{"id":2895,"date":"2023-03-07T13:26:32","date_gmt":"2023-03-07T16:26:32","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=2895"},"modified":"2024-03-29T19:36:17","modified_gmt":"2024-03-29T22:36:17","slug":"notas-biograficas-de-antonio-paim-de-militante-comunista-na-uniao-sovietica-a-guru-do-liberalismo-brasileiro-no-governo-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=2895","title":{"rendered":"Notas biogr\u00e1ficas de Antonio Paim: de militante comunista na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a guru do liberalismo brasileiro na era Bolsonaro"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 10 | N\u00famero 97 | Mar. 2023<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/direction-g475c9654b_640.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2896\" width=\"839\" height=\"525\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/direction-g475c9654b_640.jpg 640w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/direction-g475c9654b_640-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 839px) 100vw, 839px\" \/><figcaption>Imagem de <a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/aitoff-388338\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=654123\">Andrew Martin<\/a> por <a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=654123\">Pixabay<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Felipe Vidal Benvenuto Alberto<\/em><br><em>Tom\u00e1s Paix\u00e3o Borges<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><\/p>\n\n\n\n<p><strong>RESUMO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na busca por recriar os caminhos trilhados por uma figura bastante singular do Pensamento Pol\u00edtico Brasileiro, este trabalho perpassa aspectos pessoais e inusitados da vida de Antonio Paim, que militou como comunista na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e terminou sua vida como refer\u00eancia para figuras significativamente distanciadas desses ideais. Em paralelo aos aspectos essencialmente biogr\u00e1ficos, \u00e9 esbo\u00e7ada tamb\u00e9m uma an\u00e1lise acerca da ideologia pol\u00edtica defendida e propagada por Paim, ainda que tenha se mostrado t\u00e3o caleidosc\u00f3pica ao longo de sua vida. Como um expoente intelectual brasileiro, a despeito de seu posicionamento pol\u00edtico, esse aspecto n\u00e3o poderia ser ignorado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> Marxismo; Liberalismo; Pensamento Pol\u00edtico Brasileiro; Extrema-Direita.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O E ORIGENS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antonio Ferreira Paim nasceu na cidade de Jacobina, na Bahia, em 1927, sendo criado pela sua av\u00f3 juntamente com seus irm\u00e3os. Filho de um homem envolvido com o meio musical, em determinado momento Paim chegou a acumular, entre os seus muitos afazeres para uma crian\u00e7a, a pr\u00e1tica de trompetista, algo que n\u00e3o passou de uma imposi\u00e7\u00e3o familiar em sua vida. Apesar de seu marcante afastamento das mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia, motivado principalmente pelo tardio interesse no levantamento de sua biografia, com o protagonista j\u00e1 em idade avan\u00e7ada, ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar caracter\u00edsticas que posteriormente viriam aflorar nas seus pensamentos e atividades desenvolvidas. O mais evidente destes casos \u00e9 certamente a sua aberta inspira\u00e7\u00e3o no irm\u00e3o mais velho, Isaias Paim, que viria a se tornar um m\u00e9dico psiquiatra dedicado \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do conte\u00fado te\u00f3rico existente sobre a \u00e1rea na sua \u00e9poca (JUVENTUDE, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo o padr\u00e3o do per\u00edodo, Paim frequentou simultaneamente o gin\u00e1sio escolar \u2014 atualmente chamado de segundo grau \u2014 e o Tiro de Guerra, institui\u00e7\u00e3o vinculada ao Ex\u00e9rcito Brasileiro voltada a ser forma\u00e7\u00e3o de entrada de estudantes secundaristas no servi\u00e7o militar. Contudo, o car\u00e1ter desimportante desta forma\u00e7\u00e3o complementar precisou ser revogado em 1943, quando a integra\u00e7\u00e3o do Brasil na Segunda Guerra Mundial leva \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de reservistas como o futuro pensador pol\u00edtico. Rec\u00e9m-chegado ao Rio de Janeiro e decidido a seguir seus estudos pela \u00e1rea das ci\u00eancias exatas, Paim \u00e9 surpreendido pelas novidades e passa por alguns anos de intensas mudan\u00e7as for\u00e7adas pelos seus servi\u00e7os militares vinculados a Ex\u00e9rcito e Aeron\u00e1utica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>MILIT\u00c2NCIA NO PCB E PER\u00cdODO MARXISTA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda metade da d\u00e9cada de 40, a convuls\u00e3o do p\u00f3s-guerra colabora fortemente para a ampla dissemina\u00e7\u00e3o dos ideais comunistas principalmente entre os jovens do pa\u00eds. Assim, segundo palavras do pr\u00f3prio autor, \u201cinfluenciado pelos amigos\u201d que ingressaram o Partido Comunista Brasileiro (PCB), Paim tamb\u00e9m o fez, sendo, inclusive, convocado para trabalhar na Tribuna Popular, um di\u00e1rio carioca diretamente ligado a essa vertente ideol\u00f3gica. Segundo seus relatos em entrevistas recentes, chegou a ser preso em 1948 por reagir com tiros a uma tentativa da pol\u00edcia de fechar seu local de trabalho da \u00e9poca e, depois da pris\u00e3o, considerou-se um \u201cverdadeiro l\u00edder comunista\u201d (BRUNO, 2016), pois passou a organizar e promover manifesta\u00e7\u00f5es e greves na regi\u00e3o Nordeste. Nesse momento, o autor afirma que estava sendo formado para ser um \u201cbolchevique\u201d, que na defini\u00e7\u00e3o de seus correligion\u00e1rios era algu\u00e9m \u201csem alma\u201d, que n\u00e3o poderia ter amigos ou fam\u00edlia. Em suas palavras, passou por um processo de desumaniza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que foi convidado a estudar o marxismo em Moscou.<\/p>\n\n\n\n<p>Na R\u00fassia, Paim inicia seus estudos na Universidade de Lomonosov e ali se apaixona por uma tradutora nativa, sofrendo duras cr\u00edticas dos integrantes do partido \u2014 devido \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do que deveria ser um bolchevique \u2014 por\u00e9m ignorou-as e decidiu por casar-se com a russa (PAIM, [s.d]). Ap\u00f3s muito tempo de estudo aprofundado, o autor alega ter encontrado incoer\u00eancias no pensamento marxista, mas somente quando foi divulgado o Relat\u00f3rio Khrushchev, que acusava Stalin \u201cpelo uso indiscriminado de viol\u00eancia, execu\u00e7\u00f5es, processos fraudulentos contra advers\u00e1rios pol\u00edticos, violando todas as normas de legalidade revolucion\u00e1ria\u201d (DISCURSO, [s.d.], p. 11), que decidiu abandonar o PCB, pois, em suas palavras, o partido foi criado para ser \u201cimagem e semelhan\u00e7a\u201d do que ocorria na R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Regressando ao Brasil, mais especificamente ao Rio de Janeiro, onde anos atr\u00e1s havia tentado sem sucesso se estabelecer, o autor deixou suas \u201caventuras mais revolucion\u00e1rias\u201d para tr\u00e1s e retornou \u00e0s atividades acad\u00eamicas convencionais, iniciando o curso de Filosofia, na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Apesar de haver deixado o Partido Comunista, Paim ainda se considerava marxista, muito por s\u00f3 ter estudado esta corrente durante toda a sua juventude. Na atualidade, o autor afirma que naquele per\u00edodo conhecia a cr\u00edtica marxista a todos os principais autores filos\u00f3ficos, por\u00e9m n\u00e3o estudava suas ideias em si. Por desejar conhecer a filosofia que considera lhe ter sido privada pelo foco marxista, inscreveu-se na cadeira de Kant da Faculdade de Filosofia e come\u00e7ou a estudar com afinco as ideias kantianas, \u00e0s quais se dedicou por mais de 15 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>GUINADA LIBERAL E CR\u00cdTICA AO MARXISMO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil nos anos 60 n\u00e3o permitiu que Paim realizasse sua tese sobre marxismo \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 somente muitos anos mais tarde, que ele publica seu livro <em>Marxismo e Descend\u00eancia<\/em> (2009). Nele, o autor descreve o marxismo como um sistema filos\u00f3fico que, com base em uma vis\u00e3o econ\u00f4mica da realidade, discorre sobre o Estado, a sociedade e o pensamento. Na obra, Paim critica as incoer\u00eancias desse sistema ao desconsiderar os sistemas com l\u00edderes democr\u00e1ticos que prosperavam e pender para um sistema pol\u00edtico sem pluralidade democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>A sa\u00edda de Paim do movimento marxista se deu pela influ\u00eancia da vertente do culturalismo da filosofia kantiana, atrav\u00e9s dos fil\u00f3sofos da Escola de Baden. Com base nessa vertente, na primeira parte de sua obra, o autor analisa a doutrina marxista do Estado. Para ele, h\u00e1 uma afinidade entre a doutrina de Marx e o patrimonialismo. Esta, segundo Weber, representa um tipo de domina\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica e racional, definida por forte concentra\u00e7\u00e3o de poder nas m\u00e3os do soberano, n\u00e3o permitindo a clara separa\u00e7\u00e3o entre patrim\u00f4nio p\u00fablico e riqueza privada. Al\u00e9m disso, a popula\u00e7\u00e3o fica \u00e0 merc\u00ea do arb\u00edtrio do soberano, que n\u00e3o tem limita\u00e7\u00f5es de poder, e da aus\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas de representa\u00e7\u00e3o, como partidos pol\u00edticos. Assim, com o patrimonialismo, o Estado \u00e9 mais forte que a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>O autor, ent\u00e3o, afirma que Marx pende para a viol\u00eancia pol\u00edtica para destruir o Estado burgu\u00eas e substitu\u00ed-lo por uma ditadura do proletariado, que construiria uma sociedade comunista sem classes. Isso se apoiaria e entraria em conson\u00e2ncia com a tradi\u00e7\u00e3o do patrimonialismo russo, tal como postulado por L\u00eanin e, em seguida, St\u00e1lin. Ou seja, para Paim, Marx se identificava com m\u00e9todos de tomada de poder pela for\u00e7a. No entanto, ele ignorava que m\u00e9todos parecidos j\u00e1 haviam fracassado. Por exemplo, os de Louis Auguste Blanqui, com o movimento dos oper\u00e1rios de Paris, cuja queda deu origem \u00e0 Segunda Rep\u00fablica, e a tentativa de Napole\u00e3o III de reinstaurar o imp\u00e9rio, que fracassou com a Guerra Franco-Prussiana e o esmagamento da Comuna de Paris, dando origem \u00e0 Terceira Rep\u00fablica (RODR\u00cdGUEZ, [s.d.]).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Marx ignorava os movimentos que mais deram frutos, principalmente na Europa Ocidental. Eles consistiam na resolu\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es sociais atrav\u00e9s da incorpora\u00e7\u00e3o progressiva das massas trabalhadoras nas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que as representavam no jogo eleitoral. Foi, para Paim, uma evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica muito diferente daquela postulada com base no patrimonialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo se iniciou na Inglaterra no final do s\u00e9culo XVII, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Gloriosa, que resultou no surgimento de um governo mon\u00e1rquico limitado pelo Parlamento e que se consolidaria depois como regime parlamentarista. Foi um freio inicial ao absolutismo, atrav\u00e9s de um sistema representativo, e que, naquele ent\u00e3o, refletia os interesses dos benefici\u00e1rios da revolu\u00e7\u00e3o, ou seja, a nobreza rural. Outro fator importante, para o autor, foi a Reforma Protestante. Sendo a religi\u00e3o um ber\u00e7o da moral, cujos valores servem de refer\u00eancia na constru\u00e7\u00e3o do mundo social do indiv\u00edduo, ela desempenha importante papel nos processos hist\u00f3ricos. Logo, o surgimento de interpreta\u00e7\u00f5es rivais criou a necessidade de que grupos com pensamentos diferentes convivessem. Da\u00ed em diante novos atores pol\u00edticos foram sendo incorporados ao processo evolutivo, como a burguesia industrial, a pequena classe m\u00e9dia e, por fim, a classe n\u00e3o propriet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A possibilidade de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atrav\u00e9s do voto se expandiu e se universalizou com o fim do voto censit\u00e1rio. Essa mudan\u00e7a se espalhou pelo Ocidente da Europa, pautada por um sistema de partidos pol\u00edticos permanentes e n\u00e3o blocos parlamentares. Esse processo de evolu\u00e7\u00e3o seria, para Paim, a democratiza\u00e7\u00e3o da ideia liberal, que ocorre pela exig\u00eancia liberal de que o Estado tenha seu poder sobre o indiv\u00edduo limitado e pela busca democr\u00e1tica por decis\u00f5es tomadas pela maioria. Foi essa vis\u00e3o liberal que criou, nos Estados Unidos, a primeira rep\u00fablica presidencialista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>AN\u00c1LISE DO PENSAMENTO POL\u00cdTICO BRASILEIRO E INFLU\u00caNCIA KANTIANA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, no terreno das hist\u00f3rias das ideias pol\u00edticas, Antonio Paim teve uma contribui\u00e7\u00e3o \u00edmpar para uma nova vis\u00e3o do processo pol\u00edtico brasileiro. Em seu livro <em>A Querela do Estatismo<\/em>, apoiado nas conceitua\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas weberianas das dimens\u00f5es b\u00e1sicas da vida social e da legitima\u00e7\u00e3o do poder, constr\u00f3i a ideia de um \u201cEstado Patrimonialista Brasileiro\u201d, caracterizado pela faceta \u201cclientelista e cartorialista\u201d (PAIM, 1994, p. 23) de sua esfera econ\u00f4mica e por fonte tend\u00eancia modernizadora em determinadas \u00e9pocas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis\u00e3o do te\u00f3rico, a \u00fanica forma de compreender amplamente o processo de forma\u00e7\u00e3o deste Estado reside no entendimento que o \u201cEstado \u00e9 uma realidade per se\u201d (Idem, p. 16). Ao superar uma vis\u00e3o tradicionalista que centra toda a an\u00e1lise na sociedade civil e apenas situa o Estado como sua express\u00e3o m\u00e1xima, rejeita qualquer tipo de an\u00e1lise que atribua as decis\u00f5es tomadas \u00e0 n\u00edvel governamental apenas ao interesse de classes no Brasil. Esta inovadora abordagem recentraliza o papel da tradi\u00e7\u00e3o cultural na forma\u00e7\u00e3o da realidade pol\u00edtico-estrutural brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Na perspectiva de Paim, a origem deste Estado reside nas hist\u00f3ricas tradi\u00e7\u00f5es dos sistemas pol\u00edticos lusitanos, altamente patrimonialista. Apoiado pelos escritos de Raymundo Faoro, aponta que o Estado Portugu\u00eas manteve no bojo de suas estruturas pol\u00edticas pr\u00e1ticas culturais que, al\u00e9m de misturar a propriedade estatal com os dom\u00ednios das antigas realezas, impediu a floresc\u00eancia de um capitalismo industrial. O autor refor\u00e7a tamb\u00e9m a import\u00e2ncia do per\u00edodo pombalino na forma\u00e7\u00e3o de uma elite pol\u00edtica que via com gosto a hegemonia da moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desta tend\u00eancia lusitana, urgiu uma outra grave quest\u00e3o na estrutura pol\u00edtica do Brasil: a falta de uma real representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Do modo como se estrutura a Rep\u00fablica no pa\u00eds, um sistema com real consci\u00eancia pol\u00edtica e poder de transforma\u00e7\u00e3o por parte da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00eddo por uma democracia ilus\u00f3ria, onde a \u201celei\u00e7\u00e3o, mesmo formalmente livre, lhe recusa a escolha entre as op\u00e7\u00f5es que n\u00e3o formulou\u201d (FAORO, 1975, p. 748). Para o fil\u00f3sofo, a \u00fanica experi\u00eancia verdadeiramente representativa do sistema pol\u00edtico brasileiro ocorreu durante o Segundo Imp\u00e9rio, gra\u00e7as a pr\u00e1tica parlamentarista, de inspira\u00e7\u00e3o liberal.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, a transforma\u00e7\u00e3o da atual situa\u00e7\u00e3o patrimonialista do Estado brasileiro n\u00e3o se esgotaria em reformas dentro do sistema que incentivassem a pluraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, maior participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o e est\u00edmulo a elei\u00e7\u00f5es verdadeiramente livres. Pelo contr\u00e1rio, se faz necess\u00e1ria uma reconstru\u00e7\u00e3o dos moldes em que foi formado, promovendo uma abertura plena ao sistema capitalista e renovando a perspectiva ideol\u00f3gica que ainda suporta o pensamento cartelista dos estadistas. Refor\u00e7ando essa ideia, Ricardo V\u00e9lez Rodr\u00edguez, antigo aluno de Paim e ent\u00e3o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, ao analisar a obra de seu mestre aponta que \u201c\u00e9 imprescind\u00edvel desenvolver, no interior da cultura brasileira, o interesse pelas ideias liberais, hoje abandonadas pela grande maioria dos pol\u00edticos e intelectuais\u201d (PAIM, 1997).<\/p>\n\n\n\n<p>No livro <em>O Patrimonialismo Brasileiro em Foco<\/em> (PAIM <em>et al<\/em>., 2015), o autor destaca as mazelas que esse modelo vem causando no pa\u00eds, al\u00e9m de mostrar que a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 tem consci\u00eancia do quanto ele a prejudica, referenciando-se ao rep\u00fadio popular ao caso do \u201cmensal\u00e3o\u201d quando o crime de apropria\u00e7\u00e3o indevida de recursos p\u00fablicos foi devidamente punido.<\/p>\n\n\n\n<p>Como anteriormente comentado, Paim possui uma forte influ\u00eancia daquele para o qual dedicou muitos anos de seus estudos, o fil\u00f3sofo Immanuel Kant. Sua cr\u00edtica ao modelo pol\u00edtico brasileiro muito se assemelha ao artigo 2\u00ba da primeira se\u00e7\u00e3o da obra <em>A Paz Perp\u00e9tua<\/em>, o qual afirma que o Estado n\u00e3o \u00e9 patrim\u00f4nio de uma pessoa ou grupo. Como o pr\u00f3prio fil\u00f3sofo prussiano diz, \u201co Estado adquire, pois, um governante, n\u00e3o \u00e9 o governante como tal que adquire o Estado\u201d (KANT, 2008, p. 5). Apesar da obra direcionar-se para a aquisi\u00e7\u00e3o literal de Estados, a situa\u00e7\u00e3o do patrimonialismo de Weber se apresenta como an\u00e1loga \u00e0 criada por Kant, visto que o governante agiria como propriet\u00e1rio do Estado, utilizando dos bens p\u00fablicos para fins pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra semelhan\u00e7a est\u00e1 na defesa de uma constitui\u00e7\u00e3o republicana. Apesar do Brasil possuir o t\u00edtulo de Rep\u00fablica Federativa, a an\u00e1lise de Antonio Paim quanto ao patrimonialismo existente no pa\u00eds mostra-o como contr\u00e1rio ao conceito de rep\u00fablica estabelecido pelo fil\u00f3sofo. Isso ocorre porque quando o chefe do Estado n\u00e3o \u00e9 um membro do Estado, mas seu propriet\u00e1rio, os s\u00faditos n\u00e3o s\u00e3o mais cidad\u00e3os dotados de liberdades individuais plenas. Assim, o Estado fica ainda mais propenso a guerras de acordo com o pensamento kantiano, pois as guerras ocorreriam segundo os interesses pessoais dos governantes e n\u00e3o os prejudicaria diretamente devido \u00e0s suas regalias aos custos da popula\u00e7\u00e3o; ao contr\u00e1rio de uma situa\u00e7\u00e3o de rep\u00fablica, na qual a popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 cidad\u00e3 consegue decidir se deve ou n\u00e3o haver guerra, pois ela seria a sua principal financiadora e a principal afetada por seus efeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>O autor tamb\u00e9m produziu outras diversas obras que exploravam \u00e0s quest\u00f5es relativas ao pensamento pol\u00edtico brasileiro. Destacam-se entre elas <em>O Liberalismo Contempor\u00e2neo<\/em> (1995) e o <em>Pensamento Pol\u00edtico Brasileiro<\/em> (1994). Al\u00e9m disso, buscando maior divulga\u00e7\u00e3o das ideias do liberalismo no Brasil e a forma\u00e7\u00e3o de uma elite intelectual liberal, publicou o curso de <em>Introdu\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica ao Liberalismo<\/em> (1996).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>INFLU\u00caNCIAS ATUAIS E CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vivendo at\u00e9 2021 em uma casa de repouso para idosos, na cidade de S\u00e3o Paulo, o pensador ainda \u00e9 tido como uma das principais refer\u00eancias para o ide\u00e1rio liberal brasileiro, fator acentuado pelo alinhamento ideol\u00f3gico adotado pelo ex-Presidente da Rep\u00fablica Jair Bolsonaro. Com a op\u00e7\u00e3o por nomear uma s\u00e9rie de ministros indicados pelos gurus intelectuais da vertente liberal do pensamento pol\u00edtico nacional, Antonio Paim voltou ao protagonismo de outrora, apesar de sua idade j\u00e1 avan\u00e7ada \u00e0 \u00e9poca. A mais evidente influ\u00eancia de suas falas se mostra na nomea\u00e7\u00e3o de Ricardo V\u00e9lez Rodr\u00edguez, seu ex-aluno e posterior companheiro de estudos, para o cargo de Ministro da Educa\u00e7\u00e3o. Ainda que o colombiano V\u00e9lez tenha durado apenas quatro meses no cargo, sua exonera\u00e7\u00e3o em nada passou por um distanciamento ideol\u00f3gico com o presidente em exerc\u00edcio, mas sim pelas sucessivas inconst\u00e2ncias que marcaram o governo de Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Paim seguiu uma vida pacata em seus \u00faltimos anos de vida, nos quais um dos principais hobbies passou a ser o de receber estudantes em sua habita\u00e7\u00e3o, a fim de tecer conversas informais e passar parte do seu vasto conhecimento pol\u00edtico e filos\u00f3fico. Obviamente esse p\u00fablico possu\u00eda uma pr\u00e9via simpatia ao que Paim tinha a propagar ideologicamente (JUVENTUDE, 2018). Ainda que mantivesse uma intera\u00e7\u00e3o regular, principalmente por meios digitais, com outros de seus correligion\u00e1rios da mesma \u00e9poca, como o pretenso fil\u00f3sofo Olavo de Carvalho, ficou evidente a sua predile\u00e7\u00e3o pelos bastidores em detrimento dos holofotes. Ao contr\u00e1rio do espalhafatoso Olavo de Carvalho, falecido em 2022 e deixando uma horda de \u00f3rf\u00e3os daquilo que opinava diariamente atrav\u00e9s de redes sociais, Antonio Paim faleceu no ostracismo em 2021, aos 94 anos, de causa n\u00e3o divulgada (FIL\u00d3SOFO, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>BRUNO Garschagen entrevista Antonio Paim<em>. <\/em><em>Mises Brasil<\/em>, 15 jan. 2016. Podcast 201 (60 min.). Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.mises.org.br\/FileUp.aspx?id=413\">https:\/\/www.mises.org.br\/FileUp.aspx?id=413<\/a>. Acesso em: 10 jan. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>DISCURSO Secreto de Khrushchev no XX Congresso do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, O. Rio de Janeiro: Ed. Ipanema, [s.d.].<\/p>\n\n\n\n<p>FAORO, Raymundo. <em>Os Donos do Poder<\/em>. 2.\u00aa ed., Porto Alegre: Globo\/USP, 2v, 1975.<\/p>\n\n\n\n<p>FIL\u00d3SOFO Antonio Paim morre aos 94 anos. G1, S\u00e3o Paulo, 1 mai. 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/noticia\/2021\/05\/01\/filosofo-antonio-paim-morre-aos-94-anos.ghtml\">https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/noticia\/2021\/05\/01\/filosofo-antonio-paim-morre-aos-94-anos.ghtml<\/a>. Acesso em: 10 jan. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>KANT, Immanuel. <em>A Paz Perp\u00e9tua, Um Projeto Filos\u00f3fico<\/em>. Covilh\u00e3: Universidade da Beira Interior, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>JUVENTUDE Comunista de Antonio Paim. <em>Revista Insight Intelig\u00eancia<\/em>, ano XXI, n\u00ba 81, (abril\/maio\/junho 2018): 52-62. Dispon\u00edvel em: . Acesso em: 10 jan. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>PAIM, Antonio Ferreira. <em>Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro: S\u00f3cios Honor\u00e1rios Brasileiros<\/em>,<em> <\/em>[s.d.], Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ihgb.org.br\/perfil\/userprofile\/AFPaim.html\">https:\/\/ihgb.org.br\/perfil\/userprofile\/AFPaim.html<\/a>. Acesso em: 10 jan. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>_______. Historiador das Ideias. <em>Revista Brasileira de Filosofia<\/em>, S\u00e3o Paulo, vol. 44, n\u00ba 186 (abril\/maio\/junho 1997): 203-212.<\/p>\n\n\n\n<p>_______. <em>A Querela do Estatismo<\/em>. Bras\u00edlia: Senado Federal, 1998.<\/p>\n\n\n\n<p>_______. <em>Marxismo e Descend\u00eancia<\/em>. S\u00e3o Paulo, Vide Editorial, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>_______.; BATISTA, Antonio Roberto; KRAMER, Paulo; RODR\u00cdGUEZ, Ricardo V\u00e9lez. <em>O Patrimonialismo Brasileiro em Foco<\/em>. S\u00e3o Paulo: Vide Editorial, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>RODR\u00cdGUEZ, Ricardo V\u00e9lez. Antonio Paim: Vida, Obra, Pensamento. <em>Proyecto Ensayo Hisp\u00e1nico<\/em>. [s.d.]. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ensayistas.org\/filosofos\/brasil\/paim\/paim.htm\">https:\/\/www.ensayistas.org\/filosofos\/brasil\/paim\/paim.htm<\/a>. Acesso em: 10 jan. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p><em><strong>Felipe Vidal Benvenuto Alberto<\/strong> \u00e9 mestrando no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (PPGRI) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) como bolsista CAPES. Bacharel em L\u00ednguas Estrangeiras Aplicadas pelo CEFET\/RJ, com per\u00edodo sandu\u00edche na Facult\u00e9 des Sciences Juridiques, Politiques et Sociales da Universit\u00e9 de Lille. Pesquisador do N\u00facleo de Estudos Atores e Agendas de Pol\u00edtica Externa (NEAAPE) do Instituto de Estudos Sociais e Pol\u00edticos (IESP\/UERJ). S\u00f3cio Estudante da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (ABRI).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Tom\u00e1s Paix\u00e3o Borges<\/strong> \u00e9 mestrando em Ci\u00eancia Pol\u00edtica no Instituto de Estudos Sociais e Pol\u00edticos da UERJ (IESP\/UERJ). Bacharel em L\u00ednguas Estrangeiras Aplicadas \u00e0s Negocia\u00e7\u00f5es Internacionais pelo CEFET\/RJ, com per\u00edodo sandu\u00edche no Institut d&#8217;\u00c9tudes Politiques da Universit\u00e9 de Strasbourg (Sciences Po Strasbourg). Pesquisador do Grupo de Estudos e de Pesquisa em Teoria Pol\u00edtica e Pensamento Pol\u00edtico Brasileiro (BEEMOTE) e do N\u00facleo de Estudos, Atores e Agendas de Pol\u00edtica Externa (NEAAPE) do IESP\/UERJ.<\/em><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Como citar:<br>ALBERTO, Felipe Vidal Benvenuto; BORGES, Tom\u00e1s Paix\u00e3o. Notas biogr\u00e1ficas de Antonio Paim: de militante comunista na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a guru do liberalismo brasileiro no governo Bolsonaro.<em> Di\u00e1logos Internacionais<\/em>, vol. 10, n. 97, Mar. 2023. 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