no comando da MONUSCO.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><a name=\"more\"><\/a><br \/>\nA prorroga\u00e7\u00e3o do seu comando tem rela\u00e7\u00e3o com a sua atua\u00e7\u00e3o no desmantelamento do Movimento 23 de Mar\u00e7o (M23) [1], grupo esse que teria sido respons\u00e1vel pelo acirramento dos conflitos no Congo. A atua\u00e7\u00e3o do governo brasileiro nessa miss\u00e3o estaria em sintonia com a pol\u00edtica prevista no Livro Branco de Defesa Nacional, tanto no aspecto da amplia\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o do Brasil no Atl\u00e2ntico Sul como o incentivo da participa\u00e7\u00e3o crescente em opera\u00e7\u00f5es de paz organizadas pela ONU. Conforme ilustra o cap\u00edtulo 1 do Livro Branco e a Estrat\u00e9gia Nacional de Defesa:<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote><p>A pol\u00edtica externa brasileira considera o di\u00e1logo e a coopera\u00e7\u00e3o internacionais instrumentos essenciais para a supera\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos e para a aproxima\u00e7\u00e3o e o fortalecimento da confian\u00e7a entre os Estados. Na rela\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses, o Brasil d\u00e1 \u00eanfase a seu entorno geopol\u00edtico imediato, constitu\u00eddo pela Am\u00e9rica do Sul, o Atl\u00e2ntico Sul e a costa ocidental da \u00c1frica. [LIVRO BRANCO DE DEFESA NACIONAL, 2012, p. 12]<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote><p>O Brasil dever\u00e1 ampliar a participa\u00e7\u00e3o em opera\u00e7\u00f5es de paz, sob a \u00e9gide da ONU ou de organismos multilaterais da regi\u00e3o, de acordo com os interesses nacionais expressos em compromissos internacionais [ESTRAT\u00c9GIA NACIONAL DE DEFESA, 2008, p. 62]<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Existe duas correntes sobre o in\u00edcio das miss\u00f5es de paz. A primeira afirmaria que as miss\u00f5es teriam se iniciado com a United Nations Supervision Organization (UNTSO), organizada pela ONU, em 1948, com o objetivo de controlar as tens\u00f5es em decorr\u00eancia da \u201cPartilha da Palestina\u201d [2]. Diferente do que vir\u00e1 a se tornar as miss\u00f5es de paz, essa miss\u00e3o seguia o padr\u00e3o existente at\u00e9 ent\u00e3o de se enviar observadores militares de diferentes pa\u00edses, os quais tinham objetivos claros, como supervisionar o armist\u00edcio, impedir pequenos incidentes, promover assist\u00eancia aos necessitados. Em linhas gerais, nesse contexto pode-se observar \u201catividades de manuten\u00e7\u00e3o de paz\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, outra corrente vai dizer que as miss\u00f5es, como as que s\u00e3o adotadas atualmente, surgiram em 1956, em decorr\u00eancia da Guerra de Suez. Diferente da UNTSO e da United Nations Military Group in India and Pakistan (UNMOGIP)[3], a For\u00e7a de Emerg\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNEF), que foi enviada para Suez, tinha como caracter\u00edstica a convoca\u00e7\u00e3o de for\u00e7as militares de diferentes pa\u00edses. N\u00e3o se enviava somente observadores, mas sim uma tropa (batalh\u00e3o) de cada pa\u00eds que teria como fun\u00e7\u00e3o principal manter a paz, ou seja, os seus objetivos n\u00e3o s\u00e3o somente de observa\u00e7\u00e3o ou supervis\u00e3o, mas tamb\u00e9m de atua\u00e7\u00e3o em prol de um objetivo mais amplo, a paz. Nesse contexto observa-se \u201cmiss\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o de paz\u201d.<\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o de paz foi uma solu\u00e7\u00e3o encontrada quando o Conselho de Seguran\u00e7a n\u00e3o conseguisse uma unanimidade entre os seus membros e falhasse em alcan\u00e7ar o seu objetivo principal, a manuten\u00e7\u00e3o da paz e da seguran\u00e7a internacional. Essa a\u00e7\u00e3o estava prevista na resolu\u00e7\u00e3o 377 da Assembleia Geral da ONU, conhecida como \u201cUnidos pela Paz\u201d, de 1950. Ela previa que, nesse contexto, a Assembleia Geral deveria analisar, imediatamente, essa quest\u00e3o e fazer recomenda\u00e7\u00f5es para os membros, visando a ado\u00e7\u00e3o de medidas coletivas, \u201cincluindo no caso de uma viola\u00e7\u00e3o da paz ou um ato de agress\u00e3o, o uso de for\u00e7a armada quando necess\u00e1rio, para manter ou restaurar a paz e seguran\u00e7a internacional\u201d [YEARBOOK OF UNITED NATIONS, 1950, p.10]<\/p>\n<p>O conceito de miss\u00e3o de paz foi baseado nos cap\u00edtulos VI e VII da Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Por meio da leitura dos dois artigos pode-se chegar a duas formas de atua\u00e7\u00e3o, ou seja, apesar de ambas objetivarem a solu\u00e7\u00e3o das controv\u00e9rsias, a forma como se obt\u00e9m isso, varia.<\/p>\n<p>O cap\u00edtulo VI prev\u00ea a utiliza\u00e7\u00e3o de, somente, meios pac\u00edficos para se solucionar os conflitos. Esse cap\u00edtulo exp\u00f5e que, em caso de ocorr\u00eancia de um conflito, o Conselho de Seguran\u00e7a deve ser acionado e estabelecer provid\u00eancias, tais como: \u201csolu\u00e7\u00e3o por negocia\u00e7\u00e3o, inqu\u00e9rito, concilia\u00e7\u00e3o, arbitragem, via judicial, recurso e organiza\u00e7\u00f5es ou acordos regionais, ou qualquer meio pac\u00edfico \u00e0 sua escolha\u201d [CARTA DAS NA\u00c7\u00d5ES UNIDAS, 1945, artigo 33]. Caso essas medidas n\u00e3o sejam suficientes, o Conselho \u201cdever\u00e1 tomar em considera\u00e7\u00e3o quaisquer procedimentos para a solu\u00e7\u00e3o de uma controv\u00e9rsia que j\u00e1 tenham sido adoptados pelas partes\u201d [CARTA DAS NA\u00c7\u00d5ES UNIDAS, 1945, artigo 36].<\/p>\n<p>De forma complementar, o cap\u00edtulo VII prev\u00ea que a possibilidade de emprego de for\u00e7as armadas para adotar a a\u00e7\u00e3o :<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote><p>[&#8230;] que julgar necess\u00e1ria para manter ou restabelecer a paz e a seguran\u00e7a internacionais. Tal a\u00e7\u00e3o poder\u00e1 compreender demonstra\u00e7\u00f5es, bloqueios e outras opera\u00e7\u00f5es, por parte das for\u00e7as a\u00e9reas, navais ou terrestres dos membros das Na\u00e7\u00f5es Unidas.\u201d [CARTA DAS NA\u00c7\u00d5ES UNIDAS, 1945, artigo 42]<\/p>\n<p>Todos os Membros das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a fim de contribuir para a manuten\u00e7\u00e3o da paz e da seguran\u00e7a internacionais, se comprometem a proporcionar ao Conselho de Seguran\u00e7a, a seu pedido e de conformidade com o acordo ou acordos especiais, for\u00e7as armadas, assist\u00eancia e facilidades, inclusive direitos de passagem, necess\u00e1rios \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da paz e da seguran\u00e7a internacionais. [CARTA DAS NA\u00c7\u00d5ES UNIDAS, 1945, artigo 43]<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esse tipo de a\u00e7\u00e3o vai ganhar, com o tempo, a denomina\u00e7\u00e3o de \u201cmiss\u00e3o de imposi\u00e7\u00e3o da paz\u201d, caracterizada pela interven\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Alguns autores v\u00e3o argumentar que a maior parte das miss\u00f5es de paz estaria representada no cap\u00edtulo VI e meio, ou seja, com aplica\u00e7\u00f5es de medidas visando negocia\u00e7\u00f5es e acordos, e, caso n\u00e3o obtivesse sucesso, seriam aplicadas medidas de interven\u00e7\u00e3o for\u00e7ada.<\/p>\n<p>Seguindo a sua tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica, o governo brasileiro sempre pautou pelo incentivo a a\u00e7\u00f5es que focassem no cap\u00edtulo VI, ou seja, em a\u00e7\u00f5es pac\u00edficas, por meio da media\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o. Com isso, o Brasil sempre pautou a sua participa\u00e7\u00e3o em miss\u00f5es que fossem de manuten\u00e7\u00e3o de paz [DINIZ, 2007, p.95].<\/p>\n<p>Voltando ao Congo, pela primeira vez na hist\u00f3ria das miss\u00f5es de paz, a ONU d\u00e1 o aval para se usar a imposi\u00e7\u00e3o da for\u00e7a. Nesse quesito, as tropas podem se usar de meios belicosos para se instituir a paz, indo de encontro a tradi\u00e7\u00e3o brasileira de focar em miss\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o de paz. Apesar do governo brasileiro n\u00e3o ter enviado tropas ao Congo, o comando \u00e9 brasileiro, o que pode gerar um impasse para a pol\u00edtica externa brasileira. O sucesso da atua\u00e7\u00e3o do general Santos Cruz tem rela\u00e7\u00e3o com a sua capacidade geracional, mas tamb\u00e9m com esse novo caminho que a ONU decidiu assumir e evidencia uma nova tend\u00eancia das opera\u00e7\u00f5es de paz. Apesar do sucesso n\u00e3o consigo parar de pensar na velha frase Zizek, \u201cessa nova normativa emergente para os \u2018direitos humanos\u2019 \u00e9, entretanto, a forma em que aparece o seu extremo oposto\u201d.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] O Movimento 23 de Mar\u00e7o (do franc\u00eas Mouvement du 23-Mars) tamb\u00e9m \u00e9 conhecido como Ex\u00e9rcito Revolucion\u00e1rio Congol\u00eas. Pode ser considerado um grupo rebelde, que atua na parte leste do territ\u00f3rio do Congo, principalmente na prov\u00edncia de Kivu do Norte.<\/p>\n<p>[2] \u201cPartilha da Palestina\u201d \u00e9 um dos nomes dado ao desmantelamento do territ\u00f3rio da Palestina em 1948 que deu origem ao territ\u00f3rio de Israel e a incertezas com rela\u00e7\u00e3o a um futuro Estado \u00c1rabe.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b><br \/>\n<\/b><b>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/b><br \/>\n<b><br \/>\n<\/b><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas:<a href=\"http:\/\/www.gddc.pt\/direitos-humanos\/textos-internacionais-dh\/tidhuniversais\/onu-carta.html\"> http:\/\/www.gddc.pt\/direitos-humanos\/textos-internacionais-dh\/tidhuniversais\/onu-carta.html<\/a><\/p>\n<p>Estrat\u00e9gia Nacional de Defesa:<a href=\"http:\/\/www.defesa.gov.br\/projetosweb\/estrategia\/arquivos\/estrategia_defesa_nacional_portugues.pdf\"> http:\/\/www.defesa.gov.br\/projetosweb\/estrategia\/arquivos\/estrategia_defesa_nacional_portugues.pdf<\/a><\/p>\n<p>DINIZ, Eugenio. &#8220;Peacekeeping and the evolution of foreign policy&#8221;. In: FISHEL, J.; SAENZ, A. (Ed.) <i>Capacity-building for peacekeeping: the case of Haiti. <\/i>Washington: Center for Hemispheric Defense Studies, National Defense University Press, 2007.<\/p>\n<p>Livro Branco de Defesa Nacional:<a href=\"http:\/\/www.defesa.gov.br\/arquivos\/2012\/mes07\/lbdn.pdf\"> http:\/\/www.defesa.gov.br\/arquivos\/2012\/mes07\/lbdn.pdf<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Resolu\u00e7\u00e3o 377 da Assembleia Geral da ONU (Yearbook of United Nations):<a href=\"http:\/\/www.un.org\/en\/ga\/search\/view_doc.asp?symbol=A\/RES\/377(V)\"> http:\/\/www.un.org\/en\/ga\/search\/view_doc.asp?symbol=A\/RES\/377(V)<\/a><\/div>\n<p><!-- Blogger automated replacement: \"https:\/\/images-blogger-opensocial.googleusercontent.com\/gadgets\/proxy?url=http%3A%2F%2F1.bp.blogspot.com%2F-8JTsInx62S8%2FVF1CFpqoW0I%2FAAAAAAAAARY%2FLo7THgpbb2w%2Fs1600%2Fmonusco.jpg&amp;container=blogger&amp;gadget=a&amp;rewriteMime=image%2F*\" with \"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-8JTsInx62S8\/VF1CFpqoW0I\/AAAAAAAAARY\/Lo7THgpbb2w\/s1600\/monusco.jpg\" --><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Suellen Lannes No \u00faltimo dia 05 de novembro, o Di\u00e1rio Oficial publicou<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[652],"tags":[],"class_list":["post-1808","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume1"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1808","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1808"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1808\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3023,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1808\/revisions\/3023"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}