{"id":2686,"date":"2022-06-07T18:25:26","date_gmt":"2022-06-07T21:25:26","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=2686"},"modified":"2024-04-09T19:02:24","modified_gmt":"2024-04-09T22:02:24","slug":"politica-externa-e-desenvolvimento-acordo-para-garantir-o-contrato-entre-a-fabrica-nacional-de-motores-do-rio-de-janeiro-e-a-alfa-romeo-entre-brasil-e-italia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=2686","title":{"rendered":"Politica Externa e Desenvolvimento: acordo para garantir o contrato entre a &#8220;F\u00e1brica Nacional De Motores&#8221; do Rio De Janeiro e a &#8220;Alfa Romeo&#8221; entre Brasil e It\u00e1lia"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"2686\" class=\"elementor elementor-2686\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-3c5721c6 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"3c5721c6\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-215cf344\" data-id=\"215cf344\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-6cbc29f3 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"6cbc29f3\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p><\/p>\n<p>Volume 9 | N\u00famero 91 | Jun. 2022<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2687\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/worker-gdfbc3dddc_1920-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"619\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/worker-gdfbc3dddc_1920-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/worker-gdfbc3dddc_1920-300x200.jpg 300w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/worker-gdfbc3dddc_1920-768x512.jpg 768w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/worker-gdfbc3dddc_1920-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/worker-gdfbc3dddc_1920.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 619px) 100vw, 619px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Brenda de Carvalho Lima Rocha<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Este artigo se prop\u00f5e a analisar o Acordo para Garantir o Contrato entre a \u201cF\u00e1brica Nacional de Motores\u201d do Rio de Janeiro e a \u201cAlfa Romeo\u201d, assinado entre Brasil e It\u00e1lia no ano de 1950, em sua rela\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica externa brasileira do per\u00edodo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Tendo como tem\u00e1tica a coopera\u00e7\u00e3o industrial entre Brasil e a It\u00e1lia, \u00e9 poss\u00edvel examinar a inser\u00e7\u00e3o deste tratado tanto no \u00e2mbito espec\u00edfico da pol\u00edtica externa do governo Dutra, durante o qual se deu sua celebra\u00e7\u00e3o, quanto no \u00e2mbito mais amplo da pol\u00edtica externa brasileira de 1930 at\u00e9 1985.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Para tanto, o presente trabalho divide-se em tr\u00eas se\u00e7\u00f5es, al\u00e9m desta introdu\u00e7\u00e3o. A primeira discorrer\u00e1 sobre o per\u00edodo que vai do in\u00edcio da Era Vargas at\u00e9 o fim da ditadura militar, abordando as caracter\u00edsticas gerais da pol\u00edtica externa do Brasil que atravessaram este longo per\u00edodo mas, tamb\u00e9m, algumas particularidades atribu\u00eddas pelos diferentes governos. A segunda se\u00e7\u00e3o abordar\u00e1 especificamente o contexto no qual o tratado entre Brasil e It\u00e1lia foi assinado, apresentando a pol\u00edtica externa brasileira nos anos em que Dutra assumiu o poder e qual relev\u00e2ncia a It\u00e1lia poderia ter neste cen\u00e1rio. Por \u00faltimo, ser\u00e1 analisado o acordo em quest\u00e3o e a sua import\u00e2ncia para a pol\u00edtica externa da \u00e9poca, conjugando, para isso, as ideias desenvolvidas nas se\u00e7\u00f5es anteriores.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\">\n<li><strong style=\"color: var( --e-global-color-text ); font-family: var( --e-global-typography-text-font-family ), Sans-serif; font-size: 1rem; letter-spacing: 0px;\">&nbsp;POL\u00cdTICA EXTERNA BRASILEIRA DE 1930 A 1985<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>A pol\u00edtica externa brasileira do per\u00edodo entre 1930 e 1985 encaixa-se, dentro da classifica\u00e7\u00e3o proposta por Amado Cervo (2003, p. 11), no \u201cparadigma do Estado desenvolvimentista\u201d. Trata-se de um per\u00edodo durante o qual a condu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es exteriores do Brasil estava orientada para a obten\u00e7\u00e3o dos meios e recursos necess\u00e1rios ao projeto nacional de desenvolvimento do pa\u00eds. Essa nova orienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa iniciada em 1930 marcou o rompimento com a \u201cdiplomacia da agroexporta\u00e7\u00e3o\u201d, impulsionado pela ideologia desenvolvimentista que foi ganhando for\u00e7a no pensamento pol\u00edtico, intelectual e da opini\u00e3o p\u00fablica, sobretudo a partir dos anos 1950 (CERVO, 2003, p. 12). Conforme aponta Cervo, \u201cos homens de Estado mais contaminados por essa ideologia foram Get\u00falio Vargas, Juscelino Kubitschek e Ernesto Geisel\u201d (2003, p. 12). Outro fator que comp\u00f4s esse paradigma foi o objetivo de superar a assimetria capitalista por meio do desenvolvimento, utilizando-se, idealmente, de uma pol\u00edtica externa com autonomia decis\u00f3ria (CERVO, 2003).<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Ainda segundo o autor, ao longo do per\u00edodo discutido, foram adotadas diferentes estrat\u00e9gias para realizar o desenvolvimento: ora mais associado ao capitalismo internacional \u2014 e especialmente ao centro do sistema capitalista, os Estados Unidos \u2014 , ora mais nacionalizado e aut\u00f4nomo (CERVO, 2003). A concep\u00e7\u00e3o de desenvolvimento adotada correspondia ao avan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o e ao crescimento econ\u00f4mico, de modo que \u201ca pol\u00edtica exterior destinava-se a preencher requisitos desse desenvolvimento assim concebido, trazendo de fora tr\u00eas insumos em apoio aos esfor\u00e7os internos: capital complementar \u00e0 poupan\u00e7a nacional, ci\u00eancia e tecnologia e mercados externos\u201d (CERVO, 2013, p. 14).<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Al\u00e9m da sua rela\u00e7\u00e3o com o desenvolvimento, outro elemento fundamental para a compreens\u00e3o da pol\u00edtica externa brasileira entre 1930 e 1985 \u00e9 o tradicional relacionamento do Brasil com os Estados Unidos e seus reflexos sobre os demais relacionamentos do pa\u00eds. Ao analisar a constru\u00e7\u00e3o das parcerias brasileiras, Ant\u00f4nio Carlos Lessa (1998, p. 32), referindo-se ao momento p\u00f3s-Segunda Guerra at\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, constata que o pa\u00eds procurou diversificar seus parceiros como uma \u201cv\u00e1lvula de escape\u201d, ou um \u201cmovimento reativo\u201d, na medida em que as expectativas criadas pelas \u201crela\u00e7\u00f5es especiais\u201d com os Estados Unidos eram ou n\u00e3o concretizadas. Ainda assim, conforme o autor:<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote>\n<p>Oscilando entre o alinhamento autom\u00e1tico e o alinhamento pragm\u00e1tico, as rela\u00e7\u00f5es com os EUA constituem vetor dos mais importantes da Pol\u00edtica Exterior do Brasil, uma vez que contingenciava, em grandes linhas, a obten\u00e7\u00e3o de respostas mais efetivas aos problemas financeiros, comerciais, tecnol\u00f3gicos e energ\u00e9ticos que estrangulavam o desenvolvimento econ\u00f4mico. (LESSA, 1998, p. 32)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Delineados esses vetores comuns da pol\u00edtica externa brasileira do per\u00edodo, vale destacar, de maneira breve e sintetizada, as particularidades que ela assumiu com os principais governos que se sucederam. Com a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, que inicia a Era Vargas, ascende ao poder um grupo pol\u00edtico preocupado com a industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil. A pol\u00edtica externa durante os primeiros 15 anos em que Vargas assumiu o poder pode ser divida em dois momentos. O primeiro, de 1930 at\u00e9 o abandono da neutralidade brasileira na Segunda Guerra, foi o momento da \u201cequidist\u00e2ncia pragm\u00e1tica\u201d, no qual \u201co Brasil fez \u201cjogo duplo\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos e \u00e0 Alemanha [&#8230;] com a finalidade de barganhar\u201d (CERVO; BUENO, 2002, p. 234). O segundo, a partir da op\u00e7\u00e3o pelo lado Aliado na guerra, \u00e9 de alinhamento aos EUA, colhendo benef\u00edcios dessa alian\u00e7a. Em seguida, durante o governo Dutra, verifica-se o que Gerson Moura (1991, p. 59) chama de \u201calinhamento sem recompensa\u201d: o Brasil continua estritamente alinhado aos EUA, sem obter, no entanto, os mesmos resultados.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Avan\u00e7ando no tempo, no governo de Juscelino Kubitschek a pol\u00edtica externa foi melhor instrumentalizada para promover desenvolvimento e moderniza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Para esse fim, como o apoio norte-americano n\u00e3o foi o esperado, o resultado foi a busca por aux\u00edlio dos governos capitalistas europeus e aproxima\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina (PENNA FILHO, 2002). Nos governos de J\u00e2nio Quadros e Jo\u00e3o Goulart, foi realizada uma pol\u00edtica externa independente, marcada pelo resfriamento das rela\u00e7\u00f5es com os EUA e por mudan\u00e7as da posi\u00e7\u00e3o brasileira em quest\u00f5es relativas ao colonialismo e aos pa\u00edses do Leste&nbsp;(JAGUARIBE, 1996). Por fim, a pol\u00edtica externa ao longo da ditadura militar perseguiu um objetivo adicional: transformar o Brasil em grande pot\u00eancia mundial. Segundo<strong>&nbsp;<\/strong>Gon\u00e7alves e Miyamoto (1993), ela tamb\u00e9m pode ser dividida em dois momentos: um marcado pela \u201cideologia das fronteiras ideol\u00f3gicas\u201d, de alinhamento irrestrito aos EUA, do governo Castelo Branco at\u00e9 M\u00e9dici; outro de maior pragmatismo, durante os governos Geisel e Figueiredo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<ol class=\"wp-block-list\" start=\"2\" type=\"1\">\n<li><strong>CONTEXTO DO ACORDO ASSINADO ENTRE BRASIL E IT\u00c1LIA<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>A assinatura do Acordo para Garantir o Contrato entre a \u201cF\u00e1brica Nacional de Motores\u201d do Rio de Janeiro e a \u201cAlfa Romeo\u201d com a It\u00e1lia ocorreu durante o governo Dutra, que durou de 31 de janeiro de 1946 a 31 de janeiro de 1951. O general Eurico Gaspar Dutra foi vitorioso nas primeiras elei\u00e7\u00f5es gerais realizadas ap\u00f3s a queda de Vargas em 1945, assumindo, portanto, a presid\u00eancia no momento de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Segundo Moura (1991), a linha-mestra da pol\u00edtica externa do governo Dutra era formada pelo combate ao comunismo internacional e pelo alinhamento aos Estados Unidos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Quanto \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o anti-comunista, vale destacar a deteriora\u00e7\u00e3o do relacionamento do Brasil com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que culminou na ruptura de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre os dois pa\u00edses em 1947 (CERVO; BUENO, 2002). Quanto ao alinhamento \u00e0 pol\u00edtica internacional dos EUA, este se deu de modo autom\u00e1tico, com poucos retornos significativos para os interesses nacionais. Ap\u00f3s lutar ao lado dos Aliados na guerra, \u201co Brasil se julgava intitulado a receber dos Estados Unidos uma importante assist\u00eancia econ\u00f4mico-tecnol\u00f3gica, sob a forma de empr\u00e9stimos a longo prazo e de transfer\u00eancia de know-how industrial\u201d (JAGUARIBE, 1996, p. 34). Havia tamb\u00e9m a expectativa brasileira de manter sua superioridade militar na Am\u00e9rica do Sul e de participar ativamente das negocia\u00e7\u00f5es p\u00f3s-guerra com as grandes pot\u00eancias (MOURA, 1991). A realidade, no entanto, foi que, com a hegemonia norte-americana consolidada no continente americano, n\u00e3o havia mais motivos para o Brasil receber um tratamento especial dos EUA e a pol\u00edtica externa n\u00e3o serviu como instrumento de barganha, em contraste com o que se verificou anteriormente no governo Vargas.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Durante os 5 anos em que Dutra assumiu a presid\u00eancia, o Itamaraty foi chefiado brevemente por Jo\u00e3o Neves da Fontoura, no ano de 1946, e por Raul Fernandes, de 1947 a 1951. Conforme aponta Moura (1991, p. 62), a pol\u00edtica externa anti-sovi\u00e9tica e de alinhamento aos EUA foi, em grande medida, sustentada pelas percep\u00e7\u00f5es de Raul Fernandes de que, frente \u00e0 inevitabilidade do conflito Leste e Oeste, \u201co Brasil deveria integrar uma \u201cfrente ocidental unida\u201d em torno dos EUA\u201d. Essa posi\u00e7\u00e3o do Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, e do Itamaraty, entrava em conflito com a posi\u00e7\u00e3o mais pragm\u00e1tica e independente que a delega\u00e7\u00e3o brasileira na ONU, ent\u00e3o chefiada por Osvaldo Aranha, desejava adotar. Nesse sentido,<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote>\n<p>A delega\u00e7\u00e3o brasileira advertia que solidariedade n\u00e3o \u00e9 servid\u00e3o ao governo americano, enquanto o Itamaraty considerava dever da delega\u00e7\u00e3o brasileira \u201cajustar-se aos Estados Unidos sem qualquer indecis\u00e3o&#8221;. (MOURA, 1991, p. 63)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Quanto \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre Brasil e It\u00e1lia neste per\u00edodo, um primeiro ponto a ser destacado \u00e9 que a pol\u00edtica externa brasileira prezava o relacionamento com os pa\u00edses europeus ocidentais. Exemplo disso \u00e9 que o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores empenhou-se em apoiar a It\u00e1lia em suas reivindica\u00e7\u00f5es coloniais na Confer\u00eancia de Paris e nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, apesar da recomenda\u00e7\u00e3o dos representantes brasileiros na ONU de que o Brasil deveria se posicionar contra o prolongamento do regime colonial (MOURA, 2012). Ademais, retomando o argumento de Lessa (1998) de que, a partir do p\u00f3s-guerra, a constru\u00e7\u00e3o de parcerias estrat\u00e9gicas funcionou como v\u00e1lvula de escape \u00e0 excessiva depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos EUA, a It\u00e1lia tamb\u00e9m ganha import\u00e2ncia para o Brasil nesse contexto, como uma das alternativas para obter os insumos para o seu desenvolvimento. De fato, durante o governo Dutra, s\u00e3o assinados 13 acordos bilaterais com a It\u00e1lia \u2014 incluindo aquele que \u00e9 objeto deste trabalho \u2014, que fortalecem os v\u00ednculos \u00edtalo-brasileiros em diversas mat\u00e9rias, entre elas, a coopera\u00e7\u00e3o financeira e industrial.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<ol class=\"wp-block-list\" start=\"3\" type=\"1\">\n<li><strong>O ACORDO PARA GARANTIR O CONTRATO ENTRE A \u201cF\u00c1BRICA NACIONAL DE MOTORES\u201d E A \u201cALFA ROMEO\u201d NA POL\u00cdTICA EXTERNA BRASILEIRA DO GOVERNO DUTRA<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>O Acordo para Garantir o Contrato entre a \u201cF\u00e1brica Nacional de Motores\u201d do Rio de Janeiro e a \u201cAlfa Romeo\u201d entre Brasil e It\u00e1lia foi celebrado em 05 de julho de 1950. O tratado, voltado para a coopera\u00e7\u00e3o industrial, foi assinado por Raul Fernandes, Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil durante quase todo o governo Dutra, pelo lado brasileiro, e por Mario Augusto Martini, Embaixador da It\u00e1lia no Brasil de 1945 a 1953, pelo lado italiano<a href=\"applewebdata:\/\/50E1F62D-ADE0-41C2-9828-DE70DCC83C1A#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Por meio deste tratado, o governo brasileiro e italiano reconhecem a assinatura do contrato de fornecimento de ve\u00edculos autom\u00f3veis \u00e0 F\u00e1brica Nacional de Motores do Rio de Janeiro pela empresa italiana Alfa Romeo. \u00c9 destacado no acordo que a Alfa Romeo era inteiramente controlada pela Finmeccanica, que responderia pelos compromissos assumidos pela empresa. A Finmeccanica, por sua vez, era um \u00f3rg\u00e3o financeiro do \u201cIstituto di Ricostruzione Industriale\u201d, instituto estatal da It\u00e1lia criado em 1933 e que, no p\u00f3s-guerra, expandiu progressivamente sua interven\u00e7\u00e3o na economia italiana, e deixou de existir em 2002. Do outro lado, a F\u00e1brica Nacional de Motores (FNM) foi fundada para a produ\u00e7\u00e3o de motores de avi\u00e3o em 1942 pelo governo federal, mas sua fun\u00e7\u00e3o inicial foi abandonada com o t\u00e9rmino da Segunda Guerra. Em 1949, ap\u00f3s alguns anos de indefini\u00e7\u00e3o, a FNM se voltou para a fabrica\u00e7\u00e3o de caminh\u00f5es e, a partir do referido contrato com a Alfa Romeo em 1950, a empresa brasileira consolida sua nova fun\u00e7\u00e3o, que viria a marcar a hist\u00f3ria nacional com o simb\u00f3lico caminh\u00e3o \u201cFenem\u00ea\u201d.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>Figura 1 &#8211;&nbsp;Caminh\u00e3o FNM-Alfa Romeo em an\u00fancio de jornal de 1953<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.lexicarbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/fnm4a.jpg\" alt=\"\"><\/figure>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Fonte: LEXICAR Brasil<a href=\"applewebdata:\/\/50E1F62D-ADE0-41C2-9828-DE70DCC83C1A#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Pode-se inferir, portanto, que o acordo entre Brasil e It\u00e1lia foi um exemplo bem-sucedido de instrumentaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa brasileira para fazer avan\u00e7ar o desenvolvimento do pa\u00eds, cuja concep\u00e7\u00e3o estava diretamente ligada \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o, dentro dos par\u00e2metros do paradigma do Estado desenvolvimentista de Amado Cervo (2003). Al\u00e9m disso, a parceria com a It\u00e1lia representava uma alternativa ao relacionamento com os Estados Unidos, em um momento em que o Brasil recebia poucos retornos da \u201calian\u00e7a especial\u201d que ainda acreditava ter com o pa\u00eds; mas ainda condizente com a \u201cperspectiva pol\u00edtico-ideol\u00f3gica bastante r\u00edgida do Itamaraty\u201d (MOURA, 2012, p. 191) de alinhamento ao bloco ocidental.&nbsp;<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>ACORDO para Garantir o Contrato entre a \u201cF\u00e1brica Nacional de Motores\u201d do Rio de Janeiro e a \u201cAlfa Romeo\u201d. 05\/07\/1950. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/concordia.itamaraty.gov.br\/detalhamento-acordo\/837?TituloAcordo=Acordo%20para%20Garantir%20o%20Contrato%20entre%20a%20%22Fabrica%20Nacional%20de%20Motores%22%20do%20Rio%20de%20Janeiro%20e%20a%20%22Alfa%20Romeo%22.&amp;tipoPesquisa=1&amp;TipoAcordo=BL,TL,ML\">https:\/\/concordia.itamaraty.gov.br\/detalhamento-acordo\/837?TituloAcordo=Acordo%20para%20Garantir%20o%20Contrato%20entre%20a%20%22Fabrica%20Nacional%20de%20Motores%22%20do%20Rio%20de%20Janeiro%20e%20a%20%22Alfa%20Romeo%22.&amp;tipoPesquisa=1&amp;TipoAcordo=BL,TL,ML<\/a>. Acesso em: 03 jan. 2022.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo.&nbsp;<strong>Hist\u00f3ria da pol\u00edtica exterior do Brasil<\/strong>. 2. ed. Bras\u00edlia: Universidade de Bras\u00edlia, 2002.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>CERVO, Amado Luiz.&nbsp;<strong>Pol\u00edtica exterior e rela\u00e7\u00f5es internacionais do Brasil:<\/strong>&nbsp;enfoque paradigm\u00e1tico. Rev. bras. pol\u00edt. int. [online]. 2003, vol.46, n.2, pp.5-25.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>GON\u00c7ALVES, William da Silva; MIYAMOTO, Shiguenoli. Os militares na pol\u00edtica externa brasileira: 1964-1984. In: GOMES, Angela de Castro; LOVISOLO, Hugo; FERREIRA, Marieta de Moraes (ed.).&nbsp;<strong>Estudos Hist\u00f3ricos<\/strong>: globaliza\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, 1993. p. 211-246.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>JAGUARIBE, H\u00e9lio. Evolu\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Externa. In: ALBUQUERQUE, Jos\u00e9 Augusto Guilhon (org.).&nbsp;<strong>Sessenta Anos de Pol\u00edtica Externa Brasileira (1930-1990)<\/strong>: prioridades, atores e pol\u00edticas. S\u00e3o Paulo: Cultura Editores\/Nupri\/Usp, 1996. p. 30-45.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>LESSA, Ant\u00f4nio Carlos.<strong>&nbsp;A diplomacia universalista do Brasil:<\/strong>&nbsp;a constru\u00e7\u00e3o do sistema contempor\u00e2neo de rela\u00e7\u00f5es bilaterais. Revista Brasileira de Pol\u00edtica Internacional, Bras\u00edlia, n.41, 1998, pp.29-41.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>MOURA, Gerson.&nbsp;<strong>Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil 1939-1950<\/strong>: mudan\u00e7as na natureza das rela\u00e7\u00f5es Brasil-Estados Unidos durante e ap\u00f3s a segunda guerra mundial. Bras\u00edlia: Funag, 2012.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>MOURA, Gerson.&nbsp;<strong>Sucessos e ilus\u00f5es<\/strong>: rela\u00e7\u00f5es internacionais do brasil durante e ap\u00f3s a segunda guerra mundial. Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, 1991.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>PENNA FILHO, Pio. Pol\u00edtica Externa e Desenvolvimento: o Brasil de JK.&nbsp;<strong>Cena Internacional<\/strong>: Revista de An\u00e1lise em Pol\u00edtica Internacional, Bras\u00edlia, p. 189-206, jul. 2002.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>SCHARINGER, Jo\u00e3o F.&nbsp;<strong>FNM<\/strong>. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.lexicarbrasil.com.br\/fnm\/\">http:\/\/www.lexicarbrasil.com.br\/fnm\/<\/a>&nbsp;. Acesso em: 06 jan. 2022.&nbsp;<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\">\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/50E1F62D-ADE0-41C2-9828-DE70DCC83C1A#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;Apesar do Acordo para Garantir o Contrato entre a \u201cF\u00e1brica Nacional de Motores\u201d do Rio de Janeiro e a \u201cAlfa Romeo\u201d nunca ter sido denunciado\u2014 estando, tecnicamente, em vigor \u2014, ele j\u00e1 n\u00e3o possui nenhuma operabilidade: al\u00e9m de uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as ocorridas com o passar das d\u00e9cadas, inclusive com a sua venda para a Alfa Romeo em 1968, a FNM encerrou suas atividades em 1985.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/50E1F62D-ADE0-41C2-9828-DE70DCC83C1A#_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.lexicarbrasil.com.br\/fnm\/\">http:\/\/www.lexicarbrasil.com.br\/fnm\/<\/a>. Acesso em: 28 jan. 2022.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><em><strong>Brenda de Carvalho Lima Rocha<\/strong> \u00e9 Graduanda em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela UFRJ e membro do grupo de pesquisa \u201cRela\u00e7\u00f5es Bilaterais do Brasil\u201d, pertencente ao Laborat\u00f3rio de Estudos de Seguran\u00e7a e Defesa do Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Defesa da UFRJ.<\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>Como citar esse artigo<\/strong>:<\/p>\n<p>ROCHA, Brenda de Carvalho Lima. Politica Externa e Desenvolvimento: acordo para garantir o contrato entre a &#8220;F\u00e1brica Nacional De Motores&#8221; do Rio De Janeiro e a &#8220;Alfa Romeo&#8221; entre Brasil e It\u00e1lia.&nbsp;Di\u00e1logos Internacionais, vol.9, n.91, jun.2022. Dispon\u00edvel em: https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=26https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=2686<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 9 | N\u00famero 91 | Jun. 2022 Por Brenda de Carvalho Lima<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2687,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[646,660],"tags":[],"class_list":["post-2686","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-volume9"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2686","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2686"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2686\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2730,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2686\/revisions\/2730"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2687"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2686"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}