{"id":3274,"date":"2024-11-04T09:02:00","date_gmt":"2024-11-04T12:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3274"},"modified":"2024-11-04T00:35:21","modified_gmt":"2024-11-04T03:35:21","slug":"a-india-e-suas-aspiracoes-internacionais-nos-momentos-de-transicao-de-poder-um-paralelo-entre-o-fim-da-guerra-fria-e-a-ascensao-da-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3274","title":{"rendered":"A \u00cdNDIA E SUAS ASPIRA\u00c7\u00d5ES INTERNACIONAIS NOS MOMENTOS DE TRANSI\u00c7\u00c3O DE PODER: UM PARALELO ENTRE O FIM DA GUERRA FRIA E A ASCENS\u00c3O DA CHINA"},"content":{"rendered":"\n<p>Edi\u00e7\u00e3o Especial: \u00c1sia<\/p>\n\n\n\n<p>Volume 11 | N\u00famero 113 | Nov. 2024<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Matheus Petrelli<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><a href=\"applewebdata:\/\/C86AAEC0-140A-4EAE-9C3C-9AE0C9778950#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo tem como objetivo investigar como os momentos recentes de transi\u00e7\u00e3o do poder global foram relevantes para o projeto de ascens\u00e3o da \u00cdndia, a partir da an\u00e1lise das posturas tomadas pelo pa\u00eds sul-asi\u00e1tico. Inicialmente, ao buscar tais per\u00edodos na hist\u00f3ria mais recente, destacam-se os dois mais pr\u00f3ximos cronologicamente: o fim da Guerra Fria e a ascens\u00e3o chinesa, a partir da crise de 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro marcou o fim da bipolaridade no controle do sistema internacional. Tendo em vista a forma\u00e7\u00e3o de uma hegemonia estadunidense, alguns te\u00f3ricos acreditavam tanto na sua estabilidade quanto na do sistema internacional. Ao contr\u00e1rio disso, em 2008, uma grande crise econ\u00f4mica atingiu parte das pot\u00eancias globais. J\u00e1 a China, com elevadas taxas de crescimento econ\u00f4mico desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, n\u00e3o foi amplamente afetada pelos efeitos da crise. Esse momento foi respons\u00e1vel por iniciar, de forma mais pr\u00e1tica e evidente, um novo processo de transi\u00e7\u00e3o de poder. Agora, o pa\u00eds asi\u00e1tico disputa com os EUA o lugar de principal ator no sistema internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Per\u00edodos como os citados s\u00e3o, para muitos te\u00f3ricos, fundamentais para a governan\u00e7a mundial. Esses processos de crise do hegemon e a emerg\u00eancia de um novo foram, historicamente, pontos de mudan\u00e7a nos rumos internacionais. Dessa maneira, \u00e9 evidente a import\u00e2ncia de analisar os padr\u00f5es emp\u00edricos e diferenciar quais tomadas de decis\u00f5es s\u00e3o favor\u00e1veis ou n\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um conflito. \u00c9 nesse contexto que as teorias de transi\u00e7\u00e3o de poder s\u00e3o elaboradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme a evolu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, novas vari\u00e1veis foram sendo adicionadas a esse tipo de estudo. Dentre elas, a proje\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis pa\u00edses capazes de ascender. \u00c9 nesse caminho que o continente asi\u00e1tico aparece. Ap\u00f3s o fim da Guerra Fria, in\u00fameros analistas da \u00e1rea apontaram que o s\u00e9culo XXI seria o s\u00e9culo da \u00c1sia (GRATIUS, 2008). Dentre os Estados com capacidades para tal, a \u00cdndia apareceu, ao lado da China, como um pa\u00eds com grande potencial de crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao possuir cerca de 15% da popula\u00e7\u00e3o global, estar localizada no continente asi\u00e1tico, situar-se na regi\u00e3o mais nuclearizada do mundo e ter o potencial de ser terceira maior economia global at\u00e9 2030, a \u00cdndia ocupa, progressivamente, um papel de destaque no cen\u00e1rio internacional. Nessa linha, o objetivo deste trabalho \u00e9&nbsp;analisar o processo de ascens\u00e3o internacional indiana e as estrat\u00e9gias utilizadas para efetivar suas aspira\u00e7\u00f5es de grande pot\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do m\u00e9todo qualitativo de levantamento documental e bibliogr\u00e1fico, este trabalho fundamenta-se em estudos acad\u00eamicos sobre a pol\u00edtica externa indiana, e a rela\u00e7\u00e3o entre momentos de transi\u00e7\u00e3o de poder e ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias.&nbsp;Ao analisar tal base te\u00f3rica, \u00e9 poss\u00edvel levantar algumas hip\u00f3teses. De forma geral, a \u00cdndia adotou posturas diferentes visando a busca do protagonismo internacional em distintos per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o de poder. Na d\u00e9cada de 90, ap\u00f3s a Guerra Fria, o governo indiano se portou como um poder reticente nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, ao n\u00e3o adaptar a pol\u00edtica externa empregada durante \u00e0 Guerra Fria a um contexto distinto de fim da bipolaridade. Dessa maneira, argumenta-se que o pa\u00eds adotou uma agenda de pol\u00edtica externa considerada ultrapassada durante esse per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, tornando-a incapaz de alcan\u00e7ar suas aspira\u00e7\u00f5es internacionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No momento mais recente, afere-se que, ap\u00f3s a ascens\u00e3o da China como pot\u00eancia internacional e o in\u00edcio de um novo per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o de poder, a \u00cdndia tem buscado maior protagonismo nas rela\u00e7\u00f5es internacionais. Assim, nesse novo momento, essa pesquisa argumenta que a \u00cdndia atua de forma mais revisionista e influente, visando alcan\u00e7ar, intencionalmente, o papel de lideran\u00e7a global. Acrescentamos, ainda, que este trabalho possui o objetivo de suprir uma lacuna na academia brasileira, uma vez que este \u00e9 um tema ainda pouco trabalhado em portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para atingir esses objetivos, este artigo ser\u00e1 dividido em tr\u00eas se\u00e7\u00f5es. Na primeira ser\u00e3o analisados alguns autores relevantes para as teorias de transi\u00e7\u00e3o de poder e ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias. A partir dessa revis\u00e3o te\u00f3rica ser\u00e1 poss\u00edvel compreender o que s\u00e3o per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o de poder, quais m\u00e9tricas utilizadas para identificar novas pot\u00eancias e a evolu\u00e7\u00e3o desse campo te\u00f3rico. Na sequ\u00eancia, a postura indiana ao fim da Guerra Fria ser\u00e1 examinada, com objetivo de investigar se a \u00cdndia conseguiu se posicionar de forma a ascender na hierarquia global durante esse per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o. Por fim, a \u00faltima se\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ir\u00e1 analisar a postura do pa\u00eds sul-asi\u00e1tico, mas em um recorte mais recente: desde 2008 e a ascens\u00e3o chinesa. A partir disso, espera-se investigar se houve mudan\u00e7as nesse posicionamento e quais seus efeitos nas aspira\u00e7\u00f5es indiana de grande pot\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\"><li><strong>O QUE \u00c9 PRECISO PARA ASCENDER?<\/strong> <\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Ao se analisar as transi\u00e7\u00f5es de poder, primeiramente, torna-se necess\u00e1rio visitar alguns te\u00f3ricos que abordam uma perspectiva estrutural do sistema internacional. Um dos nomes de destaque \u00e9 Robert Gilpin (2001), que afirma que os per\u00edodos de maior solidez do sistema correspondem \u00e0 exist\u00eancia de um ator protagonista e central: um&nbsp;hegemon que n\u00e3o s\u00f3 dite as regras do sistema, mas esteja compromissado com os princ\u00edpios da economia liberal. Conhecida como teoria da estabilidade&nbsp;hegem\u00f4nica, esse arcabou\u00e7o te\u00f3rico foi constru\u00eddo a partir da cren\u00e7a em um sistema internacional est\u00e1vel sob a hegemonia dos EUA no p\u00f3s-Guerra Fria. Diferente do esperado, a crise de 2008 demonstrou certo decl\u00ednio do protagonismo estadunidense. Variando em alguns aspectos, esses momentos de decl\u00ednio do hegemon s\u00e3o estudados por acad\u00eamicos a partir de diversas perspectivas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Organski (1968) foi um autor relevante para o desenvolvimento das teorias de per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o de poder e ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias. Ao contr\u00e1rio de Gilpin, Organski j\u00e1 havia afirmado, no contexto da Guerra Fria, que \u201cquem quer que ganhe a disputa atual ser\u00e1, eventualmente, confrontado com novos advers\u00e1rios\u201d (ORGANSKI, 1968, p. 339, tradu\u00e7\u00e3o nossa). De forma oposta \u00e0 teoria da estabilidade hegem\u00f4nica, o autor afirma que \u201cas na\u00e7\u00f5es est\u00e3o em constante troca no poder e grande parte dessas mudan\u00e7as acontece internamente\u201d (ORGANSKI, 1968, p. 346, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Ao apontar para a relev\u00e2ncia de quest\u00f5es nacionais no processo de ascens\u00e3o dos Estados no sistema internacional, Organski reafirma sua vis\u00e3o de que \u201cos principais fatores determinantes ao poder como na\u00e7\u00e3o s\u00e3o o tamanho populacional, a efici\u00eancia pol\u00edtica e o desenvolvimento econ\u00f4mico\u201d (ORGANSKI, 1968, p. 338, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Partindo disso, ele aponta para a quest\u00e3o demogr\u00e1fica como essencial na identifica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de pa\u00edses com potencial para ascender. De acordo com seu livro, quanto menor a popula\u00e7\u00e3o, menores s\u00e3o suas potencialidades (ORGANSKI, 1968, p. 341, tradu\u00e7\u00e3o nossa).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o autor, aqueles pa\u00edses em busca da ascens\u00e3o precisariam passar por tr\u00eas etapas em seu desenvolvimento: o poder potencial; transforma\u00e7\u00e3o do crescimento em poder; e matura\u00e7\u00e3o do poder. Os \u201cest\u00e1gios de transi\u00e7\u00e3o\u201d (ORGANSKI, 1968), de forma geral, tratam do processo de transforma\u00e7\u00e3o de uma economia agr\u00e1ria para uma industrializada como meio para a moderniza\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o das estruturas classificadas como relevantes para a ascens\u00e3o \u2013 demogr\u00e1fica, pol\u00edtica e econ\u00f4mica. A partir desse desenvolvimento o Estado seria capaz de aumentar seu poder de influ\u00eancia sobre outros e, como consequ\u00eancia, ascenderia na hierarquia mundial. Outro ponto relevante tratado pelo autor \u00e9 sobre como a transi\u00e7\u00e3o de poder pode afetar o sistema internacional:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>(&#8230;) a rapidez com que uma na\u00e7\u00e3o ganha poder depende, em grande medida, da velocidade com que se industrializa, e ambos os fatores t\u00eam uma grande influ\u00eancia no grau em que a ascens\u00e3o de uma nova pot\u00eancia perturba a comunidade internacional (ORGANSKI, 1968, p. 342, tradu\u00e7\u00e3o nossa).&nbsp;<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Complementando essa ideia, Kim (1991) adiciona a rela\u00e7\u00e3o do&nbsp;<em>status quo&nbsp;<\/em>nessa equa\u00e7\u00e3o. Enquanto Organski coloca a perspectiva das pot\u00eancias vigentes sobre a emerg\u00eancia de um novo pa\u00eds, Kim inverte essa l\u00f3gica. Ao centralizar a rela\u00e7\u00e3o do pa\u00eds em ascens\u00e3o com o&nbsp;<em>status quo&nbsp;<\/em>do sistema internacional, o autor passa a analisar a partir de outra \u00f3tica: \u201cse a pot\u00eancia desafiadora estiver insatisfeita com a ordem internacional criada pela na\u00e7\u00e3o dominante e seus aliados, e se recusar a respeitar as regras do sistema existente, ent\u00e3o o perigo de um conflito entre grandes pot\u00eancias \u00e9 maior\u201d (KIM, 1991, p. 837, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Outro ponto de diverg\u00eancia entre os autores \u00e9 acerca da import\u00e2ncia de aspectos externos no processo de emerg\u00eancia na hierarquia mundial. Enquanto Organski foca no desenvolvimento industrial, Kim afirma que a disputa pelos \u201c\u2019poderes\u2019 dispon\u00edveis\u201d por meio de \u201calian\u00e7as e contra alian\u00e7as\u201d se somam ao desenvolvimento interno como determinantes para o crescimento do poder nacional (KIM, 1991, p. 836, tradu\u00e7\u00e3o nossa).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa linha, Miller (2021) adicionou alguns conceitos \u00e0s teorias de transi\u00e7\u00e3o de poder e ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias. A autora tamb\u00e9m aponta para fatores externos como complementares ao desenvolvimento interno: \u201cuma pot\u00eancia em ascens\u00e3o, ou um pa\u00eds que deseja se tornar uma grande pot\u00eancia, deve aumentar o seu poder militar e econ\u00f4mico; come\u00e7ar a globalizar os seus interesses; e a ser reconhecido como uma futura grande pot\u00eancia\u201d (MILLER, 2021, p. 9, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Segundo ela, aqueles Estados que focam em desenvolver apenas suas capacidades nacionais, assim como afirma Organski, acabam se tornando na\u00e7\u00f5es \u201creticentes\u201d. Por outro lado, os pa\u00edses que conseguem alinhar os tr\u00eas fatores alcan\u00e7am o status de \u201cpot\u00eancias ascendentes ativas\u201d. O processo de globaliza\u00e7\u00e3o dos interesses e reconhecimento internacional, de acordo com Miller, acontece por meio do conceito de&nbsp;<em>idea advocacy<\/em>. Este trata da&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>(&#8230;) <em>gera\u00e7\u00e3o de novas ideias e a recombina\u00e7\u00e3o de existentes pelas elites de uma pot\u00eancia em ascens\u00e3o para formar novas narrativas sobre o comportamento adequado do pa\u00eds como futura grande pot\u00eancia. Estas novas, em conjunto com as capacidades crescentes de uma pot\u00eancia em ascens\u00e3o, levam-na a adquirir autoridade global e a moldar o reconhecimento de seu protagonismo (MILLER, 2021, p. 11, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Portanto, ao analisar os autores, \u00e9 poss\u00edvel perceber uma progress\u00e3o nesse campo te\u00f3rico. A forma com a qual as teorias se complementam faz com que elas possuam cada vez maturidade, aplicabilidade e contemporaneidade. Como esses momentos de transi\u00e7\u00e3o de poder abrem janelas de oportunidade para a ascens\u00e3o de pot\u00eancias emergentes, refor\u00e7a-se que s\u00e3o contextos relevantes para estudar os projetos de aumento de protagonismo internacional destas. Dessa forma, ap\u00f3s trabalhar o campo te\u00f3rico, a pr\u00f3xima se\u00e7\u00e3o deste artigo tratar\u00e1 da pr\u00e1tica, ao analisar a postura da pol\u00edtica indiana durante e ao fim da Guerra Fria.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. A GUERRA FRIA E AS ASPIRA\u00c7\u00d5ES INDIANAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial foi de extrema import\u00e2ncia para a hist\u00f3ria indiana. Em 1947, o pa\u00eds finalmente conseguiu sua independ\u00eancia, mas em um contexto ainda conflituoso. O atrito nas rela\u00e7\u00f5es com o Paquist\u00e3o e China fez com que a \u00cdndia buscasse aliados no continente visando certo equil\u00edbrio de poder (ALBUQUERQUE, 2022).&nbsp;A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi a principal parceira da \u00cdndia durante esse per\u00edodo, pois, al\u00e9m do pa\u00eds sul-asi\u00e1tico ser o maior importador de armas, partes do programa estatal indiano foi constru\u00eddo a partir de padr\u00f5es sovi\u00e9ticos (SENNES, 2001).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dessa proximidade, uma das carater\u00edsticas principais da pol\u00edtica externa indiana \u00e9 a \u201cdesconfian\u00e7a intr\u00ednseca aos atores ocidentais e \u00e0 interfer\u00eancia externa\u201d (ALBUQUERQUE; LIMA, no prelo, p. 6). Gra\u00e7as a esses pilares conceituais, o pa\u00eds foi um dos principais protagonistas no movimento de n\u00e3o alinhamento por conta de sua postura ativa na luta pelo posicionamento internacional aut\u00f4nomo, enquanto apontava os embates desiguais entre o norte e o sul global como causa para a dificuldade no desenvolvimento socioecon\u00f4mico.&nbsp;(ALBUQUERQUE; LIMA, no prelo). Nesse sentido, observa-se certo protagonismo internacional por parte da \u00cdndia na defesa das demandas do ent\u00e3o \u201cTerceiro Mundo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos elementos que os te\u00f3ricos da transi\u00e7\u00e3o de poder apontam \u00e9 o crescimento do poder material, que contempla tanto quest\u00f5es militares quanto econ\u00f4micas. Na \u00e1rea militar, ap\u00f3s a derrota para a China em 1962, em um conflito fronteiri\u00e7o, \u2013 considerada pelos indianos como humilhante -, a regi\u00e3o entrou em uma esp\u00e9cie de corrida armamentista:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>A China apoiou o Paquist\u00e3o nas guerras de 1965 e 1971 contra a \u00cdndia e contribuiu para o desenvolvimento do seu arsenal de armas nucleares. Enquanto isso, o programa indiano de armamento nuclear foi acelerado gra\u00e7as aos testes de armas nucleares feitos pela China em 1964 (SCOTT, 2011, p. 234, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Analisando a economia, a \u00cdndia manteve, entre 1950 e 1980, um crescimento em seu Produto Interno Bruto de cerca de 3,5% (KAPILA, 2015). Apesar do saldo positivo, ainda era um pa\u00eds agr\u00e1rio e desigual.&nbsp;A partir da d\u00e9cada de 1970, o Estado passou a enfrentar algumas crises econ\u00f4micas gra\u00e7as aos choques do petr\u00f3leo e, em 1981, solicitou empr\u00e9stimos ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI). Como consequ\u00eancia, foi pressionada a iniciar um processo de liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Diferente de grande parte dos pa\u00edses do sul global, esse movimento, na \u00cdndia, conseguiu manter o controle das empresas sob a elite nacional (SANTANA, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, ao analisar o Estado indiano durante esse per\u00edodo a partir dos elementos elegidos pelos te\u00f3ricos de ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias, \u00e9 poss\u00edvel perceber que, enquanto a \u00cdndia conseguiu adquirir certo poder de influ\u00eancia no sistema internacional, suas capacidades militares e econ\u00f4micas n\u00e3o foram suficientes para coloc\u00e1-la em posi\u00e7\u00e3o emergente. Al\u00e9m disso, \u00e9 v\u00e1lido ressaltar que, diferente do fim da Guerra Fria, o per\u00edodo de bipolaridade n\u00e3o pode ser considerado como um de transi\u00e7\u00e3o e, dessa maneira, mudan\u00e7as na hierarquia mundial eram muito dif\u00edceis. A partir da dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e suas consequ\u00eancias, o cen\u00e1rio passou a oferecer novas possibilidades \u00e0queles pa\u00edses que desejavam ascender.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a \u00cdndia, em particular, a queda de seu principal aliado representou a necessidade de mudan\u00e7as. A partir da d\u00e9cada de 1980, o foco passou para o desenvolvimento de suas capacidades internas. Gra\u00e7as a manuten\u00e7\u00e3o das grandes empresas sob controle nacional, o governo foi capaz de implementar reformas visando o crescimento econ\u00f4mico. Em paralelo, por conta da tens\u00e3o militar com seus vizinhos, o investimento em desenvolvimento de armas nucleares foi constante. Assim, ao final do s\u00e9culo XX, a \u00cdndia possu\u00eda um status de pa\u00eds com capacidades militares nucleares. Apesar de conseguir evoluir suas capacidades internas, o governo indiano apresentou certa estagna\u00e7\u00e3o em sua postura internacional, pois o aumento das capacidades materiais n\u00e3o veio acompanhado do \u201cidea advocacy\u201d e da busca de autoridade globalizada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>(&#8230;) se olharmos para as ideias de pol\u00edtica externa da \u00cdndia nessa altura, em vez de narrativas sobre como alcan\u00e7ar um grande poder, encontramos muita continuidade da era da Guerra Fria &#8211; ideias que falavam do passado da \u00cdndia como um pa\u00eds n\u00e3o alinhado e que n\u00e3o se conformavam com expectativas impostas pelo Ocidente sobre como alcan\u00e7ar o grande poder (&#8230;)&nbsp;as pot\u00eancias ativas em ascens\u00e3o conciliam tr\u00eas tipos de desenvolvimento: aumentam o seu poder econ\u00f4mico e militar, globalizam sua autoridade e tentam moldar as percep\u00e7\u00f5es do seu status em mudan\u00e7a. Na d\u00e9cada de 1990, a \u00cdndia tinha certamente adotado o primeiro tipo de comportamento. [&#8230;] Mas mostrou uma curiosa retic\u00eancia no que diz respeito ao segundo e terceiro tipos&nbsp;(MILLER, 2021, p. 120-121, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como resultado, ao desenvolver apenas um dos indicadores relevantes durante o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o de poder ocorrido no p\u00f3s-Guerra Fria, a \u00cdndia se apresentou como um pa\u00eds reticente. Essa realidade sofreu altera\u00e7\u00f5es no segundo per\u00edodo de an\u00e1lise deste artigo: a ascens\u00e3o chinesa.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>3 O P\u00d3S-2008 E AS ASPIRA\u00c7\u00d5ES INDIANAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nessa nova se\u00e7\u00e3o, exploraremos a postura indiana durante o s\u00e9culo XXI com objetivo de investigar se houve uma mudan\u00e7a em sua pol\u00edtica e se h\u00e1 um progn\u00f3stico favor\u00e1vel \u00e0 sua ascens\u00e3o. Em 2001, Kugler, Tammen e Swaminathan (2001), baseado em autores como Organski (1968) e Kim (1991), publicaram um artigo projetando poss\u00edveis cen\u00e1rios para o s\u00e9culo XXI. Utilizando as teorias de transi\u00e7\u00e3o de poder e ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias eles afirmam que sua an\u00e1lise \u201cprev\u00ea que os desafios ao dom\u00ednio dos EUA surgir\u00e3o principalmente da \u00c1sia no s\u00e9culo XXI. A China e a \u00cdndia s\u00e3o identificadas como potenciais candidatas devido \u00e0 sua esmagadora base populacional e ao seu potencial de crescimento econ\u00f4mico\u201d (KUGLER et. al, 2001, p. 5, tradu\u00e7\u00e3o nossa).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de sua retic\u00eancia no contexto do p\u00f3s-Guerra Fria, a \u00cdndia apresentava, em teoria, potencialidades similares ao Estado chin\u00eas. Analisando os principais indicadores internos de acordo com os te\u00f3ricos de ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias, percebe-se que ambos os pa\u00edses apresentavam uma demografia favor\u00e1vel e uma elevada margem para desenvolvimento econ\u00f4mico. A partir disso, formar-se-ia uma massa produtiva que alavancaria a economia desses pa\u00edses. Ademais, proje\u00e7\u00f5es apontavam para o fim da transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica chinesa em 2025 enquanto a \u00cdndia permaneceria em tend\u00eancia de crescimento populacional at\u00e9 2050: \u201cdepois de 2050, partindo do princ\u00edpio de que a \u00cdndia estabilizar\u00e1 a sua popula\u00e7\u00e3o e manter\u00e1 n\u00edveis elevados de crescimento, \u00e9 que surgir\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es para uma ultrapassagem de poder\u201d&nbsp;(KUGLER et.al, 2001, p. 19, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Partindo da rela\u00e7\u00e3o entre demografia e economia, apesar da desacelera\u00e7\u00e3o da economia mundial gra\u00e7as a crise de 2008, a economia indiana conseguiu manter taxas de crescimento anuais acima de 6% e, portanto, ao lado da China, se tornou um dos principais respons\u00e1veis pelo crescimento econ\u00f4mico global (MANZI; LIMA, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p>Como visto, outra capacidade interna necess\u00e1ria para a ascens\u00e3o como pot\u00eancia \u00e9 a militar. A partir de seu programa nuclear, a \u00cdndia j\u00e1 apresentava, no p\u00f3s-Guerra Fria, ferramentas que a colocavam entre os pa\u00edses mais potentes nesse aspecto. Al\u00e9m disso, gra\u00e7as as tens\u00f5es fronteiri\u00e7as, historicamente, a \u00cdndia apresenta um investimento elevado na \u00e1rea militar.&nbsp;Portanto, fica evidente a manuten\u00e7\u00e3o do desenvolvimento das capacidades internas ocorridas desde o final do s\u00e9culo passado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 valido ressaltar que o aspecto pendente na ascens\u00e3o indiana durante o p\u00f3s-Guerra Fria estava atrelado \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o internacional, e n\u00e3o ao aumento do poder econ\u00f4mico-militar (MILLER, 2021). A partir do atentado de 11 de setembro esse cen\u00e1rio come\u00e7a a mudar. O discurso estadunidense de guerra ao terror fez com que o Paquist\u00e3o &#8211; rival hist\u00f3rico indiano e pa\u00eds com maioria populacional isl\u00e2mica &#8211; passasse a&nbsp;<a>ser um ator relevante como poss\u00edvel barreira \u00e0 pol\u00edtica externa&nbsp;<\/a>da pot\u00eancia norte-americana de combate a grupos terroristas. Como consequ\u00eancia, os Estados Unidos iniciaram um processo de reaproxima\u00e7\u00e3o com a \u00cdndia. Um grande s\u00edmbolo desse movimento foi a declara\u00e7\u00e3o conjunta, em 2008, dos chefes de Estado dos dois pa\u00edses, no qual os EUA intitularam a \u00cdndia como \u201cum Estado respons\u00e1vel com tecnologia nuclear avan\u00e7ada que merece adquirir os mesmos benef\u00edcios e vantagens que outros Estados nucleares\u201d (BHATIA, 2017, p. 127). Al\u00e9m de interesses relacionados ao Paquist\u00e3o, o governo indiano era visto como&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>(&#8230;) uma democracia robusta e diversificada, o \u00fanico pa\u00eds que podia rivalizar com a China em termos de dimens\u00e3o e de popula\u00e7\u00e3o na \u00c1sia, mantendo simultaneamente um compromisso com as normas da democracia liberal. Em muitos aspectos, parecia que a \u00cdndia era um parceiro \u201cnatural\u201d para os defensores da atual ordem internacional liberal&nbsp;(MILLER, 2021, p. 124, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esse novo papel na balan\u00e7a internacional de poder coloca a \u00cdndia em uma posi\u00e7\u00e3o de certo protagonismo internacional. Para o Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da \u00cdndia, S. Jaishankar (2024), seu pa\u00eds est\u00e1 pronto para \u201cinteragir com os EUA, gerir a China, cultivar a Europa, tranquilizar a R\u00fassia, envolver o Jap\u00e3o, atrair os vizinhos, alargar a vizinhan\u00e7a e expandir os c\u00edrculos tradicionais de apoio\u201d (JAISHANKAR, 2024, p.1). Percebe-se uma mudan\u00e7a na postura da pol\u00edtica externa indiana se comparada ao final da Guerra Fria. A busca pelo assento fixo no Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas (CSNU) representa esse novo momento. Junto com Alemanha, Brasil e Jap\u00e3o, a \u00cdndia faz parte do G4, grupo que reivindica uma reforma no CSNU, especialmente voltada aos membros permanentes (ALBUQUERQUE, 2022).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, desde sua reaproxima\u00e7\u00e3o com a Associa\u00e7\u00e3o de Na\u00e7\u00f5es do Sudeste Asi\u00e1tico (ASEAN), a pol\u00edtica externa indiana tem progressivamente aumentado sua relev\u00e2ncia no sistema internacional. Sendo \u201csimultaneamente, uma prioridade para os EUA, a R\u00fassia e a China\u201d (ALBUQUERQUE; LIMA, no prelo, p. 13), a \u00cdndia tem conseguido se beneficiar das disputas geopol\u00edticas globais. Por um lado, faz parte dos BRICS \u2013 grupo de pa\u00edses formado por Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul -, Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai, e consegue, apesar de algumas tens\u00f5es hist\u00f3ricas, manter parcerias relevantes com os governos russo e chin\u00eas. Por outro lado, desde os atentados de 11 de setembro, tem sido percebida como uma pot\u00eancia nuclear aceit\u00e1vel aos olhos ocidentais (ALBUQUERQUE; LIMA, no prelo). Como s\u00edmbolo dessa aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 pa\u00edses aliados aos EUA, em 2017, a \u00cdndia lan\u00e7ou, junto com o Jap\u00e3o e a Austr\u00e1lia, o QUAD, um grupo quadrilateral que visa a manuten\u00e7\u00e3o da democracia e seguran\u00e7a na \u00c1sia. Al\u00e9m desses movimentos, a presid\u00eancia indiana no G20, em 2023, foi considerada, n\u00e3o s\u00f3, bem-sucedida, mas tamb\u00e9m, uma forma de \u201cagregar valor substantivo a representatividade de seu Estado\u201d (RAKHRA, 2023, p.91, tradu\u00e7\u00e3o nossa).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa maneira, diferente do final do s\u00e9culo passado, a \u00cdndia tem se portado de forma ativa em sua pol\u00edtica externa. Outro pilar essencial para a ascens\u00e3o de um pa\u00eds como pot\u00eancia para Miller (2021) \u00e9 o conceito de&nbsp;<em>idea advocacy<\/em>. Para Albuquerque e Lima,&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>O ressurgimento da aspira\u00e7\u00e3o da \u00cdndia ao status de grande pot\u00eancia tem uma explica\u00e7\u00e3o em sua pol\u00edtica interna, uma vez que a ascens\u00e3o do Partido Bharatyia Janata (BJP) nas \u00faltimas d\u00e9cadas provocou mudan\u00e7as profundas no comportamento do pa\u00eds. Como um partido que defende o nacionalismo, as tradi\u00e7\u00f5es e a cultura hindus, o BJP adotou pol\u00edticas que destacam a inevitabilidade da vis\u00e3o de mundo indiana&nbsp;<a>(<\/a>ALBUQUERQUE; LIMA, no prelo, p. 11-12)<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Portanto, percebe-se, nesse novo per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, a partir de 2008, que a \u00cdndia tem buscado aumentar seu poder econ\u00f4mico e militar, globalizar sua autoridade e mudar a percep\u00e7\u00e3o do mundo quanto \u00e0 sua relev\u00e2ncia no sistema internacional. Cumprindo os par\u00e2metros estabelecidos pelos te\u00f3ricos de transi\u00e7\u00e3o de poder e ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias, \u00e9 poss\u00edvel perceber que \u201cembora a \u00cdndia tenha atendido apenas parcialmente aos crit\u00e9rios ap\u00f3s a Guerra Fria, agora ela abra\u00e7ou de todo o cora\u00e7\u00e3o seu desejo de ser reconhecida como uma grande pot\u00eancia\u201d&nbsp;(ALBUQUERQUE; LIMA, no prelo, p. 15).<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONCLUS\u00d5ES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s analisar autores relevantes para as teorias de transi\u00e7\u00e3o de poder e ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias, foi poss\u00edvel compreender como as potencialidades indianas est\u00e3o alinhadas com suas aspira\u00e7\u00f5es de protagonismo no sistema internacional. Comparando os dois marcos temporais aqui examinados \u2013 o fim da Guerra Fria e p\u00f3s-2008 com a ascens\u00e3o chinesa -, \u00e9 poss\u00edvel perceber diferentes posturas tomadas pela \u00cdndia. No final do s\u00e9culo XX, o governo indiano n\u00e3o conseguiu efetivar suas aspira\u00e7\u00f5es de pot\u00eancia. Apesar de certo desenvolvimento econ\u00f4mico e militar, por manter sua pol\u00edtica externa alinhada com agendas que eram latentes durante a Guerra Fria, em outro contexto internacional, acabou se tornando um pa\u00eds reticente. Desde a virada do s\u00e9culo XXI e, de forma mais acentuada, a partir da ascens\u00e3o da China desde 2008, a \u00cdndia tem, progressivamente, buscado uma atua\u00e7\u00e3o mais influente no sistema internacional. Mantendo seu crescimento econ\u00f4mico est\u00e1vel, elevados investimentos na \u00e1rea militar e ocupando pap\u00e9is centrais na din\u00e2mica de poder global, a \u00cdndia tem caminhado para alcan\u00e7ar o posto de&nbsp;\u201cpot\u00eancia ascendente ativa\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo em vista a contemporaneidade desse contexto de ascens\u00e3o indiana e a dinamicidade do sistema internacional, novas agendas de pesquisa s\u00e3o poss\u00edveis. Como exemplo, \u00e9 poss\u00edvel citar a reelei\u00e7\u00e3o do Primeiro-Ministro Narendra Modi, em 2024, e seus efeitos no projeto de ascens\u00e3o indiana. Outro ponto a ser investigado \u00e9 a visita de Modi \u00e0 Pol\u00f4nia e Ucr\u00e2nia e a como pol\u00edtica externa da \u00cdndia pode ser afetada pela reinser\u00e7\u00e3o da R\u00fassia como ator geopol\u00edtico relevante. Al\u00e9m disso, fica em aberto para futuras agendas de pesquisa a an\u00e1lise do impacto da postura indiana de certa oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s agendas ambientais, propostas em organismos multilaterais, e os impactos em sua percep\u00e7\u00e3o como poss\u00edvel l\u00edder da governan\u00e7a global.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ALBUQUERQUE, Marianna.&nbsp;<strong>Brasil e \u00cdndia no Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas (1946-2012).<\/strong> Curitiba: Editora Appris, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>ALBUQUERQUE, Marianna.&nbsp;Brasil e \u00cdndia nos foros multilaterais pol\u00edticos. In:&nbsp;FUNDA\u00c7\u00c3O ALEXANDRE DE GUSM\u00c3O&nbsp;(Org.).&nbsp;<strong>Brasil e \u00cdndia: os 75 anos de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e uma agenda para o futuro<\/strong>. Bras\u00edlia: Funda\u00e7\u00e3o Alexandre de Gusm\u00e3o, 2023. p. 97-118. ISBN 978-65-87062-66-2.<\/p>\n\n\n\n<p>ALBUQUERQUE, Marianna; LIMA, Maria Regina Soares de<strong>.<\/strong>&nbsp;What does it take for a country to rise? An analysis of Indian foreign policy in power transition contexts.&nbsp;<strong>Revista Brasileira de Pol\u00edtica Internacional<\/strong>, v. 67, n. 2, e018, 2024 (no prelo).<\/p>\n\n\n\n<p>ASIA, Nikkei<strong>.<\/strong>&nbsp;\u00cdndia ultrapassar\u00e1 Jap\u00e3o como quarta maior economia do mundo em 2025, diz FMI.&nbsp;<strong>Valor Econ\u00f4mico,<\/strong> 22 abr. 2024. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/mundo\/noticia\/2024\/04\/22\/ndia-ultrapassar-japo-como-quarta-maior-economia-do-mundo-em-2025-diz-fmi.ghtml\">https:\/\/valor.globo.com\/mundo\/noticia\/2024\/04\/22\/ndia-ultrapassar-japo-como-quarta-maior-economia-do-mundo-em-2025-diz-fmi.ghtml<\/a>. Acesso em: 26 maio 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>BARONI, Paola Andrea.&nbsp;La relaci\u00f3n de India con Am\u00e9rica Latina en la era de la pospandemia.&nbsp;<strong>Astrolabio, <\/strong>n. 30, p. 1-31, 2023. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.55441\/1668.7515.n30.37362\">https:\/\/doi.org\/10.55441\/1668.7515.n30.37362<\/a>. Acesso em: 2 jun. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>BHATIA, Vandana.&nbsp;<strong>The US-India Nuclear Agreement: Accommodating the Anomaly?<\/strong> Lanham: Lexington Books, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>GILPIN, Robert<strong>.<\/strong>&nbsp;<strong>Global Political Economy: understanding the international economic order.<\/strong>&nbsp;Princeton: Princeton University Press, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>GRATIUS, Susanne.&nbsp;Las potencias emergentes: \u00bfEstabilizadoras o desestabilizadoras<strong>?&nbsp;Fride,<\/strong> [s. l.], p. 1-16, 1 abr. 2008. 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Trajet\u00f3rias de reformas e mudan\u00e7as institucionais na semiperiferia: abertura financeira e capacidades estatais no Brasil e \u00cdndia. 2012. Tese (Doutorado em Ci\u00eancia Pol\u00edtica) \u2013 Instituto de Estudos Sociais e Pol\u00edticos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), Rio de Janeiro, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>SCOTT, David (Ed.<strong>).<\/strong>&nbsp;<strong>Handbook of India\u2019s International Relations.<\/strong>&nbsp;1. ed. London: Routledge, 2011. 338 p. ISBN 978-1-85743-552-8.<\/p>\n\n\n\n<p>SENNES, Ricardo Ubiraci<strong>.<\/strong>&nbsp;Brasil, M\u00e9xico e \u00cdndia na rodada Uruguai do GATT e no conselho de seguran\u00e7a da ONU: um estudo sobre os pa\u00edses intermedi\u00e1rios. 2001. Tese (Doutorado) \u2013 Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>RAKHRA,&nbsp;Kanica.&nbsp;The G20 as a multilateral force.&nbsp;<strong>Cebri Revista<\/strong>, v. 2, n. 8, p. 77-94, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>ROSS, Cesar.&nbsp;India, Latin America, and the Caribbean during the Cold War.&nbsp;<strong>Revista Brasileira de Pol\u00edtica Internacional<\/strong>, v. 56, n. 2, p. 23-44, 2013. DOI: &lt;10.1590\/S0034-73292013000200002&gt;.<\/p>\n\n\n\n<p>ROSS, Cesar.&nbsp;India y Am\u00e9rica Latina y el Caribe: relaciones econ\u00f3micas durante la Guerra Fr\u00eda.<strong>&nbsp;The Asian Journal of Latin American Studies<\/strong>, v. 23, n. 4, p. 7-42, 2010.&nbsp;Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ajlas.org\/v2006\/paper\/2010vol23no401.pdf\">http:\/\/www.ajlas.org\/v2006\/paper\/2010vol23no401.pdf<\/a>. Acesso em: 19 maio 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>ORGANSKI, Abramo Fimo Kenneth.&nbsp;<strong>World Politics.<\/strong> New York: Knopf, 1968. 509 p.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/C86AAEC0-140A-4EAE-9C3C-9AE0C9778950#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;Este artigo \u00e9 uma vers\u00e3o reduzida do trabalho de conclus\u00e3o de curso do autor.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Matheus Petrelli <\/strong>\u00e9 Graduando em Defesa e Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua como pesquisador de pol\u00edtica externa indiana pelo Laborat\u00f3rio de Estudos Asi\u00e1ticos (LEA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e integra o Observat\u00f3rio Pol\u00edtico Sul-Americano (OPSA) do Instituto de Estudos Sociais e Pol\u00edticos (IESP), que pertence \u00e0 Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Al\u00e9m disso, faz parte da iniciativa &#8220;De Olho no Front&#8221;, do curso de Defesa e Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica Internacional (IRID\/UFRJ), que produz conte\u00fados sobre a conjuntura, defesa e seguran\u00e7a Internacional no Twitter, no Instagram e em podcasts.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edi\u00e7\u00e3o Especial: \u00c1sia Volume 11 | N\u00famero 113 | Nov. 2024 Por Matheus<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3272,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[646,645,685],"tags":[],"class_list":["post-3274","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-edicao-atual","category-edicao-especial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3274"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3274\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3278,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3274\/revisions\/3278"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}