{"id":3347,"date":"2025-03-31T15:24:12","date_gmt":"2025-03-31T18:24:12","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3347"},"modified":"2025-03-31T15:24:13","modified_gmt":"2025-03-31T18:24:13","slug":"resenha-filme-jogos-de-poder-e-uma-perspectiva-construtivista-sobre-a-construcao-do-outro-durante-a-guerra-fria%ef%bf%bc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3347","title":{"rendered":"Resenha: Filme &#8220;Jogos de Poder&#8221; e uma perspectiva Construtivista sobre a constru\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d durante a Guerra Fria\ufffc"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 12 | N\u00famero 116 | Mar. 2025<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por La\u00eds Sim\u00f5es Lima<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"297\" height=\"440\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/resenha-Charliewilsonwarposter-wiki.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3348\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/resenha-Charliewilsonwarposter-wiki.jpg 297w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/resenha-Charliewilsonwarposter-wiki-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><figcaption>Wikipedia<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><em>JOGOS de Poder. Direc\u00e7\u00e3o Mike Nichols. Produ\u00e7\u00e3o: Tom Hanks Gary Goetzman. Estados Unidos: Universal Pictures, 2007.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O filme intitulado \u201cJogos do Poder\u201d (Charlie Wilson&#8217;s War) \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o americana de 2007, dirigida por Mike Nichols e estrelada por grandes nomes como Tom Hanks, Julia Roberts e Philip Seymour Hoffman. O enredo se desenrola durante a Guerra Fria, quando o congressista Charlie Wilson, o protagonista, desvia sua aten\u00e7\u00e3o da necessidade de estar rodeado por lindas mulheres em seu escrit\u00f3rio e de realizar favores pol\u00edticos a figuras locais, e passa a se empenhar em obter financiamento para o grupo Mujahedin (combatentes afeg\u00e3os que resistiram \u00e0 invas\u00e3o sovi\u00e9tica nesse per\u00edodo). Nesse sentido, a resenha prop\u00f5e-se a avaliar o posicionamento \u201caltru\u00edsta\u201d dos Estados Unidos, centrado na figura de Wilson, durante as d\u00e9cadas de 1970 e 1980, per\u00edodo em que as duas maiores pot\u00eancias (Estados Unidos e URSS) disputavam uma corrida pelo controle da soberania no sistema internacional. Discutir-se-\u00e1 tamb\u00e9m como a constru\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d, dentro da perspectiva construtivista, marcou a Guerra Fria e de que maneira isso se apresenta no filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Adler (1999), o construtivismo \u00e9 uma perspectiva paradigm\u00e1tica que nos permite enxergar todas as realidades como socialmente constru\u00eddas, sejam elas consideradas &#8220;boas&#8221; ou &#8220;m\u00e1s&#8221;. \u00c9 sob essa \u00f3tica que se torna poss\u00edvel analisar o sentido de \u201cpoder\u201d. O conceito de poder ultrapassa a simples ideia de ser a capacidade de impor a pr\u00f3pria vontade ou vis\u00e3o sobre os outros por meio de recursos materiais ou for\u00e7a. O poder tamb\u00e9m envolve uma dimens\u00e3o mais sutil e profunda: reside na manipula\u00e7\u00e3o que define e molda os significados compartilhados que orientam as intera\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Dessa forma, o construtivismo\u00a0em Adler (1999) se manifesta na capacidade de influenciar a maneira como as identidades, os interesses e os inimigos s\u00e3o entendidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro do contexto da Guerra Fria, a invas\u00e3o sovi\u00e9tica justificou-se por um receio de que o Afeganist\u00e3o se tornasse um pa\u00eds que estivesse no radar dos EUA, influenciado pela ret\u00f3rica ocidental como o que ocorreu com o Ir\u00e3 (antes de 1979), Turquia e Paquist\u00e3o. Contudo, existem diversas outras vari\u00e1veis envolvidas, o que torna arriscado atribuir um \u00fanico motivo a esse conflito. Entre essas motiva\u00e7\u00f5es, destacam-se fatores econ\u00f4micos, como os investimentos de d\u00e9cadas na regi\u00e3o; fatores pol\u00edticos, como a derrota do partido comunista no pa\u00eds; fatores sociais, como a guerra civil; e fatores geopol\u00edticos, como a \u00e1rea de influ\u00eancia (Rieger e Teixeira, 2013, p. 35). A verdade \u00e9 que a regi\u00e3o ganhou uma import\u00e2ncia significativa durante o processo de decis\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o do conflito, participando ativamente da disputa no mundo bipolar e reativando as tens\u00f5es entre as grandes pot\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a>Rieger e Teixeira (2013) tamb\u00e9m discutem que os desdobramentos iniciais ap\u00f3s a investida sovi\u00e9tica no territ\u00f3rio afeg\u00e3o foram percebidos e imediatamente discutidos entre pol\u00edticos norte-americanos. Por\u00e9m, de maneira proposital, uma das estrat\u00e9gias adotadas pelos EUA foi a n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o, a princ\u00edpio, acreditando que a invas\u00e3o sovi\u00e9tica resultaria em um fracasso&nbsp;hist\u00f3rico para a URSS.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrat\u00e9gia norte-americana evidencia-se no que foi trazido pelo construtivismo e, ao relacionarmos o conceito de poder \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de discursos, observamos que a capacidade de moldar a imagem do \u201coutro\u201d depende n\u00e3o apenas de recursos tradicionais, como influ\u00eancia pol\u00edtica ou controle da m\u00eddia, mas tamb\u00e9m da habilidade de controlar as normas que guiam as interpreta\u00e7\u00f5es coletivas. Por exemplo, ao utilizar os meios de comunica\u00e7\u00e3o globais, narrativas podem ser amplificadas com o intuito de descredibilizar as estrat\u00e9gias pol\u00edticas de um Estado. Portanto, \u00e9 poss\u00edvel verificar a tomada de decis\u00e3o de n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o estadunidense no contexto analisado, a partir do segundo pilar que Amin Saikal (2010) debate, baseado em uma campanha diplom\u00e1tica e de propaganda para impedir os sovi\u00e9ticos de alcan\u00e7ar apoio internacional para sua invas\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A maneira como o filme constr\u00f3i quem ocupa os pap\u00e9is de her\u00f3i, v\u00edtima e vil\u00e3o \u00e9 intencionalmente feita para comunicar ao espectador como os Estados Unidos foram cruciais para \u201clibertar\u201d o povo afeg\u00e3o das amea\u00e7as socialistas. Nesse sentido, a din\u00e2mica entre Charlie Wilson e Joanne Herring, estadunidenses, bem como a intera\u00e7\u00e3o com os l\u00edderes paquistaneses, reitera como a percep\u00e7\u00e3o e a interpreta\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es podem influenciar decis\u00f5es pol\u00edticas em um contexto internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Herring, como amiga e interesse rom\u00e2ntico, representa uma voz persuasiva que instiga Wilson a agir em prol dos afeg\u00e3os, que viaja at\u00e9 o territ\u00f3rio para constatar o apelo da amiga. \u00c9 nesse momento que o filme retrata em algumas cenas a brutalidade da ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica, mostrando os efeitos devastadores da guerra sobre a popula\u00e7\u00e3o civil focando a narrativa nas hist\u00f3rias pessoais e na determina\u00e7\u00e3o do povo afeg\u00e3o em lutar pela sua liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os her\u00f3is norte-americanos, especialmente Charlie Wilson, s\u00e3o retratados como figuras genuinamente preocupadas com o bem-estar dos afeg\u00e3os. Impulsionado por uma combina\u00e7\u00e3o de empatia pessoal e ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, Wilson decide agir para ajudar os mujahedin. De maneira velada, o subconsciente do espectador passa a desenvolver uma imagem positiva dos EUA como defensores da liberdade e da democracia, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 opress\u00e3o sovi\u00e9tica que causa desespero e mis\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme &#8220;Jogos do Poder&#8221; impactou a maneira como as ret\u00f3ricas desenvolvidas no contexto da Guerra Fria podem ser observadas, especialmente ao abordar as din\u00e2micas de poder e a constru\u00e7\u00e3o de narrativas que moldam identidades nacionais e interesses geopol\u00edticos, conforme discutido na perspectiva construtivista. Ao apresentar a interven\u00e7\u00e3o dos EUA no Afeganist\u00e3o como uma a\u00e7\u00e3o heroica destinada a combater a opress\u00e3o sovi\u00e9tica, o filme simplifica a complexidade dos conflitos da \u00e9poca, levando \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o dicot\u00f4mica que vilaniza a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica enquanto exalta os valores americanos. Essa representa\u00e7\u00e3o pode acabar refor\u00e7ando estere\u00f3tipos culturais e legitimando interven\u00e7\u00f5es futuras sob o pretexto de defender a liberdade, ao mesmo tempo que mobiliza sentimentos patri\u00f3ticos e reduz o jogo pol\u00edtico entre vil\u00f5es e mocinhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ADLER, Emanuel. O construtivismo no estudo das rela\u00e7\u00f5es internacionais.<strong>\u00a0Lua Nova: revista de cultura e pol\u00edtica,\u00a0<\/strong>p. 201-246, 1999.<\/p>\n\n\n\n<p>JOGOS de Poder. Direc\u00e7\u00e3o Mike Nichols. Produ\u00e7\u00e3o: Tom Hanks Gary Goetzman. Estados Unidos: Universal Pictures, 2007.<strong><br><\/strong>RIEGER, Fernando; TEIXEIRA, Yves. A invas\u00e3o sovi\u00e9tica ao Afeganist\u00e3o e suas consequ\u00eancias para a Guerra Fria.\u00a0<strong>Revista Perspectiva<\/strong>: Reflex\u00f5es Sobre a Tem\u00e1tica Internacional, Rio Grande do Sul, n. 10, p. 27-41, 2013.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>SAIKAL, Amin.\u00a0<strong>Modern Afghanistan<\/strong>: A History of Struggle and Survival.\u00a0New York: L.B.Tauris, 2004<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>La\u00eds Sim\u00f5es Lima<\/strong> \u00e9 estudante de Defesa e Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica Internacional e membro do N\u00facleo de Artes, Interculturalidade e Pol\u00edtica Internacional (NAIPI) do IRID-UFRJ.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 12 | N\u00famero 116 | Mar. 2025 Por La\u00eds Sim\u00f5es Lima JOGOS<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3348,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[645,647],"tags":[],"class_list":["post-3347","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-edicao-atual","category-resenhas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3347","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3347"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3347\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3349,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3347\/revisions\/3349"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3348"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}