{"id":3260,"date":"2024-10-01T20:25:35","date_gmt":"2024-10-01T23:25:35","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3260"},"modified":"2024-10-01T20:25:37","modified_gmt":"2024-10-01T23:25:37","slug":"resenha-critica-o-brasil-e-a-liga-das-nacoes-1919-1926-vencer-ou-nao-perder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3260","title":{"rendered":"Resenha Cr\u00edtica: &#8220;O Brasil e a Liga das Na\u00e7\u00f5es (1919-1926): Vencer ou N\u00e3o Perder&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 11 | N\u00famero 111 | Set. 2024<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por<br>Eduarda Mussi Honorato<br>Isabela de Souza Carvalho<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><\/p>\n\n\n\n<p>Intrinsecamente \u00e0 compreens\u00e3o da diplomacia brasileira e ao Concurso de Admiss\u00e3o \u00e0 Carreira Diplom\u00e1tica (CACD), Eug\u00eanio Vargas Garcia, diplomata, escritor e historiador, com um amplo conhecimento e influ\u00eancia internacional expressada pelas suas produ\u00e7\u00f5es acad\u00eamico-cient\u00edficas, consolidou-se como refer\u00eancia not\u00e1vel na disciplina de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais no Brasil. C\u00f4nsul-Geral Adjunto e Chefe de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (Consulado-Geral do Brasil em S\u00e3o Francisco, EUA), ele tamb\u00e9m \u00e9 Doutor em Hist\u00f3ria das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (Universidade de Bras\u00edlia, 2001) e outrora pertencia ao corpo docente do Instituto Rio Branco.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu trabalho intitulado \u201cO Brasil e a Liga das Na\u00e7\u00f5es (1919-1926): Vencer ou N\u00e3o Perder\u201d (2000), o autor analisa a atua\u00e7\u00e3o do Brasil nessa organiza\u00e7\u00e3o internacional, previamente na ades\u00e3o como membro fundador at\u00e9 a delibera\u00e7\u00e3o de se retirar em 1926. Com isso, ao conduzir magistralmente a aten\u00e7\u00e3o para a complexidade da pol\u00edtica externa brasileira da \u00e9poca, Eug\u00eanio Vargas Garcia destaca a influ\u00eancia dual das motiva\u00e7\u00f5es, interesses e pap\u00e9is executados pelo pa\u00eds na Liga referente aos discursos idealistas e realistas &nbsp;na formula\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias diplom\u00e1ticas continuamente aprofundados por todo o per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>Estruturado em cinco cap\u00edtulos, al\u00e9m da introdu\u00e7\u00e3o e conclus\u00e3o, o livro contextualiza a participa\u00e7\u00e3o do Brasil na Liga das Na\u00e7\u00f5es dentro do cen\u00e1rio internacional dos entreguerras, o qual foi indiscutivelmente marcado por perplexidades e contradi\u00e7\u00f5es. Ademais, ancorado em uma argumenta\u00e7\u00e3o comparativamente cr\u00edtica e anal\u00edtica, o autor versa perante um car\u00e1ter indagat\u00f3rio sobre as limita\u00e7\u00f5es e as contradi\u00e7\u00f5es inerentes ao sistema de Estados soberanos na tentativa de se estabelecer uma gest\u00e3o coletiva da paz mundial e de criar uma autoridade supranacional nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, ou seja, uma ordem nacional mais justa e pac\u00edfica. Numa perspectiva espa\u00e7osa, o ensaio traz a realidade da ass\u00eddua inser\u00e7\u00e3o brasileira em um ambiente internacional de resoluta transforma\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XX.<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse primeiro cap\u00edtulo, \u201cO Brasil e o Estabelecimento da Ligas das Na\u00e7\u00f5es\u201d, Eug\u00eanio Vargas o divide em 4 subt\u00f3picos que exploram diferentes aspectos a fim de explicar a instala\u00e7\u00e3o do Brasil nesse cen\u00e1rio internacional. Nesse vi\u00e9s, essas subcategorias fornecem uma vis\u00e3o abrangente do estabelecimento brasileiro nas Liga das Na\u00e7\u00f5es, eventoseventos centrais e os atores que delinearam o comportamento do pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o a esse sistema internacional. Dito isso, o trecho em quest\u00e3o inicia-se com o fim da Primeira Grande Guerra em 1918, e a discuss\u00e3o sobre a rendi\u00e7\u00e3o alem\u00e3. O autor cita brevemente a pequena participa\u00e7\u00e3o brasileira na guerra, e tamb\u00e9m o seu posicionamento a favor em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Ligas da Na\u00e7\u00f5es. Entretanto, adiante, o mesmo traz uma reflex\u00e3o importante de que inicialmente, tal parecer brasileiro tinha como principal interesse a presen\u00e7a na Confer\u00eancia de Paz em 1919.<a id=\"_ftnref3\" href=\"#_ftn3\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, como pautado pelo autor, esse anseio pela participa\u00e7\u00e3o ativa na Confer\u00eancia da Paz, traz a perspectiva, de forma breve, de como o posicionamento brasileiro seria fundamentado no estabelecimento das Ligas das Na\u00e7\u00f5es, dado que foi pertinente a coloca\u00e7\u00e3o do impasse impostos pelas grandes na\u00e7\u00f5es ao limitar a participa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses pequenos e como isso foi desaprovado pelos delegados do presente pa\u00eds. Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel ter um vislumbre de que o parecer do Brasil em meio \u00e0s discuss\u00f5es das ligas seria de forma a lutar por mais participa\u00e7\u00e3o. Com isso, como era previsto, no primeiro encontro da liga, o Brasil, especificamente o delegado Epit\u00e1cio Pessoa, pleiteou que todos os pa\u00edses tivessem representa\u00e7\u00e3o permanente no Conselho Executivo da liga, o qual o Eug\u00eanio de Vargas julga sabiamente como momento que o Brasil consolidou a posi\u00e7\u00e3o de igualdade com os outros Estados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, nesse cap\u00edtulo \u00e9 explicado a entrada efetiva do Brasil na Liga e o qu\u00e3o conturbado esse ato foi, devido \u00e0s numerosas desaprova\u00e7\u00f5es e ao debate interno protagonizado majoritariamente entre Rui Barbosa e Epit\u00e1cio Pessoa durante as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1919. Em suma, o autor exp\u00f5e que as discuss\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao ingresso \u00e0 Liga das Na\u00e7\u00f5es eram alinhadas \u00e0s cr\u00edticas \u00e0 posi\u00e7\u00e3o adotada pelo Brasil e sua adapta\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica. Em conclus\u00e3o, \u00e9 interpretado por Eug\u00eanio que o apoio \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o teve influ\u00eancia da aproxima\u00e7\u00e3o entre o Brasil e os Estados Unidos durante a Rep\u00fablica Velha, portanto, essa postura reflete a complexidade das rela\u00e7\u00f5es internacionais e das din\u00e2micas pol\u00edticas da \u00e9poca, onde interesses nacionais, alian\u00e7as estrat\u00e9gicas e considera\u00e7\u00f5es pragm\u00e1ticas influenciaram as decis\u00f5es do Brasil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Liga das Na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O cap\u00edtulo 2, \u201cLealdade e Prest\u00edgio nos Primeiros Anos em Genebra\u201d, tem como principal foco analisar o posicionamento brasileiro nos anos iniciais em Genebra, sede da Liga, e expor como as rela\u00e7\u00f5es mantidas pelo Brasil e seus posicionamentos foram percebidos nesse contexto internacional, atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise das transforma\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e dos diferentes aspectos de sua atua\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gias diplom\u00e1ticas. Nesse prisma, inicialmente, o Brasil buscou adaptar-se \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es advindas da Primeira Guerra e a nova ordem internacional que emergiu de Versalhes, a qual \u00e9 posta pelo autor como \u201cembate entre for\u00e7as contrarias\u201d. Com isso, o mesmo interpreta de forma esclarecedora, que a pol\u00edtica externa da d\u00e9cada de 20 foi marcada pela aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos e pela busca de reconhecimento internacional atrav\u00e9s da diplomacia multilateral, a fim de consolidar seu prest\u00edgio.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 explicado sobre os dois atores que fundamentaram a diplomacia brasileira, o Bar\u00e3o do Rio Branco e o Rui Barbosa. O criador da presente obra julga que do Bar\u00e3o, perpetuou-se a alian\u00e7a t\u00e1cita com os Estados Unidos e a restaura\u00e7\u00e3o do <em>status <\/em>sub-regional do Brasil e de Rui Barbosa, preservou-se a matriz universalista do pensamento jur\u00eddico-liberal, transformando-se em princ\u00edpios tradicionais da pol\u00edtica externa (GARCIA, 2000). De forma elucidativa, ainda \u00e9 posto que as rela\u00e7\u00f5es exteriores eram conduzidas pelas oligarquias dominantes, que utilizavam de uma abordagem realista e um discurso idealista, as quais evitavam incoer\u00eancias na repeti\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica. Ademais, apesar dos esfor\u00e7os para a consolida\u00e7\u00e3o de influ\u00eancia internacional, \u00e9 analisado que a participa\u00e7\u00e3o brasileira nas confer\u00eancias internacionais, uma na\u00e7\u00e3o essencialmente agr\u00edcola, era marcada por \u201cuma ilus\u00e3o de estar participando das decis\u00f5es internacionais\u201d (GARCIA, 2000).<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa perspectiva ainda, o presente cap\u00edtulo, cita a signific\u00e2ncia do \u201cduro golpe\u201d dos Estados Unidos, seu egresso da Liga das Na\u00e7\u00f5es, em 1920. Entretanto, em contraposi\u00e7\u00e3o a rumores, o Brasil permaneceu na Liga e reafirmou sua lealdade a essa.&nbsp; Assim, Gast\u00e3o da Cunha, Embaixador em Paris, foi designado como representante brasileiro a integrar o Conselho como membro tempor\u00e1rio at\u00e9 a delibera\u00e7\u00e3o da 1\u00aa Assembleia sobre o assunto. Dessa forma, quando aconteceu, as grandes pot\u00eancias demonstraram-se temerosas a &nbsp;redu\u00e7\u00e3o de seus pap\u00e9is no Conselho, uma vez que, havia a possibilidade da jurisdi\u00e7\u00e3o da Corte ser compuls\u00f3ria para todos os Estados e divergiram sobre o Estatuto da Corte Permanente de Justi\u00e7a Internacional (CPJI), indo contra com as aspira\u00e7\u00f5es das pot\u00eancias menores&nbsp; que tiveram suas obje\u00e7\u00f5es satisfeitas, as quais muita se deram devido aos delegados brasileiros, em espec\u00edfico o diplomata Raul Fernandes, assumirem ativamente posi\u00e7\u00f5es de atitudes. Para mais, essa sess\u00e3o trouxe um reconhecimento positivo aos brasileiros, que foi perpassado a 2\u00b0 Assembleia, realizada em setembro de 1921. Nesse encontro, o pa\u00eds demonstrou papel ativo e de acordo com o escritor, o Brasil usou pela primeira vez o recurso de veto para impugnar uma decis\u00e3o do conselho, que tinha de ser tomada por unanimidade, ao ir contra a decis\u00e3o de adicionar apenas mais uma na\u00e7\u00e3o a membro permanente, a Espanha. Em conclus\u00e3o, \u00e9 julgado que a colabora\u00e7\u00e3o brasileira no Conselho como membro tempor\u00e1rio se fez de v\u00e1rias maneiras, contudo, originou-se a preocupa\u00e7\u00e3o se ele continuaria a ser membro tempor\u00e1rio ou se precisaria ceder o lugar a outra na\u00e7\u00e3o. <strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro cap\u00edtulo, \u201cA Meta do Assento Permanente No Conselho\u201d, Eug\u00eanio Garcia esclarece a grande quest\u00e3o pela busca por um assento permanente no Conselho, dado que esse feito representava uma oportunidade da t\u00e3o desejada influ\u00eancia e participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es e direcionamentos da organiza\u00e7\u00e3o. De modo inicial, este trecho aborda a um descontentamento crescente ao governo de Epit\u00e1cio Pessoa e a elei\u00e7\u00e3o de Artur Bernardes em 1922, que assumia uma conduta diferente do at\u00e9 ent\u00e3o presidente que, de acordo com a caracteriza\u00e7\u00e3o posta pelo escritor do livro, &nbsp;causou problem\u00e1ticas rea\u00e7\u00f5es populares pelo dissenso pol\u00edtico. No que concerne \u00e0 Liga das Na\u00e7\u00f5es, \u00e9 importante destacar que as a\u00e7\u00f5es brasileiras se desenrolavam em um cen\u00e1rio desvinculado da realidade enfrentada pelo pa\u00eds. A pol\u00edtica externa brasileira passou a ter \u201cuma perspectiva estritamente unilateral ou nacional\u201d (GARCIA, 2000).<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, com o acontecimento da 4\u00b0 Assembleia, a delega\u00e7\u00e3o brasileira, em uma tentativa de reivindicar o direito do continente americano de possuir uma vaga permanente, pleiteou a sua promo\u00e7\u00e3o como membro interino do Conselho. Nesse contexto, o autor da obra julga essa tarefa como algo mais dif\u00edcil que o governo brasileiro estava prevendo, dado que o \u00fanico apoio que a delega\u00e7\u00e3o conseguiu foi a sua reelei\u00e7\u00e3o como membro tempor\u00e1rio. Ainda com mais tentativa e mais dedica\u00e7\u00e3o, fez-se a 5\u00b0 Assembleia, no entanto, um t\u00f3pico de maior proemin\u00eancia surgiu: o desejo da Alemanha de se juntar a Liga, a qual fez com o que o assunto brasileiro fosse adiado. De acordo com o escritor, era conveniente para o Brasil esperar um momento prop\u00edcio, pois ele articula que n\u00e3o houve avan\u00e7o at\u00e9 o momento presente. Entretanto, essa ocasi\u00e3o n\u00e3o chegou, e juntamente com a 6\u00b0 Assembleia, al\u00e9m das discuss\u00f5es em volta da na\u00e7\u00e3o alem\u00e3, o Brasil come\u00e7ou a ser pressionado pelos pa\u00edses latinoamericano, os quais desejavam rotatividade com os membros permanentes, j\u00e1 que esses n\u00e3o se sentiam representados. Al\u00e9m disso, sem nenhuma perspectiva internacional de elevar seu patamar, e com sobrecarga de trabalho que a delega\u00e7\u00e3o estava enfrentando sem receber algo em troca, concluiu-se que, de concord\u00e2ncia geral, a presen\u00e7a brasileira na Liga j\u00e1 n\u00e3o tinha mais sentido. <strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No quarto cap\u00edtulo, \u201cDos acordos de Locarno \u00e0 Crise de Mar\u00e7o de 1926\u201d, o autor trata da postura do Brasil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias locarnistas, a quest\u00e3o da Alemanha e os desafios diplom\u00e1ticos que surgiram a partir disso. \u00c9 merecedor de aten\u00e7\u00e3o \u00e0s motiva\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s das a\u00e7\u00f5es do Brasil na Liga das Na\u00e7\u00f5es, a qual encerrava sua 6\u00aa Assembleia, e as aprecia\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias sobre o veto brasileiro \u00e0 entrada da Alemanha como membro permanente na organiza\u00e7\u00e3o. Para tanto, o autor utiliza de uma custosa demonstra\u00e7\u00e3o de an\u00e1lise ao parafrasear as investidas fracassadas do Brasil de se estabelecer como igual parceiro para as outras pot\u00eancias permanentes da Liga. Sobre o alumiar das intera\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas se afastando de um desejado contrapeso, o posicionamento da Alemanha de exigir que fosse a \u00fanica a adentrar no Conselho foi reconhecida como sendo prejudicial ao Brasil, o qual obrigatoriamente, empenhando-se em manter a dignidade nacional, evadiu da decis\u00e3o j\u00e1 estabelecida favor\u00e1vel aos alem\u00e3es, um verdadeiro \u201cvencer ou n\u00e3o perder\u201d de acordo com o atual presidente do Brasil na \u00e9poca, Artur Bernardes (GARCIA, 2000).<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda conforme Garcia (2000), foi-se instaurada a crise em Genebra, de modo que refletiu substancialmente no ambiente dom\u00e9stico brasileiro daqueles que eram \u201cpatriotas\u201d, apoiadores da pol\u00edtica governamental na Liga, e daqueles que eram \u201cderrotistas\u201d, os contr\u00e1rios, os quais se resumiram \u00e0s p\u00e1ginas dos jornais, sem uma rea\u00e7\u00e3o popular acalorada sobre o veto \u00e0 Alemanha (conflito que se manteve restrito ao plano multilateral). Isso s\u00f3 demonstrou o exagero febril da pol\u00edtica externa do Brasil perante sua posi\u00e7\u00e3o na Liga das Na\u00e7\u00f5es, de maneira que escancarou a realidade em torno do poder que a pol\u00edtica internacional no p\u00f3s-guerra se acomodava, uma vez que, significativamente, tinha-se pela primeira vez as a\u00e7\u00f5es das pot\u00eancias europeias condicionadas aos procedimentos legais de uma organiza\u00e7\u00e3o multilateral.<\/p>\n\n\n\n<p>No quinto e \u00faltimo cap\u00edtulo, \u201cA retirada do Brasil da Liga das Na\u00e7\u00f5es\u201d, o autor informa a decis\u00e3o do Brasil de se retirar da Liga, a sua rela\u00e7\u00e3o com a organiza\u00e7\u00e3o, a influ\u00eancia dos Estados Unidos e as negocia\u00e7\u00f5es financeiras com os banqueiros Rothschild durante esse per\u00edodo. Nessa conjuntura, \u00e9 importante se atentar ao governo brasileiro que, liderado por Artur Bernardes, expressou a inten\u00e7\u00e3o de fortalecer as rela\u00e7\u00f5es com as Rep\u00fablicas americanas, especialmente os Estados Unidos, enquanto se distanciava dos assuntos europeus, uma evidente estrat\u00e9gia de alinhamento que refletiu a atua\u00e7\u00e3o do panamericanismo isolacionista norte-americano na pol\u00edtica externa brasileira em detrimento do multilateralismo universal centrado na Europa (GARCIA, 2000). Al\u00e9m disso, o autor esmi\u00fa\u00e7a com facilidade que essa mudan\u00e7a aparente tamb\u00e9m foi uma resposta \u00e0s condi\u00e7\u00f5es objetivas da \u00e9poca, o que incluiu a substitui\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia econ\u00f4mico-financeira brasileira de Londres para Washington e a rivalidade anglo-americana pela penetra\u00e7\u00e3o na economia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu processo perceptivo, Eug\u00eanio compreende com tenacidade que o Brasil deteve o papel de protetor do assento das pot\u00eancias menores, mas especificamente das na\u00e7\u00f5es americanas, no Conselho. Contudo, essa representatividade voraz n\u00e3o foi exatamente apreciada por todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, o que aniquilou a tese da representa\u00e7\u00e3o continental e provocou deliberado \u00e2nimo, principalmente, \u00e0 delega\u00e7\u00e3o argentina.&nbsp; Assim, n\u00e3o \u00e9 de se espantar que ap\u00f3s o projeto brit\u00e2nico de regulamenta\u00e7\u00e3o dos membros n\u00e3o permanentes no Conselho, o governo Bernardes tenha expressado duras cr\u00edticas \u00e0 Liga das Na\u00e7\u00f5es, de modo que demonstrou sua inclina\u00e7\u00e3o irredut\u00edvel de retirada da organiza\u00e7\u00e3o antes da 7\u00aa Assembleia, apesar da severa recusa de Melo Franco, chefe da Delega\u00e7\u00e3o Permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de tudo, o autor salienta o consenso pol\u00edtico dom\u00e9stico adquirido por Artur Bernardes ap\u00f3s a grande decis\u00e3o, uma vez que, isso foi aplaudido pela oposi\u00e7\u00e3o do governo com afinco. Nesse sentido, a derrota diplom\u00e1tica em Genebra foi capaz de revelar, baseada em uma dana\u00e7\u00e3o de decoro,&nbsp; o qu\u00e3o ilus\u00f3rio \u00e9 buscar um status internacional elevado sem ter um poder nacional suficiente para respald\u00e1-lo. Com isso, o cap\u00edtulo apresenta a saudosa constata\u00e7\u00e3o existente entre as Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do antigo e novo regime, o governo de Washington Lu\u00eds com a gest\u00e3o Mangabeira que trouxe a resolu\u00e7\u00e3o de apreciar devidamente o pessoal e os artif\u00edcios do minist\u00e9rio na \u00e1rea das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e comerciais do pa\u00eds, instrumentalizando, ent\u00e3o, o desenvolvimento econ\u00f4mico nacional (GARCIA, 2000, p.90). Por fim, \u00e9 pertinente de pontua\u00e7\u00e3o a semelhan\u00e7a confidente proferida pelo autor referente ao Brasil com o Estados Unidos frente a Liga das Na\u00e7\u00f5es, uma fidelidade atrasada, por\u00e9m, muito antes estabelecida com base em uma cobi\u00e7a fundamentalmente unilateral.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, apesar da engrandecida compreens\u00e3o transparente fomentada pelo autor, n\u00e3o ter a explica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via e espec\u00edfica dos atores presentes no contexto descrito no livro foi pass\u00edvel de gerar uma certa confus\u00e3o substancial entre os fatos citados. Entretanto, podemosinterpretar que a an\u00e1lise desenvolvida pelo autor \u00e9 pass\u00edvel de enriquecer o conhecimento dos estudantes, pesquisadores e profissionais da \u00e1rea de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, Hist\u00f3ria e Ci\u00eancias Pol\u00edticas, uma vez que, permite uma compreens\u00e3o mais ampla dos desafios e das estrat\u00e9gias enfrentadas pelo Brasil em sua atua\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio internacional. Nesse ambiente, tamb\u00e9m, ao explorar temas como a busca por status internacional, a influ\u00eancia de pot\u00eancias globais e a din\u00e2mica da Liga das Na\u00e7\u00f5es, a obra consegue estimular maiores reflex\u00f5es cr\u00edticas sobre o poder, a diplomacia e a coopera\u00e7\u00e3o internacional. Ent\u00e3o, ao nos conduzir por esse espa\u00e7o de \u201cimperfei\u00e7\u00f5es e falhas na execu\u00e7\u00e3o dos dispositivos do Pacto\u201d, o autor infere com perfei\u00e7\u00e3o a individualidade dial\u00e9tica da pol\u00edtica externa brasileira na \u00e9poca, \u201cuma diplomacia pendular altamente complexa entre grandes pot\u00eancias e pot\u00eancias menores, entre realismo e idealismo, entre pragmatismo e principismo, entre pr\u00e1tica e discurso\u201d (Garcia, 2000, p.93).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>GARCIA, E. V. <strong>Curr\u00edculo do Sistema de Curr\u00edculos Lattes<\/strong>. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/lattes.cnpq.br\/8513549351456753&gt;. Acesso em: 16 de junho de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>GARCIA, E. V. <strong>O Brasil e a Liga das Na\u00e7\u00f5es (1919-1926): Vencer ou N\u00e3o Perder<\/strong>. Porto Alegre, Bras\u00edlia: Editora da Universidade (UFRGS), Funda\u00e7\u00e3o Alexandre de Gusm\u00e3o, 2000. Pref\u00e1cio de Celso Lafer, 118 p.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn3\" href=\"#_ftnref3\"><sup>[1]<\/sup><\/a> \u00a0A confer\u00eancia de Paz em 1919, foi uma s\u00e9rie de reuni\u00f5es entre as principais na\u00e7\u00f5es que participaram da Guerra e tinham objetivo de estabelecer os termos da paz e as puni\u00e7\u00f5es para os Estados derrotados.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Eduarda Mussi Honorato<\/strong> \u00e9 graduanda do curso de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). E-mail: eduarda.mussih@gmail.com<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Isabela de Souza Carvalho<\/strong> \u00e9 graduanda do curso de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). E-mail: isabeladesouzacarvalho23@gmail.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 11 | N\u00famero 111 | Set. 2024 PorEduarda Mussi HonoratoIsabela de Souza<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[645,647],"tags":[736,737,675],"class_list":["post-3260","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-edicao-atual","category-resenhas","tag-diplomacia-multilateral","tag-politica-externa-brasileira","tag-relacoes-internacionais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3260"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3260\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3270,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3260\/revisions\/3270"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}