{"id":1811,"date":"2014-10-29T08:00:00","date_gmt":"2014-10-29T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1811"},"modified":"2024-03-27T17:28:33","modified_gmt":"2024-03-27T20:28:33","slug":"quarta-do-especialista-a-ascensao-do-isis-e-o-jogo-geopolitico-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=1811","title":{"rendered":":: Quarta do Especialista :: A ascens\u00e3o do ISIS e o jogo geopol\u00edtico global"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\">Autor convidado: Ricardo Zort\u00e9a Vieira<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\">\u00a0 <\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\">Em junho desse ano, o mundo se surpreendeu com a tomada da segunda maior cidade do Iraque, Mossul, uma metr\u00f3pole de 1,8 milh\u00f5es de habitantes, pelos insurgentes sunitas do Estado Isl\u00e2mico do Iraque e do Levante, conhecido pela sigla em ingl\u00eas ISIS. Em seguida, os militantes do ISIS proclamaram um novo califado isl\u00e2mico, e tentaram avan\u00e7ar sobre a capital iraquiana, Bagd\u00e1, movimento que at\u00e9 agora foi frustrado pelas for\u00e7as a\u00e9reas anglo-americanas e pelo apoio iraniano ao governo iraquiano. <\/span><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<a name=\"more\"><\/a><br \/>\n<span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\">Apesar do ISIS ter sido entendido na m\u00eddia estrangeira e nacional como um movimento terrorista, ou um exemplo da barb\u00e1rie religiosa, sua ascens\u00e3o na realidade reflete diversos elementos da disputa geopol\u00edtica regional e global atualmente em curso. <\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\">O surgimento do ISIS \u00e9 parte da instabilidade no Oriente M\u00e9dio que se seguiu a invas\u00e3o do Iraque pelas for\u00e7as americanas em 2003. At\u00e9 aquele momento, boa parte da estabilidade regional era garantida por regimes laicos baseados ou derivados do Nacionalismo \u00c1rabe, com Kadafi na L\u00edbia, o regime militar no Egito e o Partido Baath na S\u00edria e no Iraque. Nesse \u00faltimo pa\u00eds, os baatistas de Saddam Hussein, apesar de majoritariamente sunitas, haviam mantido a paz atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica que misturava viol\u00eancia e concilia\u00e7\u00e3o, entre essa etnia e os \u00e1rabes xiitas, bem como com os curdos. O regime laico e conciliat\u00f3rio de Saddam tamb\u00e9m funcionava no plano regional como uma esp\u00e9cie de tamp\u00e3o entre as duas principais pot\u00eancias do Golfo, a teocracia sunita da Ar\u00e1bia Saudita e a xiita do Ir\u00e3. <\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\">Depois da guerra do golfo, Washington come\u00e7ou a procurar alternativas a esse equil\u00edbrio, eventualmente optando, com a ascens\u00e3o dos neoconservadores \u00e0 presid\u00eancia em 2001, por um sistema baseado em regimes diretamente implantados e mantidos pelo poder militar estadunidense. O primeiro alvo foi o Iraque, mas estava claro que S\u00edria e Ir\u00e3 tamb\u00e9m sofreriam interven\u00e7\u00f5es caso a guerra contra Hussein atingisse seus objetivos. Entretanto, n\u00e3o foi isso que ocorreu. Ap\u00f3s a invas\u00e3o, ao inv\u00e9s de uma democracia est\u00e1vel administrada da embaixada americana em Bagd\u00e1, os EUA tiveram que lidar com uma insurg\u00eancia xiita apoiada pelo Ir\u00e3 que absorveu os recursos militares do pa\u00eds e esgotou o capital pol\u00edtico do presidente Bush, com isso inviabilizando a reorganiza\u00e7\u00e3o geral do Oriente M\u00e9dio projetada pelos <i>neocons<\/i>. Em outras palavras, no lugar de transformar o Iraque em uma plataforma para intervir no Ir\u00e3, o que a invas\u00e3o logrou foi uma amplia\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia iraniana na regi\u00e3o, situa\u00e7\u00e3o que ficou clara com a chegada ao poder em Bagd\u00e1 de um governo xiita pr\u00f3ximo de Teer\u00e3. Para complicar ainda mais as coisas, os EUA foram confrontados durante os governos Bush e Obama no plano global com uma R\u00fassia ressurgente sob Putin e uma China em ascens\u00e3o. Nessa situa\u00e7\u00e3o, do ponto de vista de Washington, um Ir\u00e3 hostil aos EUA poderia muito bem se aliar a Moscou e Pequim, garantindo a essa \u00faltima acesso a energia por terra, o que livraria os chineses da depend\u00eancia das importa\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas de petr\u00f3leo que est\u00e3o sob constante amea\u00e7a da marinha estadunidense. <\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\">O fracasso em conter pela for\u00e7a a insurg\u00eancia xiita, juntamente com a ascens\u00e3o chinesa, deixou claro para a nova administra\u00e7\u00e3o Obama que a paz regional e os interesses globais dos EUA s\u00f3 poderiam ser alcan\u00e7ados com alguma esp\u00e9cie de entendimento com o Ir\u00e3. \u00c9 isso que Obama tenta fazer desde 2009, ofertando a retirada das san\u00e7\u00f5es em troca da paralisa\u00e7\u00e3o do programa nuclear iraniano. Ocorre, todavia, que uma aproxima\u00e7\u00e3o entre Teer\u00e3 e Washington necessariamente \u00e9 vista como amea\u00e7a pela Ar\u00e1bia Saudita, sempre temerosa de ter que lidar com o rival regional central sem apoio americano. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\">Simultaneamente \u00e0 d\u00e9tente iraniano-americana surge, ent\u00e3o, uma s\u00e9rie de insurg\u00eancias sunitas na S\u00edria e no Iraque, contra os governos Assad e Maliki, ambos aliados de Teer\u00e3. No primeiro caso, a Ar\u00e1bia Saudita apoiou abertamente os insurgentes, e pressionou pela interven\u00e7\u00e3o militar americana no pa\u00eds que o governo Obama, sofrendo oposi\u00e7\u00e3o russa, mas tamb\u00e9m n\u00e3o querendo arruinar as negocia\u00e7\u00f5es com os iranianos, se recusou a realizar. A insurg\u00eancia s\u00edria \u00e9 ligada diretamente ao Iraque, sobretudo pelo pr\u00f3prio ISIS, que tem divis\u00f5es em ambos os pa\u00edses, e que foi recentemente repudiado pela Al-Qaeda, tradicional inimiga do governo saudita. E o pr\u00f3prio governo iraquiano, apoiado pelo Ir\u00e3, n\u00e3o tem d\u00favidas sobre quem est\u00e1 por tr\u00e1s dos militantes do ISIS, fornecendo a eles dinheiro e armas: A Ar\u00e1bia Saudita. <\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\">Se de fato, como parece, o ISIS representar um instrumento saudita (ou de uma fra\u00e7\u00e3o do governo saudita) para sabotar a distens\u00e3o Ir\u00e3-EUA, at\u00e9 agora ele foi mal sucedido, estando Washington e Teer\u00e3 efetivamente colaborando contra a insurg\u00eancia. Ou seja, est\u00e3o agindo como aliados apesar de oficialmente n\u00e3o o serem, do mesmo modo que China e EUA cooperaram nos anos 1970 contra vietnamitas e sovi\u00e9ticos, seus aliados da v\u00e9spera. As chances de continuidade da parceria entre Ir\u00e3 e EUA \u00e9 ainda facilitada por ser esse o \u00faltimo elemento que poderia salvar a pol\u00edtica externa de Obama, at\u00e9 o momento considerada um fracasso em praticamente todas as frentes. Entretanto, \u00e9 igualmente poss\u00edvel que a insurg\u00eancia sunita, somada com a press\u00e3o pol\u00edtica que Ar\u00e1bia Saudita e Israel s\u00e3o capazes de exercer em Washington, e a atua\u00e7\u00e3o da R\u00fassia, que com a crise ucraniana tem todos os motivos para descarrilar a pol\u00edtica americana para o Oriente M\u00e9dio, impe\u00e7am que a rela\u00e7\u00e3o entre EUA e Ir\u00e3 se consolide. Nesse caso, estaria aberta, com a recente aproxima\u00e7\u00e3o entre China e R\u00fassia, a possibilidade de uma articula\u00e7\u00e3o tr\u00edplice entre essas pot\u00eancias e o Ir\u00e3 de modo a controlar completamente a \u00c1sia Central, com suas vias de comunica\u00e7\u00e3o terrestres e recursos energ\u00e9ticos. E em um cen\u00e1rio como esse, a balan\u00e7a de poder na Eur\u00e1sia estaria em vias de pender fortemente para uma alian\u00e7a contr\u00e1ria aos EUA, o pesadelo de todo geopol\u00edtico americano desde a II Guerra Mundial. <\/span><\/div>\n<p><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-family: 'Trebuchet MS',sans-serif;\"><i><b>Ricardo Zort\u00e9a Vieira<\/b> \u00e9 mestre e doutorando em Economia Pol\u00edtica Internacional pela UFRJ, graduado em Ci\u00eancias Sociais pela UFPR e membro do grupo de pesquisa <a href=\"http:\/\/www.poderglobal.net\/\">Poder Global e Geopol\u00edtica do Capitalismo.<\/a><\/i><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor convidado: Ricardo Zort\u00e9a Vieira \u00a0 Em junho desse ano, o mundo se<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[652],"tags":[],"class_list":["post-1811","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume1"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1811"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1811\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3020,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1811\/revisions\/3020"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}