{"id":3314,"date":"2024-12-23T06:15:00","date_gmt":"2024-12-23T09:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3314"},"modified":"2024-12-23T17:16:39","modified_gmt":"2024-12-23T20:16:39","slug":"dois-anos-de-guerra-na-ucrania-apontamentos-de-uma-retrospectiva-no-campo-de-batalha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3314","title":{"rendered":"Dois anos de guerra na Ucr\u00e2nia: apontamentos de uma retrospectiva no campo de batalha"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 11 | N\u00famero 114 | Dez. 2024<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Johny Santana de Ara\u00fajo<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Passados dois anos de conflito, a guerra da R\u00fassia contra a Ucr\u00e2nia chegou-se a um impasse, que pode ser resumido pela incapacidade das for\u00e7as armadas ucranianas em manter o f\u00f4lego da ofensiva iniciada em fins de 2023. \u00c9 poss\u00edvel se avaliar que apesar das san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia n\u00e3o terem debilitado significativamente o pa\u00eds, este segue no conflito abalizado por seus aliados, tradicionais e atuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um boletim emitido pelo Economist Intelligence, previu-se que em 2023 a economia russa iria contrair ainda mais e que a recess\u00e3o econ\u00f4mica iria prejudicar suas finan\u00e7as p\u00fablicas e por extens\u00e3o complicaria o financiamento da guerra (EIU, 2023). Em grande medida, a R\u00fassia parece hoje pouco afetada por esse progn\u00f3stico, e segue decidida em uma penosa guerra de desgaste. Argumenta-se, por\u00e9m, que a economia russa \u00e9 relativamente robusta e, no curto prazo, praticamente n\u00e3o h\u00e1 riscos de um \u201ccolapso\u201d, mas as dificuldades econ\u00f4micas podem aumentar nos m\u00e9dio e longo prazos (Cooper, 2023, p. 23).<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez a Ucr\u00e2nia, com uma economia sensivelmente abalada, segue apostando ainda em uma vit\u00f3ria, que a alguns meses atr\u00e1s n\u00e3o seria de fato imposs\u00edvel de ser conquistada com ajuda ocidental, ou pelo colapso das for\u00e7as russas, por diversos fatores, entre os quais o suposto sucesso das retalia\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, o que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>O propalado embargo econ\u00f4mico contra a R\u00fassia reverteu-se em um fracasso, sobretudo diante da ajuda do seu principal parceiro pol\u00edtico e estrat\u00e9gico, a China, que praticamente tem assegurado o fluxo de apoio econ\u00f4mico a Moscou. Aliados como a Coreia do Norte, igualmente tem fornecido capacidade b\u00e9lica aos russos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O fracasso inicial das for\u00e7as russas no <em>front<\/em> norte<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na manh\u00e3 de 24 de fevereiro de 2022, a R\u00fassia come\u00e7ou o ataque no Oblast de Kiev com disparos de artilharia e m\u00edsseis contra v\u00e1rios alvos prim\u00e1rios, incluindo o Aeroporto Internacional Boryspil, em Kiev.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo da Ucr\u00e2nia preparou de alguma forma a sua popula\u00e7\u00e3o para a perspectiva de uma guerra devastadora, tendo o Parlamento votado para aprovar um decreto de estado de emerg\u00eancia que foi assinado em 24 de fevereiro, permitindo que as autoridades \u201cimpusessem toques de recolher e restri\u00e7\u00f5es \u00e0 circula\u00e7\u00e3o, suspendendo com\u00edcios e proibindo partidos e organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas\u201d (Walker, 2023, p. 37).<\/p>\n\n\n\n<p>Os aeroportos das cidades de Kharkiv, Dnipro e Zaporizhzhia, no leste da Ucr\u00e2nia, fecharam seu espa\u00e7o a\u00e9reo, e os quase 3 milh\u00f5es de ucranianos que ainda estavam na R\u00fassia foram orientados a deixar o pa\u00eds o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A R\u00fassia aparentemente pretendia tomar Kiev rapidamente, utilizando inclusive for\u00e7as especiais como os <em>Spetsnaz<\/em>, que foram se infiltrando na cidade, o ataque foi apoiado por opera\u00e7\u00f5es aerotransportadas em conjunto com um r\u00e1pido avan\u00e7o mecanizado vindo do Norte. As For\u00e7as Aerotransportadas Russas tentaram tomar dois campos de avia\u00e7\u00e3o importantes perto de Kiev, lan\u00e7ando um ataque a\u00e9reo ao Aeroporto de Hostomel, seguido por um pouso semelhante em Vasylkiv, ao sul de Kiev, em 26 de fevereiro (Cooper; Crowther; Fontanellaz; Sipos, 2023, p. 39).<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, o presidente Vladimir Putin afirmou que a R\u00fassia estava pronta para buscar \u201csolu\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas\u201d sobre a Ucr\u00e2nia, mas ressaltou que os interesses de seu pa\u00eds eram inegoci\u00e1veis. Em um discurso que marcou o Dia do Defensor da P\u00e1tria, Putin afirmou que: \u201cNosso pa\u00eds est\u00e1 sempre aberto ao di\u00e1logo direto e honesto, para a busca de solu\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas para os mais complexos problemas. Os interesses da R\u00fassia, a seguran\u00e7a dos nossos cidad\u00e3os, s\u00e3o inegoci\u00e1veis para n\u00f3s\u201d (Walker, 2023, p. 38).<\/p>\n\n\n\n<p>O ataque inicial das for\u00e7as russas, que de certa forma foi avassalador, acabou sendo a demonstra\u00e7\u00e3o de diversas incapacidades do ex\u00e9rcito russo, aliado a conceitos de alguma forma considerados superados, herdados ainda da doutrina militar sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A \u00eanfase no poder de fogo, na manobra e na velocidade implicava uma forma espec\u00edfica de comando \u2013 porque, no modo russo de guerra, o tempo era sempre essencial. Por essa raz\u00e3o, os oficiais cronicamente encarregados das tropas terrestres foram treinados para operar de forma fortemente roteirizada, enquanto aplicavam um conjunto de procedimentos t\u00e1ticos padronizados, desenvolvidos sob medida pelo GenStab (Estado Maior) para cada situa\u00e7\u00e3o imagin\u00e1vel \u2013 em vez de se envolver no demorado processo de analisar a situa\u00e7\u00e3o e, em seguida, produzir planos sob medida para situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas no campo de batalha.<\/p><cite>(Cooper; Crowther; Fontanellaz; Sipos, 2023, p. 31).<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Dentro do dispositivo estrat\u00e9gico para obten\u00e7\u00e3o de sucesso no Norte e para uma r\u00e1pida penetra\u00e7\u00e3o at\u00e9 Kiev, os russos planejavam a tomada da cidade de Hostomel na periferia noroeste da capital, a cidade abriga um importante Aeroporto usado para voos de carga. Nos dois primeiros dias da invas\u00e3o, as for\u00e7as russas montaram um grande ataque a\u00e9reo que foi seguido da a\u00e7\u00e3o de for\u00e7as especiais que tinham a miss\u00e3o de tomar a pista do aeroporto e mant\u00ea-la intacta a fim de serem usadas por tropas de assalto aerotransportadas. A pista de pouso poderia igualmente ser usada para trazer voos de refor\u00e7os e suprimentos para o ataque contra Kiev.<\/p>\n\n\n\n<p>As tropas aerotransportadas da R\u00fassia tiveram um papel de destaque nessa ambiciosa opera\u00e7\u00e3o, segundo Samir Puri \u201c[&#8230;] aparentemente foi idealizado por um roteirista e n\u00e3o por uma equipe profissional de planejamento militar.\u201d (Puri, 2023, p. 258). As tropas aerotransportadas chegaram ao aeroporto em helic\u00f3pteros, como planejado, mas uma batalha feroz ocorreu quando as tropas ucranianas contra-atacaram e empurraram os russos para os arredores do aeroporto.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve uma sequ\u00eancia de erros estrat\u00e9gicos no in\u00edcio da invas\u00e3o, primeiro o fracasso da a\u00e7\u00e3o das for\u00e7as aerotransportadas em Hostomel, em seguida, a utiliza\u00e7\u00e3o de unidades mecanizadas que avan\u00e7aram em uma longa coluna em dire\u00e7\u00e3o a Kiev. Essas \u00faltimas foram detidas pelos defensores ucranianos nas proximidades das cidades de Bucha, Irpin e Hostomel, que formavam um escudo para Kiev (Puri, 2023, p. 258). Se de fato essas cidades tivessem ca\u00eddo, as for\u00e7as russas rapidamente teriam cercado Kiev. Bucha foi ocupada temporariamente, mas o suficiente para que ocorresse o massacre de civis, at\u00e9 ser abandonada pelos invasores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Manuten\u00e7\u00e3o da frente no Donbass e sucessos russos no Sul<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os ataques russos como vimos foram inicialmente lan\u00e7ados numa frente norte da Bielorr\u00fassia em dire\u00e7\u00e3o a Kiev, mas tamb\u00e9m numa frente sul a partir da Crimeia, e numa frente sudeste a partir de Luhansk e Donetsk e em dire\u00e7\u00e3o a Kharkiv. Na frente norte, em meio a pesadas perdas e forte resist\u00eancia ucraniana em torno de Kiev, o avan\u00e7o estagnou em mar\u00e7o e em abril as tropas recuaram. Uma das maiores cr\u00edticas ao insucesso russo nessas opera\u00e7\u00f5es se refletiu tamb\u00e9m na incapacidade de manuten\u00e7\u00e3o de uma log\u00edstica eficiente (Ar\u00e9valo, 2022).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 8 de abril de 2022, a R\u00fassia colocou as suas for\u00e7as no Sul e no Leste da Ucr\u00e2nia sob o comando do general Aleksandr Dvornikov, e algumas unidades retiradas do Norte foram redistribu\u00eddas para o Donbass. Em 13 de maio daquele ano, uma contraofensiva da Ucr\u00e2nia recha\u00e7ou as for\u00e7as russas perto de Kharkiv, decretando o fim de qualquer investida maior ao norte naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p>O desempenho fracassado das ofensivas no Norte para tentar capturar Kiev, Chernihiv, Sumy e Kharkiv, seria compensado pelo desempenho dos dois ex\u00e9rcitos que foram destacados para invadir o sul da Ucr\u00e2nia, o 49\u00ba Ex\u00e9rcito de Armas Combinadas, e o 58\u00ba Ex\u00e9rcito de Armas Combinadas, que conseguiram um avan\u00e7o quase impec\u00e1vel seguindo o plano original de invas\u00e3o (Cooper; Crowther; Fontanellaz; Sipos, 2023, p. 53).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 19 de abril, a R\u00fassia lan\u00e7ou um ataque renovado em uma frente de 500 quil\u00f4metros que se estendia de Kharkiv a Donetsk e Luhansk. Em 20 de maio, Mariupol caiu nas m\u00e3os das tropas russas ap\u00f3s um cerco prolongado \u00e0 sider\u00fargica Azovstal. As for\u00e7as russas continuaram a bombardear alvos militares e civis longe da linha de frente com misseis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>For\u00e7as russas: uma evolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os militares russos come\u00e7aram o ano de 2023 com um dispositivo de for\u00e7a altamente desorganizado na Ucr\u00e2nia, composto por aproximadamente 360.000 soldados. No in\u00edcio da ofensiva ucraniana, em junho de 2023, este n\u00famero tinha aumentado para 410.000 soldados, por\u00e9m estavam sensivelmente mais organizados (Watling; Reynolds, 2024).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os meses de junho e setembro de 2023, a R\u00fassia estabeleceu unidades de treinamento ao longo da fronteira e nos territ\u00f3rios ocupados e, ap\u00f3s o motim do grupo Wagner, esfor\u00e7ou-se por uniformizar as suas unidades, rompendo com a depend\u00eancia de ex\u00e9rcitos privados, em grande medida em raz\u00e3o da deteriora\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o como esse tipo de dispositivo. No in\u00edcio de 2024, o Grupo Operacional de for\u00e7as russas nos territ\u00f3rios ocupados j\u00e1 compreendia um volume de 470.000 soldados (Dyner. 2024, p. 3).<\/p>\n\n\n\n<p>De um modo geral a R\u00fassia ainda mant\u00e9m o objetivo estrat\u00e9gico original de subjugar a Ucr\u00e2nia. Os termos de rendi\u00e7\u00e3o atualmente propostos pelos intermedi\u00e1rios russos incluem a cess\u00e3o da Ucr\u00e2nia do territ\u00f3rio j\u00e1 sob controle russo juntamente com Kharkiv e, possivelmente, obter da Ucr\u00e2nia a concord\u00e2ncia em n\u00e3o aderir \u00e0 OTAN e por fim manter um governo totalmente alinhado com a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os analistas da RUSI, identificaram quais seriam os passos seguintes da R\u00fassia para alcan\u00e7ar os seus objetivos que podem ser identificados como sendo um caminho de tr\u00eas fases. &nbsp;A primeira fase exige a continua\u00e7\u00e3o da press\u00e3o ao longo da frente ucraniana para drenar as muni\u00e7\u00f5es e reservas de pessoal das For\u00e7as Armadas da Ucr\u00e2nia. Juntamente com este esfor\u00e7o, as Unidades Especiais Russas, <em>Spetsnaz<\/em>, t\u00eam a tarefa de quebrar a determina\u00e7\u00e3o dos aliados internacionais da Ucr\u00e2nia de continuarem a fornecer ajuda militar, atacando os dep\u00f3sitos de armamentos na retaguarda em opera\u00e7\u00f5es especiais. E finalmente com a ajuda militar tendo sido significativamente limitada, acredita-se que os estoques de muni\u00e7\u00f5es ucranianos se esgotem (Watling; Reynolds, 2024). Com esse quadro, possivelmente a R\u00fassia pretenda iniciar novas opera\u00e7\u00f5es ofensivas para obter ganhos significativos no campo de batalha ainda que sejam lentos.<\/p>\n\n\n\n<p>As poss\u00edveis vit\u00f3rias se destinam a alcan\u00e7ar o objetivo principal, avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a capital Kiev e for\u00e7ar a capitula\u00e7\u00e3o dos ucranianos dentro dos termos de rendi\u00e7\u00e3o dos russos. O planejamento para a implementa\u00e7\u00e3o destes objetivos conta com um ativo importante para impulsionar as for\u00e7as russas, que \u00e9 a sua base industrial militar j\u00e1 h\u00e1 muito consolidada (Camargo, 2023), cuja centraliza\u00e7\u00e3o das diretrizes mant\u00e9m o fluxo permanente de equipamentos, assim os russos esperam que a vit\u00f3ria seja alcan\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora as For\u00e7as Russas continuem a sofrer baixas significativas, elas mant\u00eam um ritmo de reposi\u00e7\u00e3o e de crescimento em tamanho. As unidades geralmente podem ser retiradas da linha depois de terem sofrido at\u00e9 30% de baixas, um ponto em que se tornam ineficazes, ent\u00e3o s\u00e3o repostas. Atualmente a principal estrat\u00e9gia das for\u00e7as russas tem sido conduzir pequenos ataques t\u00e1ticos que, no m\u00ednimo, infligem perdas constantes \u00e0 Ucr\u00e2nia; isso tem permitido que os russos tomem posi\u00e7\u00f5es e as mantenham (Watling; Reynolds, 2024), e assim sustentam uma press\u00e3o permanente em v\u00e1rios pontos da linha de frente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A contraofensiva ucraniana em 2023<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A renova\u00e7\u00e3o no comando do ex\u00e9rcito ucraniano foi um dos pontos chaves no momento cr\u00edtico para o lan\u00e7amento da contraofensiva, tendo assumido o general Valerii Zaluzhnyi, que juntamente com a introdu\u00e7\u00e3o de equipamento militar ocidental em grande quantidade, seria uma garantia da vit\u00f3ria decisiva que tanto Kiev desejava, no entanto o tempo tamb\u00e9m levou a uma remodela\u00e7\u00e3o da doutrina militar russa, muito embora a ideia de concentra\u00e7\u00e3o de massa ainda permane\u00e7a em vigor, o que tem levado a uma percep\u00e7\u00e3o clara de que a frente no Donbas se assemelha muito a desgastante guerra de trincheiras da Primeira Guerra Mundial que se alternam em choques espor\u00e1dicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ucranianos tamb\u00e9m est\u00e3o perdendo parte de suas for\u00e7as em opera\u00e7\u00f5es militares nos diferentes <em>fronts<\/em>, levando a diminui\u00e7\u00e3o do \u00edmpeto e da energia da contraofensiva, e os russos igualmente est\u00e3o suportando pesadas perdas. As baixas consider\u00e1veis que os ucranianos sofreram t\u00eam levado a uma preocupa\u00e7\u00e3o maior quanto a reposi\u00e7\u00e3o de novas for\u00e7as, o que tem sido um complicador.<\/p>\n\n\n\n<p>Na atualidade, a necessidade cada vez maior de cobrir perdas tem levado o governo da Ucr\u00e2nia a medidas dr\u00e1sticas para manter o equil\u00edbrio de for\u00e7as em combate, h\u00e1 uma press\u00e3o cada vez maior pelo alistamento de todos os que puderem lutar, tem se recorrido a todos os expedientes poss\u00edveis inclusive baixando a idade de servi\u00e7o militar.<\/p>\n\n\n\n<p>A Ucr\u00e2nia recebeu consider\u00e1vel assist\u00eancia militar do ocidente, que a ajudou nas opera\u00e7\u00f5es militares. Mas o arrojo de sua ofensiva foi sensivelmente diminu\u00eddo e uma das raz\u00f5es observadas foi a falta de avi\u00f5es de combate para a sua for\u00e7a a\u00e9rea, levando a uma grande desvantagem que tornaram mais dif\u00edcil romper as linhas russas (Jones; McCabe; Palmer, 2023, p. 11).<\/p>\n\n\n\n<p>No campo de batalha a utiliza\u00e7\u00e3o de drones tamb\u00e9m tem facilitado a a\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito, que mina de alguma forma a a\u00e7\u00e3o das unidades blindadas russas. O equipamento ocidental de excelente qualidade demonstrou uma certa superioridade no campo de batalha. O blindado de transporte de tropas Bradley chegou a engajar MBTs russos como o T-90, mais bem armado do que ele, e saindo vitorioso no combate, m\u00edsseis antitanques diversos como <em>Javelin<\/em>, e sistemas de m\u00edsseis Terra-ar como <em>Patriot<\/em> t\u00eam assegurado os \u00eaxitos na destrui\u00e7\u00e3o de foguetes russos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto positivo das for\u00e7as armadas ucranianas tem sido os sucessos pontuais, nos ataques contra a frota russa do mar negro, com a utiliza\u00e7\u00e3o de drones navais e m\u00edsseis antinavios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A defesa a\u00e9rea da Ucr\u00e2nia na atual guerra contra a R\u00fassia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o como um todo \u00e9 muito delicada e se reflete na necessidade crescente do fornecimento de equipamentos cada vez mais modernos \u00e0s for\u00e7as ucranianas, o que representa um gargalo para os aliados europeus, face a pr\u00f3pria dificuldade interna em manter esse fornecimento ativo. O principal aliado da causa ucraniana fora da Europa, os EUA, passaram por momentos delicados na pol\u00edtica interna com pedidos cada vez maiores ao Congresso por parte da administra\u00e7\u00e3o Biden para libera\u00e7\u00e3o de recursos a Ucr\u00e2nia, e o clima de insatisfa\u00e7\u00e3o dos republicanos, muitos contr\u00e1rios a manuten\u00e7\u00e3o da ajuda. Seja como for, \u201cOs Estados Unidos e os seus aliados ocidentais t\u00eam de estar preparados para apoiar uma guerra longa e desenvolver um plano de ajuda a longo prazo.\u201d (Jones; McCabe; Palmer, 2023, p. 13).<\/p>\n\n\n\n<p>Uma preocupa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica muito importante para a Ucr\u00e2nia, para al\u00e9m da retomada dos territ\u00f3rios disputados parece ser a retomada do controle da defesa de seu espa\u00e7o a\u00e9reo, o que tem sido motivo de grande expectativa por parte das autoridades da for\u00e7a a\u00e9rea ucraniana, com a chegada dos primeiros ca\u00e7as F-16, e das equipes de pilotos que ir\u00e3o tripul\u00e1-los, mas muito tamb\u00e9m j\u00e1 foi especulado sobre a real capacidade desses ca\u00e7as que pertenciam originalmente a for\u00e7as a\u00e9reas da OTAN.<\/p>\n\n\n\n<p>Espera-se ansiosamente pela introdu\u00e7\u00e3o destes ca\u00e7as, na esperan\u00e7a de contrabalan\u00e7ar a supremacia a\u00e9rea da For\u00e7a A\u00e9rea russa. Muito se comenta sobre se as vers\u00f5es estariam \u00e0 altura de enfrentar o equipamento russo, uma vez que os F-16 s\u00e3o fornecidos pela B\u00e9lgica, Dinamarca, Holanda e Noruega, com suporte dos EUA, ser\u00e1 algo em torno de 70 aeronaves, acredita-se que levar\u00e1 um tempo at\u00e9 que os ca\u00e7as realmente fa\u00e7am a diferen\u00e7a no impacto da guerra a\u00e9rea.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De certa forma, a vontade indom\u00e1vel dos ucranianos de defender sua p\u00e1tria e a lideran\u00e7a pol\u00edtica inspiradora e carism\u00e1tica do presidente Volodymir Zelensky foram grandes fatores em seus primeiros sucessos t\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a vontade de lutar n\u00e3o pode vencer batalhas por si s\u00f3, h\u00e1 uma s\u00e9rie de outros fatores positivos aos ucranianos, entre eles a efic\u00e1cia das for\u00e7as da Ucr\u00e2nia em combate. No entanto, os russos se prepararam para uma guerra de desgaste que muito provavelmente o Estado ucraniano n\u00e3o suportar\u00e1 a longo prazo, com uma s\u00e9ria depend\u00eancia do ocidente, e dos des\u00edgnios pol\u00edticos nos EUA.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil prever se haver\u00e1 uma vit\u00f3ria ucraniana, as for\u00e7as armadas russas est\u00e3o com o folego renovado, e demonstrando plena capacidade de cobrir as perdas que s\u00e3o bastante significativas, de vidas humanas. Por outro lado, o governo ucraniano parece muito pouco disposto a sentar \u00e0 mesa de negocia\u00e7\u00f5es, para discutir uma proposta que leve em considera\u00e7\u00e3o a cess\u00e3o de todo o Donbass e o reconhecimento da soberania russa sobre o territ\u00f3rio da Crimeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve-se levar em considera\u00e7\u00e3o que o prop\u00f3sito da R\u00fassia que se resumia a depor o governo pr\u00f3-ocidente de Zelensky, tirar a Ucr\u00e2nia da orbita da Europa Ocidental, e de suas cimeiras, como a Uni\u00e3o Europeia e OTAN, e particularmente esta \u00faltima raz\u00e3o, parece ter coroado a imprevisibilidade de Putin, ao n\u00e3o levar em considera\u00e7\u00e3o de que a Finl\u00e2ndia e a Su\u00e9cia, pa\u00edses que tradicionalmente se mantiveram neutros durante a guerra fria, acabaram de entrar para a OTAN.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante lembrar que o presidente Vladimir Putin olha para a Ucr\u00e2nia como um desafio geopol\u00edtico do qual n\u00e3o podia escapar nem se dar ao luxo de perder desde muito tempo. Em 2008, a estrat\u00e9gia dos EUA para o alargamento ilimitado da OTAN na Europa colidiu frontalmente com as prioridades do Kremlin, segundo consta em uma das reuni\u00f5es da OTAN ocorrida em Bucareste, o presidente George W. Bush pressionou pela inclus\u00e3o da Ucr\u00e2nia e da Ge\u00f3rgia na organiza\u00e7\u00e3o (Zubok, 2023, p.156). Algo inaceit\u00e1vel para os Russos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com os \u00e2nimos elevados, e com afirma\u00e7\u00f5es pouco pensadas, ou refletidas a n\u00edvel de amea\u00e7a, encontramos uma R\u00fassia e seu presidente mais intimidador do que nunca, d\u00favidas quanto ao desenrolar da guerra ficam no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a R\u00fassia vencer, essa vit\u00f3ria ser\u00e1 limitada a conquista e manuten\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios conquistados? Ou os russos continuariam at\u00e9 conquistar a Ucr\u00e2nia inteira? Isso poderia ser interpretado como uma amea\u00e7a ao ocidente, tendo em vista que mais um importante signat\u00e1rio da OTAN, a Pol\u00f4nia, tradicional inimiga do Estado russo, estar\u00e1 \u00e0 margem de sua fronteira.<\/p>\n\n\n\n<p>E se os Ucranianos reverterem e conseguirem segurar os russos exatamente onde est\u00e3o? Os russos aceitariam negociar? E se a Ucr\u00e2nia conseguir retomar os territ\u00f3rios, os Russos recorreriam a uma amea\u00e7a mais radical? Quaisquer que sejam os caminhos, \u00e9 chegada a hora realmente de se pensar em media\u00e7\u00f5es mais objetivas e pragm\u00e1ticas, para que tomadas de decis\u00f5es erradas n\u00e3o levem a um colapso da Europa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>AR\u00c9VALO, Javier M\u00aa Ruiz. La log\u00edstica militar rusa. Los pies de barro del gigante. <strong>Global Strategy<\/strong>. 08\/03\/2022 Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/global-strategy.org\/la-logistica-militar-rusa-los-pies-de-barro-del-gigante\/\">https:\/\/global-strategy.org\/la-logistica-militar-rusa-los-pies-de-barro-del-gigante\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>CAMARGO, Felipe Rodrigues de. Perspectivas Geopol\u00edticas da Forma do Complexo Industrial Militar Sovi\u00e9tico durante a Guerra Fria (1945\u20131991). <strong>Revista Contraponto<\/strong>. v. 12, n. 1, 2023. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistas.ufpi.br\/index.php\/contraponto\/article\/view\/14493\">https:\/\/revistas.ufpi.br\/index.php\/contraponto\/article\/view\/14493<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>COOPER, Julian. Another budget for a country at war: Military expenditure in Russia\u2019s federal budget for 2024 and beyond. <strong>SIPRI Insights on Peace and Security<\/strong> no. 2023\/11. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/publications\/2023\/sipri-insights-peace-and-security\/another-budget-country-war-military-expenditure-russias-federal-budget-2024-and-beyond\">https:\/\/www.sipri.org\/publications\/2023\/sipri-insights-peace-and-security\/another-budget-country-war-military-expenditure-russias-federal-budget-2024-and-beyond<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>COOPER, Tom; CROWTHER, Edward; FONTANELLAZ, Adrien; SIPOS, Milos. <strong>War in Ukraine: russian invasion,<\/strong> february 2022. Vol. 2. Warwick: Helion &amp; Company Limited, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>DYNER, Anna Maria. Russia&#8217;s Armed Forces Two Years After the Full-Scale Invasion of Ukraine. <strong>Strategic File<\/strong>, n\u00ba. 4 (138), February. 2024, PISM. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pism.pl\/publications\/russias-armed-forces-two-years-after-the-full-scale-invasion-of-ukraine\">https:\/\/pism.pl\/publications\/russias-armed-forces-two-years-after-the-full-scale-invasion-of-ukraine<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>EIU report. <strong>The war in Ukraine: Russia\u2019s ruptured relations with the West Geopolitics, supply chains and power dynamics in 202<\/strong>3. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.eiu.com\/n\/campaigns\/russia-ukraine-outlook-2023\/\">https:\/\/www.eiu.com\/n\/campaigns\/russia-ukraine-outlook-2023\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>JONES, Seth G.; MCCABE, Riley; PALMER, Alexander. Seizing the Initiative in Ukraine Waging War in a Defense Dominant World. <strong>CSIS Briefs,<\/strong> October 2023. Disponivel em: <a href=\"https:\/\/www.csis.org\/analysis\/seizing-initiative-ukraine-waging-war-defense-dominant-world\">https:\/\/www.csis.org\/analysis\/seizing-initiative-ukraine-waging-war-defense-dominant-world<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>PURI, Samir. <strong>Russia&#8217;s Road to War with Ukraine: Invasion Amidst the Ashes of Empires.<\/strong> London: Biteback Publishing, 2023<\/p>\n\n\n\n<p>WALKER, Nigel. <strong>Conflict in Ukraine: A timeline<\/strong> (2014 &#8211; eve of 2022 invasion), London: House of Commons Library, 2023<\/p>\n\n\n\n<p>WATLING, Jack; REYNOLDS, Nick. <strong>Russian Military Objectives and Capacity in Ukraine Through<\/strong> 2024, RUSI, 13 February 2024. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.rusi.org\/explore-our-research\/publications\/commentary\/russian-military-objectives-and-capacity-ukraine-through-2024\">https:\/\/www.rusi.org\/explore-our-research\/publications\/commentary\/russian-military-objectives-and-capacity-ukraine-through-2024<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>ZUBOK, Vladislav M. Myths and Realities of Putinism and NATO Expansion. In: GOLDGEIER, James; SHIFRINSON, Joshua R. Itzkowitz. <strong>Evaluating NATO Enlargement From Cold War Victory to the Russia-Ukraine War<\/strong>. Cham: Palgrave Macmillan, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Johny Santana de Ara\u00fajo<\/strong> \u00e9 Doutor em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com P\u00f3s-doutorado em Hist\u00f3ria pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP). \u00c9 Prof. da Universidade Federal do Piau\u00ed. S\u00f3cio do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro (IHGB). Vice coordenador do GT de Hist\u00f3ria Militar ANPUH\/Brasil. Membro do Corpo de Pesquisadores Associados do Centro de Estudos e Pesquisas de Hist\u00f3ria Militar do Ex\u00e9rcito (CPA\/CEPHiMEx\/Brasil). Investigador colaborador junto ao Grupo de Investiga\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria Militar do Centro de Hist\u00f3ria (CH-FLUL), Portugal. 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