{"id":3316,"date":"2024-12-23T06:42:00","date_gmt":"2024-12-23T09:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3316"},"modified":"2024-12-23T16:52:07","modified_gmt":"2024-12-23T19:52:07","slug":"comunidade-e-democracia-a-luz-da-politica-internacional-apontamentos-sobre-a-obra-de-robert-putnam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3316","title":{"rendered":"\u201cComunidade e Democracia\u201d \u00e0 luz da Pol\u00edtica Internacional: apontamentos sobre a obra de Robert Putnam"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 11 | N\u00famero 114 | Dez. 2024<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Eduardo Brasil de Mattos<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li><strong>Introdu\u00e7\u00e3o&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Em seu cl\u00e1ssico livro \u201c<em>Designing social inquiry<\/em>\u201d, King, Keohane e Verba (1994) citam o trabalho de Robert Putnam em \u201cComunidade e Democracia: a experi\u00eancia da It\u00e1lia moderna\u201d (2006) como um exemplo de pesquisa de alto n\u00edvel que combina as tradi\u00e7\u00f5es qualitativa e quantitativa no campo da Ci\u00eancia Pol\u00edtica. A leitura de Putnam (2006) confirma a afirma\u00e7\u00e3o: o autor e sua equipe moveram um esfor\u00e7o louv\u00e1vel ao longo de anos para desenvolver a pesquisa sobre o desempenho institucional na It\u00e1lia em diferentes frentes, reunindo evid\u00eancias emp\u00edricas a partir de entrevistas e da an\u00e1lise de materiais estat\u00edsticos. \u00c9 particularmente interessante que, para al\u00e9m de destacar a combina\u00e7\u00e3o das duas tradi\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da pesquisa, Putnam (2006, p. 27) detalha o \u00e2mbito multidisciplinar de seu empreendimento, associando diferentes m\u00e9todos a diferentes disciplinas como a Hist\u00f3ria e a Antropologia.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa empreendida por Putnam e sua equipe \u00e9 ao mesmo tempo detalhista e extensa. Existe, no entanto, uma not\u00f3ria lacuna no que se refere aos contextos pol\u00edticos internacionais nos quais a It\u00e1lia esteve inserida ao longo do vasto per\u00edodo analisado. Ainda que tal aus\u00eancia seja justific\u00e1vel, considerando que n\u00e3o se pode levar em considera\u00e7\u00e3o todas as vari\u00e1veis poss\u00edveis dentro de uma pesquisa acad\u00eamica, em determinados momentos essa caracter\u00edstica do trabalho de Putnam leva a conclus\u00f5es question\u00e1veis. O objetivo deste trabalho \u00e9 analisar o livro \u201cComunidade e Democracia: a experi\u00eancia da It\u00e1lia moderna\u201d de forma cr\u00edtica, levando em considera\u00e7\u00e3o quest\u00f5es de Pol\u00edtica Internacional que o autor desconsidera ao longo da obra, mas que consideramos de primeira import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos pol\u00edticos dom\u00e9sticos descritos por Putnam.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira se\u00e7\u00e3o deste trabalho trar\u00e1 uma breve apresenta\u00e7\u00e3o do livro de Putnam, salientando as principais teses do autor e o percurso da pesquisa realizada. A an\u00e1lise das duas se\u00e7\u00f5es posteriores ser\u00e1 centrada em dois momentos hist\u00f3ricos espec\u00edficos: em um primeiro momento, ser\u00e1 analisada como a conjuntura internacional p\u00f3s-Congresso de Viena (1815) impactou a realidade pol\u00edtica italiana \u2013 e como a abordagem adotada por Putnam (2006) desconsidera essa conjuntura, o que enfraquece sua argumenta\u00e7\u00e3o acerca das tradi\u00e7\u00f5es c\u00edvicas no pa\u00eds. J\u00e1 no segundo momento, buscaremos apontar como as din\u00e2micas pol\u00edticas da Guerra Fria s\u00e3o relevantes para se considerar a quest\u00e3o da \u201cdespolariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d na pol\u00edtica interna italiana observada pelo autor. A escolha desses dois momentos justifica-se pela relev\u00e2ncia de ambos para a forma\u00e7\u00e3o do sistema internacional contempor\u00e2neo e pela possibilidade que a an\u00e1lise desses fen\u00f4menos pol\u00edticos internacionais abre para a cr\u00edtica a pontos nevr\u00e1lgicos da pesquisa empreendida por Putnam e sua equipe.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua obra, Robert Putnam objetiva compreender o desempenho das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, partindo do caso da reforma de governan\u00e7a ocorrida na It\u00e1lia da d\u00e9cada de 1970 (Putnam, 2006). A cria\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de 15 novos governos regionais, uma novidade hist\u00f3rica em um pa\u00eds que era at\u00e9 ent\u00e3o marcado pela centraliza\u00e7\u00e3o, permitiu ao autor desenvolver um estudo comparativo na tentativa de compreender quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es que permitem um melhor funcionamento das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas (Putnam, 2006). O caso italiano era ainda mais paradigm\u00e1tico considerando a facilmente observ\u00e1vel disparidade entre um Norte industrializado e um Sul rural e empobrecido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. \u201cComunidade e Democracia&#8230;\u201d: uma breve apresenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em termos de epistemologia, o trabalho de Putnam inscreve-se claramente na chamada \u201ctradi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, utilizando a terminologia apresentada por autores como Hollis e Smith (1990): o autor torna particularmente clara sua inten\u00e7\u00e3o de aproximar a pesquisa social daquela realizada pelas ci\u00eancias naturais quando compara seu estudo do desenvolvimento das institui\u00e7\u00f5es italianas ao desenvolvimento de plantas (Putnam, 2006, p. 23). Metodologicamente falando, Putnam e sua equipe empregam uma ampla gama de t\u00e9cnicas qualitativas e quantitativas em busca de informa\u00e7\u00f5es especializadas e abrangentes sobre as quest\u00f5es pol\u00edticas em diferentes regi\u00f5es italianas (Putnam, 2006, p. 28).<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dos dados coletados ao longo de anos, Putnam e sua equipe elaboram um \u00edndice de desempenho institucional que visa avaliar a efic\u00e1cia dos novos governos regionais italianos a partir de indicadores que levem em considera\u00e7\u00e3o \u201ca) a continuidade administrativa; b) as delibera\u00e7\u00f5es sobre as pol\u00edticas; e c) a implementa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas\u201d (Putnam, 2006, p. 79). A compara\u00e7\u00e3o das diferentes regi\u00f5es italianas mostra um reflexo da hist\u00f3rica desigualdade entre Norte e Sul do pa\u00eds, j\u00e1 que o autor aponta que \u201cos governos regionais do Norte apresentaram um melhor desempenho que os do Sul\u201d (Putnam, 2006, p. 97).<\/p>\n\n\n\n<p>Parte importante da justificativa de Putnam para as grandes diferen\u00e7as entre o Norte e o Sul da It\u00e1lia reside na ideia de que as duas regi\u00f5es foram conduzidas atrav\u00e9s de caminhos pol\u00edticos espec\u00edficos devido a acontecimentos hist\u00f3ricos que selaram seu destino \u2013 trata-se da ideia de \u201csubordina\u00e7\u00e3o \u00e0 trajet\u00f3ria\u201d, que o autor traz da Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica (Putnam, 2006, p. 188). No caso, o funcionamento mais eficiente dos governos regionais na It\u00e1lia do Norte dos anos 1970 seria fruto, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de um desenvolvimento milenar de caracter\u00edsticas associativas cuja origem se situaria na forma\u00e7\u00e3o das primeiras associa\u00e7\u00f5es de ajuda e prote\u00e7\u00e3o m\u00fatua no s\u00e9culo XII (Putnam, 2006). No Sul da It\u00e1lia, por sua vez, uma sucess\u00e3o hist\u00f3rica de dinastias autocr\u00e1ticas teria condenado a regi\u00e3o a rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas verticais e ao clientelismo (Putnam, 2006). As an\u00e1lises conduzidas por Putnam apontam para uma forte relev\u00e2ncia do \u201ccivismo\u201d para o bom funcionamento das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, ainda maior que hip\u00f3teses alternativas como o desempenho econ\u00f4mico regional (Putnam, 2006, p. 112).<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura do livro de Putnam torna particularmente evidente a rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima entre a teoria que guia uma pesquisa e a metodologia utilizada em sua execu\u00e7\u00e3o. O autor torna claro desde o princ\u00edpio quais s\u00e3o os autores que orientam sua perspectiva sobre a vida c\u00edvica na It\u00e1lia: te\u00f3ricos cl\u00e1ssicos da democracia e do Estado como John Stuart Mill, Thomas Hobbes e Alexis de Tocqueville (Putnam, 2006). Tamb\u00e9m \u00e9 relevante destacar que a no\u00e7\u00e3o de virtude c\u00edvica explorada pelo autor \u00e9 em grande medida oriunda de Maquiavel (Putnam, 2006, p. 100). Muitos cr\u00edticos, no entanto, destacam o fato de o livro ser mais focado na quest\u00e3o do desempenho institucional do que no funcionamento de fato da democracia italiana (Koelble, 2003). Ainda que Putnam apresente, atrav\u00e9s da pesquisa historiogr\u00e1fica e da an\u00e1lise estat\u00edstica, uma ampla an\u00e1lise sobre as tradi\u00e7\u00f5es c\u00edvicas na It\u00e1lia, a rela\u00e7\u00e3o dessas tradi\u00e7\u00f5es com um sistema democr\u00e1tico \u00e9 turva. De fato, ao longo de sua an\u00e1lise historiogr\u00e1fica, Putnam torna claro que as tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas das rep\u00fablicas comunais que existiam no Norte da pen\u00ednsula do s\u00e9culo XII foram abaladas por ondas de autocracia ao longo dos s\u00e9culos (Putnam, 2006, pp. 143-146).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. O Congresso de Viena (1815) e as tradi\u00e7\u00f5es c\u00edvicas italianas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O argumento de Putnam (2006) em defesa da \u201csubordina\u00e7\u00e3o \u00e0 trajet\u00f3ria\u201d das regi\u00f5es italianas, ainda que convincente, \u00e9 fr\u00e1gil devido \u00e0 dificuldade do autor em estabelecer a continuidade hist\u00f3rica entre a realidade da pen\u00ednsula italiana no s\u00e9culo XII e aquela da It\u00e1lia em meados do s\u00e9culo XX. Putnam falha ao n\u00e3o apontar de que maneira a apropria\u00e7\u00e3o da vida c\u00edvica pela autocracia afetou as associa\u00e7\u00f5es civis ao longo das diferentes ondas de governos autocr\u00e1ticos que dominaram a pen\u00ednsula no per\u00edodo. Em vez disso, o autor sup\u00f5e a perman\u00eancia constante da \u201cvirtude c\u00edvica\u201d ao longo da hist\u00f3ria do Norte da It\u00e1lia, independente das transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de primeira import\u00e2ncia que ele mesmo aponta. Ainda que Putnam (2006) consiga provar a continuidade da participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica entre o per\u00edodo de 1860 a 1920 e a d\u00e9cada de 1970, sendo respaldado por dados confi\u00e1veis, o mesmo n\u00e3o pode ser afirmado sobre a continuidade com as associa\u00e7\u00f5es medievais do s\u00e9culo XII. O argumento mais s\u00f3lido que o autor apresenta nesse sentido \u00e9 a men\u00e7\u00e3o a uma \u00fanica associa\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX que afirmava continuar um legado milenar, caso que dificilmente pode ser generalizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo do tratamento que Putnam d\u00e1 \u00e0 hist\u00f3ria da It\u00e1lia que merece destaque \u00e9 a omiss\u00e3o de um acontecimento hist\u00f3rico de primeira import\u00e2ncia no come\u00e7o do s\u00e9culo XIX: o controle austr\u00edaco sobre a pol\u00edtica da pen\u00ednsula italiana ap\u00f3s o Congresso de Viena em 1815 (Beales; Biagini, 2013; Hobsbawm, 2009). A tentativa de Restaura\u00e7\u00e3o do Antigo Regime sobre a vida pol\u00edtica italiana levou \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es do Norte da pen\u00ednsula ao Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro e a submiss\u00e3o dos demais Estados \u00e0 hegemonia austr\u00edaca (Beales; Biagini, 2013; Hobsbawm, 2009; Riall, 2004). Nesse ponto, cabe destacar o car\u00e1ter autocr\u00e1tico dessa movimenta\u00e7\u00e3o, que buscou apagar boa parte das reformas modernizantes promovidas pela invas\u00e3o napole\u00f4nica nos anos anteriores e resultou em uma aus\u00eancia de liberdades democr\u00e1ticas m\u00ednimas nas regi\u00f5es diretamente ocupadas como a Lombardia-V\u00eaneto, conforme apontam Beales e Biagini (2013, p. 39). Putnam (2006, p. 146) menciona que o poder da aristocracia no Norte come\u00e7ava a enfraquecer no s\u00e9culo XVIII, mas falha ao mencionar esse importante retrocesso nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que a aus\u00eancia de coment\u00e1rios sobre um per\u00edodo hist\u00f3rico espec\u00edfico possa parecer um preciosismo da cr\u00edtica, \u00e9 not\u00e1vel que Putnam opte por n\u00e3o mencionar justamente um momento de dom\u00ednio autocr\u00e1tico do Norte da It\u00e1lia por uma pot\u00eancia estrangeira. Ao longo de seu relato hist\u00f3rico sobre o Sul, o autor destaca essas mesmas caracter\u00edsticas como sendo definidoras das rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas verticais e clientelistas dessa regi\u00e3o, avessas \u00e0 virtude c\u00edvica supostamente encontrada no Norte (Putnam, 2006). Tal ponto, portanto, exemplifica uma quest\u00e3o relevante no trabalho do autor: ao defender a tese da \u201csubordina\u00e7\u00e3o \u00e0 trajet\u00f3ria\u201d como justificativa para tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas d\u00edspares, Putnam opta por destacar momentos hist\u00f3ricos espec\u00edficos ao mesmo tempo em que diminui a import\u00e2ncia de outros que poderiam enfraquecer sua hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. A pol\u00edtica da Guerra Fria e a despolariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica nas regi\u00f5es italianas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo do segundo cap\u00edtulo, no qual Putnam apresenta as consequ\u00eancias da reforma que introduziu as regi\u00f5es na cena pol\u00edtico-administrativa italiana, o autor relata o fen\u00f4meno da \u201cdespolariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d (Putnam, 2006, p. 43) observado na pol\u00edtica regional italiana. A partir de uma s\u00e9rie de question\u00e1rios com \u201cperguntas sobre capitalismo, poder sindical, distribui\u00e7\u00e3o de renda, div\u00f3rcio e greves no setor p\u00fablico\u201d (Putnam, 2006, p. 43) voltados aos conselheiros regionais italianos, o autor e sua equipe apontam para uma \u201cforte tend\u00eancia \u00e0 modera\u00e7\u00e3o\u201d (Putnam, 2006, p. 43) entre os pol\u00edticos de esquerda afiliados ao Partido Comunista Italiano (PCI), ao Partido Socialista Italiano (PSI) e a outros partidos de esquerda minorit\u00e1rios. De fato, os pol\u00edticos identificados com os ideais da extrema-esquerda representavam mais de um ter\u00e7o dos conselheiros regionais na sondagem realizada em 1970, passando a apenas 5% em 1989 (Putnam, 2006, pp. 43-45).<\/p>\n\n\n\n<p>Putnam atribui essa mudan\u00e7a no comportamento pol\u00edtico dos representantes eleitos para cargos no governo regional \u00e0 \u201csocializa\u00e7\u00e3o institucional\u201d promovida por esse novo espa\u00e7o pol\u00edtico; ou seja, que os governos regionais fomentaram uma rela\u00e7\u00e3o menos polarizada, mais tolerante e, notadamente, mais ao centro do espectro pol\u00edtico entre os l\u00edderes regionais (Putnam, 2006, p. 51-52).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Em pouco mais de 10 anos j\u00e1 se faziam sentir os efeitos corretivos e moderadores do envolvimento no governo regional, e a intransig\u00eancia ideol\u00f3gica ia cedendo o passo a uma valoriza\u00e7\u00e3o das virtudes da contemporiza\u00e7\u00e3o e da experi\u00eancia t\u00e9cnica. (&#8230;) Ap\u00f3s uma d\u00e9cada de governo regional, os l\u00edderes regionais se haviam tornado menos te\u00f3ricos e ut\u00f3picos e menos preocupados em defender os interesses de certos grupos regionais em detrimento de outros. <\/p><cite>(Putnam, 2006, p. 48-49)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise do autor, no entanto, deixa de levar em considera\u00e7\u00e3o as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ocorridas no mundo ao longo do per\u00edodo estudado, notadamente a degrada\u00e7\u00e3o do bloco socialista europeu e o final da Guerra Fria. Esse fen\u00f4meno atingiu particularmente a pol\u00edtica italiana, considerando o crescente distanciamento do Partido Comunista Italiano (PCI) das diretrizes pol\u00edticas propagadas pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (Pons, 2010). De fato, o PCI foi um dos precursores da expans\u00e3o do Eurocomunismo na Europa, marcando o fim de um per\u00edodo de forte influ\u00eancia sovi\u00e9tica sobre os partidos comunistas no continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Teorizado como Eurocomunismo pelo l\u00edder do partido espanhol Santiago Carrillo, ent\u00e3o auxiliando a restaura\u00e7\u00e3o da monarquia Bourbon em Madri, ele for reproduzido \u00e0 sua pr\u00f3pria maneira pelo partido comunista na Fran\u00e7a, onde a nova doutrina tinha j\u00e1 adeptos. Comum a todas as variantes era a rejei\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios sobre os quais a Terceira Internacional havia sido fundada, e um compromisso doravante a reformas parlamentares graduais como o caminho da Europa Ocidental para o socialismo; com a vers\u00e3o italiana adicionando uma declara\u00e7\u00e3o de lealdade \u00e0 OTAN. (Anderson, 2020, p. 4, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<\/p>\n\n\n\n<p>A defesa das reformas como o caminho para o socialismo e o concomitante distanciamento do ideal revolucion\u00e1rio levou o PCI a um processo de transforma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que culminaria com sua transforma\u00e7\u00e3o no Partido Democr\u00e1tico da Esquerda (Anderson, 2020; Putnam, 2006, p. 132). Tais desenvolvimentos hist\u00f3ricos, no entanto, n\u00e3o s\u00e3o considerados na an\u00e1lise de Putnam, que sequer menciona as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ocorridas no interior do PCI, limitando-se a apontar que o partido foi \u201crebatizado\u201d em 1991 (Putnam, 2006, p. 132). Assim, a conclus\u00e3o de que a socializa\u00e7\u00e3o institucional foi a principal respons\u00e1vel pela despolariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica na cena pol\u00edtica italiana entre 1970 e 1989 \u00e9 incompleta, pois desconsidera que o principal partido pol\u00edtico da extrema-esquerda no per\u00edodo analisado, o PCI, passou por consider\u00e1veis transforma\u00e7\u00f5es em suas concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nesse mesmo per\u00edodo, deixando enfim de se vincular a esse eixo do espectro ideol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que tal processo no interior do PCI possa ter sido influenciado pelas novas din\u00e2micas da pol\u00edtica regional segundo o argumento de Putnam, o autor n\u00e3o considera que a pol\u00edtica italiana estava inserida em um cen\u00e1rio pol\u00edtico mundial complexo, e que o distanciamento das diretrizes sovi\u00e9ticas e o avan\u00e7o do Eurocomunismo na It\u00e1lia s\u00e3o tamb\u00e9m vari\u00e1veis que possivelmente explicam a tend\u00eancia \u00e0 despolariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica observada. A escolha metodol\u00f3gica de desconsiderar influ\u00eancias externas na pol\u00edtica italiana, portanto, leva o autor a ignorar uma poss\u00edvel vari\u00e1vel de primeira import\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Putnam e sua equipe conduzem uma pesquisa de alt\u00edssima qualidade e, na maior parte do livro, com alto rigor cient\u00edfico. O tratamento que Putnam d\u00e1 \u00e0 Hist\u00f3ria da It\u00e1lia, no entanto, \u00e9 um problema grave na pesquisa conduzida, considerando que toda a argumenta\u00e7\u00e3o de Putnam \u00e9 baseada numa vis\u00e3o est\u00e1tica dos desenvolvimentos hist\u00f3ricos no que se refere \u00e0 const\u00e2ncia da \u201cvirtude c\u00edvica\u201d entre as comunidades do Norte da It\u00e1lia. Al\u00e9m disso, o autor expressa uma vis\u00e3o enviesada dessa hist\u00f3ria de forma a corroborar sua hip\u00f3tese de continuidade entre as tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas das rep\u00fablicas comunais da Idade M\u00e9dia e o comportamento pol\u00edtico nas regi\u00f5es criadas ap\u00f3s a reforma dos anos 1970. Nesse sentido, o exemplo apresentado sobre a desconsidera\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o napole\u00f4nica e das novas din\u00e2micas pol\u00edticas inauguradas na pen\u00ednsula italiana ap\u00f3s o Congresso de Viena na an\u00e1lise hist\u00f3rica do autor, \u00e9 extremamente relevante.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o levantada sobre a pol\u00edtica italiana na Guerra Fria tamb\u00e9m se configura como uma quest\u00e3o metodol\u00f3gica, fruto da decis\u00e3o de Putnam de desconsiderar o contexto pol\u00edtico internacional em sua an\u00e1lise. A decis\u00e3o do autor \u00e9 compreens\u00edvel, considerando que o rol de vari\u00e1veis possivelmente explor\u00e1veis em sua an\u00e1lise \u00e9 extremamente amplo e que uma sele\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria. Ainda assim, esse ponto revela a dificuldade do autor em considerar o panorama internacional em sua an\u00e1lise como um todo, e as poss\u00edveis vari\u00e1veis que podem influenciar o desempenho institucional e o desenvolvimento das comunidades c\u00edvicas na It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ANDERSON, Perry. <strong>The antinomies of Antonio Gramsci<\/strong>. Londres: Verso, 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books?id=ZG_nDwAAQBAJ&amp;pg=PT5&amp;hl=pt-BR&amp;source=gbs_selected_pages&amp;cad=1#v=onepage&amp;q&amp;f=false\">https:\/\/books.google.com.br\/books?id=ZG_nDwAAQBAJ&amp;pg=PT5&amp;hl=pt-BR&amp;source=gbs_selected_pages&amp;cad=1#v=onepage&amp;q&amp;f=false<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>BEALES, Derek; BIAGINI, Eugenio F. <strong>The Risorgimento and the unification of Italy<\/strong>. Nova York: Routledge, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>HOBSBAWM, Eric J. <strong>A Era das Revolu\u00e7\u00f5es (1789-1848)<\/strong>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>HOLLIS, Martin; SMITH, Steve. <strong>Explaining and Understanding International Relations<\/strong>. Oxford: Oxford University Press, 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>KOELBLE, Thomas. Ten years after: Robert Putnam and making democracy work in the post-colony or why mainstream political science cannot understand either democracy or culture. <strong>Politikon<\/strong>, <em>[S. l.]<\/em>, v. 30, n. 1, p. 203\u2013218, 2003. DOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/0258934032000147309\">10.1080\/0258934032000147309<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>PONS, Silvio. The rise and fall of Eurocommunism. <em>In<\/em> LEFFLER, Melvyn P.; WESTAD, Odd Arne. <strong>The Cambridge History of the Cold War<\/strong>: Volume III: Endings. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>PUTNAM, Robert. <strong>Comunidade e democracia<\/strong>: a experi\u00eancia da It\u00e1lia moderna. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p>RIALL, Lucy. <strong>The Italian Risorgimento<\/strong>: state, society and national unification. Nova York: Routledge, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Eduardo Brasil de Mattos<\/strong> \u00e9 Mestrando em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI-UERJ). Pesquisador do Laborat\u00f3rio de Estudos de M\u00eddia, Cultura e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (LEMCRI). Bacharel em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela UFRJ (2017-2022). Foi Assistente de Pesquisa do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS-FGV) entre 2021 e 2023.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 11 | N\u00famero 114 | Dez. 2024 Eduardo Brasil de Mattos Introdu\u00e7\u00e3o&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3327,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[646,645],"tags":[755,754,753],"class_list":["post-3316","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-edicao-atual","tag-ciencia-politica","tag-politica-internacional","tag-robert-putnam"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3316"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3316\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3328,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3316\/revisions\/3328"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3327"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}