{"id":2742,"date":"2022-08-08T11:02:07","date_gmt":"2022-08-08T14:02:07","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=2742"},"modified":"2024-04-09T18:27:25","modified_gmt":"2024-04-09T21:27:25","slug":"o-sentimento-de-ser-estrangeiro-o-tratamento-diferenciado-destinado-aos-grupos-de-imigrantes-a-partir-da-lei-eusebio-de-queiroz-de-1850-ate-o-brasil-atual%ef%bf%bc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=2742","title":{"rendered":"O sentimento de ser estrangeiro: o tratamento diferenciado\u00a0destinado\u00a0aos grupos de imigrantes a partir da lei Eus\u00e9bio de Queiroz de 1850 at\u00e9 o Brasil atual\ufffc"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 9 | N\u00famero 93 | Ago. 2022<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Amanda Evangelista Valad\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/baggage-1024x683.jpg\" alt=\"Pixabay\" class=\"wp-image-2743\" width=\"768\" height=\"512\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/baggage-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/baggage-300x200.jpg 300w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/baggage-768x512.jpg 768w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/baggage-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/baggage.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No dia 22 de abril de 1500, um navio portugu\u00eas chegou ao territ\u00f3rio que seria conhecido como Brasil, resultado das Grandes Navega\u00e7\u00f5es. A partir desse dia, os portugueses se destinaram ao territ\u00f3rio agora conhecido com prop\u00f3sitos explorat\u00f3rios, mas essa presen\u00e7a n\u00e3o se fez constante at\u00e9 1530, quando iniciou-se uma pol\u00edtica verdadeiramente colonizadora. Dessa maneira, portanto, o Brasil \u00e9 um pa\u00eds formado pelas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas nativas, pelo grupo de portugueses &#8220;colonizadores&#8221;, imigra\u00e7\u00e3o europeia, e pela desterritorializa\u00e7\u00e3o de milhares de africanos, para c\u00e1 impelidos como escravizados e, depois, asi\u00e1tica, desde o s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse quadro de tr\u00e1fico de pessoas africanas se mant\u00e9m at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, quando o Estado brasileiro come\u00e7a a ser pressionado, principalmente pela Inglaterra e sua lei Bill Aberdeen, para a proibi\u00e7\u00e3o da escravatura e, com isso, numerosas leis tidas como abolicionistas come\u00e7am a serem impostas para tentar reduzir a press\u00e3o brit\u00e2nica. A primeira delas, Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3z, \u00e9 o ponto-chave para o in\u00edcio do marco hist\u00f3rico do presente artigo: a proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico negreiro internacional. De 1850 em diante, o pre\u00e7o de compra de africanos escravizados e seus descendentes passou a subir e, a partir desse ponto, alternativas come\u00e7aram a ser buscadas para a substitui\u00e7\u00e3o dos escravizados. Uma delas, que mais foi aceita, foi estimular a imigra\u00e7\u00e3o de europeus, o que aconteceu com diversos prop\u00f3sitos.<\/p>\n\n\n\n<p>A imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o comum e amplamente debatida nos dias de hoje. Tais movimentos criam liga\u00e7\u00f5es entre pa\u00edses e continentes, conectando povos com culturas e modos de vida diferentes. Nesse sentido, o Brasil \u00e9 visto como um lugar de acolhimento para imigrantes a partir dos anos 1850, quando europeus &#8211; que buscavam fugir das guerras de unifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 e italiana &#8211; e asi\u00e1ticos se destinaram ao solo brasileiro para substituir a m\u00e3o-de-obra at\u00e9 ent\u00e3o escravizada nas fazendas de caf\u00e9. Por tr\u00e1s do prop\u00f3sito econ\u00f4mico, havia uma inten\u00e7\u00e3o velada de branqueamento da popula\u00e7\u00e3o, pautada por uma perspectiva eugenista, a fim de tornar o Brasil mais parecido com a Europa, diminuir a porcentagem de pessoas negras na forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro e ent\u00e3o se adequar mais aos moldes de \u201cdesenvolvimento\u201d europeu.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse panorama hist\u00f3rico, o prop\u00f3sito deste artigo pode ser visualizado: O tratamento que imigrantes africanos e europeus recebem no Brasil \u00e9 diferenciado a partir dos prim\u00f3rdios da sociedade, e esse fato se torna not\u00f3rio diante de fen\u00f4menos que remontam desde o final do per\u00edodo imperial at\u00e9 os dados socioecon\u00f4micos de imigrantes de diferentes origens no Brasil atual.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong><strong>A ORIGEM DA DIFERENCIA\u00c7\u00c3O DO TRATAMENTO DE ESTRANGEIROS<\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como comentado acima, a lei Eus\u00e9bio de Queiroz \u00e9 utilizada como marco para o in\u00edcio da an\u00e1lise no presente artigo. Eduardo Galeano, escritor do Livro \u201cAs Veias Abertas na Am\u00e9rica Latina\u201d afirma que \u201co ouro brasileiro deixou buracos no Brasil, templos em Portugal e f\u00e1bricas na Inglaterra\u201d. E \u00e9 v\u00e1lido comentar que a m\u00e3o-de-obra utilizada para todas essas realiza\u00e7\u00f5es foi provinda da migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de pessoas negras. E, ainda que a escraviza\u00e7\u00e3o de pessoas negras tenha sido respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o e constitui\u00e7\u00e3o do Brasil, a riqueza de Portugal e as grandes f\u00e1bricas da Inglaterra, as ideologias racistas e eugenistas distorceram essa import\u00e2ncia. A partir do s\u00e9culo XIX, os pensadores positivistas e influentes escritores brasileiros assumiram que o \u201catraso\u201d visto no Brasil seria consequ\u00eancia das pessoas negras e associaram o \u201cprogresso\u201d aos estrangeiros europeus. Dessa maneira, portanto, a migra\u00e7\u00e3o de europeus come\u00e7ou a ser incentivada para ocasionar o branqueamento da popula\u00e7\u00e3o (MOURA, 1988, p. 60), e, desse modo, o Brasil supostamente avan\u00e7aria em dire\u00e7\u00e3o ao progresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob o prisma do est\u00edmulo \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o europeia, pode-se comentar sobre o livro \u201cComunidades Imaginadas\u201d, de Benedict Anderson. Nele, o autor comenta que as sociedades s\u00e3o constru\u00eddas e forjadas. Dessa forma, a constru\u00e7\u00e3o da identidade se d\u00e1 de forma intencional por meio de um recorte utilizado pelo governante para esse fim e, aplicado \u00e0 realidade brasileira, as pr\u00e1ticas eugenistas e higienistas do governo brasileiro formam a pauta para esse recorte. Especificamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o italiana e alem\u00e3, pode-se afirmar, segundo os conceitos de Anderson, que a imigra\u00e7\u00e3o foi encorajada para a constru\u00e7\u00e3o dessa identidade mais branca e alinhada ao ideal de progresso europeu. Com as influ\u00eancias europeias, a produzida sociedade brasileira e a sua identidade se assemelhariam \u00e0s comunidades-modelo europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 v\u00e1lido refor\u00e7ar, inclusive, que as m\u00faltiplas habilidades apresentadas pelas diversas etnias que antes eram utilizadas como justificativas para a sua escraviza\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram mais consideradas como par\u00e2metros para o trabalho assalariado, e o discurso utilizado \u00e0 \u00e9poca para estimular a imigra\u00e7\u00e3o europeia era que os escravos agora libertos n\u00e3o eram qualificados para o trabalho nas fazendas de caf\u00e9. Esse fato demonstra como a proposta da eugenia realmente se fez presente no Brasil ap\u00f3s 1850.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se afirmar, portanto, que ainda que os imigrantes europeus n\u00e3o tivessem demonstrado essa superioridade que motivou a sua vinda, eles foram imediatamente bem recebidos, diferentemente de como os trabalhadores nacionais foram tratados (FAUSTINO, OLIVEIRA, 2021, p. 200). Nesse sentido, percebe-se a origem da diferen\u00e7a de tratamento destinado at\u00e9 hoje aos imigrantes: Enquanto os imigrantes europeus s\u00e3o bem aceitos e acomodados no Brasil, os imigrantes africanos passam por situa\u00e7\u00f5es que beiram a nega\u00e7\u00e3o de sua humanidade, como \u00e9 visto no caso do assassinato de Mo\u00efse Kabagambe.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong><strong>AS MEDIDAS DE IMIGRA\u00c7\u00c3O A PARTIR DA PROCLAMA\u00c7\u00c3O DA REP\u00daBLICA<\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Com a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, a pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o mencionada persistiu, principalmente no estado de S\u00e3o Paulo, at\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 de Vargas, quando esse quadro foi mudado e se instaurou um conjunto de medidas restritivas que dificultou a entrada de imigrantes e refugiados (V\u00c9RAN, NOAL e FAINSTAT, 2014, p. 1007). Dessa forma, o \u00faltimo grande fluxo de imigra\u00e7\u00e3o ocorrido com destino ao territ\u00f3rio brasileiro foi a imigra\u00e7\u00e3o europeia citada acima, que perdurou do fim do s\u00e9culo XIX at\u00e9 a d\u00e9cada de 1920.<\/p>\n\n\n\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1933 estabelece par\u00e2metros claros para a imigra\u00e7\u00e3o no Brasil: a partir daquele momento, o Brasil poderia receber anualmente at\u00e9 2% do total de imigrantes da cada nacionalidade que tivessem imigrado nos \u00faltimos 50 anos. Percebe-se, portanto, que o quadro da imigra\u00e7\u00e3o no Brasil deixou de ser uma pol\u00edtica de portas abertas para os imigrantes europeus e se tornou um modelo restrito de imigra\u00e7\u00e3o, ainda em voga no Brasil, mesmo que tenha passado por uma m\u00ednima reformula\u00e7\u00e3o na Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 de 1988. Dessa forma, portanto, estabeleceu-se uma pol\u00edtica de porta estreita, sem medidas migrat\u00f3rias proativas, que vigora at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do s\u00e9culo XXI, sob os efeitos da Globaliza\u00e7\u00e3o, o Brasil registrou aumentos na chamada migra\u00e7\u00e3o sul-sul, com imigrantes de muitas nacionalidades, principalmente venezuelanos e haitianos, na Am\u00e9rica, e congoleses, na \u00c1frica. A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional de Migra\u00e7\u00f5es (OIM) afirma que os migrantes sul-sul s\u00e3o mais prov\u00e1veis para viver ilegalmente e sem documenta\u00e7\u00e3o, o que contribui para a sua posi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e a falta de integra\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 a barreira da l\u00edngua, que prejudica a comunica\u00e7\u00e3o dos imigrantes com a popula\u00e7\u00e3o brasileira. E \u00e9 v\u00e1lido comentar tamb\u00e9m que os estrangeiros s\u00e3o v\u00edtimas de xenofobia e racismo. Especialmente imigrantes africanos, que al\u00e9m da barreira da imigra\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m t\u00eam que enfrentar a barreira do racismo caracter\u00edstico da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Por exemplo, eles s\u00e3o v\u00edtimas do estere\u00f3tipo da falta de qualifica\u00e7\u00e3o e ainda s\u00e3o reconhecidos como provenientes de pa\u00edses \u201cperigosos\u201d, tal qual salientado em recentes casos de persegui\u00e7\u00e3o direcionada a espec\u00edficos grupos de imigrantes como o de Djimi Cosmeus, um imigrante haitiano que foi agredido por tr\u00eas seguran\u00e7as privados em uma f\u00e1brica da Brasil Foods em Chapec\u00f3, Santa Catarina. No caso, os seguran\u00e7as agiram com requintes de crueldade ao pressionarem Cosmeus contra o ch\u00e3o e aplicarem for\u00e7a com o joelho em suas costas. Nos seus relatos, Djimi Cosmeus afirmou estar sendo asfixiado.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob esse prisma, pode-se comentar sobre o caso da cidade de Tabatinga, no Amazonas, em que V\u00e9ra, Noal e Fainstat analisam o fluxo de 3 mil imigrantes haitianos que a cidade recebeu entre 2010 e 2012. No artigo, os autores analisam a condi\u00e7\u00e3o em que os haitianos se encontravam, marcada por demasiada precariedade, com a falta de assist\u00eancia governamental, trabalhos informais com sal\u00e1rios insuficientes e moradias extremamente prec\u00e1rias, com acesso \u00e0 \u00e1gua muito limitado. Com isso, percebe-se a fragilidade em que os haitianos, que ainda tinham que lidar com a incerteza dos t\u00edtulos de migrantes ou refugiados, se encontravam no territ\u00f3rio de Tabatinga. Infelizmente, esse quadro se replica regularmente na realidade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Situa\u00e7\u00f5es como essas constatam como imigrantes provenientes do Sul Global s\u00e3o tratados em solo brasileiro. Diferentemente do ide\u00e1rio de pa\u00eds acolhedor, a realidade brasileira se manifesta insens\u00edvel e severa para os imigrantes e refugiados que n\u00e3o se adequam aos padr\u00f5es do Norte Global, com casos de desrespeito, hostilidades, ofensas verbais e agress\u00f5es f\u00edsicas sendo registrados por todo o territ\u00f3rio brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong><strong>REFLEXOS DA INSER\u00c7\u00c3O DIFERENCIADA NA OCUPA\u00c7\u00c3O DO ESPA\u00c7O F\u00cdSICO E SOCIOECON\u00d4MICO<\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se refletir, dessa maneira, sobre os efeitos das pol\u00edticas estatais de imigra\u00e7\u00e3o. De forma clara, percebe-se o favorecimento do branco europeu em sua ascens\u00e3o social e no acesso ao espa\u00e7o. Para isso, uma an\u00e1lise hist\u00f3rica e socioecon\u00f4mica da regi\u00e3o do centro do Rio de Janeiro, uma cidade que recebeu in\u00fameras pessoas escravizadas, pode ser feita.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um primeiro momento, foi na regi\u00e3o do Porto em que grande parte dos navios negreiros vindos da \u00c1frica atracaram, inclusive com os corpos de quem n\u00e3o havia resistido \u00e0 viagem. Um estudo da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, que reuniu registros portu\u00e1rios por todos os anos de tr\u00e1fico negreiro at\u00e9 sua proibi\u00e7\u00e3o em 1856, afirma que cerca de 2 milh\u00f5es de pessoas chegaram ao Rio de Janeiro por meio dessa migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Foi na regi\u00e3o hoje conhecida como Cais do Valongo, tombado pela UNESCO como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e cultural, em que essas pessoas escravizadas permaneciam em quarentena para evitar a dissemina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse momento, o Centro do Rio de Janeiro se tornou um lugar com larga hist\u00f3ria para a popula\u00e7\u00e3o negra. A valer, durante o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, seguinte \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o da escravatura no Brasil, o presidente Rodrigues Alves, com o aux\u00edlio do engenheiro Pereira Passos, instaurou uma reforma no Centro do Rio de Janeiro, que \u00e0 \u00e9poca era povoado por moradias predominantemente de pessoas negras e pobres em situa\u00e7\u00f5es demasiadamente prec\u00e1rias. Essa reforma urbana, inspirada nos moldes parisienses, se demonstrou uma medida extremamente prejudicial para os moradores dos casebres e corti\u00e7os da regi\u00e3o, que se destinaram \u00e0s encostas dos morros das favelas como s\u00e3o conhecidas hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale ressaltar, sobretudo, que por tr\u00e1s da justificativa de progresso utilizada, a reforma teve moldes higienistas e eugenistas. Sobre isso, Neder afirma que \u201carticulou-se uma estrat\u00e9gia de controle social a ser projetada face \u00e0 massa de ex-escravos. Era o medo branco, manifestado diante das possibilidades de alargamento do espa\u00e7o (pol\u00edtico e geogr\u00e1fico) da popula\u00e7\u00e3o afro-brasileira\u201d (MENEZ, 2014, p. 72, apud NEDER, 1997, p.110).<\/p>\n\n\n\n<p>De forma interessante, algo parecido com essa medida do s\u00e9culo XX se repetiu no s\u00e9culo XXI, com o prefeito Eduardo Paes na cidade do Rio de Janeiro, que viria a ser a sede das Olimp\u00edadas de 2016. A regi\u00e3o do Centro, a mesma que foi derrubada para a reforma de Pereira Passos, foi novamente reformada com o prop\u00f3sito de revitalizar a regi\u00e3o que, na concep\u00e7\u00e3o dos governantes, n\u00e3o se enquadrava nos par\u00e2metros de cidade modelo para as Olimp\u00edadas. Dessa maneira, instaurou-se novamente uma medida com moldes higienistas, retirando a popula\u00e7\u00e3o mais pobre que morava ali, para a constru\u00e7\u00e3o de uma cidade-modelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprofundando-se em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira como as esferas de poder brasileiras tratam os resqu\u00edcios da hist\u00f3ria negra no Brasil, percebe-se not\u00e1vel falta de comprometimento com a import\u00e2ncia dessa parte da popula\u00e7\u00e3o para a constitui\u00e7\u00e3o de uma brasilidade. Como por exemplo, n\u00e3o h\u00e1 no Rio de Janeiro um museu da escravid\u00e3o que aconteceu nos solos cariocas, mas h\u00e1 um museu do holocausto, que aconteceu na Europa &#8211; evidenciando as tentativas de apagamento deste passado na identidade cultural, ao passo que importa padr\u00f5es internacionais para substitu\u00ed-lo. Ademais, h\u00e1 os diversos nomes de senhores de engenho que batizam hoje as ruas da cidade. Percebe-se, ent\u00e3o, que n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica efetivamente direcionada em retratar a import\u00e2ncia que as pessoas negras t\u00eam na constitui\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Em contrapartida, as principais cidades da regi\u00e3o Sul do Brasil que receberam imigrantes europeus a partir do s\u00e9culo XIX s\u00e3o portadas como um ideal de cidades. Terrenos e propriedades foram doados para os imigrantes alem\u00e3es, italianos e eslavos para que a regi\u00e3o fosse ocupada e desenvolvida economicamente no fim do s\u00e9culo XIX. Nos dias de hoje, a regi\u00e3o da Serra Ga\u00facha, com Gramado, Canela, Bento Gon\u00e7alves e outras, \u00e9 uma regi\u00e3o totalmente influenciada pela cultura dos imigrantes italianos e germ\u00e2nicos, com vin\u00edcolas e constru\u00e7\u00f5es que remetem \u00e0 identidade cultural europeia. Blumenau, uma cidade catarinense, \u00e9 vista como um peda\u00e7o europeu no continente sulamericano, com sua heran\u00e7a alem\u00e3 e a maior Oktoberfest fora da Alemanha. Situa\u00e7\u00f5es muito parecidas s\u00e3o vistas em Holambra, em S\u00e3o Paulo, e Penedo, no Rio de Janeiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, pode-se perceber a diferen\u00e7a recebida por imigrantes africanos e europeus em solo brasileiro. Enquanto imigrantes europeus em duas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es foram verdadeiramente integrados ao Brasil, com sua cultura sendo vista como modelo e suas cidades heran\u00e7a sendo foco de turismo dentro do Brasil pela proximidade com os padr\u00f5es europeus, a popula\u00e7\u00e3o negra atual em todo territ\u00f3rio brasileiro ainda \u00e9 vista como outsider em muitos contextos, sua contribui\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 desvalorizada e as pessoas pretas s\u00e3o discriminadas, com dados econ\u00f4micos e sociais demonstrando esses fatos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Percebe-se, portanto, que o Brasil trata das pol\u00edticas relacionadas aos migrantes de forma diferenciada. Os imigrantes europeus que se destinaram ao Brasil ap\u00f3s a assinatura da lei Eus\u00e9bio de Queiroz com a finalidade de trabalhar nas fazendas de caf\u00e9 de S\u00e3o Paulo e, posteriormente, \u00e0 regi\u00e3o Sul no final do s\u00e9culo XIX foram bem recebidos, recebiam sal\u00e1rios, tratamento razo\u00e1vel do governo e da popula\u00e7\u00e3o. Enquanto os escravizados que foram for\u00e7ados a deixar a \u00c1frica para serem explorados no Brasil n\u00e3o receberam esse mesmo tratamento por parte dos colonizadores e, posteriormente, os governantes da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Os reflexos dessa diferencia\u00e7\u00e3o podem ser notados em uma an\u00e1lise econ\u00f4mica, social e cultural da sociedade brasileira nos dias de hoje. Enquanto em duas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es os imigrantes europeus foram capazes de se estabilizar no Brasil, os imigrantes provenientes da \u00c1frica em toda a hist\u00f3ria do Brasil ainda lidam com um Brasil que, em grande parte, ainda apresenta a mesma estrutura sociol\u00f3gica da \u00e9poca da escravatura. Sem nenhum tipo de aux\u00edlio ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em 1888, os pretos no Brasil continuam presos de forma muito pr\u00f3xima aos padr\u00f5es da sociedade escravista. Os novos imigrantes provenientes da \u00c1frica a partir desse per\u00edodo, al\u00e9m da xenofobia destinada \u00e0s suas culturas, ainda s\u00e3o for\u00e7ados a enfrentar todos os aspectos que pessoas negras brasileiras sofrem, como todas as consequ\u00eancias do racismo e outras pol\u00edticas discriminat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil do s\u00e9culo XXI ainda carrega uma heran\u00e7a p\u00f3s-colonial caracterizada pela viol\u00eancia como linguagem privilegiada para a resolu\u00e7\u00e3o de conflitos, afirma Dennis Pacheco, pesquisador do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, respons\u00e1vel pelo Atlas da Viol\u00eancia. Dessa forma, portanto, uma an\u00e1lise do tratamento que os imigrantes receberam durante toda a sua hist\u00f3ria recebem no territ\u00f3rio brasileiro demonstra uma severa inconsist\u00eancia de acordo com sua origem, quadro que persiste intr\u00ednseco \u00e0 sociedade brasileira atual. Assim como em toda a hist\u00f3ria brasileira, os imigrantes e refugiados em solo brasileiro, al\u00e9m do quadro de estrangeiro, ainda t\u00eam suas vidas atravessadas pelas diversas nuances da sociedade em que agora se encontram, aspecto o qual merece maior aten\u00e7\u00e3o das entidades p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ANDERSON, Benedict. <strong>Comunidades imaginadas: <\/strong>reflex\u00f5es sobre a origem e a difus\u00e3o do nacionalismo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>FAUSTINO, Deivison Mendes e OLIVEIRA, Leila Maria de. Xeno-racismo ou xenofobia racializada? Problematizando a hospitalidade seletiva aos estrangeiros no Brasil. <strong>REMHU: Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana<\/strong> [online]. 2021, v. 29, n. 63, pp. 193-210. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/doi.org\/10.1590\/1980-85852503880006312&gt;. Epub 05 Jan 2022. ISSN 2237-9843.&nbsp;<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/1980-85852503880006312\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/1980-85852503880006312<\/a>. Acesso em: 16 de fev. de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>FRAN\u00c7A, Renan. Pesquisa americana indica que o Rio recebeu 2 milh\u00f5es de escravos africanos.&nbsp;<strong>Jornal O Globo<\/strong>, Rio de Janeiro, 05 de jan. de 2015. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/pesquisa-americana-indica-que-rio-recebeu-2-milhoes-de-escravos-africanos-15784551#:~:text=Segundo%20o%20novo%20levantamento%2C%20cerca,3%2C6%20milh%C3%B5es%20de%20escravos\">https:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/pesquisa-americana-indica-que-rio-recebeu-2-milhoes-de-escravos-africanos-15784551#:~:text=Segundo%20o%20novo%20levantamento%2C%20cerca,3%2C6%20milh%C3%B5es%20de%20escravos<\/a>.&gt;. Acesso em 27 de fev. de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>MENEZ, Alexsandro R. Civiliza\u00e7\u00e3o versus barb\u00e1rie: a destrui\u00e7\u00e3o do morro do Castelo no Rio de Janeiro (1905-1922). <strong>Revista Historiador,<\/strong> n. 6, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>MOURA, Clovis. <strong>Sociologia do negro brasileiro<\/strong>, S\u00e3o Paulo: Editora \u00c1tica, 1988.<\/p>\n\n\n\n<p>PATARRA, Neide Lopes. Migra\u00e7\u00f5es internacionais de e para o Brasil contempor\u00e2neo: volumes, fluxos, significados e pol\u00edticas. <strong>S\u00e3o Paulo em Perspectiva [online].<\/strong> 2005, v. 19, n. 3, pp. 23-33. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0102-88392005000300002&gt;. Epub 01 Out 2007. ISSN 1806-9452.&nbsp;<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0102-88392005000300002\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0102-88392005000300002<\/a>. Acesso em: 27 de jan. de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>RAMOS, Vanessa. \u201cFui asfixiado, n\u00e3o conseguia respirar\u201d, denuncia haitiano agredido em f\u00e1brica da Brasil Foods.&nbsp;<strong>Brasil de Fato<\/strong>, S\u00e3o Paulo, 15 de julho de 2021. Dispon\u00edvel em &lt;&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/07\/15\/fui-asfixiado-nao-conseguia-respirar-denuncia-haitiano-agredido-em-fabrica-da-brasil-foods\">https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/07\/15\/fui-asfixiado-nao-conseguia-respirar-denuncia-haitiano-agredido-em-fabrica-da-brasil-foods<\/a>&nbsp;&gt;. Acesso em 27 de fev. de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00c9RAN J. F., NOAL, D. D. S., FAINSTAT, T. (2014). Nem refugiados, nem migrantes: a chegada dos haitianos \u00e0 cidade de Tabatinga (Amazonas).&nbsp;<strong>Dados,<\/strong> 57, 1007-1041.<\/p>\n\n\n\n<p>VERSIANI, Fernanda and CARVALHO, Antonio. South-South migration: a study on refugees working in small and medium Brazilian enterprises.&nbsp;<strong>Cadernos EBAPE.BR [online]<\/strong>. 2021, v. 19, n. 2, pp. 252-264. Available from: &lt;https:\/\/doi.org\/10.1590\/1679-395120200056&gt;.&nbsp;Epub 28 June 2021. ISSN 1679-3951.&nbsp;<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/1679-395120200056\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/1679-395120200056<\/a>. Acesso em: 01 de mar\u00e7o de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Amanda Evangelista Valad\u00e3o <\/em><\/strong><em>\u00e9 graduanda em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Dedica-se a pesquisa de temas relacionados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>Como citar esse artigo:<\/strong><\/p><p>VALAD\u00c3O, Amanda Evangelista. O sentimento de ser estrangeiro: o tratamento diferenciado destinado aos grupos de imigrantes a partir da lei Eus\u00e9bio de Queiroz de 1850 at\u00e9 o Brasil atual. <em>Di\u00e1logos Internacionais<\/em>, vol.9, n.93, ago.2022. Dispon\u00edvel em:\u00a0https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=2742<span style=\"font-family: -webkit-standard; font-size: medium; font-weight: 400; white-space: normal;\"><\/span><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 9 | N\u00famero 93 | Ago. 2022 Por Amanda Evangelista Valad\u00e3o INTRODU\u00c7\u00c3O<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2743,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[646,651,660],"tags":[],"class_list":["post-2742","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-edicoes-anteriores","category-volume9"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2742","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2742"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2742\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2744,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2742\/revisions\/2744"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2743"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}