{"id":3402,"date":"2025-09-15T09:00:00","date_gmt":"2025-09-15T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3402"},"modified":"2025-10-30T23:04:32","modified_gmt":"2025-10-31T02:04:32","slug":"pensamento-estrategico-na-india-uma-breve-apresentacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3402","title":{"rendered":"Pensamento estrat\u00e9gico na \u00cdndia: uma breve apresenta\u00e7\u00e3o\ufffc"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 12 | N\u00famero 120 | Set. 2025<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Jo\u00e3o Miguel Villas-B\u00f4as Barcellos<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" data-id=\"3404\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/indian-flagPIXABAY-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3404\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/indian-flagPIXABAY-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/indian-flagPIXABAY-300x200.jpg 300w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/indian-flagPIXABAY-768x512.jpg 768w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/indian-flagPIXABAY.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hodiernamente, ap\u00f3s mais de 70 anos de independ\u00eancia, a \u00cdndia \u00e9 uma pot\u00eancia emergente com ambi\u00e7\u00f5es globais. O pa\u00eds tem a maior popula\u00e7\u00e3o do planeta (1,428 bilh\u00e3o), a terceira maior economia, com um PIB de US$17, 65 trilh\u00f5es (FMI, 2025)<a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, e uma das cinco For\u00e7as Armadas mais poderosas do Sistema Internacional<a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Esses atributos positivos foram desenvolvidos por governos conscientes do papel hist\u00f3rico da civiliza\u00e7\u00e3o indiana e do lugar de destaque que o pa\u00eds precisava ocupar entre os grandes. Desse modo, buscaram construir uma capacidade econ\u00f4mica industrial que desse ao pa\u00eds condi\u00e7\u00f5es para financiar seu processo de mudan\u00e7a estrutural.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio geopol\u00edtico em que se insere a \u00cdndia estimulou o desenvolvimento de envergadura dissuas\u00f3ria robusta, como a cria\u00e7\u00e3o de poder nuclear com fins militares e de um complexo industrial-militar (modesto, inicialmente). Por ser um Estado-civiliza\u00e7\u00e3o, a \u00cdndia buscou desde o princ\u00edpio de sua independ\u00eancia uma pol\u00edtica externa de n\u00e3o-alinhamento e autonomia. Essa postura, t\u00edpica de uma pot\u00eancia mundial, buscou refletir o esfor\u00e7o interno de constru\u00e7\u00e3o das bases econ\u00f4micas, militares e estrat\u00e9gicas do projeto de poder do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, entende-se que o avan\u00e7o nas capacidades estrat\u00e9gicas da \u00cdndia s\u00f3 foi poss\u00edvel por conta do desenvolvimento de um pensamento estrat\u00e9gico capaz de problematizar o pa\u00eds como um ator protagonista na geopol\u00edtica regional e global.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>ESCOLAS E AUTORES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Seria a \u00cdndia um pa\u00eds insignificante para a cultura estrat\u00e9gica? De acordo com George Tanham (1992), uma s\u00e9rie de fatores, dentre eles a quest\u00e3o religiosa das castas, a cultura agr\u00e1ria e uma burocracia sufocante podem ser considerados obst\u00e1culos s\u00e9rios ao desenvolvimento de um pensamento estrat\u00e9gico robusto.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, h\u00e1 uma ampla literatura sobre pensamento pol\u00edtico-estrat\u00e9gico na \u00cdndia. Termos como \u201cexemplo moral para o mundo\u201d ou \u201cciviliza\u00e7\u00e3o pac\u00edfica\u201d confundem o leitor acerca do tema. Assim, \u00e9 mister salientar que a \u00cdndia tem uma pr\u00e1tica e um pensamento estrat\u00e9gico similar ao de qualquer outra pot\u00eancia mundial (Kapur; Mukherjee, 2018, p.06).<\/p>\n\n\n\n<p>Kanti Bajpai (2014) advoga que, a despeito da cren\u00e7a de alguns a respeito da falta de um sistem\u00e1tico pensamento estrat\u00e9gico indiano, h\u00e1 pelo menos tr\u00eas importantes tradi\u00e7\u00f5es (ou escolas) na \u00e1rea: Nehruvianismo, Neoliberalismo e Hiperrealismo. Para o autor, essas tradi\u00e7\u00f5es t\u00eam penetra\u00e7\u00e3o na esfera governamental, nos partidos e nas For\u00e7as Armadas, al\u00e9m da academia e m\u00eddia. Haveria, igualmente, tr\u00eas tradi\u00e7\u00f5es menos relevantes \u2013 que o autor chama de \u201cescolas menores\u201d \u2013 quais sejam, o Marxismo, o Gandhismo e o movimento nacionalista hindu (<em>Hindutva<\/em>)<a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;(Bajpai, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p>As tr\u00eas principais escolas de pensamento estrat\u00e9gico indiano entendem que o sistema internacional \u00e9 an\u00e1rquico, ou seja, n\u00e3o h\u00e1 autoridade global acima da soberania estatal. H\u00e1 um reconhecimento de que a viol\u00eancia, o poder e os interesses nacionais s\u00e3o pilares fundamentais nas rela\u00e7\u00f5es internacionais<sup>[4]<\/sup>. Contudo, h\u00e1 diferen\u00e7as importantes entre elas. A escola Nehruviana (tamb\u00e9m chamada de pacifista) busca construir uma sociedade internacional mais harm\u00f4nica e questiona a balan\u00e7a de poder como instrumento eficaz para a estabilidade da ordem global. Para isso, acreditam no Direito Internacional e nas institui\u00e7\u00f5es globais como mecanismos fundamentais para prevenir a guerra que n\u00e3o seria algo inevit\u00e1vel (Idem, 2014).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Para os neoliberais, a possibilidade de as rela\u00e7\u00f5es internacionais serem conduzidas com ganhos m\u00fatuos, em fun\u00e7\u00e3o de uma cada vez maior interdepend\u00eancia interestatal \u00e9 seu pressuposto b\u00e1sico. Outro elemento importante seria a \u00eanfase na economia em vez do poder militar, para eles s\u00f3 se alcan\u00e7a o segundo dispondo de uma capacidade econ\u00f4mica robusta. Assim, em um contexto de interdepend\u00eancia complexa, o poder militar seria ineficaz, pois o livre com\u00e9rcio e o mercado seriam os grandes fatores da paz e estabilidade internacional (Idem, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p>Na contram\u00e3o da cren\u00e7a na coopera\u00e7\u00e3o e do livre mercado como elementos garantidores da paz, os hiper-realistas apostam na autoajuda, na balan\u00e7a de poder e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, na guerra como alicerces do sistema internacional. A hist\u00f3rica rivalidade interestatal \u00e9 conflitiva e n\u00e3o pode ser resolvida apenas por meios propalados pelas duas escolas anteriores. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, o que determina o\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0global \u00e9 o poder militar que, inclusive, pode ser um estimulador do desenvolvimento econ\u00f4mico (Idem, 2014)<a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ian Hall (2016) vai na mesma linha de classifica\u00e7\u00e3o de escolas estrat\u00e9gicas de Banjpai, por\u00e9m com uma abordagem diferente. Para ele, h\u00e1 tr\u00eas tradi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas indianas, a nehruviana, a realpolitik e a nacionalista hindu. Todas influenciadas pelos textos hist\u00f3ricos hindus, saudosistas religiosos dos s\u00e9culos XIX e XX e pelos pensadores modernos (Hall, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Nehru foi, al\u00e9m de grande l\u00edder pol\u00edtico e primeiro ministro (1947-1964), um te\u00f3rico acerca da postura da \u00cdndia no sistema internacional. Para ele, as iniciativas pol\u00edticas, econ\u00f4micas e culturais deveriam se sobrepor \u00e0s militares para o bem da estabilidade global. Assim, ele desenvolveu o conceito de \u201cPanchsheel\u201d, ou os cinco princ\u00edpios da coexist\u00eancia pac\u00edfica, quais sejam o respeito m\u00fatuo pela integridade territorial, m\u00fatua n\u00e3o-agress\u00e3o, m\u00fatua n\u00e3o interfer\u00eancia, igualdade e benef\u00edcio m\u00fatuo e coexist\u00eancia pac\u00edfica (\u00cdndia, 2004). Outro importante conceito ou postura te\u00f3rica e pr\u00e1tica desenvolvida por Nehru foi o \u201cn\u00e3o-alinhamento\u201d. Este moldou profundamente a inser\u00e7\u00e3o internacional indiana e ainda hoje exerce forte influ\u00eancia junto aos tomadores de decis\u00e3o no pa\u00eds. O termo foi desenvolvido em um contexto de Guerra Fria, no qual a press\u00e3o competitiva, fruto das disputas entre EUA e URSS, exerceu forte influ\u00eancia sobre os pa\u00edses em desenvolvimento. Assim, caberia \u00e0 \u00cdndia, pa\u00eds, \u00e0 \u00e9poca, com ambi\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas regionais, n\u00e3o se submeter \u00e0 estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a das grandes pot\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto da lideran\u00e7a pol\u00edtica nehruviana, a \u00cdndia passou por um profundo debate acerca da pol\u00edtica externa, qual seja: moral x for\u00e7a. Em fun\u00e7\u00e3o dos problemas internos, como pobreza e analfabetismo, Nehru n\u00e3o via sentido em desenvolver uma estrat\u00e9gia nacional com foco em defesa e seguran\u00e7a \u2013 postura reavaliada ap\u00f3s a guerra com a China em 1962. \u00c9 razo\u00e1vel afirmar, portanto, que o mandat\u00e1rio e l\u00edder pol\u00edtico indiano buscou construir um fraco&nbsp;<em>status quo<\/em>internacional, diferentemente de sua filha e neto (Indhira e Rajiv Gandhi) que iniciaram a constru\u00e7\u00e3o do poder militar dissuas\u00f3rio (Khanna, 2018)<\/p>\n\n\n\n<p>Se Nehru foi o primeiro grande te\u00f3rico e lideran\u00e7a pol\u00edtica a conseguir p\u00f4r em pr\u00e1tica sua pr\u00f3pria vis\u00e3o de estrat\u00e9gia na \u00cdndia independente, Kautilya, com o seu cl\u00e1ssico e important\u00edssimo tratado de pol\u00edtica \u201c<em>Arthashastra\u201d<\/em>\u00a0foi um dos mais importantes precursores do pensamento estrat\u00e9gico indiano. Escrito por volta de 320 a.C, ou seja cerca de 1.800 anos antes do famoso cl\u00e1ssico ocidental \u201cO Pr\u00edncipe\u201d, de Machiavel, a obra traz uma s\u00e9rie de conselhos ao rei, ou governante, acerca do poder, sua conquista e manuten\u00e7\u00e3o. Kautilya foi conselheiro do imperador Chandragupta Maurya, fundador do Imp\u00e9rio Mauria<sup>[6]<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Kautilya descreveu cada rela\u00e7\u00e3o de poder com maestria, os atores pol\u00edticos e os cen\u00e1rios poss\u00edveis para o melhor exerc\u00edcio do poder nos quinze livros (cap\u00edtulos) da obra. O governante (<em>swamin<\/em>), o ministro (<em>amatya<\/em>), o povo (<em>janapada<\/em>), a fortaleza, ou forte (<em>durga<\/em>), o tesouro, ou fazenda (<em>kosa<\/em>), o poder executivo (<em>danda<\/em>) e o estado ou governo aliado (<em>mitra<\/em>). Cada qual com a sua respectiva fun\u00e7\u00e3o. H\u00e1 livros a respeito das leis, dos tratados, das alian\u00e7as, dos s\u00faditos, da disciplina, do papel dos governantes, da origem dos \u201cestados soberanos\u201d, bem como sobre a guerra e os inimigos poderosos. Um dos livros mais interessantes \u00e9 o s\u00e9timo, no qual ele descreve as seis leis dos componentes da pol\u00edtica: a paz, a guerra, a neutralidade, a marcha (prepara\u00e7\u00e3o para a guerra), as alian\u00e7as e a pol\u00edtica dupla (Kautilya, s\u00e9c. III a.C).<\/p>\n\n\n\n<p><em>Vijigishu&nbsp;<\/em>ou o \u201cdesejo do rei por novas conquistas\u201d e&nbsp;<em>Chakravartin&nbsp;<\/em>\u201cmonarca universal sem desafiadores\u201d seria um dos pontos centrais da obra. O rei, ou governante, viveria em um sistema pol\u00edtico chamado por Kautilya de&nbsp;<em>matsya-nyaya<\/em>ou \u201ca lei do peixe\u201d, em que os grandes comem os pequenos. Isto \u00e9, o sistema pol\u00edtico \u00e9 representado por uma&nbsp;<em>mandala<\/em>&nbsp;&#8211; sistema em que h\u00e1 um Estado no centro e outros;&nbsp;<em>ari,&nbsp;<\/em>inimigos<em>,<\/em>&nbsp;ao redor amea\u00e7ando-o (Zaman, 2006, p. 236). Pode-se perceber que a arte de governar&nbsp;<a><\/a>ou a pol\u00edtica estrat\u00e9gica pensada por Kautilya encontrar\u00e1 ao longo do tempo uma s\u00e9rie de te\u00f3ricos que far\u00e3o um racioc\u00ednio semelhante. De Maquiavel aos te\u00f3ricos do Realismo, como Morgenthau, dentre outros, ser\u00e3o analisados conceitos consagrados, como \u201cdilema de seguran\u00e7a\u201d (Herz) ou \u201cos fins justificam os meios\u201d (Maquiavel) perfeitamente vinculados \u00e0s ideias de Kautilya. Em suma, o&nbsp;<em>Arthashastra<\/em>&nbsp;seria uma s\u00edntese dos conceitos caros \u00e0 Filosofia Pol\u00edtica moderna e \u00e0 teoria Realista das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, tais como&nbsp;<em>Raison D\u2019\u00c9tat&nbsp;<\/em>eanarquia sist\u00eamica, dentre outros (Liebig, 2013)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o pensador florentino, Max Weber faz uma observa\u00e7\u00e3o interessante:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A literatura hindu chega a oferecer-nos uma exposi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica sobre o \u201cmaquiavelismo\u201d radical (&#8230;) basta ler o\u00a0<em>Artha\u00e7astra,\u00a0<\/em>de Kautilya, escrito muito antes da era crist\u00e3, provavelmente quando governava Chandragupta. Comparado a esse documento, o\u00a0<em>Pr\u00edncipe<\/em>, de Maquiavel \u00e9 um livro inofensivo. (Weber, 2008, p. 117)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>As tradi\u00e7\u00f5es de pensamento estrat\u00e9gico na \u00cdndia est\u00e3o em disputa. Como vimos acima, Tanham (1992) afirma que n\u00e3o h\u00e1 uma cultura estrat\u00e9gica consolidada ou forte o suficiente, ao passo que outros autores, como Banjpai (2014) e Zaman (2006), contestam tal afirma\u00e7\u00e3o apresentando escolas de pensamento que se foram formando h\u00e1 tempos. Para Sidhu (1996), o hist\u00f3rico do tema tem Kautilya como grande refer\u00eancia, por\u00e9m teria sido debatido ou abordado ainda antes, nas p\u00e1ginas do \u00e9pico cl\u00e1ssico&nbsp;<em>Mahabharata<\/em><a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftn7\"><sup><em><sup><strong>[7]<\/strong><\/sup><\/em><\/sup><\/a>, escrito h\u00e1 mais de cinco mil anos. O autor afirma que existe um estere\u00f3tipo acerca da tradi\u00e7\u00e3o pacifista indiana e coloca a pr\u00f3pria imagem de Gandhi em xeque, ao dizer que ele teve diversos momento classific\u00e1veis como realistas. Outro ponto importante da contribui\u00e7\u00e3o de Sidhu \u00e9 o questionamento sobre a contribui\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica para a organiza\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o indiana, para ele, \u201ca evolu\u00e7\u00e3o de um Estado-na\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds foram interrompidos pela coloniza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica\u201d (Sidhu, 1996, p.175).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Krishnaswamy\u00a0Subrahmanyam foi um dos grandes pensadores da seguran\u00e7a nacional e internacional indiana do per\u00edodo p\u00f3s-independ\u00eancia. Foi al\u00e9m de analista, conselheiro de v\u00e1rios governos e um grande defensor da\u00a0<em>Realpolitik.<\/em>\u00a0Um dos assuntos mais importantes do seu ativismo pol\u00edtico foi a quest\u00e3o nuclear. Para ele a \u00cdndia deveria buscar construir a capacidade at\u00f4mica militar poss\u00edvel que garantisse influ\u00eancia no sistema internacional. Por isso, foi um dos maiores incentivadores dos testes nucleares para com finalidade militar logo ap\u00f3s as explos\u00f5es at\u00f4micas chinesa, em 1964. Escreveu importantes artigos e livros sobre estrat\u00e9gia, defesa e tecnologia militar. Faleceu em 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>Subrahmanyam estimulou a cria\u00e7\u00e3o de uma rede de pensamento estrat\u00e9gico que pudesse dar suporte \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea. Destarte, o autor imaginava ser poss\u00edvel orientar&nbsp;<em>think tanks<\/em>&nbsp;\u2013 como o&nbsp;<em>Institut for Defence Studies and Analisis,&nbsp;<\/em>IDSA \u2013 For\u00e7as Armadas, Universidades e governo na dire\u00e7\u00e3o de uma interpreta\u00e7\u00e3o mais ativa e assertiva no campo da seguran\u00e7a (Mukherjee, 2011). Um eixo importante desta estrat\u00e9gia de integra\u00e7\u00e3o de ag\u00eancias e atores na dire\u00e7\u00e3o de um pensamento estrat\u00e9gico nacional seria a desclassifica\u00e7\u00e3o de documentos sigilosos sobre defesa e seguran\u00e7a. Ponto pol\u00eamicos para alguns, por\u00e9m, para Subrahmanyam o acesso irrestrito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o aos pesquisadores e membros da comunidade de intelectuais e burocratas da \u00e1rea seria de grande valor (Subrahmanyam, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>A cultura e o pensamento estrat\u00e9gico na \u00cdndia, pelo que indicam a maioria dos autores aqui estudados,&nbsp;leva-nos \u00e0&nbsp;conclus\u00e3o de que h\u00e1 um forte enraizamento realista que moldou a&nbsp;<em>realpolitik<\/em>&nbsp;indiana desde os tempos vedas at\u00e9 o presente (Karnad, 2005).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A \u00cdndia consolidou-se como uma pot\u00eancia global emergente combinando crescimento econ\u00f4mico acelerado, capacidades militares avan\u00e7adas e um pensamento estrat\u00e9gico diversificado enraizado em tradi\u00e7\u00f5es que remontam a Kautilya. Seu desenvolvimento reflete a tens\u00e3o entre ideais\u00a0nehruvianos\u00a0(multilateralismo, n\u00e3o-alinhamento) e abordagens mais\u00a0realistas\u00a0(dissuas\u00e3o nuclear, rivalidade com China).<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do ceticismo inicial sobre sua cultura estrat\u00e9gica, a \u00cdndia demonstrou capacidade de adapta\u00e7\u00e3o, integrando li\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas &#8211; desde o\u00a0Arthashastra\u00a0at\u00e9 as escolas modernas &#8211; para enfrentar desafios contempor\u00e2neos. Seu avan\u00e7o em tecnologia (programa espacial, ind\u00fastria de defesa) e alian\u00e7as estrat\u00e9gicas (como o Quad e BRICS) sugere um futuro como\u00a0ator central na geopol\u00edtica do s\u00e9culo XXI, equilibrando soft power civilizacional com hard power militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, obst\u00e1culos persistem: desigualdades sociais, tens\u00f5es regionais e a necessidade de reformas estruturais. Se super\u00e1-los, a \u00cdndia n\u00e3o apenas realizar\u00e1 suas ambi\u00e7\u00f5es de grande poder, mas tamb\u00e9m redefinir\u00e1 seu papel como ponte entre Oriente e Ocidente em um mundo multipolar.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BAJPAI, Kanti. Indian grand strategy: Six schools of thought. In:&nbsp;India\u2019s Grand Strategy. Routledge India, 2014. p. 127-164.<\/p>\n\n\n\n<p>FIORI, Jos\u00e9 Lu\u00eds.\u00a0Hist\u00f3ria, estrat\u00e9gia e desenvolvimento: para uma geopol\u00edtica do capitalismo. Boitempo Editorial, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>FUNDO MONET\u00c1RIO INTERNACIONAL. World Economic Outlook Database. FMI, 25, Out. 2025. Dispon\u00edvel em:&lt;<a href=\"https:\/\/www.imf.org\/external\/datamapper\/profile\/IND\">https:\/\/www.imf.org\/external\/datamapper\/profile\/IND<\/a>&nbsp;&nbsp;&gt;. Acesso em: 09\/06\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>GLOBAL FIRE POWER. India Military Strength. GFP, 2025. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.globalfirepower.com\/country-military-strength-detail.php?country_id=india\">https:\/\/www.globalfirepower.com\/country-military-strength-detail.php?country_id=india<\/a>&nbsp;&nbsp;&gt;.&nbsp;Acesso em: 09\/06\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>KAPUR, Devesh; MUKHERJEE, Rohan. Indian security strategy in thought and practice.&nbsp;India Review, v. 17, n. 1, p. 1-11, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>KARNAD, Bharat.&nbsp;Nuclear weapons and Indian security: the realist foundations of strategy. New Delhi: Macmillan, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p>KAUTILYA, Vishnugupta.&nbsp;The Arthashastra. New Delhi, New York, NY: Penguin Books, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p>KENNEDY, Paul.\u00a0Ascens\u00e3o e queda das grandes potencias transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e conflito militar de 1500 a 2000.\u00a0Rio de Janeiro: Campus, 1989.<\/p>\n\n\n\n<p>LIEBIG, Michael. Kau\u1e6dilya&#8217;sArtha\u015b\u0101stra: A Classic Text of Statecraft and an Untapped Political Science Resource. 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>MUKHERJEE, Anit. K. Subrahmanyam and Indian Strategic Thought.&nbsp;Strategic Analysis, v. 35, n. 4, p. 710-713, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>SIDHU, Arman. India\u2019s Scramble for the African Arms Market.&nbsp;Indian Defence Review, 02, Jan. 2020. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.indiandefencereview.com\/news\/indias-scramble-for-the-african-arms-market\/\">http:\/\/www.indiandefencereview.com\/news\/indias-scramble-for-the-african-arms-market\/<\/a>&gt;. Acesso em: 01\/10\/2024.<\/p>\n\n\n\n<p>SUBRAHMANYAM,&nbsp;Krishnaswamy. Academic Contribution to National Security Policy Formulation in India.&nbsp;Strategic Analysis, v. 39, n. 5, p. 579-586, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>TANHAM, George K. Indian strategic thought: An interpretive essay.&nbsp;1992.<\/p>\n\n\n\n<p>WEBER, Max. A pol\u00edtica como voca\u00e7\u00e3o. Ci\u00eancia e pol\u00edtica: duas voca\u00e7\u00f5es.&nbsp;2008.<\/p>\n\n\n\n<p>ZAMAN, Rashed Uz. Kautilya: the Indian strategic thinker and Indian strategic culture.&nbsp;Comparative Strategy, v. 25, n. 3, p. 231-247, 2006.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;PIB medido em paridade do poder de compra (PPC) \u2013&nbsp;<em>purchasing power parity&nbsp;<\/em>(PPP, em ingl\u00eas), estimativa para 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;De acordo com o Global Fire Power, a \u00cdndia seria classificada como a quarta maior for\u00e7a militar.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;\u00c9 importante frisar que o movimento&nbsp;<em>hindutva<\/em>&nbsp;vem se tornando cada vez mais presente no debate pol\u00edtico indiano, visto que \u00e9 um dos pilares do partido do Povo (<em>Bharatiya Janata<\/em>), no governo desde 2014.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&nbsp;Entendemos que esta percep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do autor em que n\u00e3o distingue claramente a escola neoliberal das demais n\u00e3o \u00e9 aceita ou comungada por n\u00f3s, haja vista a incompatibilidade conceitual do neoliberalismo (abordagem voltada \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o e livre com\u00e9rcio como garantidores da paz e estabilidade globais) com a busca pelo poder e a aceita\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia como meio de garantia do interesse nacional.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>&nbsp;O autor (Bajpai) externa que h\u00e1 uma invers\u00e3o de prioridades para neoliberais e hiper-realistas no que diz respeito ao poder militar e econ\u00f4mico. Entendemos que h\u00e1 uma sinergia entre ambos e uma impossibilidade de separ\u00e1-los, pois para se construir um poder militar adequado \u00e9 necess\u00e1rio que se tenha instrumentos econ\u00f4micos igualmente adequados para tal. Da mesma maneira de nada adianta uma economia pujante e desenvolvida sem um significativo poder militar que lhe garanta autonomia. A hist\u00f3ria nos ensina que o significado de grande pot\u00eancia est\u00e1 umbilicalmente vinculado a esta vis\u00e3o (Fiori, 2015; Kennedy, 1989).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>&nbsp;Uma curiosidade hist\u00f3rica \u00e9 que Kautilya foi contempor\u00e2neo de Alexandre, o grande, e acompanhou as invas\u00f5es deste ao territ\u00f3rio noroeste indiano.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/2B704792-9AAC-4BF2-8160-39B27C005015#_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>&nbsp;O livro&nbsp;<em>Mahabharata&nbsp;<\/em>\u00e9 composto por mais de 70.000 versos em s\u00e2nscrito e \u00e9 considerado um dos textos mais importantes do hindu\u00edsmo (The Mahabharata of Krishna-Dwaipayana Vyasa: Adi Parva, 1990).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Jo\u00e3o Miguel Villas-B\u00f4as Barcellos<\/em><\/strong><em> \u00e9 Doutor em Economia Pol\u00edtica Internacional no PEPI-UFRJ e mestre na mesma \u00e1rea e mesma institui\u00e7\u00e3o. Fez gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na PUC -GO (2007) e especializa\u00e7\u00e3o na mesma \u00e1rea na UCAM (2011). Pesquisador integrante do N\u00facleo de Avalia\u00e7\u00e3o da Conjuntura do Centro de Estudos Pol\u00edtico-Estrat\u00e9gicos da Escola de Guerra Naval. \u00c9, igualmente, pesquisador do Grupo de pesquisa: &#8220;Direitos sociais, direitos fundamentais e pol\u00edticas p\u00fablicas&#8221;, concentrando sua investiga\u00e7\u00e3o nas quest\u00f5es econ\u00f4micas e sociais. Tem interesse acad\u00eamico em: Economia Pol\u00edtica Internacional, a rela\u00e7\u00e3o entre o processo de desenvolvimento e a geopol\u00edtica, desenvolvimento econ\u00f4mico e social, pensamento estrat\u00e9gico brasileiro e indiano,Pol\u00edtica Externa Brasileira e Indiana, complexo industrial-militar e pol\u00edtica industrial voltada \u00e0 defesa nacional.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 12 | N\u00famero 120 | Set. 2025 Por Jo\u00e3o Miguel Villas-B\u00f4as Barcellos<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3404,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[646,645],"tags":[],"class_list":["post-3402","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-edicao-atual"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3402"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3402\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3405,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3402\/revisions\/3405"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3404"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}