{"id":3341,"date":"2025-03-27T18:02:33","date_gmt":"2025-03-27T21:02:33","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3341"},"modified":"2025-04-02T00:20:16","modified_gmt":"2025-04-02T03:20:16","slug":"resenha-filme-bacurause-for-va-na-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3341","title":{"rendered":"Resenha: Filme &#8220;BACURAU:Se for, v\u00e1 na paz"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 12 | N\u00famero 116 | Mar. 2025<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Bryan Barros Bizarello Morais<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"340\" height=\"500\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Bacurau_filme.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3342\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Bacurau_filme.jpeg 340w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Bacurau_filme-204x300.jpeg 204w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><figcaption>Wikipedia<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><em>BACURAU. Dire\u00e7\u00e3o: Juliano Dornelles, Kleber Mendon\u00e7a Filho. Pernambuco: Vitrine Filmes, 2019. (131 min).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Bacurau \u00e9 um filme franco-brasileiro lan\u00e7ado em 2019, escrito e dirigido pelo diretor Kleber Mendon\u00e7a Filho e por Juliano Dornelles, estrelado por grandes nomes como S\u00f4nia Braga, Silvero Pereira, B\u00e1rbara Colen e Udo Kier. Indicado a diversas premia\u00e7\u00f5es internacionais, como Cannes, Chicago Film Critics Association Awards, Sitges (Catalonian International Film Festival), foi vencedor em seis categorias no Grande Pr\u00eamio do Cinema Brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A trama se passa em um futuro dist\u00f3pico n\u00e3o muito longe do momento atual e apresenta a pequena e pacata Bacurau, uma cidade fict\u00edcia localizada no interior do sert\u00e3o nordestino, que \u00e9 aos poucos assediada e perturbada por estrangeiros. Ao longo do filme a popula\u00e7\u00e3o local enfrenta diversas situa\u00e7\u00f5es inusitadas e violentas que podem ser compreendida atrav\u00e9s do conceito da necropol\u00edtica de Mbembe (2018).<\/p>\n\n\n\n<p>O Nordeste brasileiro possui uma das tr\u00eas grandes \u00e1reas semi-\u00e1ridas da Am\u00e9rica do sul; com temperaturas m\u00e9dias anuais muito elevadas e constantes, baixos n\u00edveis de umidade, escassez de chuvas anuais, prolongados per\u00edodos sem \u00e1gua, solos parcialmente salinos e aus\u00eancia de rios perenes. Essa \u00e1rea det\u00e9m um total de 700 mil km\u00b2, no qual cerca de 23 milh\u00f5es de brasileiros vivem. Um exemplo de obra ficcional da literatura brasileira que se passa nesse cen\u00e1rio e que destaca a aus\u00eancia extrema de \u00e1gua \u00e9 &#8216;Vidas Secas&#8217;, de Graciliano Ramos, que narra a trajet\u00f3ria de uma fam\u00edlia de retirantes tentando permanecer vivos \u00e0 seca, evidenciando a pobreza extrema, a desigualdade e as opress\u00f5es sociais que assolam a regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A pequena comunidade fict\u00edcia de Bacurau fica localizada em meio a caatinga, o bioma predominante do nordeste com clima semi\u00e1rido. Em uma das primeiras sequ\u00eancias do filme acompanhamos a dificuldade que \u00e9 levar \u00e1gua pot\u00e1vel para a regi\u00e3o, com o exemplo da constru\u00e7\u00e3o de uma barragem no rio que alimenta a cidade, o que dificulta o acesso a um direito b\u00e1sico aos moradores. Essa situa\u00e7\u00e3o evidencia o problema de acesso \u00e0 \u00e1gua que as pequenas cidades do interior t\u00eam e a aus\u00eancia do Estado para essa problem\u00e1tica. O longa-metragem nos demonstra como o acesso \u00e0 \u00e1gua e os problemas clim\u00e1ticos da regi\u00e3o s\u00e3o um desafio para as classes mais baixas da sociedade, assim como pode ser observado em \u2018Vidas Secas\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>A necropol\u00edtica \u00e9 o conceito criado por Achille Mbembe (2018) no qual define o poder que ao Estado det\u00e9m para determinar, via pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica, quem pode permanecer vivo e quem deve morrer, atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es ou omiss\u00f5es, geralmente direcionadas para grupos ou setores da sociedade em contextos de desigualdade e\/ou condi\u00e7\u00f5es de vida prec\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse poder se relaciona com o longa-metragem n\u00e3o s\u00f3 com o desenrolar da narrativa, mas tamb\u00e9m com a escolha da distopia enquanto est\u00e9tica, pois &#8220;&#8230; nas distopias, as personagens convivem com variados n\u00edveis de amea\u00e7a; submetem-se aos m\u00e9todos mais perversos de coer\u00e7\u00e3o; padecem devido ao sadismo daqueles que se regozijam em punir quem ousou ultrapassar os limites e confrontar a ordem&#8221; (CHAUVIN, 2024, p. 33). A narrativa \u00e9 constru\u00edda de forma dist\u00f3pica, se passando em um futuro pr\u00f3ximo, o que possibilita a apresenta\u00e7\u00e3o de uma realidade de viol\u00eancia extrema, com os diversos n\u00edveis de amea\u00e7as que os personagens enfrentam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As situa\u00e7\u00f5es s\u00e1dicas e violentas pelas quais os moradores de Bacurau passam, revelam o exerc\u00edcio de poder de uma classe estrangeira, que se considera superior, sob uma classe local, considerada como inferior, sendo identific\u00e1vel essa din\u00e2mica pelo jeito que se portam em rela\u00e7\u00e3o aos locais nacionais. Ao decorrer do filme descobrimos que a matan\u00e7a cometida pelos estrangeiros est\u00e1 ligada ao Estado, pela rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima e amig\u00e1vel entre o prefeito e o l\u00edder dos assassinos, prefeito esse que fecha os olhos e se ausenta durante o massacre.<\/p>\n\n\n\n<p>Bacurau, al\u00e9m do nome da cidade e do filme, tamb\u00e9m \u00e9 o nome de uma ave de h\u00e1bitos noturnos do nordeste brasileiro, referenciada em certo momento da pel\u00edcula, que utiliza de folhas para se camuflar e, assim como na popula\u00e7\u00e3o da obra, usa dessa estrat\u00e9gia para para sobreviver. Essa rela\u00e7\u00e3o fica evidente quando no ato final todos os cidad\u00e3os se escondem dos assassinos e armam seu plano de sobreviv\u00eancia durante a noite. A medida em que diversas situa\u00e7\u00f5es atipicas v\u00e3o acontecendo na povoa\u00e7\u00e3o (como o sumi\u00e7o da cidade na internet, a falta de sinal e o assassinato de uma familia inteira) vemos como cada vez mais a comunidade se unir e se comunicar entre si para se proteger contra as invas\u00f5es estrangeiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Na trama, esse ataque cometido no interior do nordeste, conhecida popularmente por ser uma regi\u00e3o muito pobre e esquecida pelo Estado, evidencia o descaso do poder p\u00fablico brasileiro em rela\u00e7\u00e3o ao sert\u00e3o e, portanto, a necropol\u00edtica ali implantada. De forma simb\u00f3lica, a rela\u00e7\u00e3o colonial e a necropol\u00edtica aparecem nos ataques protagonizados por estrangeiros da Europa e dos EUA, motivados pelo desejo e tes\u00e3o em matar, em um jogo que desumaniza os moradores da regi\u00e3o, vendo-os apenas como pontos para subir de ranking em uma tabela. Uma situa\u00e7\u00e3o que apesar de ser uma fic\u00e7\u00e3o exagerada, elucida as rela\u00e7\u00f5es de colonizador e colonizado que protagonizaram o Brasil no seu passado, mas que ainda permeiam seu imagin\u00e1rio, e nos deixa claro a realidade pobre, violenta e excludente da regi\u00e3o. Essa viol\u00eancia ficticia por parte dos &#8216;gringos&#8217; \u00e9 uma forma de manifestar esse poder sobre o outro e conservar a rela\u00e7\u00e3o dominador-dominado atrav\u00e9s do prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Em contrapartida, a uni\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o sintetiza a for\u00e7a que precisa para sobreviver aos ataques e resistir a tentativa de terem a sua pr\u00f3pria soberania invadida pelo outro. A viol\u00eancia cometida pela popula\u00e7\u00e3o \u00e9 a forma de manifestar a resist\u00eancia contra sua hist\u00f3ria, sua terra e sua comunidade, e acabar com essa rela\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao outro atrav\u00e9s do sentimento de sobreviv\u00eancia. Durante a invas\u00e3o, toda a comunidade se une para tomar um psicotr\u00f3pico, para deixar mais diger\u00edvel a luta contra os estrangeiros, essa rea\u00e7\u00e3o violenta dos moradores pode ser definida como a &#8220;loucura homicida&#8221; que Jean-Paul Sartre escreve no pr\u00f3logo de &#8216;Os Condenados da Terra&#8217;, de Frantz Fanon: &#8220;no momento da impot\u00eancia, a loucura homicida \u00e9 o inconsciente coletivo dos colonizados&#8221; (FANON, 1961, p. 16). Ou seja, a viol\u00eancia partida dos cidad\u00e3os de Bacurau \u00e9 justificada pelo seu instinto de sobreviv\u00eancia inconsciente acerca dos ataques e assassinatos pelos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>As situa\u00e7\u00f5es que ocorrem por parte dos estrangeiros \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local evidencia a rela\u00e7\u00e3o subalterna entre dominador e dominados que ocorre a anos em nosso pa\u00eds, mas especificamente no contexto do nordeste brasileiro. O filme nos ajuda a pensar sobre a import\u00e2ncia de se articular uma comunidade em prol de escapar das correntes que perpetuam as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o acerca do Brasil, principalmente em comunidades mais carentes e isoladas. Bacurau \u00e9 um importante filme para se pensar em resist\u00eancia, a desumaniza\u00e7\u00e3o de pessoas que moram na periferia do mundo por parte das elites e como as a\u00e7\u00f5es e omiss\u00f5es do Estado impactam essa din\u00e2mica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BACURAU. Dire\u00e7\u00e3o: Juliano Dornelles, Kleber Mendon\u00e7a Filho. Pernambuco: Vitrine Filmes, 2019. (131 min).<\/p>\n\n\n\n<p>MBEMBE, Achille.&nbsp;<em>Necropol\u00edtica<\/em>. S\u00e3o Paulo: N-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>AB\u2019S\u00c1BER, A. N. Sert\u00f5es e sertanejos: uma geografia humana sofrida. <em>Estudos Avan\u00e7ados<\/em>, 13 (36), p.07-59, 1999. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/ea\/v13n36\/v13n36a02.pdf\">http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/ea\/v13n36\/v13n36a02.pdf<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>CHAUVIN, Jean Pierre. Notas sobre a distopia liter\u00e1ria moderna. <em>Revista da USP,<\/em> S\u00e3o Paulo, 2024.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Preto Souza, Alisson, H\u00fcbner Alves Elisa . Abandono social, injusti\u00e7a e esquecimento: identidade nordestina e o sert\u00e3o nas obras de Ant\u00f4nio Torres e Graciliano Ramos. <em>Travessias<\/em> [en linea]. 2020, 14(2), 216-232[fecha de Consulta 5 de Noviembre de 2024]. ISSN: .&nbsp;Disponible en:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.redalyc.org\/articulo.oa?id=702078659015\">https:\/\/www.redalyc.org\/articulo.oa?id=702078659015<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>GOMES, Thiago.&nbsp;Viol\u00eancia e Necropol\u00edtica em Bacurau: processos de descoloniza\u00e7\u00e3o e ecos da contracultura. <em>Revista Zanzal\u00e1<\/em>, v.8, n.1, Campinas, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>RAMOS, Graciliano. <em>Vidas Secas.<\/em> 139\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Record, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>FANON, Frantz. <em>Os Condenados da Terra. <\/em>Rio de Janeiro: Ed Jorge Zahar, 2022 [1961].<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Bryan Barros Bizarello Morais<\/strong> \u00e9 graduando em Defesa e Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica Internacional e membro do N\u00facleo de Artes, Interculturalidade e Pol\u00edtica Internacional do IRID-UFRJ.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 12 | N\u00famero 116 | Mar. 2025 Por Bryan Barros Bizarello Morais<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3342,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[645,647],"tags":[],"class_list":["post-3341","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-edicao-atual","category-resenhas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3341","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3341"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3341\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3350,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3341\/revisions\/3350"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3342"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}