{"id":2991,"date":"2023-12-04T09:00:00","date_gmt":"2023-12-04T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=2991"},"modified":"2024-03-29T19:32:06","modified_gmt":"2024-03-29T22:32:06","slug":"a-ascensao-do-taliba-no-afeganistao-perspectivas-feministas-de-resistencia-e-o-papel-do-ocidente-nas-transformacoes-politicas-no-oriente%ef%bf%bc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=2991","title":{"rendered":"A ascens\u00e3o do Talib\u00e3 no Afeganist\u00e3o: perspectivas feministas de resist\u00eancia e o papel do Ocidente nas transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no Oriente\ufffc"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 10 | N\u00famero 105 | Dez. 2023<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/afeganist-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2995\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/afeganist-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/afeganist-300x225.jpg 300w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/afeganist-768x576.jpg 768w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/afeganist-720x540.jpg 720w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/afeganist.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Afeganist\u00e3o &#8211; Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Ester Sanglard de Azevedo Mendon\u00e7a<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, para compreender a rela\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses do Ocidente e processos de transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em pa\u00edses do Oriente, \u00e9 preciso examinar o contexto hist\u00f3rico e pol\u00edtico do sistema internacional. Historicamente, a estrutura capitalista hegem\u00f4nica no sistema internacional propicia a divis\u00e3o da sociedade em grupos dominantes e grupos dominados. Segundo Karl Marx e Friedrich Engels, \u201ca hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 a hist\u00f3ria da luta de classes\u201d (MARX; ENGELS, 1848), ou seja, a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo pr\u00f3prio homem. A partir dessa m\u00e1xima, o presente estudo pretende focar sua cr\u00edtica em duas frentes principais de an\u00e1lise: as opress\u00f5es relativas ao g\u00eanero e a supremacia ocidental em detrimento da cultura, costumes, religi\u00e3o e cren\u00e7as orientais. Como aponta o fil\u00f3sofo contempor\u00e2neo Paul Preciado, \u201cas democracias liberais e patriarcais-coloniais europ\u00e9ias do s\u00e9culo XIX constroem o ideal do indiv\u00edduo moderno n\u00e3o apenas como um agente econ\u00f4mico livre (masculino, branco, heterossexual), mas tamb\u00e9m como um corpo imune radicalmente separado que n\u00e3o deve nada \u00e0 comunidade.\u201d (PRECIADO, 2020).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, ascende o grupo dos Talib\u00e3s &#8211; em pashtun, \u201cestudantes\u201d: grupo fundamentalista isl\u00e2mico sunita, formado em 1994, no Afeganist\u00e3o, que faz uma interpreta\u00e7\u00e3o mais radical da&nbsp;<em>Sharia<\/em>, o sistema jur\u00eddico do Isl\u00e3. Como o objetivo central do grupo \u00e9 aplicar tal vis\u00e3o da&nbsp;<em>Sharia<\/em>&nbsp;\u00e0 toda popula\u00e7\u00e3o afeg\u00e3, grupos de oposi\u00e7\u00e3o foram massivamente perseguidos durante o regime, o que intensificou ainda mais a opress\u00e3o a minorias \u00e9tnicas e religiosas na regi\u00e3o, al\u00e9m, \u00e9 claro, das mulheres. Ao analisar a situa\u00e7\u00e3o das mulheres no Afeganist\u00e3o sob o regime do Talib\u00e3, fica n\u00edtida a influ\u00eancia de conceitos de subalternidade e submiss\u00e3o feminina; sujei\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m seguem reprimindo as parcelas femininas no Ocidente, por mais \u201ccivilizado\u201d e \u201clivre\u201d que clame ser.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Subsequentemente, \u00e9 imposs\u00edvel estudar a repress\u00e3o do Talib\u00e3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres sem dar aten\u00e7\u00e3o especial ao Feminismo Isl\u00e2mico, corrente crescente tanto no Oriente, quanto no Ocidente. Assim como o Feminismo Negro, o Feminismo Ind\u00edgena e o TransFeminismo, o Feminismo Isl\u00e2mico surge da necessidade de uma vis\u00e3o interseccional das demandas femininas, tendo em vista as restri\u00e7\u00f5es do Feminismo Branco e Ocidental nascido nos anos 1960. \u00c0 \u00e9poca, nos Estados Unidos, as pensadoras feministas em quest\u00e3o reivindicavam o direito ao voto, ao trabalho e \u00e0 liberdade de ir e vir sem a companhia masculina, por exemplo. Entretanto, ao listarem tais demandas e clamarem lutar pela liberta\u00e7\u00e3o de \u201ctodas as mulheres\u201d, acabaram por discriminar e negligenciar necessidades urgentes de mulheres pretas, por exemplo, que sofrem a opress\u00e3o em duas frentes: pela cor e pelo g\u00eanero. Em seu livro,&nbsp;<em>Quem Tem Medo do Feminismo Negro?<\/em>, Djamila Ribeiro explicita:<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cExiste ainda, por parte de muitas feministas brancas, uma resist\u00eancia muito grande em perceber que, apesar do g\u00eanero nos unir, h\u00e1 outras especificidades que nos separam e afastam. Enquanto feministas brancas tratarem a quest\u00e3o racial como birra e disputa, em vez de reconhecer seus privil\u00e9gios, o movimento n\u00e3o vai avan\u00e7ar, s\u00f3 reproduzir as velhas e conhecidas l\u00f3gicas de opress\u00e3o.\u201d&nbsp;&nbsp;(2018, p 35).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O pensamento de Djamila pode ser facilmente comparado \u00e0 rea\u00e7\u00e3o das mulheres isl\u00e2micas frente ao Feminismo mainstream, caracterizadamente branco e ocidental. Dessa forma, tamb\u00e9m fica clara a interfer\u00eancia de l\u00f3gicas coloniais e imperialistas, que seguem sobrepondo o pensamento ocidental em detrimento do oriental, al\u00e9m de refor\u00e7ar estere\u00f3tipos como a obsess\u00e3o pelo salvamento das mulheres mu\u00e7ulmanas por parte do feminismo branco &#8211; tema que ser\u00e1 abordado posteriormente por este estudo. Atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise aprofundada sobre o Talib\u00e3, o Feminismo Isl\u00e2mico e os discursos ocidentais acerca do Orientalismo e do relativismo cultural, espera-se entender, portanto, a responsabilidade e o papel do Ocidente nas transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do Oriente e como sua influ\u00eancia se d\u00e1 em termos pr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Talib\u00e3: Origem e Doutrinas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMinha primeira mensagem \u00e0 na\u00e7\u00e3o \u00e9 para que n\u00e3o se preocupe. Fiquem e vivam em sua na\u00e7\u00e3o e em suas casas. Sua na\u00e7\u00e3o precisa de voc\u00eas, e n\u00f3s vamos proteg\u00ea-los.\u201d (SAMIULLAH, Qari). \u00c9 sob a premissa de paz, prote\u00e7\u00e3o e ordem que Qari Samiullah, comandante do Talib\u00e3, anuncia a uma TV afeg\u00e3 a reascens\u00e3o do grupo ao poder no Afeganist\u00e3o, em agosto de 2021. Em contrapartida \u00e0 fala, \u00e0 primeira vista, positiva, por\u00e9m, se esconde um enorme passado de viol\u00eancia, repress\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o a minorias sociais e \u00e9tnicas dentro do pa\u00eds por parte do Talib\u00e3. O hist\u00f3rico fez com que grande parte da popula\u00e7\u00e3o afeg\u00e3, principalmente as mulheres, ficasse atemorizada e se sentisse for\u00e7ada a migrar para outros locais, fora do dom\u00ednio do Talib\u00e3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender a origem de tamanho receio da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao grupo dos Talib\u00e3s, \u00e9 necess\u00e1rio retroceder \u00e0 d\u00e9cada de 1990. No contexto da Guerra Civil Afeg\u00e3, a guerrilha local dos Mujahedins resistia ao avan\u00e7o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica dentro do territ\u00f3rio afeg\u00e3o, com apoio b\u00e9lico de pa\u00edses como os Estados Unidos. Frente a isso, Mohammed Omar, tamb\u00e9m conhecido como Mul\u00e1 Omar &#8211; ao lado de outros combatentes de mil\u00edcias armadas e dissidentes de outros grupos &#8211; promove a forma\u00e7\u00e3o do grupo dos Talib\u00e3s em 1994. Entre outros ideais, seu intento central era a afirma\u00e7\u00e3o e propaga\u00e7\u00e3o de sua leitura da&nbsp;<em>Sharia<\/em>, a lei isl\u00e2mica. O grupo fundamentalista sunita, que tamb\u00e9m se reconhece como Emirado Isl\u00e2mico do Afeganist\u00e3o, consolidou seu poder no pa\u00eds no ano de 1996 e, dessa forma, prosseguiu governando at\u00e9 o ano de 2001, quando os Estados Unidos invadiram o pa\u00eds e militarizaram a regi\u00e3o &#8211; subsequentemente ao atentado terrorista de 11 de Setembro.<a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Durante a estadia dos Talib\u00e3s no poder do Afeganist\u00e3o (1996-2001), in\u00fameras viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos foram registradas. No Relat\u00f3rio do Afeganist\u00e3o sobre as Pr\u00e1ticas de Direitos Humanos<a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;de 1996 do Departamento de Estado dos Estados Unidos, est\u00e3o expressas como viola\u00e7\u00f5es do Talib\u00e3: a) assassinatos pol\u00edticos e outros extrajudiciais; b) desaparecimento: raptos, sequestros, ou tomada de ref\u00e9ns para resgate ou por raz\u00f5es pol\u00edticas ocorreram em \u00e1reas n\u00e3o pertencentes ao Talib\u00e3; c) tortura e outros tratamentos ou puni\u00e7\u00f5es cru\u00e9is, desumanos ou degradantes; d) pris\u00e3o arbitr\u00e1ria, deten\u00e7\u00e3o ou ex\u00edlio; e) nega\u00e7\u00e3o de julgamento p\u00fablico justo; f) interfer\u00eancia arbitr\u00e1ria \u00e0 privacidade, fam\u00edlia, casa ou correspond\u00eancia; g) uso de for\u00e7a excessiva e viola\u00e7\u00f5es do direito humanit\u00e1rio em conflitos internos. Diante disso, torna-se compreens\u00edvel o temor e apreens\u00e3o instaurados na sociedade afeg\u00e3 ap\u00f3s a retomada de poder pelo Talib\u00e3 em agosto de 2021.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Figura 1<\/strong>: A Aquisi\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o pelo Talib\u00e3<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"572\" height=\"322\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/11223DEZ.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2992\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/11223DEZ.png 572w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/11223DEZ-300x169.png 300w\" sizes=\"(max-width: 572px) 100vw, 572px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Fonte: SILVA, Rodrigo et al. El Pa\u00eds, 17 de agosto de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, no ano de 2021, o Talib\u00e3 conseguiu orquestrar sua retomada ao poder, posteriormente ao an\u00fancio da sa\u00edda dos militares estadunidenses. Em poucos meses, como demonstrado na Figura 1, o grupo passou a controlar diversas regi\u00f5es do pa\u00eds, at\u00e9 que, finalmente, chega \u00e0 capital &#8211; Cabul &#8211; e consolida sua hegemonia.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, para um artigo da E-International Relations, Grant Farr disserta sobre&nbsp;<em>Quem s\u00e3o os Talib\u00e3s?<\/em>&nbsp;e, quando enfoca na quest\u00e3o feminina, escreve:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o Taleban esteja no poder h\u00e1 apenas alguns dias em Cabul, j\u00e1 temos uma ideia de como as mulheres ser\u00e3o tratadas. Uma \u00e2ncora de TV em Cabul n\u00e3o teve permiss\u00e3o para trabalhar. O Talib\u00e3 disse a ela: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o tem permiss\u00e3o para trabalhar, v\u00e1 para casa\u201d. Na universidade feminina de Herat, alunas e docentes foram mandadas para casa. H\u00e1 relatos de talib\u00e3s indo de porta em porta \u00e0 procura de mulheres solteiras entre 14 e 45 anos para se casarem com soldados talib\u00e3s. O tempo dir\u00e1 como as mulheres se sair\u00e3o sob o governo do Taleban. Mas os primeiros sinais n\u00e3o s\u00e3o bons. (FARR, 2021)<\/p>\n\n\n\n<p>Frente aos recentes acontecimentos, a comunidade internacional tamb\u00e9m se manifestou, majoritariamente, mostrando preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das mulheres e a ascens\u00e3o do Talib\u00e3 no Afeganist\u00e3o. O Porta-voz do Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos, Rupert Colville, publicou em uma Nota Informativa sobre o Afeganist\u00e3o a seguinte quest\u00e3o:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cPorta-vozes do Taleban fizeram v\u00e1rias declara\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos dias, inclusive prometendo anistia para aqueles que trabalhavam para o governo. Eles tamb\u00e9m se comprometeram a ser inclusivos. Eles disseram que as mulheres podem trabalhar e as meninas podem ir \u00e0 escola. Essas promessas precisar\u00e3o ser honradas e, por enquanto &#8211; mais uma vez, de forma compreens\u00edvel, dada a hist\u00f3ria passada &#8211; essas declara\u00e7\u00f5es foram recebidas com algum ceticismo. (&#8230;) Como o Alto Comiss\u00e1rio observou h\u00e1 uma semana, e o Secret\u00e1rio-Geral tamb\u00e9m apontou ontem, tem havido relatos assustadores de abusos de direitos humanos e de restri\u00e7\u00f5es aos direitos de indiv\u00edduos, especialmente mulheres e meninas, em algumas partes do pa\u00eds capturado nas \u00faltimas semanas. Esses relat\u00f3rios continuam a ser recebidos.\u201d (COLVILLE, 2021)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&nbsp;Fica percept\u00edvel, portanto, a preocupa\u00e7\u00e3o de organismos internacionais com a crescente retirada de direitos e pr\u00e1ticas repressivas direcionadas \u00e0s mulheres por parte do Talib\u00e3. O cen\u00e1rio remete \u00e0 famosa frase de Simone de Beauvoir acerca dos direitos femininos, que expressa: \u201cNunca se esque\u00e7a que basta uma crise pol\u00edtica, econ\u00f4mica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos n\u00e3o s\u00e3o permanentes. Voc\u00ea ter\u00e1 que manter-se vigilante durante toda a sua vida.\u201d (BEAUVOIR, 1949). Resta, por\u00e9m, analisar e questionar at\u00e9 que ponto pr\u00e1ticas ditas opressivas por analistas ocidentais s\u00e3o, de fato, opressivas para as afeg\u00e3s e qual seria o papel da comunidade internacional e do pensamento feminista da atualidade em rela\u00e7\u00e3o a essa problem\u00e1tica. Para isso, tais pontos ser\u00e3o abordados no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo deste estudo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Feminismo Isl\u00e2mico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.1. Origem e Resist\u00eancia na Atualidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Destarte, tratando-se do Feminismo Isl\u00e2mico, a vertente surge para suprir a necessidade de vozes ativas em rela\u00e7\u00e3o a transforma\u00e7\u00f5es urgentes no \u00e2mbito religioso. Apesar do termo ser cunhado tardiamente, nos anos 1990, o movimento e a reivindica\u00e7\u00e3o das mulheres se iniciou bem anteriormente, h\u00e1 alguns s\u00e9culos atr\u00e1s. J\u00e1 no s\u00e9culo XIX, a poetisa iraniana T\u00e1hirih, de origem familiar mu\u00e7ulmana, se transformou em m\u00e1rtir ap\u00f3s questionar o matrim\u00f4nio do homem com mais de uma esposa, o uso do v\u00e9u e limita\u00e7\u00f5es vivenciadas pelas mulheres isl\u00e2micas. Antes de sua condena\u00e7\u00e3o, teria exclamado: &#8220;Podem matar-me assim que quiserem, mas n\u00e3o podeis deter a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres\u201d.<a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Por conseguinte, no s\u00e9culo XX, outras mulheres isl\u00e2micas tamb\u00e9m come\u00e7aram a reivindicar seu protagonismo, como Aisha Abdul-Rahman, Riffat Hassan e Leila Ahmed. Al\u00e9m destas, \u00e9 poss\u00edvel destacar o trabalho de F\u00e1tima Mernissi &#8211; soci\u00f3loga natural de Fez, no Marrocos &#8211; que, a partir de um prisma contr\u00e1rio \u00e0 ocidentaliza\u00e7\u00e3o, construiu cr\u00edticas duras ao patriarcalismo dentro da religi\u00e3o isl\u00e2mica e se tornou um expoente significativo da luta feminista africana e na segunda onda do feminismo isl\u00e2mico. Segundo Mernissi, \u201co verdadeiro erro das mulheres foi deixar a mem\u00f3ria, o coletivo, a hist\u00f3ria, o espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria &#8211; deix\u00e1-los nas m\u00e3os dos homens.\u201d (MERNISSI, 1993). Dessa forma, em seu primeiro livro, Mernissi<a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&nbsp;defende que a constru\u00e7\u00e3o de uma mulher \u00e1rabe passiva e obediente n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com a mensagem original do Isl\u00e3 e foi uma distor\u00e7\u00e3o masculina feita por te\u00f3logos interessados em refor\u00e7ar o sistema patriarcal.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Mar\u00eda Lugones, da Universidade de Nova Iorque, em seu artigo&nbsp;<em>Rumo a um Feminismo Decolonial<\/em>, \u201cdescolonizar o g\u00eanero \u00e9 necessariamente uma pr\u00e1xis\u201d (LUGONES, 2014) e, frente a isso, tanto no contexto atual como na hist\u00f3ria, destaca-se a resist\u00eancia da RAWA, Revolutionary Association of the Women of Afghanistan (em portugu\u00eas, Associa\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria das Mulheres do Afeganist\u00e3o).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cDesde da tomada sovi\u00e9tica do Governo em 1992, o foco da luta pol\u00edtica da RAWA est\u00e1 centrado na oposi\u00e7\u00e3o contra os fundamentalistas, contra as pol\u00edticas criminais&nbsp;ultra fundamentalistas e contra as atrocidades cometidas contra o povo afeg\u00e3o em geral pelo Taliban e sua orienta\u00e7\u00e3o ultra machista e contra as mulheres em particular. (&#8230;) Enquanto o fundamentalismo existir como for\u00e7a pol\u00edtica e militar na nossa terra ferida, o problema do Afeganist\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 resolvido. Hoje a miss\u00e3o da RAWA pelos direitos das mulheres est\u00e1 longe de terminar, e n\u00f3s temos que trabalhar duro para estabelecer um Afeganist\u00e3o livre, democratico e secular. N\u00f3s precisamos da solidariedade e apoio das pessoas de todo o mundo.\u201d (RAWA, 2021)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Durante a Guerra Civil no pa\u00eds, a RAWA foi respons\u00e1vel por estabelecer escolas, acomoda\u00e7\u00f5es e hospitais a mulheres e crian\u00e7as afeg\u00e3s refugiadas, al\u00e9m de enfermagem, alfabetiza\u00e7\u00e3o e treinamentos vocacionais para mulheres.<a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>Atualmente, com a ascens\u00e3o do Talib\u00e3 no Afeganist\u00e3o, a RAWA adotou outros instrumentos de veicula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, como a cria\u00e7\u00e3o de seu site oficial e perfis em redes sociais, em uma tentativa de encurtar dist\u00e2ncias pela internet e fazer com que cada vez mais pessoas conhe\u00e7am, se engajem na luta das mulheres afeg\u00e3s e denunciem as problem\u00e1ticas relatadas por elas. Em seu site, as mulheres do grupo realizam um trabalho extremamente necess\u00e1rio e completo, explicitando seu engajamento te\u00f3rico com textos e entrevistas, al\u00e9m de destinar um espa\u00e7o \u00e0s recentes not\u00edcias que concernem o Afeganist\u00e3o e a luta feminina. Desse modo, \u00e9 poss\u00edvel tomar conhecimento de den\u00fancias de estupros, abusos sexuais, viol\u00eancia dom\u00e9stica e repress\u00f5es do governo a manifesta\u00e7\u00f5es &#8211; den\u00fancias costumeiramente ignoradas pela justi\u00e7a patriarcal tanto no Ocidente como no Oriente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, por\u00e9m, a luta que se faz nas ruas permanece essencial. Por esse motivo, as manifestantes do RAWA, mesmo face ao regime do Talib\u00e3, seguem demonstrando, tamb\u00e9m nas ruas, sua for\u00e7a, resist\u00eancia e compromisso com os ideais que defendem. Recentemente, por exemplo, a RAWA publicou em seu site oficial que, no dia 30 de Setembro de 2021, em protesto pelo direito das meninas afeg\u00e3s retornarem ao estudo no Ensino M\u00e9dio, combatentes do Talib\u00e3 as dispersaram for\u00e7adamente, utilizando-se de viol\u00eancia f\u00edsica e inclusive disparando para o ar. Tal viol\u00eancia foi relatada pelo grupo em diversos outros casos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, ao analisar lutas feministas isl\u00e2micas &#8211; como a atua\u00e7\u00e3o da RAWA &#8211; \u00e9 poss\u00edvel compreender a complexidade de tal corrente de pensamento. H\u00e1, por um lado, a resist\u00eancia a um patriarcalismo imposto atrav\u00e9s da religi\u00e3o &#8211; que deveria ser igualit\u00e1ria &#8211; e, por outro, a colonialidade entrela\u00e7ada ao feminismo &#8211; que deveria ser libertador.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.2. Cr\u00edtica ao Feminismo Ocidental Colonial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cPatricia Hill Collins, intelectual estadunidense, afirma que o local que as mulheres negras ocupam dentro do movimento feminista \u00e9 o de \u201cforasteira de dentro\u201d. Por estar e ao mesmo tempo n\u00e3o estar, entende esse lugar como um espa\u00e7o de fronteira ocupado por grupos com poder desigual, pois, ainda que estejam dentro de algumas institui\u00e7\u00f5es, essas mulheres n\u00e3o s\u00e3o tratadas como iguais. Collins aponta, por\u00e9m, a necessidade de se tirar proveito desse lugar. O fato de sermos estrangeiras nos possibilita estar num espa\u00e7o de fronteira, num \u201cn\u00e3o lugar\u201d que pode ser doloroso, mas tamb\u00e9m um lugar de pot\u00eancia. Reconfigurar o mundo por meio de outros olhares pode ser uma perspectiva poderosa, j\u00e1 que \u00e9 capaz de gerar algum pertencimento que n\u00e3o seja a uma sociedade doente e desigual\u201d. (RIBEIRO, 2018)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&nbsp;No relato, contido no livro&nbsp;<em>Quem Tem Medo do Feminismo Negro?<\/em>, a escritora Djamila Ribeiro sinaliza uma quest\u00e3o fundamental para a compreens\u00e3o de feminismos plurais: a necessidade do pensamento interseccional. Ao aplicar o termo \u201cforasteira de dentro\u201d em sua fala, Patricia Collins descreve um sentimento comum a muitas outras mulheres ao redor do mundo &#8211; tanto negras, como tamb\u00e9m ind\u00edgenas, pobres, portadoras de defici\u00eancia, l\u00e9sbicas, transsexuais e isl\u00e2micas &#8211; que n\u00e3o se identificam como sujeitos efetivos e pertencentes \u00e0s pautas abordadas pelo feminismo branco ocidental. Diante disso, urge a cria\u00e7\u00e3o de correntes te\u00f3ricas alternativas que incluam os grupos de mulheres segregadas dentro do pr\u00f3prio feminismo, n\u00e3o sendo diferente, portanto, com as mulheres mu\u00e7ulmanas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Edward Said, em sua famigerada obra&nbsp;<em>Orientalismo: O Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente<\/em>, o termo Orientalismo seria um produto do discurso gerado pelo Ocidente acerca do Oriente.<a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>&nbsp;Dessa forma, ao caracterizar o \u201coutro\u201d como fonte de exotismo e barb\u00e1rie, ocorre a autoafirma\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d ocidental, que corresponderia a um lugar de superioridade cultural. Assim, moldar tal imagem de inferioridade, significa, na verdade, criar formas de justificar interven\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da domina\u00e7\u00e3o e da coloniza\u00e7\u00e3o de outros povos.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a professora indiana Chandra Talpade Mohanty, que tamb\u00e9m \u00e9 ativista feminista, em seu ensaio&nbsp;<em>Bajo los ojos de occidente: academia feminista y discurso colonial<\/em>, \u201co feminismo ocidental representa um feminismo essencialista que tenta se passar por universal, dentro de uma inst\u00e2ncia colonial.\u201d (MOHANTY, 1988). No caso das mu\u00e7ulmanas, especificamente, esse feminismo colonial do Ocidente n\u00e3o s\u00f3 excluiu as verdadeiras demandas do grupo, como tamb\u00e9m, em uma pr\u00e1tica orientalista, apontou a pr\u00f3pria religi\u00e3o isl\u00e2mica como fonte de opress\u00e3o feminina. Em um dos exemplos mais famosos, est\u00e1 a demoniza\u00e7\u00e3o do&nbsp;<em>hijab<\/em>, da&nbsp;<em>burqa<\/em>, entre outras vestimentas que mulheres ocidentais tendem a encarar como um mecanismo de repress\u00e3o, que serviria de instrumento para cercear as liberdades individuais das mu\u00e7ulmanas. Ao fazer isso, as feministas ocidentais ignoram, paradoxalmente, a liberdade de escolha e de credo das mulheres isl\u00e2micas, que n\u00e3o enxergam no v\u00e9u uma opress\u00e3o, mas uma express\u00e3o de sua f\u00e9.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Contrariamente ao que o imagin\u00e1rio ocidental prop\u00f5e, entretanto, o livro sagrado do Isl\u00e3, o Alcor\u00e3o, prega intensamente a igualdade de g\u00eanero. Sobre o assunto, o soci\u00f3logo e professor porto-riquenho da Universidade da Calif\u00f3rnia, Ram\u00f3n Grosfoguel, escreve em seu artigo&nbsp;<em>Breves notas acerca del Islam y los Feminismos Isl\u00e1micos<\/em>&nbsp;o seguinte:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;A mensagem do Alcor\u00e3o tem um princ\u00edpio mais radical de igualdade de g\u00eanero. O Alcor\u00e3o sempre fala sobre os humanos e estabelece direitos e deveres iguais para homens e mulheres. (&#8230;) para as feministas isl\u00e2micas, a mensagem do Alcor\u00e3o oferece possibilidades de cr\u00edticas \u00e0 domina\u00e7\u00e3o patriarcal muito mais radicais do que a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica (judaica ou crist\u00e3), onde existem in\u00fameras passagens de conte\u00fado abertamente patriarcal. N\u00e3o nos esque\u00e7amos de que o Isl\u00e3 reconheceu o direito ao div\u00f3rcio, propriedade e heran\u00e7a das mulheres por mais de 1.400 anos. O mundo da cultura crist\u00e3 passou a reconhecer esses direitos no s\u00e9culo vinte e ainda religi\u00f5es crist\u00e3s institucionalizadas, como a Igreja Cat\u00f3lica, n\u00e3o reconhecem o direito ao div\u00f3rcio. (GROSFOGUEL, 2014)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>De acordo com Lila Abu-Lughod, antrop\u00f3loga palestino-ameircana, o ponto de partida para a reivindica\u00e7\u00e3o dos direitos das mulheres estaria no Isl\u00e3 e, por isso, ao contr\u00e1rio do que pregam as feministas ocidentais, a liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o estaria no rompimento com a religi\u00e3o, mas na pr\u00f3pria religi\u00e3o.<a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>&nbsp;Dessa maneira, tendo em vista a perman\u00eancia de interpreta\u00e7\u00f5es patriarcais dos livros religiosos, emerge como um dos principais objetivos do grupo a releitura de tais escrituras sob uma perspectiva de igualdade entre homens e mulheres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Discursos Ocidentais: Orientalismo e Colonialidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro de 2001, Laura Bush, Primeira Dama dos Estados Unidos \u00e0 \u00e9poca, vai \u00e0 imprensa declarar seu apoio \u00e0 luta das mulheres afeg\u00e3s, utilizando-se da premissa de ser um povo necessitado da luz da civiliza\u00e7\u00e3o &#8211; que, claramente, s\u00f3 poderia ser oferecida pelo Ocidente &#8211; e gira em torno da argumenta\u00e7\u00e3o de que as vestimentas isl\u00e2micas seriam um sinal de opress\u00e3o feminina. O discurso, \u00e9 claro, foi amplamente colocado como justificativa para a interven\u00e7\u00e3o estadunidense no Afeganist\u00e3o &#8211; mais uma a\u00e7\u00e3o pela \u201cGuerra contra o Terror\u201d. Diante disso, Lila Abu-Lughod tece cr\u00edticas extremamente importantes acerca da obsess\u00e3o ocidental com um projeto de salva\u00e7\u00e3o das mulheres mu\u00e7ulmanas e sinaliza:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cA Associa\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria das Mulheres do Afeganist\u00e3o (RAWA) se op\u00f4s ao bombardeio americano desde o come\u00e7o. N\u00e3o veem nisso a salva\u00e7\u00e3o das mulheres afeg\u00e3s, e sim um aumento do sofrimento e da perda. Por muito tempo clamaram pelo desarmamento e por for\u00e7as de manuten\u00e7\u00e3o da paz. Suas porta-vozes apontam para os perigos de se confundirem governos com pessoas, o Talib\u00e3 com afeg\u00e3os inocentes que ser\u00e3o mais prejudicados. Consistentemente lembram \u00e0s audi\u00eancias que observem atentamente a forma como as pol\u00edticas est\u00e3o sendo organizadas em torno de interesses petrol\u00edferos, da ind\u00fastria armamentista e do com\u00e9rcio internacional de drogas. N\u00e3o est\u00e3o obcecadas com o v\u00e9u, mesmo sendo as feministas mais radicais que t\u00eam trabalhado por um Afeganist\u00e3o secular e democr\u00e1tico. Infelizmente, apenas as suas mensagens sobre os excessos do Talib\u00e3 foram ouvidas.\u201d (ABU-LUGHOD, 2012)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Na obra&nbsp;<em>Os Condenados da Terra<\/em>, Frantz Fanon argumenta: \u201cComo que para ilustrar o car\u00e1ter totalit\u00e1rio da explora\u00e7\u00e3o colonial, o colono faz do colonizado uma esp\u00e9cie de quintess\u00eancia do mal.\u201d (FANON, 1961). Dessa forma, qualquer tipo de abstra\u00e7\u00e3o referente ao \u201coutro\u201d \u00e9 tida como v\u00e1lida, se assim for suficiente para justificar uma interven\u00e7\u00e3o que sirva aos interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos dos pa\u00edses imperialistas. Nesse sentido, Fanon continua: \u201cN\u00e3o basta ao colono afirmar que os valores desertaram, ou melhor, jamais habitaram o mundo colonizado. O ind\u00edgena \u00e9 declarado imperme\u00e1vel \u00e0 \u00e9tica, aus\u00eancia de valores. (&#8230;) \u00c9, ousemos confess\u00e1-lo, o inimigo dos valores. (&#8230;) \u00c9 o mal absoluto.\u201d (FANON, 1961). Aplicando essa l\u00f3gica ao contexto de Laura Bush e as mulheres mu\u00e7ulmanas, fica claro que a propaga\u00e7\u00e3o de tais orientalismos n\u00e3o possui compromisso com a igualdade nem com a liberdade, sen\u00e3o com a autoafirma\u00e7\u00e3o da cultura e princ\u00edpios ocidentais e com a manuten\u00e7\u00e3o de uma hegemonia de poder liderada pelos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra evid\u00eancia da constru\u00e7\u00e3o de um ide\u00e1rio oriental distorcido por parte do Ocidente est\u00e1 presente na hist\u00f3ria das mesquitas marroquinas. De acordo com Ram\u00f3n Grosfoguel, esses locais sempre foram abertos \u00e0 comunidade: tanto aos mu\u00e7ulmanos quanto aos n\u00e3o-mu\u00e7ulmanos. Entretanto, em uma viagem ao Marrocos com Asma Lamrabet, do Centro de Estudos da Mulher no Isl\u00e3, o professor descobriu a proibi\u00e7\u00e3o da entrada de n\u00e3o-isl\u00e2micos nas mesquitas do pa\u00eds. Segundo ele, para sua surpresa, \u201cisso foi institucionalizado a partir do colonialismo franc\u00eas, quando um general chamado Louis Hubert Lyautey passou um decreto proibindo a entrada de n\u00e3o-mu\u00e7ulmanos nas mesquitas como uma estrat\u00e9gia de \u2018divide e reinar\u00e1s\u2019 ou \u2018divide e vencer\u00e1s\u2019.\u201d (GROSFOGUEL, 2014). Mesmo atualmente, por\u00e9m, o decreto segue institucionalizado e considerado como uma pr\u00e1tica aut\u00eantica do Isl\u00e3, o que serve para refor\u00e7ar estere\u00f3tipos, a segrega\u00e7\u00e3o e a distor\u00e7\u00e3o da imagem isl\u00e2mica.<a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, ascendem, por consequ\u00eancia, discursos que n\u00e3o fazem jus \u00e0 realidade dos povos colonizados. Assim, seu protagonismo em sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria se perde e \u00e9 silenciada em contraponto \u00e0 veicula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica de pautas secund\u00e1rias ou inexistentes na luta verdadeira. Tudo isso, em nome de um ideal de salva\u00e7\u00e3o j\u00e1 explicitado na hist\u00f3ria dos Estados Unidos, como a Doutrina Truman, \u201co fardo do homem branco\u201d e o Destino Manifesto &#8211; todas justificativas para intervir, colonizar e explorar. Como disse Edward Said, \u201cReflex\u00e3o, debate, argumenta\u00e7\u00e3o racional, princ\u00edpios morais baseados na no\u00e7\u00e3o secular de que o ser humano deve criar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria &#8211; tudo isso foi substitu\u00eddo por ideias abstratas que celebram a excepcionalidade americana ou ocidental (&#8230;)\u201d (SAID, 2007).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;N\u00e3o existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo espec\u00edfico ele pode ser salvo.&#8221; (FREUD, 1930).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;<\/strong>Mediante \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o desta an\u00e1lise, \u00e9 poss\u00edvel concluir que, com a recente ascens\u00e3o do Talib\u00e3 no Afeganist\u00e3o, \u00e9 imensur\u00e1vel a import\u00e2ncia de movimentos feministas na regi\u00e3o, que atuem em prol da igualdade de g\u00eanero e pela liberta\u00e7\u00e3o feminina local. Com seus direitos amea\u00e7ados, as mulheres afeg\u00e3s se mobilizaram e formaram in\u00fameras frentes de luta, atrav\u00e9s de protestos nas ruas, da circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e den\u00fancias sobre a viol\u00eancia do regime.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale ressaltar que \u00e9 inconteste a necessidade da forma\u00e7\u00e3o de novas correntes de feminismo que sejam plurais, interseccionais e decoloniais, al\u00e9m do seu incentivo e aprofundamento. Como exposto, a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres isl\u00e2micas n\u00e3o pode ser protagonizada ou compreendida pelo feminismo branco ocidental. Entretanto, n\u00e3o liderar ou protagonizar uma luta n\u00e3o significa que se deva esquec\u00ea-la ou negligenci\u00e1-la. Pelo contr\u00e1rio, \u201c(&#8230;) cada campo individual est\u00e1 ligado a todos os outros, nada do que acontece em nosso mundo se d\u00e1 isoladamente e isento de influ\u00eancias externas\u201d (SAID, 2007). Portanto, como ocidental e tamb\u00e9m fonte de discrimina\u00e7\u00e3o, o feminismo branco tem a responsabilidade de, antes de tudo, se propor a escutar o que as feministas isl\u00e2micas t\u00eam a dizer: o que demandam, quais s\u00e3o suas necessidades e pautas verdadeiras; e de ir al\u00e9m, demonstrar suporte pr\u00e1tico \u00e0s lutas das mulheres mu\u00e7ulmanas e combater orientalismos caracter\u00edsticos dos movimentos ocidentais. Como expressa a Associa\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria de Mulheres do Afeganist\u00e3o, \u201ca liberdade e a democracia n\u00e3o podem ser doadas, \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o do povo de um pa\u00eds lutar e conquistar seus valores.\u201d (RAWA, 2021). Por fim, todas as lutas de emancipa\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o est\u00e3o, na verdade, interconectadas; sob a perspectiva de dominadores e dominados, exploradores e explorados, colonizadores e colonizados. Nesse sentido, n\u00e3o pode haver descoloniza\u00e7\u00e3o sem despatriarcaliza\u00e7\u00e3o nem despatriarcaliza\u00e7\u00e3o sem descoloniza\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ABU-LUGHOD, Lila.&nbsp;<em>As mulheres mu\u00e7ulmanas precisam realmente de salva\u00e7\u00e3o? Reflex\u00f5es antropol\u00f3gicas sobre o relativismo cultural e seus Outros<\/em>. Estudos Femininos, Florian\u00f3polis, maio-agosto\/2012, p. 451-469.<\/p>\n\n\n\n<p>THE AFGHAN Taliban: Organizational Overview, 2018. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/cisac.fsi.stanford.edu\/mappingmilitants\/profiles\/afghan-taliban#text_block_16833\">https:\/\/cisac.fsi.stanford.edu\/mappingmilitants\/profiles\/afghan-taliban#text_block_16833<\/a>&nbsp;&nbsp;.&nbsp;Acesso em: 3 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>AFGHANISTAN Report on Human Rights Practices for 1996. U.S. Department of State. Bureau of Democracy, Human Rights and Labour, 30 jan. 1997. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/1997-2001.state.gov\/global\/human_rights\/1996_hrp_report\/afghanis.html\">https:\/\/1997-2001.state.gov\/global\/human_rights\/1996_hrp_report\/afghanis.html<\/a>&nbsp;. Acesso em: 3 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>AFAQI, Sabir (editor) (2004).&nbsp;<em>T\u00e1hirih in History: Perspectives on Qurratu&#8217;l-&#8216;Ayn from East and West<\/em>. [S.l.]: Kalim\u00e1t Press. pp. 185\u2013201.<\/p>\n\n\n\n<p>AFP.&nbsp;<em>Taleban aumenta restri\u00e7\u00e3o sobre liberdade das mulheres<\/em>. Carta Capital, 20 set. 2021. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/mundo\/taleban-aumenta-restricao-sobre-liberdade-das-mulheres\/\">https:\/\/www.cartacapital.com.br\/mundo\/taleban-aumenta-restricao-sobre-liberdade-das-mulheres\/<\/a>&nbsp;. Acesso em: 29 set. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>AFGHANISTAN, Revolutionary Association of the Women of.&nbsp;<em>About RAWA<\/em>. 2021.&nbsp;Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.rawa.org\/rawa.html\">http:\/\/www.rawa.org\/rawa.html<\/a>&nbsp;. Acesso em: 5 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>AIR, Fresh.&nbsp;<em>Remembering Islamic Feminist Fatema Mernissi<\/em>.&nbsp;NPR, p. 39-59, 10 dez.&nbsp;2015. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.npr.org\/2015\/12\/10\/459223430\/remembering-islamic-feminist-fatema-mernissi\">https:\/\/www.npr.org\/2015\/12\/10\/459223430\/remembering-islamic-feminist-fatema-mernissi<\/a>&nbsp;. Acesso em: 29 set. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>BEAUVOIR, Simone de.&nbsp;<em>O Segundo Sexo<\/em>. 1949, p 29.<\/p>\n\n\n\n<p>COLVILLE, Rupert.&nbsp;<em>Briefing notes on Afghanistan<\/em>. United Nations Human Rights: Office of The High Commissioner, 17 ago. 2021.&nbsp;Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ohchr.org\/EN\/NewsEvents\/Pages\/DisplayNews.aspx?NewsID=27388&amp;LangID=E&amp;gclid=CjwKCAjwhuCKBhADEiwA1HegOdloqEv9Aq4yxF7FhrNJ311bdHhJKWdBTcNiLbeQCrBXtaI80LV8qRoCB6kQAvD_BwE\">https:\/\/www.ohchr.org\/EN\/NewsEvents\/Pages\/DisplayNews.aspx?NewsID=27388&amp;LangID=E&amp;gclid=CjwKCAjwhuCKBhADEiwA1HegOdloqEv9Aq4yxF7FhrNJ311bdHhJKWdBTcNiLbeQCrBXtaI80LV8qRoCB6kQAvD_BwE<\/a>. Acesso em: 29 set. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>FANON, Frantz.&nbsp;<em>Os Condenados da Terra<\/em>, 1961.<\/p>\n\n\n\n<p>FARR, Grant.&nbsp;<em>Who Are The Taliban?<\/em>. E-International Relations, 6 set. 2021.&nbsp;Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.e-ir.info\/2021\/09\/06\/who-are-the-taliban\/\">https:\/\/www.e-ir.info\/2021\/09\/06\/who-are-the-taliban\/<\/a>&nbsp;.&nbsp;Acesso em: 27 set. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 21:&nbsp;<em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>GROSFOGUEL, Ram\u00f3n.&nbsp;<em>Breves notas acerca del Islam y los Feminismos Isl\u00e1micos<\/em>. Tabula Rasa, Bogot\u00e1, Colombia, no 21: 11-29, julho-dezembro de 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>MARX, Karl; ENGELS, Friedrich.&nbsp;<em>Manifesto do Partido Comunista<\/em>, 1848.<\/p>\n\n\n\n<p>MERNISSI, F\u00e1tima.&nbsp;<em>The Veil and the Male Elite: A Feminist Interpretation of Women&#8217;s Rights in Islam<\/em>. December 1992.<\/p>\n\n\n\n<p>RIBEIRO, Djamila.&nbsp;<em>Quem Tem Medo do Feminismo Negro?<\/em>, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>LUGONES, Mar\u00eda.&nbsp;<em>Rumo a um feminismo descolonial<\/em>. Estudos Feministas, Florian\u00f3polis, 22(3): 320, setembro-dezembro\/2014, p. 935-952.<\/p>\n\n\n\n<p>MERNISSI, Fatima (1993).&nbsp;<em>The Forgotten Queens of Islam<\/em>. University of Minnesota Press. pp. 13, 86, 94\u201397.<\/p>\n\n\n\n<p>MOHANTY, Chandra Talpade.&nbsp;<em>Bajo los ojos de occidente: academia feminista y discurso colonial<\/em>. 1988, p. 117-163.<\/p>\n\n\n\n<p> NEWS, RAWA.&nbsp;<em>Taliban crack down on Afghan women&#8217;s protest<\/em>.&nbsp;2 out. 2021. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.rawa.org\/temp\/runews\/2021\/10\/02\/taliban-crack-down-on-afghan-women-s-protest.html\">http:\/\/www.rawa.org\/temp\/runews\/2021\/10\/02\/taliban-crack-down-on-afghan-women-s-protest.html<\/a>&nbsp;.&nbsp;Acesso em: 4 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>NEWS, RAWA.<em>Women stage \u2018silent protest\u2019 in support of girls\u2019 education in Afghanistan<\/em>.&nbsp;2 out. 2021. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.rawa.org\/temp\/runews\/2021\/09\/19\/women-stage-and-8216-silent-protestand-8217-in-support-of-girlsand-8217-education-in-afghanistan.html\">http:\/\/www.rawa.org\/temp\/runews\/2021\/09\/19\/women-stage-and-8216-silent-protestand-8217-in-support-of-girlsand-8217-education-in-afghanistan.html<\/a>&nbsp;. Acesso em: 4 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>PRECIADO, Paul B.&nbsp;<em>Aprendiendo del v\u00edrus<\/em>. El Pa\u00eds, 28 mar. 2020. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/elpais.com\/elpais\/2020\/03\/27\/opinion\/1585316952_026489.html?outputType=amp\">https:\/\/elpais.com\/elpais\/2020\/03\/27\/opinion\/1585316952_026489.html?outputType=amp<\/a>&nbsp;. Acesso em: 27 ago. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>REUTERS.&nbsp;<em>TV afeg\u00e3 transmite entrevista com comandante talib\u00e3 com sete homens armados no est\u00fadio<\/em>. G1, 31 ago. 2021. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2021\/08\/31\/tv-afega-transmite-entrevista-com-comandante-taliba-com-sete-homens-armados-no-estudio-veja-video.ghtml\">https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2021\/08\/31\/tv-afega-transmite-entrevista-com-comandante-taliba-com-sete-homens-armados-no-estudio-veja-video.ghtml<\/a>&nbsp;. Acesso em: 21 set. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>SAID, Edward W. Orientalismo:&nbsp;<em>O Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>SILVA, Rodrigo; AYUSO, Carmen; \u00c1LVAREZ, Jos\u00e9 A.&nbsp;<em>Cinco gr\u00e1ficos que explican la toma de Afganist\u00e1n por los talibanes<\/em>. 17 ago. 2021. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2021-08-17\/cinco-graficos-que-explican-la-toma-de-afganistan-por-los-talibanes.html\">https:\/\/elpais.com\/internacional\/2021-08-17\/cinco-graficos-que-explican-la-toma-de-afganistan-por-los-talibanes.html<\/a>&nbsp;.&nbsp;Acesso em: 29 set. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>SILVA, Ana Fl\u00e1via Nunes da.&nbsp;<em>A Influ\u00eancia da Religi\u00e3o no Crescimento do Movimento Talib\u00e3 no Afeganist\u00e3o<\/em>&nbsp;(1989 a 1996). 2014. 60 p. TCC (Gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais) &#8211; UFPB, Jo\u00e3o Pessoa, PB, 2015. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/repositorio.ufpb.br\/jspui\/bitstream\/123456789\/1476\/1\/AFNS251016.pdf\">https:\/\/repositorio.ufpb.br\/jspui\/bitstream\/123456789\/1476\/1\/AFNS251016.pdf<\/a>&nbsp;.&nbsp;Acesso em: 28 set. 2021.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;THE AFGHAN Taliban: Organizational Overview, 2018.&nbsp;Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/cisac.fsi.stanford.edu\/mappingmilitants\/profiles\/afghan-taliban#text_block_16833\">https:\/\/cisac.fsi.stanford.edu\/mappingmilitants\/profiles\/afghan-taliban#text_block_16833<\/a>&nbsp;.&nbsp;Acesso em: 3 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;AFGHANISTAN Report on Human Rights Practices for 1996. U.S. Department of State. Bureau of Democracy, Human Rights and Labour, 30 jan. 1997. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/1997-2001.state.gov\/global\/human_rights\/1996_hrp_report\/afghanis.html\">https:\/\/1997-2001.state.gov\/global\/human_rights\/1996_hrp_report\/afghanis.html<\/a>&nbsp;.&nbsp;Acesso em: 3 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;AFAQI, Sabir (editor) (2004).&nbsp;<em>T\u00e1hirih in History: Perspectives on Qurratu&#8217;l-&#8216;Ayn from East and West<\/em>. [S.l.]: Kalim\u00e1t Press. pp. 185\u2013201.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&nbsp;MERNISSI, F\u00e1tima.&nbsp;<em>The Veil and the Male Elite: A Feminist Interpretation of Women&#8217;s Rights in Islam<\/em>.&nbsp;December 1992.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>&nbsp;AFGHANISTAN, Revolutionary Association of the Women of.&nbsp;<em>About RAWA<\/em>. 2021. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.rawa.org\/rawa.html\">http:\/\/www.rawa.org\/rawa.html<\/a>&nbsp;. Acesso em: 5 out. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>&nbsp;SAID, Edward W.&nbsp;<em>Orientalismo: O Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>&nbsp;ABU-LUGHOD, Lila. As mulheres mu\u00e7ulmanas precisam realmente de salva\u00e7\u00e3o? Reflex\u00f5es antropol\u00f3gicas sobre o relativismo cultural e seus Outros. Estudos Femininos, Florian\u00f3polis, maio-agosto\/2012, p. 451-469.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/F4D53B5F-2BF3-4551-8A99-0EF0FC8F3075#_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>&nbsp;GROSFOGUEL, Ram\u00f3n.&nbsp;<em>Breves notas acerca del Islam y los Feminismos Isl\u00e1micos<\/em>. Tabula Rasa, Bogot\u00e1, Colombia, no 21: 11-29, julho-dezembro de 2014.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ester Sanglard de Azevedo Mendon\u00e7a<\/strong> \u00e9 graduanda em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Este trabalho foi feito com a supervis\u00e3o do professor Fernando Brancoli (IRID\/UFRJ).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 10 | N\u00famero 105 | Dez. 2023 Por Ester Sanglard de Azevedo<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2995,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[646,651,691],"tags":[],"class_list":["post-2991","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-edicoes-anteriores","category-volume10"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2991","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2991"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2991\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3095,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2991\/revisions\/3095"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2995"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2991"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2991"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2991"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}