{"id":3442,"date":"2025-12-06T23:35:00","date_gmt":"2025-12-07T02:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3442"},"modified":"2026-01-07T00:18:05","modified_gmt":"2026-01-07T03:18:05","slug":"a-evolucao-da-politica-externa-na-turquia-de-erdogan-2003-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3442","title":{"rendered":"A evolu\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Externa na Turquia de Erdo\u011fan (2003-2025)"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 12 | N\u00famero 122 | Dez. 2025<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"742\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/board-game-529586_12802-1024x742.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1951\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/board-game-529586_12802-1024x742.jpg 1024w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/board-game-529586_12802-300x218.jpg 300w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/board-game-529586_12802-768x557.jpg 768w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/board-game-529586_12802.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Dominique Marques de Souza<\/p>\n\n\n\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Turquia se tornou uma Rep\u00fablica independente no ano de 1923, ap\u00f3s sucessivas guerras contra a Europa. Seu principal l\u00edder e primeiro presidente, Mustafa Kemal, estava em busca de melhorar as severas puni\u00e7\u00f5es territoriais e as condi\u00e7\u00f5es impostas pela Europa, ap\u00f3s a queda do Imp\u00e9rio Otomano, com a Primeira Guerra Mundial.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Com um vasto territ\u00f3rio, muito estrat\u00e9gico geopoliticamente, e com uma ampla reserva de recursos naturais, o Imp\u00e9rio Otomano j\u00e1 era cobi\u00e7ado pelas pot\u00eancias europeias, antes mesmo da sua queda oficial. No ano de 1916, o secreto acordo de Sykes-Picot, dividia em \u00e1reas de influ\u00eancia francesas e brit\u00e2nicas, o imp\u00e9rio que se esfacelaria, ap\u00f3s lutar ao lado da Alemanha Imperial. Dito isto, cabe ressaltar a relev\u00e2ncia da aproxima\u00e7\u00e3o entre os imp\u00e9rios alem\u00e3o e otomano, como motivo da eclos\u00e3o da guerra de 1914 (MCMEEKIN, 2010; SOUZA, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Atrasada na unifica\u00e7\u00e3o do seu Estado Nacional, a Alemanha de Guilherme II, buscava suas col\u00f4nias, dado que o mundo j\u00e1 estava dividido entre Fran\u00e7a e Inglaterra. A aproxima\u00e7\u00e3o de Guilherme com o Sult\u00e3o Abdulhamid II despertou os olhares dos vizinhos europeus, que prontamente se movimentaram para impedir que a Alemanha, tamb\u00e9m com posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica central na Europa, conseguisse expandir o seu imp\u00e9rio para os quintais da pr\u00f3pria Europa (MCMEEKIN, 2010).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Temos aqui, um primeiro esbo\u00e7o da import\u00e2ncia estrat\u00e9gica da Turquia, que ser\u00e1 a principal herdeira deste imp\u00e9rio que se expandiu por \u00c1sia, \u00c1frica e Europa, durante quase seis s\u00e9culos. A simples possibilidade de uma aproxima\u00e7\u00e3o alem\u00e3 com os otomanos, foi capaz de mudar todo o sistema europeu de equil\u00edbrio de poder, que vinha funcionando magistralmente durante o s\u00e9culo XIX, capaz de promover os 100 anos de paz, como descreveu Polanyi (2013), e de permitir o amadurecimento do capitalismo que nascia. O sistema de alian\u00e7as formado contra as pot\u00eancias nascentes, Alemanha e It\u00e1lia, seria um rel\u00f3gio com contagem regressiva para a eclos\u00e3o da guerra imperialista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Imperialismo \u00e9 o que define a disputa por territ\u00f3rios otomanos, tal como discutido em Sykes-Picot, 6 anos antes de a Turquia conquistar a sua independ\u00eancia. T\u00e3o logo se tornou uma Rep\u00fablica, o pa\u00eds seguiu por um per\u00edodo de alinhamento com o Ocidente, que durou de 1923 at\u00e9 o fim da Guerra Fria, quando se iniciou um processo de mudan\u00e7as na Pol\u00edtica Externa turca, em busca de uma postura mais independente e aut\u00f4noma, com rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente (MURINSON, 2006; 2012; HAUGOM, 2019; SOUZA, 2024).<\/p>\n\n\n\n<p>Terminada a bipolaridade mundial e a necessidade de alinhamento a um dos blocos, o mundo passou a experimentar uma maior liberdade de atua\u00e7\u00e3o por parte dos Estados e, assim, o ent\u00e3o presidente em exerc\u00edcio, Turgut \u00d6zal, j\u00e1 deu in\u00edcio a um primeiro est\u00e1gio de mudan\u00e7a de postura na forma de se relacionar com os pa\u00edses vizinhos, que ficou conhecido como neo-Otomanismo, buscando tamb\u00e9m, se aproximar de pa\u00edses de origem t\u00farquica (MURINSON, 2006; KAPLAN, 2013).<\/p>\n\n\n\n<p>Ak\u015fin (2010) destaca que o governo de Turgut \u00d6zal (1983-1993) representou grande transforma\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica na Pol\u00edtica Externa e identit\u00e1ria da Turquia, marcando uma clara ruptura com o legado kemalista, de Mustafa Kemal, o primeiro presidente da Turquia anteriormente citado, e que adotou uma pol\u00edtica mais amig\u00e1vel ao Ocidente, algo que moldou por d\u00e9cadas a Pol\u00edtica Externa turca e que, ainda hoje, representa a principal oposi\u00e7\u00e3o ao partido AKP.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo do princ\u00edpio de que Erdo\u011fan deu continuidade ao processo iniciado por \u00d6zal, representando uma ruptura progressiva com o alinhamento autom\u00e1tico ao Ocidente, a favor de uma estrat\u00e9gia aut\u00f4noma, buscamos responder como esta pesquisa: Como se deu esse processo progressivo de transforma\u00e7\u00e3o entre o Kemalismo e o Erdoganismo, enquanto uma variante do neo-Otomanismo, iniciado com \u00d6zal?<\/p>\n\n\n\n<p>Para entendermos estas mudan\u00e7as, como base para a nossa an\u00e1lise na Pol\u00edtica Externa de Erdo\u011fan junto ao AKP, faremos uma breve retrospectiva na primeira sess\u00e3o, sobre como se deram as trocas de influ\u00eancia entre Ocidente e Turquia; A segunda sess\u00e3o, traremos a trajet\u00f3ria de Erdo\u011fan e do AKP, dentro da lente do Realismo Neocl\u00e1ssico e dos conceitos de Diplomacia Pendular, Geopol\u00edtica e o conceito de\u00a0<em>Hedging<\/em>. Na terceira sess\u00e3o, evidenciaremos as atua\u00e7\u00f5es turcas no teatro internacional, passando pelos conflitos regionais, pela participa\u00e7\u00e3o da Turquia em diferentes blocos de atua\u00e7\u00e3o e pela rela\u00e7\u00e3o entre Turquia e Ocidente nos \u00faltimos anos, evidenciando uma mudan\u00e7a de postura com rela\u00e7\u00e3o aos governos anteriores, alinhados automaticamente ao Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isto, este artigo se utilizar\u00e1 de uma breve reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, adotando uma abordagem qualitativa, de car\u00e1ter anal\u00edtico-interpretativo, utilizando o estudo de caso da Turquia para analisar a evolu\u00e7\u00e3o de sua Pol\u00edtica Externa entre 2003 e 2025, com os governos de Recep Tayyip Erdo\u011fan como Primeiro-Ministro e Presidente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O recorte temporal nos permite identificar as continuidades e rupturas\/inflex\u00f5es na atua\u00e7\u00e3o internacional turca e a an\u00e1lise \u00e9 orientada, fundamentalmente, pelo Realismo Neocl\u00e1ssico, articulando com vari\u00e1veis sist\u00eamicas do Sistema Internacional e com fatores dom\u00e9sticos, como lideran\u00e7a pol\u00edtica, ideologia partid\u00e1ria e percep\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista procedimental, a pesquisa baseia-se em levantamento bibliogr\u00e1fico e documental, incluindo literatura acad\u00eamica especializada, documentos oficiais, discursos governamentais e relat\u00f3rios de organiza\u00e7\u00f5es internacionais. Os dados ser\u00e3o examinados de forma cronol\u00f3gica e tem\u00e1tica, buscando identificar padr\u00f5es de comportamento, mudan\u00e7as discursivas e pr\u00e1ticas diplom\u00e1ticas que evidenciem a crescente autonomia e assertividade da pol\u00edtica externa turca no per\u00edodo analisado, bem como sua redefini\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com o Ocidente e com os demais atores regionais e globais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. A Turquia entre 1923 e 1990: um breve panorama<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O per\u00edodo que compreende a independ\u00eancia da Turquia, no ano de 1923 at\u00e9 o fim da Guerra Fria \u00e9 marcado por uma s\u00e9rie de tentativas de se priorizar quest\u00f5es mais voltadas aos interesses nacionais, mesmo com um alinhamento ao Ocidente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o da Turquia com o Ocidente, ao qual chamamos aqui, os Estados Unidos (EUA) e Europa, se formalizou com a entrada da Turquia na Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN), na primeira expans\u00e3o da alian\u00e7a, formada em 1949. Junto \u00e0 Gr\u00e9cia, ambas se tornaram uma esp\u00e9cie de escudo de prote\u00e7\u00e3o contra a expans\u00e3o sovi\u00e9tica no contexto da Guerra Fria.<\/p>\n\n\n\n<p>Este alinhamento com a OTAN n\u00e3o passou todas as d\u00e9cadas at\u00e9 1990 sem nenhum desafio. A d\u00e9cada de 1970 foi marcada pela tentativa turca de garantir os seus interesses na ilha do Chipre, representando o momento de maior instabilidade nas rela\u00e7\u00f5es entre ambos, durante todo este per\u00edodo. Por outro lado, a maior parte do tempo, foi marcada por momentos de alinhamento aos interesses do bloco Ocidental.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o da Turquia com o Ocidente vem de ra\u00edzes traum\u00e1ticas sobre o fim do Imp\u00e9rio Otomano. Assim que conquistou a independ\u00eancia, Kemal buscou um novo tipo de identidade para o pa\u00eds rec\u00e9m-formado. Era importante, neste momento, desfazer associa\u00e7\u00f5es entre a Turquia e o falido imp\u00e9rio, marcado pela derrota e pelo esfacelamento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, de modo a desvincular a imagem de fracasso imperial, da nova Rep\u00fablica, Kemal e os intelectuais que o auxiliavam, propuseram um Estado laico, indo em dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 associa\u00e7\u00e3o religiosa, muito presente no Imp\u00e9rio Otomano. Al\u00e9m disso, algumas medidas de ocidentaliza\u00e7\u00e3o foram aplicadas. Um amplo programa de reformas secularizantes e modernizadoras foi implementado. O c\u00f3digo civil foi baseado no c\u00f3digo su\u00ed\u00e7o, o c\u00f3digo penal, influenciado pelo sistema penal italiano e, no com\u00e9rcio, houve muita influ\u00eancia do modelo franc\u00eas. Kemal tamb\u00e9m aboliu as escolas religiosas, proibiu vestimentas eclesi\u00e1sticas fora das mesquitas, adotou o alfabeto latino e vestimentas ocidentais. Houve uma redefini\u00e7\u00e3o no papel das mulheres na sociedade turca, onde a igualdade de g\u00eanero passou a ser fundamental para a moderniza\u00e7\u00e3o. Nesta dire\u00e7\u00e3o, estabeleceu a Comiss\u00e3o para garantir os Direitos Civis das Mulheres, a qual resultou em direitos iguais no casamento, direito \u00e0 propriedade e, posteriormente, no ano de 1930, as mulheres passaram a ter o direito de votar e de se candidatar a Conselhos Municipais. Para al\u00e9m dessas mudan\u00e7as diretamente ligadas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, cidades tiveram seus nomes alterados, assim como, os nomes dos cidad\u00e3os, que passaram a ser registrados de forma diferente da \u00e9poca do imp\u00e9rio (SULLIVAN, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo de Kemal, atrav\u00e9s dessas mudan\u00e7as, para al\u00e9m de romper com o passado otomano, era forjar uma homogeneidade para a sociedade que se constitu\u00eda. \u00c9 importante destacar que o imp\u00e9rio contava com diversas culturas, povos e religi\u00f5es e a nova Turquia, deveria ter uma identidade pr\u00f3pria. Esse projeto demandava uma constru\u00e7\u00e3o quase anacr\u00f4nica da nova sociedade, em contraste com o passado tribal, de base rural e de grande pluralidade, dos otomanos. Segundo Zeydanlio\u011flu (2008, p.5), esse projeto representava muito mais do que a forma\u00e7\u00e3o da nova sociedade. Era uma \u201cencena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica destinada a negociar o lugar da Turquia no mundo moderno\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas transforma\u00e7\u00f5es influenciariam na forma como a Turquia se relaciona com o restante do mundo, atuando diretamente na pol\u00edtica turca entre as d\u00e9cadas de 1920 e 1990. Segundo Ataman (2017), o posicionamento pr\u00f3-Ocidente aprofundou uma cis\u00e3o interna na sociedade turca, onde os governos militares se autoproclamavam os \u201cguardi\u00f5es do secularismo kemalista\u201d. Assim, elites governamentais defensoras do alinhamento Ocidental, come\u00e7avam a ganhar resist\u00eancia de outros setores da popula\u00e7\u00e3o, descontentes com esta atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa com os militares se fez clara j\u00e1 na d\u00e9cada de 1960, quando o ent\u00e3o Primeiro-Ministro, Adnan Menderes foi acusado de adotar posturas autocr\u00e1ticas e anti-kemalistas, ao evitar a participa\u00e7\u00e3o dos militares no governo do ent\u00e3o presidente Cel\u00e2l Bayar. Esta acusa\u00e7\u00e3o levou a um golpe militar, em 1960, onde mantiveram o alinhamento com os EUA, mesmo acusando o governo anterior de ser excessivamente pr\u00f3-EUA. Como destaca Surid (2017), os militares sabiam que tinham prest\u00edgio, desde que a Turquia aderiu \u00e0 OTAN e, inclusive, fortaleceram alian\u00e7as com Washington. Com a Constitui\u00e7\u00e3o feita em 1961, a qual permitia maior liberdade democr\u00e1tica, cada vez mais opini\u00f5es contra o alinhamento aos EUA passaram a surgir e ganhar for\u00e7a.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1970, dentro do contexto de combate das ideologias de esquerda e direita, a Turquia passou pelo \u201cGolpe por Memorando\u201d, no ano de 1971, onde as For\u00e7as Armadas buscavam maior interven\u00e7\u00e3o para reestabelecer a ordem, gerando forte instabilidade interna. O \u00e1pice que marcou este per\u00edodo foi a invas\u00e3o turca ao norte do Chipre, em 1974, ap\u00f3s um governo de direita assumir na Gr\u00e9cia, o qual estimulou a\u00a0<em>Enosis<\/em>, buscando unir o Chipre \u00e0 Gr\u00e9cia (Z\u00dcRCHER, 2017; AHMAD, 1993).<\/p>\n\n\n\n<p>O per\u00edodo das d\u00e9cadas de 1960 e 1970 foi marcado por uma tens\u00e3o crescente entre a busca por maior autonomia e as limita\u00e7\u00f5es impostas pelo alinhamento ao Ocidente. A Pol\u00edtica Externa turca evidenciou problemas dom\u00e9sticos e press\u00f5es inerentes ao sistema bipolar.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a d\u00e9cada de 1980, buscando reorganizar estas tens\u00f5es dom\u00e9sticas, foi marcada por um golpe militar, liderado pelo General Kenan Evren, com o apoio dos EUA, para realinhar fortemente o pa\u00eds ao bloco Ocidental. A justificativa era recuperar a ordem interna, cada vez mais marcada pela anarquia e viol\u00eancia pol\u00edtica. A proposta era reafirmar o Kemalismo como doutrina predominante, em vista a conter ideologias de esquerda e islamistas. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1982 ampliava ainda mais o poder dos militares, que seguiam fortemente a Doutrina Carter, colocando a Turquia como um Estado-tamp\u00e3o na conten\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica (AK\u015eIN, 2010; NASSER; ROBERTO, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise de La\u00e7iner (2009) destacou que, toda vez que o Kemalismo era posto em evid\u00eancia por conta destas quest\u00f5es dom\u00e9sticas, os militares, com o apoio dos EUA, entravam em a\u00e7\u00e3o, para defender seus interesses:\u00a0<em>\u201cThe Americans even said that the Turkish military coup was no ordinary coup but a necessary intervention in politics. The ideological background of the 12 September Coup leaders also helped to improve relations. Most of the coup generals were proWestern\u201d<\/em>\u00a0(LA\u00c7INER, 2009, p. 172).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Murinson (2006), observa que o fim da Guerra Fria marcou o in\u00edcio de uma transforma\u00e7\u00e3o na Pol\u00edtica Externa turca, que vinha rigidamente alinhada ao Kemalismo por 70 anos e Kaplan (2013) destaca que a inclina\u00e7\u00e3o turca \u00e0 Europa, deixando de lado suas ra\u00edzes otomanas, \u00e9 um fator chave para entender o movimento do \u201cneo-Otomanismo\u201d, trazido, inicialmente, por Turgut \u00d6zal e, posteriormente, explorado por Erdo\u011fan.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo de \u00d6zal \u00e9 marcado por transforma\u00e7\u00f5es na Pol\u00edtica Externa. Ele observou que a Turquia estava em uma situa\u00e7\u00e3o delicada ao final da Guerra Fria, com dificuldades em se relacionar entre Leste e Oeste. Buscando inserir a Turquia no mundo capitalista, \u00d6zal buscou ampliar suas parcerias internacionais, se aproximando de pa\u00edses t\u00farquicos na \u00c1sia Central, participou ativamente do conflito de Nagorno-Karabakh (1988-1994). O seu discurso de que a Turquia n\u00e3o precisava \u201cescolher um lado\u201d, entre ser europeia ou turca (isl\u00e2mica), destacando que existiam \u201cmuitas outras civiliza\u00e7\u00f5es no mundo\u201d, foi entendido como anti-kemalista pela oposi\u00e7\u00e3o. \u00d6zal descrevia os turcos como os \u201ceuropeus isl\u00e2micos\u201d e destacava que a Turquia n\u00e3o precisava mudar sua personalidade para fazer parte da Europa. (\u00d6ZAL, 1991).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Seu governo foi interrompido por sua morte s\u00fabita e deixou as sementes para a transforma\u00e7\u00e3o que viria com Erdo\u011fan e o AKP, que ser\u00e3o analisadas a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. O Teatro Geopol\u00edtico do p\u00f3s-Guerra Fria e o nascimento do AKP<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O in\u00edcio dos anos 2000 \u00e9 marcado pela ascens\u00e3o do partido AKP ao poder. Erdo\u011fan, seu l\u00edder, havia sido prefeito de Istambul entre 1994 e 1998 e buscava solu\u00e7\u00f5es para a crise turca. O pa\u00eds passava por forte fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, por instabilidade, com colapso banc\u00e1rio, forte desvaloriza\u00e7\u00e3o da lira, aumento do desemprego e infla\u00e7\u00e3o e forte interven\u00e7\u00e3o do FMI com programas de ajustes fiscais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Anteriormente, o pa\u00eds havia passado por um golpe de Estado, que ficou conhecido como o \u201cGolpe p\u00f3s-moderno\u201d quando, em 1997, o Conselho de Seguran\u00e7a Nacional, liderado pelos militares imp\u00f4s uma s\u00e9rie de medidas ao ent\u00e3o Primeiro-Ministro, Necmettin Erbakan, cujo partido era islamista. Os militares, defendendo o secularismo Kemalista, impuseram restri\u00e7\u00f5es a escolas religiosas, vigil\u00e2ncia sobre associa\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas e realizaram press\u00f5es sobre a m\u00eddia, o judici\u00e1rio e burocracia estatal.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante deste cen\u00e1rio dom\u00e9stico, Erdo\u011fan recitava neste mesmo ano de 1997, versos de um poema amplamente conhecido, de Ziya G\u00f6kalp, que dizia: \u201cAs mesquitas s\u00e3o nossos quart\u00e9is, as c\u00fapulas nossos capacetes, os minaretes nossas baionetas e os fi\u00e9is nossos soldados\u201d. Este epis\u00f3dio marcou definitivamente a trajet\u00f3ria de Erdo\u011fan, que foi preso ap\u00f3s ser interpretado como incitador de um discurso anti-kemalista. O caso foi visto pela popula\u00e7\u00e3o como um s\u00edmbolo do autoritarismo secular e marcou a ruptura entre a ala reformista e a ala tradicional do islamismo turco.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o AKP foi criado a partir da ala reformista, vestindo-se de um partido distanciado do islamismo pol\u00edtico cl\u00e1ssico, se apresentando como conservador-democr\u00e1tico, defensor do Estado-laico e pr\u00f3-Uni\u00e3o Europeia. Essa estrat\u00e9gia foi fundamental para reduzir resist\u00eancia dos militares, agradar elites econ\u00f4micas e ganhar apoio internacional Ocidental, especialmente dos EUA e da UE.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto internacional, os EUA aplicavam a sua estrat\u00e9gia geopol\u00edtica postulada por Brzezinski e Kissinger, que seguiam a Geopol\u00edtica Cl\u00e1ssica de Mackinder (1904), colocando a Eur\u00e1sia como algo central para a seguran\u00e7a dos EUA. Em sua obra, \u201cO Grande Tabuleiro Mundial\u201d (1997), Brzezinski entendia que a \u201cPax Americana\u201d s\u00f3 poderia existir quando os EUA controlassem a Eur\u00e1sia, fundamental para a sua supremacia militar. Controlar a Eur\u00e1sia representaria um meio de se evitar a forma\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as advers\u00e1rias, protegendo assim, seus interesses, especialmente, no Oriente M\u00e9dio.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A fim de compreender a din\u00e2mica da geopol\u00edtica global, Brzezinski formulou os conceitos de \u201cEstados Geoestrat\u00e9gicos\u201d e \u201cEstados Piv\u00f4s Geopol\u00edticos\u201d, os quais se tornaram centrais para a compreens\u00e3o da geoestrat\u00e9gia global dos EUA e para a an\u00e1lise do papel desempenhado pelas diferentes na\u00e7\u00f5es na manuten\u00e7\u00e3o da ordem internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u201cEstados Geoestrat\u00e9gicos\u201d correspondem \u00e0queles pa\u00edses que disp\u00f5em de uma posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica estrat\u00e9gica, cuja localiza\u00e7\u00e3o lhes confere relev\u00e2ncia particular na estrutura do poder internacional. Devido \u00e0 essa condi\u00e7\u00e3o, tais Estados conseguem exercer influ\u00eancia significativa sobre o equil\u00edbrio de poder, tanto em \u00e2mbito regional quanto global, sendo capazes de moldar din\u00e2micas estrat\u00e9gicas mais amplas.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 os Estados \u201cPiv\u00f4s Geopol\u00edticos\u201d s\u00e3o definidos como pa\u00edses que, embora n\u00e3o detenham proje\u00e7\u00e3o global direta compar\u00e1vel \u00e0 dos Estados geoestrat\u00e9gicos, desempenham um papel crucial nas din\u00e2micas regionais. Esses Estados disfrutam do potencial de alterar equil\u00edbrios de poder em suas respectivas regi\u00f5es ou de influenciar as intera\u00e7\u00f5es entre diferentes espa\u00e7os geopol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, ambos os conceitos assumem papel fundamental na formula\u00e7\u00e3o e na aplica\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia geopol\u00edtica dos EUA no per\u00edodo analisado, ao fornecerem uma estrutura anal\u00edtica para a identifica\u00e7\u00e3o de prioridades estrat\u00e9gicas e para a orienta\u00e7\u00e3o de sua Pol\u00edtica Externa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Brzezinski entende a Turquia como um Estado Piv\u00f4, assim como Ucr\u00e2nia, Azerbaij\u00e3o, Ir\u00e3 e Coreia do Sul, justamente por sua posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica entre Europa, Oriente M\u00e9dio e \u00c1sia e seu papel na din\u00e2mica do poder eurasi\u00e1tico. N\u00e3o coincidentemente, fez quest\u00e3o de t\u00ea-la como aliada durante a Guerra Fria. Para Padula (2018): \u201cA geopol\u00edtica de conten\u00e7\u00e3o praticada pelos Estados Unidos frente \u00e0 expans\u00e3o da URSS seguiu a ideia de que a Eur\u00e1sia seria o continente basilar na disputa de poder global\u201d. Neste sentido, a estrat\u00e9gia que os EUA vinham aplicando desde o fim da Segunda Guerra Mundial, apenas ficou mais evidente, com o fim do conflito bipolar, onde os EUA se empenharam fortemente nas guerras regionais do tabuleiro do Oriente M\u00e9dio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa postura do ent\u00e3o, l\u00edder global, estimulou rea\u00e7\u00f5es das na\u00e7\u00f5es que n\u00e3o estavam dispostas a aceitar o&nbsp;<em>Status Quo<\/em>vigente e que, agora, possu\u00edam oportunidade de questionar a balan\u00e7a de poder global, devido a n\u00e3o necessidade de alinhamento, como ocorria anteriormente. Ak\u00e7ali e Perin\u00e7ek (2009) tratam do Renascimento Euroasi\u00e1tico, o qual seria uma rea\u00e7\u00e3o natural, encabe\u00e7ada pela R\u00fassia, que buscaria resgatar la\u00e7os culturais de na\u00e7\u00f5es como Turquia, o Ir\u00e3, a China, os pa\u00edses da \u00c1sia Central e, tamb\u00e9m, o Paquist\u00e3o, al\u00e9m de propor uma pol\u00edtica econ\u00f4mica ap\u00f3s entender que as press\u00f5es Ocidentais, em especial, do FMI, prejudicavam suas economias. A rea\u00e7\u00e3o, portanto, seria uma proposta de uni\u00e3o de for\u00e7as entre estes pa\u00edses, para tentar superar os desafios impostos por este sistema e pelo fim da Guerra Fria. Os l\u00edderes que v\u00eam apoiando este movimento s\u00e3o, em grande parte, os governos de direita e os ultranacionalistas, que se op\u00f5em aos movimentos de globaliza\u00e7\u00e3o dos anos 90.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 exatamente aqui, que as pol\u00edticas externa e dom\u00e9stica se conectam em nossa an\u00e1lise. Para isso, nos utilizaremos da corrente do Realismo Neocl\u00e1ssico, derivada da corrente Realista, para entendermos esse processo. Seguindo a l\u00f3gica da corrente realista, os autores do Realismo Neocl\u00e1ssico, Ripsman, Taliaferro e Lobell (2016), assumem que a seguran\u00e7a \u00e9 o objetivo final na esfera internacional. Para atingi-la, os Estados vir a perseguir alian\u00e7as, ou seja, atrair outros Estados, assim como vimos com o \u201crenascimento euroasi\u00e1tico\u201d. Ao mesmo tempo, os autores desta corrente entendem que a pol\u00edtica dom\u00e9stica, ou seja, quest\u00f5es internas, influenciam na forma como um Estado se comporta no ambiente internacional.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, essa corrente te\u00f3rica considera sim, que o ambiente internacional molda o comportamento dos Estados, mas ao mesmo tempo, como quest\u00f5es dom\u00e9sticas influenciam igualmente, os autores desta teoria buscam entender como os Estados mobilizam os recursos necess\u00e1rios para perseguir suas pol\u00edticas de seguran\u00e7a desejadas e quanto poder os atores dom\u00e9sticos possuem quando os Estados buscam mobilizar estes recursos, de diferentes setores da sociedade. Al\u00e9m disso, buscam entender, como os Estados buscam extrair estes recursos? Sob quais circunst\u00e2ncias os Estados v\u00e3o criar institui\u00e7\u00f5es militares inteiramente novas, meios de agir e tecnologias, em um esfor\u00e7o de conseguir vantagens de Estados rivais? A resposta, segundo esta corrente te\u00f3rica, sugere que o poder do Estado, ou seja, a habilidade relativa deste Estado em extrair ou mobilizar recursos da sua sociedade, seja atrav\u00e9s de suas institui\u00e7\u00f5es, do nacionalismo ou de suas ideologias, influenciam e moldam os tipos de estrat\u00e9gia de balanceamento interno que um Estado \u00e9 suscet\u00edvel a perseguir (RIPSMAN; TALIAFERRO; LOBELL, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, o processo dom\u00e9stico pelo qual a Turquia passava, conforme visto anteriormente, consequente das disputas dom\u00e9sticas entre militares e reformistas, entre Kemalistas e neo-Otomanistas, entre nacionalistas e entreguistas (alinhados ao Ocidente), moldaram a forma como a Turquia passaria a se portar no Sistema Internacional, especialmente ap\u00f3s o fim da necessidade de alinhamento, o que deu aos pa\u00edses, maior liberdade de atua\u00e7\u00e3o e autonomia com rela\u00e7\u00e3o aos seus objetivos nacionais.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, vimos a cria\u00e7\u00e3o do partido reformista do AKP, como uma rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente aos excessos dos militares, que controlavam a pol\u00edtica da Turquia h\u00e1 d\u00e9cadas, como tamb\u00e9m, uma busca por reduzir a influ\u00eancia de Estados de fora, na pol\u00edtica da Turquia, dentro de uma estrat\u00e9gia de \u201cagradar a todos\u201d, tal como a Diplomacia Pendular, estudada por Stanley Hilton (1975).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o autor, o pa\u00eds que pratica a Diplomacia Pendular, alterna seus posicionamentos entre dois lados de press\u00f5es opostas, buscando tirar vantagens para suas pr\u00f3prias estrat\u00e9gias nacionais. Assim, ao mesmo tempo em que Erdo\u011fan e o AKP buscavam o objetivo de se emancipar e recuperar a soberania turca, buscavam manter boas rela\u00e7\u00f5es com o Ocidente, se apresentando de forma mais cautelosa e pouco chamativa, com o objetivo de conquistar o espa\u00e7o e poder necess\u00e1rios para come\u00e7ar a colocar em pr\u00e1tica, os projetos nacionalistas turcos, que colocariam limites nas rela\u00e7\u00f5es deste pa\u00eds com o Ocidente, rompendo com o padr\u00e3o de alinhamento autom\u00e1tico, praticado entre 1923 e 1990.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. A atua\u00e7\u00e3o da Turquia de Erdo\u011fan do cen\u00e1rio internacional: do revisionismo \u00e0 lideran\u00e7a regional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como vimos, o AKP surgiu de um contexto de crise dom\u00e9stica na Turquia, no in\u00edcio dos anos 2000. Fundado por Erdo\u011fan e Abdulah G\u00fcl, o partido venceu as elei\u00e7\u00f5es de 2002, com maioria absoluta e, assim, Erdo\u011fan assumiu como Primeiro-Ministro em 2003, dando in\u00edcio ao longo ciclo de hegemonia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>O per\u00edodo entre 2002 e 2007 foi marcado por uma esp\u00e9cie de \u201cocidentalismo pragm\u00e1tico\u201d, com o objetivo de conquistar legitimidade dom\u00e9stica e externa. Uma tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o com a Uni\u00e3o Europeia (EU) ficou evidente. A abertura formal das negocia\u00e7\u00f5es de ades\u00e3o \u00e0 EU se iniciou em 2005. Al\u00e9m disso, direitos civis foram pauta do governo, somados \u00e0 busca pela redu\u00e7\u00e3o do poder dos militares. O alinhamento com a OTAN e com os EUA marcaram uma fase de calmaria na Pol\u00edtica Externa turca, com o objetivo de garantir a consolida\u00e7\u00e3o interna, necess\u00e1ria ao partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Os anos de 2008 a 2011, foram marcados pela pol\u00edtica de Davuto\u011flu, de \u201czero problemas com os vizinhos\u201d, havendo boas rela\u00e7\u00f5es com S\u00edria, Ir\u00e3, Iraque e R\u00fassia. O per\u00edodo foi marcado por diplomacia econ\u00f4mica, pelo\u00a0<em>Soft Power<\/em>e pela media\u00e7\u00e3o regional.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 ap\u00f3s a eclos\u00e3o da Primavera \u00c1rabe, o intervalo entre 2011 e 2016 foi marcado pelo in\u00edcio de uma ruptura com a fase anterior, onde Erdo\u011fan come\u00e7ou a demonstrar apoio expl\u00edcito \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana, tirando o car\u00e1ter secularista que marcou o in\u00edcio do governo do AKP. Erdo\u011fan tamb\u00e9m rompeu o apoio a Assad e as rela\u00e7\u00f5es com Egito, Israel e Ar\u00e1bia Saudita come\u00e7aram a demonstrar sinais de desgaste, colapsando com a ideia de \u201czero problemas com os vizinhos\u201d, de Davuto\u011flu. Aqui, a Pol\u00edtica Externa turca se torna mais intervencionista.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Com a tentativa de Golpe de Estado no ano de 2016, o per\u00edodo que se estendeu entre este ano e 2020, foi marcado pela prioridade absoluta \u00e0 seguran\u00e7a do regime. A tentativa de golpe contava com dez mil homens, 35 avi\u00f5es, 37 helic\u00f3pteros, 246 blindados e 3 navios, evidenciando uma forte organiza\u00e7\u00e3o e preparo. Durante cerca de duas horas, os militares tomaram as principais partes de Istambul e Ankara, anunciando o novo governo. A rea\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ao golpe foi convocada por Erdo\u011fan, pelo Facetime e, logo ap\u00f3s, milhares de pessoas se colocaram nas ruas para impedir o avan\u00e7o das tropas. A rea\u00e7\u00e3o contra os manifestantes foi violenta e, logo ap\u00f3s, o Parlamento Nacional e o Pal\u00e1cio Presidencial foram bombardeados (ESEN; G\u00dcM\u00dc\u015e\u00c7\u00dc, 2017).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Como vimos, as rela\u00e7\u00f5es entre Erdo\u011fan e o Ex\u00e9rcito turco, nunca foram f\u00e1ceis. Erdo\u011fan se elegeu buscando conter o poder dos militares, que tanto marcaram a hist\u00f3ria da Turquia, com autoritarismos e golpes em defesa do Kemalismo. A ocasi\u00e3o n\u00e3o representava um fato novo ou inesperado para os turcos, representando o sexto golpe de Estado no pa\u00eds. Os anteriores foram nos anos de 1960, 1971, 1980 e 1997. Assim, mais uma vez, o golpe foi planejado por tropas de ponta do ex\u00e9rcito turco nas For\u00e7as de Interven\u00e7\u00e3o R\u00e1pida da OTAN, que eram as mesmas tropas que combatiam no Afeganist\u00e3o sob o comando de John F. Campbell. Dessa forma, temos que seria muito pouco prov\u00e1vel que ocorressem movimenta\u00e7\u00f5es sem a autoriza\u00e7\u00e3o ou o conhecimento dos EUA. Ainda assim, os EUA, que j\u00e1 haviam apoiado golpes militares em outras ocasi\u00f5es na Turquia, disseram n\u00e3o saber dos avi\u00f5es cisternas que decolaram da base a\u00e9rea de Incirlik (base turco-estadunidense), que abasteceram os ca\u00e7as a servi\u00e7o do golpe (MAESTRI, 2016)<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a rea\u00e7\u00e3o do governo de Erdo\u011fan foi r\u00e1pida e forte, com pris\u00f5es em poucas horas e uma lista de nomes daqueles que teriam participado do golpe. Cerca de 250 pessoas morreram e a pol\u00edtica passou a ser tratada como\u00a0quest\u00e3o de seguran\u00e7a onde a oposi\u00e7\u00e3o passou a ser tratada como um risco em potencial. O pa\u00eds entrou em Estado de Emerg\u00eancia, com decretos presidenciais e uma concentra\u00e7\u00e3o extrema de poder no Executivo. Como consequ\u00eancias, houve uma mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico no ano seguinte, em 2017, quando o sistema mudou de parlamentarista para presidencialista, atrav\u00e9s de um referendo. Isso afetou diretamente a desconfian\u00e7a com o Ocidente, levando \u00e0 uma aproxima\u00e7\u00e3o com a R\u00fassia e, ao mesmo tempo, levantando a ret\u00f3rica sobre a retomada da soberania turca (Ibid).<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo ano de 2017, a Turquia assinou o contrato de compra do sistema de m\u00edsseis anti-a\u00e9reos com a R\u00fassia onde a entrega come\u00e7ou a ocorrer em 2019. A rea\u00e7\u00e3o turca \u00e0 tentativa de golpe foi demonstra \u00e0 OTAN que a Turquia poderia n\u00e3o romper com a alian\u00e7a, mas que poderia buscar novas alternativas. Foi uma sinaliza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para a OTAN, de que a Turquia tinha novas possibilidades de parceria. Aqui, temos um claro exemplo de\u00a0<em>Hedging<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Hedging<\/em>\u00a0\u00e9 uma estrat\u00e9gia intermedi\u00e1ria adotada por Estados que n\u00e3o querem nem se alinhar completamente (<em>bandwagoning<\/em>) nem confrontar abertamente (<em>balancing<\/em>) uma grande pot\u00eancia. O objetivo \u00e9 reduzir riscos diante da incerteza sobre as inten\u00e7\u00f5es futuras das grandes pot\u00eancias, sobre a estabilidade do sistema internacional ou sobre a credibilidade de alian\u00e7as existentes. Neste caso, o Estado mant\u00e9m op\u00e7\u00f5es abertas, diversifica parcerias e evita apostas definitivas (GOH, 2005;\u00a0CHENG-CHWEE, 2016)<strong>.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A compra dos S-400 da R\u00fassia representou o momento mais cr\u00edtico entre a Turquia e a OTAN, desde a crise no Chipre, na d\u00e9cada de 1970. A partir deste momento, a Turquia foi impedida de participar do programa dos F-35 e sofreu as consequ\u00eancias de n\u00e3o poder vender as pe\u00e7as que produzia para esses ca\u00e7as. Perder contratos bilion\u00e1rios com empresas de outros pa\u00edses da OTAN prejudicou a sua economia. Al\u00e9m disso, sofreu san\u00e7\u00f5es dos EUA. Respaldados pela lei chamada CAATSA (<em>Countering America\u2019s Adversaries Through Sanctions Act<\/em>), os EUA aplicaram san\u00e7\u00f5es \u00e0 Turquia com base na se\u00e7\u00e3o 231, que prejudicaram a sua ind\u00fastria nacional de defesa. Contudo, \u00e9 importante destacar que a decis\u00e3o de comprar materiais b\u00e9licos da R\u00fassia n\u00e3o foi uma atitude impensada, pois pode ser entendida como a estrat\u00e9gica de<em>\u00a0Hedging<\/em>, reconhecida por autores das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e apresentada anteriormente, como forma de tentar um reequil\u00edbrio ap\u00f3s o golpe de 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>Importante destacar que a Turquia j\u00e1 vinha com alternativas de parcerias que n\u00e3o somente as Ocidentais, conforme visto na sess\u00e3o dois, reduzindo os impactos das consequ\u00eancias da compra dos S-400 da R\u00fassia. Desde \u00d6zal, a Pol\u00edtica Externa turca vinha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias, conforme veremos a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2012, t\u00e3o logo as negocia\u00e7\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia foram travadas, a Turquia se aproximou da Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai (SCO) como parceira de di\u00e1logo, buscando autonomia estrat\u00e9gica.\u00a0Erdo\u011fan\u00a0muitas vezes se referia ao grupo Oriental como uma alternativa \u00e0 EU.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados T\u00farquicos, iniciada na d\u00e9cada de 1990, teve mais um passo em 2009, quando houve a cria\u00e7\u00e3o de um Conselho T\u00farquico, composto por Turquia, Azerbaij\u00e3o,<strong>\u00a0<\/strong>Cazaquist\u00e3o, Quirguist\u00e3o. Este conselho evoluiria no ano de 2021 para a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados T\u00farquicos (OET), ap\u00f3s o conflito em Nagorno-Karabakh, ocorrido em 2020. Essa organiza\u00e7\u00e3o conta com coopera\u00e7\u00e3o cultural, lingu\u00edstica, econ\u00f4mica, de infraestrutura, de seguran\u00e7a leve, mas n\u00e3o comp\u00f5e uma alian\u00e7a militar formal. Entretanto, representa-se como parte de uma importante estrat\u00e9gia geopol\u00edtica turca.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a sua aproxima\u00e7\u00e3o com o mundo isl\u00e2mico, esta se torna mais evidente no ano de 2016, quando Erdo\u011fan assumiu a presid\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o da Coopera\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica (OCI), em abril deste ano. A Turquia \u00e9 membro fundador desta organiza\u00e7\u00e3o, existente desde 1969 a qual era mais reconhecida como um f\u00f3rum simb\u00f3lico do que uma plataforma estrat\u00e9gica. Neste momento, entre a cria\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o at\u00e9 os anos 2000, a Turquia apenas participava, sem fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a. J\u00e1 em 2004, Istambul sediou a C\u00fapula da OCI dando sinais de que, mesmo pertencente \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o militar ocidental e mesmo buscando aproxima\u00e7\u00e3o com a EU, ainda era mu\u00e7ulmana. Em 2005, o turco Ekmeleddin \u0130hsano\u011flu foi eleito Secret\u00e1rio-Geral, tendo seu mandato at\u00e9 o ano de 2014. Com isso, a Turquia institucionalizou o seu papel na organiza\u00e7\u00e3o. Neste per\u00edodo, a Turquia assumia o papel de ponte entre o Isl\u00e3 e o Ocidente. Como consequ\u00eancia, Erdo\u011fan assumiu a presid\u00eancia, no contexto de Primavera \u00c1rabe, onde a Turquia buscava j\u00e1 exercer o seu papel de lideran\u00e7a no mundo isl\u00e2mico, tal como o Imp\u00e9rio Turco-Otomano representou um dia. Cerca de 3 meses depois, a Turquia sofreu a tentativa de golpe e ent\u00e3o, Erdo\u011fan assumiu um discurso mais assertivo, colocando-se ativamente sobre Israel e Palestinos, sobre a Islamofobia e sobre a quest\u00e3o de Jerusal\u00e9m.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O apoio dos pa\u00edses \u00e1rabes \u00e0 Turquia foi importante na situa\u00e7\u00e3o do golpe, pois evidenciou que Erdo\u011fan n\u00e3o estava isolado. Ele representava a lideran\u00e7a leg\u00edtima do mundo isl\u00e2mico e, assim, muitos pa\u00edses da OCI reconheceram rapidamente o governo Erdo\u011fan ap\u00f3s o golpe. A OCI j\u00e1 representava uma plataforma pol\u00edtica e n\u00e3o s\u00f3, diplom\u00e1tica, como anteriormente. Aqui, mais uma vez, a Turquia demonstrava que n\u00e3o dependia do Ocidente para sobreviver, ampliando e diversificando suas parcerias com R\u00fassia, China, com Estados T\u00farquicos e com o mundo isl\u00e2mico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a Turquia vem investindo em se tornar um importante ator da geopol\u00edtica energ\u00e9tica, em busca de autossufici\u00eancia e, tamb\u00e9m, de melhorar suas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e retomar sua autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente. Na p\u00e1gina do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da Turquia<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, encontramos como parte principal da sua estrat\u00e9gia geopol\u00edtica, se tornar um grande produtor e exportador de energia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No ano de 2018, a Turquia rejeitou o acordo de demarca\u00e7\u00e3o mar\u00edtima entre Chipre e Egito, realizado em 2003. A Turquia buscava, ent\u00e3o, o direito de explorar as reservas de g\u00e1s descobertas no Chipre em 2011, especialmente, no ano de 2018, quando foi descoberto o campo Calypso, ainda maior do que o anterior, chamado Afrodite (OLIVEIRA, 2025).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 9 de fevereiro de 2018, a Marinha turca bloqueou um navio de perfura\u00e7\u00e3o operado pela empresa italiana Eni, licenciado pela Rep\u00fablica de Chipre, que estava operando em blocos que Nic\u00f3sia considera parte de sua Zona Econ\u00f4mica Exclusiva (ZEE). E assim, em maio de 2019, a Turquia iniciou o envio de navios de perfura\u00e7\u00e3o, operando sob licen\u00e7as concedidas pela Rep\u00fablica Turca do Chipre do Norte, reconhecida somente pela Turquia, desde a Quest\u00e3o do Chipre, na d\u00e9cada de 1970. A situa\u00e7\u00e3o foi ficando cada vez mais tensa e, em 2020, quase houve um conflito b\u00e9lico entre Gr\u00e9cia e Turquia (MARQUES, 2020).&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa envolveu inclusive amea\u00e7as de san\u00e7\u00f5es pela UE e mobiliza\u00e7\u00e3o de fragatas e aeronaves, em particular vindas da Fran\u00e7a, em apoio \u00e0 Gr\u00e9cia e a Chipre. A possibilidade de um combate naval nesta ocasi\u00e3o foi muito evidente e foi o momento mais cr\u00edtico entre a Turquia e a Europa\/OTAN, em toda a hist\u00f3ria comum entre os atores.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da quest\u00e3o cipriota, a Turquia tamb\u00e9m contesta a configura\u00e7\u00e3o territorial do Mar Egeu, cujas ilhas ficaram, majoritariamente, sob soberania grega a partir dos tratados firmados no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Gradualmente, Erdo\u011fan passou a questionar a validade e a interpreta\u00e7\u00e3o desses acordos, defendendo a necessidade de sua revis\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, em 2018, o ent\u00e3o Ministro da Defesa da Turquia, Hulusi Akar, apresentou publicamente o conceito de Blue Homeland (Mavi Vatan), referente a uma extensa \u00e1rea mar\u00edtima considerada de interesse estrat\u00e9gico turco, abrangendo aproximadamente 462.000 km\u00b2 no Mar Egeu, no Mediterr\u00e2neo Oriental, no Mar Negro e nas \u00e1guas adjacentes a Chipre. At\u00e9 ent\u00e3o, o termo era empregado predominantemente no \u00e2mbito da Marinha turca, em estudos geopol\u00edticos e an\u00e1lises especializadas, sem assumir o car\u00e1ter de uma doutrina estatal formal de proje\u00e7\u00e3o de poder. A partir de 2018, contudo, o conceito passou a ser incorporado ao discurso oficial e \u00e0 estrat\u00e9gia governamental turca, adquirindo maior centralidade na pol\u00edtica externa e de defesa do pa\u00eds (KOKKINIDIS, 2022).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse posicionamento consolidou-se com a assinatura, no ano de 2019, do Memorando de Entendimento entre a Turquia e o Governo de Acordo Nacional da L\u00edbia, referente \u00e0 delimita\u00e7\u00e3o mar\u00edtima e \u00e0 navegabilidade no Mediterr\u00e2neo Oriental. O acordo estabeleceu uma linha de delimita\u00e7\u00e3o da plataforma continental e da Zona Econ\u00f4mica Exclusiva (ZEE) entre os dois pa\u00edses, abrangendo aproximadamente 18,6 milhas n\u00e1uticas<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora Ancara sustente que o memorando esteja em conformidade com os princ\u00edpios da Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), o acordo foi amplamente contestado e condenado por diversos atores internacionais, incluindo Gr\u00e9cia, Egito, R\u00fassia, Estados Unidos, Uni\u00e3o Europeia e Israel. No texto do memorando, a Turquia argumenta que ilhas localizadas no lado oposto da linha mediana entre dois continentes n\u00e3o podem gerar jurisdi\u00e7\u00e3o mar\u00edtima plena, defendendo a primazia do princ\u00edpio da equidade na delimita\u00e7\u00e3o mar\u00edtima, bem como a considera\u00e7\u00e3o proporcional do comprimento das linhas costeiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nesse entendimento, Ancara sustenta que, por possuir a maior costa continental do Mediterr\u00e2neo Oriental, as ilhas gregas e a fachada ocidental de Chipre n\u00e3o deveriam produzir direitos mar\u00edtimos al\u00e9m do limite das \u00e1guas territoriais, n\u00e3o sendo, portanto, pass\u00edveis de gerar ZEE ou plataforma continental pr\u00f3pria (MOU, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Todas estas quest\u00f5es marcaram um distanciamento entre Turquia e EU, abalando o equil\u00edbrio da OTAN, onde pot\u00eancias amigas dentro da alian\u00e7a, entraram em disputa de interesses. Neste cen\u00e1rio, Erdo\u011fan deixou claro que poderia contestar quest\u00f5es hist\u00f3ricas com seus vizinhos, mesmo fazendo parte da OTAN, demonstrando capacidade de autonomia e decis\u00e3o, em contraste com os governos anteriores, que atuavam em alinhamento autom\u00e1tico com o Ocidente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como ator geopol\u00edtico atuante, o pa\u00eds vem se destacando em conflitos internacionais, como o da S\u00edria, de Nagorno-Karabakh e na Ucr\u00e2nia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na S\u00edria, Erdo\u011fan se posicionou de modo a proteger a fronteira com a Turquia, colocando os Curdos que lutavam contra o Estado Isl\u00e2mico (ISIS), apoiados pelos EUA, como terroristas, uma vez que estes poderiam buscar criar uma regi\u00e3o aut\u00f4noma, devido ao v\u00e1cuo de poder na S\u00edria. Al\u00e9m disso, realizou opera\u00e7\u00f5es militares oficiais, especialmente ap\u00f3s 2016, como a Opera\u00e7\u00e3o Escudo do Eufrates, que durou at\u00e9 2017. Nessa opera\u00e7\u00e3o, a S\u00edria buscou proteger territ\u00f3rios sob influ\u00eancia dos Curdos e expulsar o ISIS. Na opera\u00e7\u00e3o, usou tanques Leopard 2A4, artilharia pesada, for\u00e7as especiais e avia\u00e7\u00e3o t\u00e1tica. J\u00e1 em 2018, na Opera\u00e7\u00e3o Ramo de Oliveira, al\u00e9m da for\u00e7a b\u00e9lica utilizada na opera\u00e7\u00e3o anterior, a Turquia passou a colocar em cena seus drones, que ficaram famosos na quest\u00e3o de Nagorno-Karabakh. Nesta opera\u00e7\u00e3o, a Turquia ocupou Afrin, expulsando os Curdos. Em 2019, na Opera\u00e7\u00e3o Fonte da Paz, logo ap\u00f3s a retirada dos EUA do norte da S\u00edria, a Turquia criou uma zona de seguran\u00e7a, com o objetivo de afastar a Unidade de Prote\u00e7\u00e3o Popular (YPG), dos Curdos, da fronteira. Essa opera\u00e7\u00e3o consolidou a revolu\u00e7\u00e3o turca na guerra com drones, ao se utilizar massivamente dos drones Bayraktar TB2. Desde 2019, a Turquia segue com opera\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas em Idlib (HOVSEPYAN; MANUKYAN, 2022).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, temos que a guerra proxy na S\u00edria, serviu de palco para a Turquia colocar em pr\u00e1tica a sua artilharia. Drones armados, como o Bayraktar TB2 e o Anka-S, foram utilizados fortemente. Al\u00e9m disso, ca\u00e7as F-16; tanques Leopard; artilharia autopropulsada; sistemas de guerra eletr\u00f4nica e for\u00e7as especiais, foram utilizados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Nagorno-Karabakh, em 2020, a Turquia n\u00e3o atuou diretamente, mas foi a principal patrocinadora militar, tecnol\u00f3gica, pol\u00edtica e estrat\u00e9gica do Azerbaij\u00e3o. Com o conflito congelado desde 1994, no ano de 2020, a Turquia entrou como aliado estrat\u00e9gico do Azerbaij\u00e3o, fornecendo os drones Bayraktar TB2, sistemas de comando, controle e intelig\u00eancia, al\u00e9m de treinamento militar pr\u00e9vio \u00e0s for\u00e7as azeris e assessoria t\u00e1tica\/doutrin\u00e1ria. Seus drones foram centrais para destruir tanques arm\u00eanios, neutralizar artilharia e eliminar defesas antia\u00e9reas, mudando completamente o equil\u00edbrio do campo de batalha. Os treinamentos com o Azerbaij\u00e3o j\u00e1 haviam sido iniciados mesmo antes da eclos\u00e3o do conflito. Quando houve a eclos\u00e3o, Erdo\u011fan anunciou apoio ao Azerbaij\u00e3o de maneira expl\u00edcita, rejeitando qualquer neutralidade. Isso fez resgatar quest\u00f5es hist\u00f3ricas com os arm\u00eanios, que foram mortos pelos turcos no passado, no epis\u00f3dio conhecido como \u201cGenoc\u00eddio Arm\u00eanio\u201d, n\u00e3o reconhecido pela Turquia at\u00e9 hoje. A participa\u00e7\u00e3o da Turquia neste conflito foi essencial para a vit\u00f3ria do Azerbaij\u00e3o, que reconquistou Shusha e grandes \u00e1reas ao redor de Nagorno-Karabakh (KINIK; \u00c7ELIK, 2021).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado para a Turquia foi uma forte propaganda internacional dos drones turcos, servindo como uma prova da sua proje\u00e7\u00e3o de poder sem tropas e como uma consolida\u00e7\u00e3o da Turquia como um forte ator militar no C\u00e1ucaso. Assim, com este conflito, os drones turcos ganharam mercado global e Ancara passou a ser vista como pot\u00eancia militar tecnol\u00f3gica intermedi\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante ressaltar que a Turquia representa a segunda maior for\u00e7a militar da OTAN, em termos de pessoal<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, e a 4\u00aa maior for\u00e7a militar da alian\u00e7a<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. O investimento feito pelo Ocidente neste pa\u00eds, o colocou como um forte ator militar, al\u00e9m de ter aumentado os investimentos turcos em ind\u00fastria de defesa. Isso transformou a Turquia em uma forte pot\u00eancia militar que, junto ao reconhecimento da sua for\u00e7a geopol\u00edtica, vem transformando a Turquia em um ator central, que vem atuando de maneira cada vez mais aut\u00f4noma, conforme podemos perceber, nas atua\u00e7\u00f5es internacionais, como o acordo feito com a UE, em 2016, sobre os Refugiados, deixando claro que a rela\u00e7\u00e3o entre ambos \u00e9 codependente, mesmo que a Turquia nunca se torne membro da uni\u00e3o (MARQUES, 2016). Ou nos vetos que Erdo\u011fan fez \u00e0 entrada da Finl\u00e2ndia e da Su\u00e9cia na OTAN, devido a embates diplom\u00e1ticos entre a Turquia e esses pa\u00edses (REUTERS, 2023)<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao conflito na Ucr\u00e2nia, a Turquia mostrou que n\u00e3o se manteria neutra, ao mesmo tempo em que n\u00e3o se alinharia com nenhum dos lados, demonstrando novamente, capacidade aut\u00f4noma de atua\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio internacional. Ao mesmo tempo em que n\u00e3o reconheceu a anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia pela R\u00fassia em 2014, n\u00e3o aderiu \u00e0s san\u00e7\u00f5es internacionais contra a R\u00fassia. Ao mesmo tempo em que fornece armamentos \u00e0 Ucr\u00e2nia, mant\u00e9m di\u00e1logos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e energ\u00e9ticos com Moscou. Ao mesmo tempo em que os drones turcos tamb\u00e9m participaram no conflito, para destruir blindados russos, Ancara n\u00e3o fechou o espa\u00e7o a\u00e9reo russo, manteve o com\u00e9rcio bilateral, Erdo\u011fan manteve contato direto com Putin e se manteve como um hub para transa\u00e7\u00f5es e para o turismo na R\u00fassia (\u00d6NI\u015e; ULUYOL, 2024).<\/p>\n\n\n\n<p>Esta atua\u00e7\u00e3o \u00e9 permitida e tolerada por Moscou, dado o poder estrat\u00e9gico da Turquia, que controla os Estreitos de B\u00f3sforo e Dardanelos, controlando a sa\u00edda russa para o Mediterr\u00e2neo e, tamb\u00e9m, pela parceria energ\u00e9tica entre ambas. \u00c9 importante destacar que o gasoduto&nbsp;<em>Turkstream<\/em>, entre Turquia e R\u00fassia, foi inaugurado em 2020, pouco antes da eclos\u00e3o do conflito na Ucr\u00e2nia, ap\u00f3s 3 anos de obras e de um custo de US$ 8 bilh\u00f5es. O gasoduto \u00e9 essencial para a economia russa. Em 2024, a estatal russa, Gazprom, reportou um lucro l\u00edquido consolidado de US$ 14,8 bilh\u00f5es (1,2 trilh\u00e3o de rublos), algo que foi essencial para a recupera\u00e7\u00e3o russa de um preju\u00edzo recorde no ano anterior (REUTERS, 2025)<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. Temos assim, que o&nbsp;<em>Turkstream<\/em>&nbsp;foi crucial que a R\u00fassia pudesse manter o fluxo para o mercado europeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Como visto anteriormente, a aproxima\u00e7\u00e3o entre as pot\u00eancias euroasi\u00e1ticas \u00e9 um movimento reconhecido como parte de um projeto revisionista, onde a colabora\u00e7\u00e3o entre estas serviria como um facilitador na tentativa de recupera\u00e7\u00e3o dos seus pap\u00e9is estrat\u00e9gicos e hist\u00f3ricos, enquanto grandes pot\u00eancias regionais e globais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme abordado ao longo deste artigo, temos que a Pol\u00edtica Externa turca diante da atua\u00e7\u00e3o de Erdo\u011fan e do seu partido, o AKP, vem dando sinais de que o pa\u00eds est\u00e1 se posicionando internacionalmente de maneira cada vez mais forte e aut\u00f4noma, diferentemente dos governos anteriores, que mantinham um alinhamento autom\u00e1tico com a OTAN e com os EUA, conseguindo atuar em v\u00e1rios cen\u00e1rios, mantendo sua autonomia, sem criar inimizades com nenhum pa\u00eds e sem se isolar diplomaticamente. Isso se deve, em grande parte, pela sua import\u00e2ncia geogr\u00e1fica e geopol\u00edtica, que lhe d\u00e1 poderes de barganha com diversos atores que a cercam. Importante destacar que a Turquia conta com a maior costa do Mediterr\u00e2neo, com o dom\u00ednio dos Estreitos, que garantem a sa\u00edda do Mar Negro para as \u00e1guas quentes e, al\u00e9m disso, conta com a maior economia do Oriente M\u00e9dio, maior ainda, que a economia de Israel.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Dado isto, o pa\u00eds segue ativamente a estrat\u00e9gia de se tornar uma pot\u00eancia energ\u00e9tica. No ano de 2020, Erdo\u011fan anunciou a maior descoberta de g\u00e1s realizada no Mar Negro, at\u00e9 ent\u00e3o. Com o navio de perfura\u00e7\u00e3o chamado\u00a0<em>Fatih<\/em>, Erdo\u011fan deixa clara a inten\u00e7\u00e3o de se recuperar a for\u00e7a turca. Isso porque\u00a0<em>Fatih<\/em>\u00a0\u00e9 uma refer\u00eancia a Maom\u00e9, o Conquistador, o Sult\u00e3o otomano que tomou Constantinopla, em 1453. A descoberta do campo de Sakarya, em 2020, j\u00e1 eram promissoras (\u00d6ZERTEM, 2020). Em maio de 2025, Erdo\u011fan anunciou uma nova descoberta, com cerca de 75 bilh\u00f5es de metros c\u00fabicos (bcm), no po\u00e7o Goktepe-3, com valor econ\u00f4mico estimado em US$ 30 bilh\u00f5es. Assim, as reservas totais descobertas, somadas \u00e0s de 2020, equivalem a, aproximadamente, 710 a 785 bcm<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Com isto, a Turquia poder\u00e1 reduzir a sua depend\u00eancia de importa\u00e7\u00e3o de energia e poder\u00e1 se tornar um ator mais forte em termos de exporta\u00e7\u00e3o e obten\u00e7\u00e3o de lucros, mudando sua condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e fortalecendo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta mesma dire\u00e7\u00e3o, Erdo\u011fan est\u00e1 desenvolvendo o projeto da cria\u00e7\u00e3o do Canal de Istambul. Com o planejamento iniciado em 2011, somente em 2021 que houve a cerim\u00f4nia de in\u00edcio simb\u00f3lico da obra. A previs\u00e3o seria de que ficaria pronto em 7 anos (OZGUR KIRCA; MUTLU SUMER, 2025). At\u00e9 o ano de 2025, a infraestrutura associada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do canal vem sendo executada, como a constru\u00e7\u00e3o de pontes e estradas de acesso, como a importante Sazl\u0131dere Bridge, que conta com pilares de cerca de 90 metros de altura. Tamb\u00e9m est\u00e3o sendo desenvolvidos ao longo da rota, centros urbanos, como conjuntos habitacionais e obras p\u00fablicas). A escava\u00e7\u00e3o do canal em si ainda n\u00e3o come\u00e7ou de forma significativa<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir deste canal, Erdo\u011fan busca ampliar o controle estrat\u00e9gico da Turquia sobre a rota entre Mar Negro e Mediterr\u00e2neo, sem tocar na Conven\u00e7\u00e3o de Montreux, de 1936. Com o novo canal, a Turquia ganharia uma via alternativa, que n\u00e3o est\u00e1 submetida \u00e0 conven\u00e7\u00e3o. A Turquia poderia cobrar pela passagem de navios, o que poderia contribuir com a economia turca, que sofre com infla\u00e7\u00e3o e desvaloriza\u00e7\u00e3o de c\u00e2mbio. O canal poderia dar mais poder de barganha para a Turquia nas suas rela\u00e7\u00f5es com OTAN e R\u00fassia, reduzindo suas vulnerabilidades estruturais e ampliando suas op\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas, atrav\u00e9s da diminui\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia de um \u00fanico\u00a0<em>Chokepoint<\/em>\u00a0(no caso, os Estreitos turcos), refor\u00e7ando o papel da Turquia como um ator de peso mar\u00edtimo e aumentando o seu valor sist\u00eamico para grandes pot\u00eancias. Erdo\u011fan apresenta o projeto como um s\u00edmbolo da \u201cNova Turquia\u201d, como uma propaganda otimista de futuro para o pa\u00eds<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa propaganda refor\u00e7a a narrativa de grandeza nacional, al\u00e9m de deixar um marco f\u00edsico duradouro do seu governo. O projeto, assim, seria s\u00edmbolo de um legado, e n\u00e3o apenas, de um governo. Em termos geopol\u00edticos, o canal redefine o mapa urbano de Istambul, criando novas zonas imobili\u00e1rias e deslocando centros populacionais. Isso representa muito mais do que um projeto para salvar a economia turca, mas sim, uma redefini\u00e7\u00e3o da infraestrutura do pa\u00eds, atrav\u00e9s da engenharia social e pol\u00edtica, gerando capital pol\u00edtico, redistribuindo poder econ\u00f4mico e fortalecendo redes pr\u00f3ximas ao governo. Em suma, o projeto do canal evidencia que Erdo\u011fan est\u00e1 colocando a Turquia para agir como uma pot\u00eancia regional aut\u00f4noma, que n\u00e3o aceita os limites impostos pelo\u00a0<em>Status Quo<\/em>, transformando seu territ\u00f3rio estrategicamente a seu favor.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, como vimos anteriormente, a Turquia vem se apresentando como l\u00edder no mundo mu\u00e7ulmano<a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>\u00a0e isso a coloca em disputa de influ\u00eancia com Ir\u00e3 e Ar\u00e1bia Saudita, uma vez que a Turquia representa o Califado Otomano e a Ar\u00e1bia Saudita representa as cidades sagradas de Meca e Medina. Assim, a Turquia representaria uma esp\u00e9cie de competidora pela lideran\u00e7a sunita e, ao mesmo tempo, um desafio ao Ir\u00e3 xiita. Por\u00e9m, ainda assim, h\u00e1 uma boa conviv\u00eancia entre a Turquia e seus vizinhos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo se prop\u00f4s a analisar a trajet\u00f3ria da Pol\u00edtica Externa turca desde a funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica at\u00e9 os dias atuais, com foco especial na era de Recep Tayyip Erdo\u011fan (2003-2025), a fim de analisar a progress\u00e3o das mudan\u00e7as que narraram a transforma\u00e7\u00e3o de uma Turquia Kemalista para uma Turquia neo-Otomanista\/Erdoganista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da pesquisa, conseguimos evidenciar um processo de transforma\u00e7\u00e3o profunda, marcado pela passagem de um alinhamento quase autom\u00e1tico com o Ocidente para uma postura cada vez mais assertiva, aut\u00f4noma e multifacetada, que reposicionou a Turquia como um ator geopol\u00edtico central e revisionista no tabuleiro internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>As ra\u00edzes dessa mudan\u00e7a remontam ao fim da Guerra Fria e ao governo de Turgut \u00d6zal, que lan\u00e7ou as sementes do chamado \u201cneo-Otomanismo\u201d e da diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias. No entanto, foi com a ascens\u00e3o do Partido da Justi\u00e7a e do Desenvolvimento (AKP) e a lideran\u00e7a de Erdo\u011fan que essa reorienta\u00e7\u00e3o ganhou contornos mais definidos e institucionais. Aplicando a lente do Realismo Neocl\u00e1ssico, observamos como fatores dom\u00e9sticos, como a luta pelo poder civil contra a ideologia kemalista-militar, a constru\u00e7\u00e3o de uma nova identidade pol\u00edtica conservadora e a busca por legitimidade popular, interagiram com vari\u00e1veis sist\u00eamicas, como a reorganiza\u00e7\u00e3o do poder global e a eros\u00e3o da ordem unipolar, para moldar uma estrat\u00e9gia externa singular.<\/p>\n\n\n\n<p>A Pol\u00edtica Externa de Erdo\u011fan evoluiu de um \u201cocidentalismo pragm\u00e1tico\u201d inicial para uma diplomacia de pendula\u00e7\u00e3o (<em>Hedging<\/em>) cada vez mais sofisticada. A Turquia demonstrou capacidade de manter rela\u00e7\u00f5es complexas e simult\u00e2neas com atores antag\u00f4nicos, como EUA e R\u00fassia; OTAN e Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai; Uni\u00e3o Europeia e mundo isl\u00e2mico. Atos simb\u00f3licos e concretos, como a compra do sistema de defesa russo, S-400, o apoio decisivo ao Azerbaij\u00e3o em Nagorno-Karabakh, as interven\u00e7\u00f5es militares na S\u00edria, a promo\u00e7\u00e3o agressiva da doutrina Mavi Vatan (P\u00e1tria Azul) no Mediterr\u00e2neo Oriental e a media\u00e7\u00e3o ativa na guerra da Ucr\u00e2nia, sinalizam uma clara disposi\u00e7\u00e3o de desafiar o status quo e expandir sua esfera de influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Economicamente, a Turquia busca transformar sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica em poder tang\u00edvel. A descoberta de vastas reservas de g\u00e1s no Mar Negro, o projeto do Canal de Istambul e as ambi\u00e7\u00f5es de se tornar um&nbsp;<em>hub<\/em>&nbsp;energ\u00e9tico e log\u00edstico apontam para uma estrat\u00e9gia de longo prazo de reduzir depend\u00eancias externas e alavancar novos recursos de poder. Embora enfrente desafios econ\u00f4micos internos significativos, como infla\u00e7\u00e3o e desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial, o pa\u00eds consolida-se como uma pot\u00eancia m\u00e9dia industrializada, com um complexo industrial-militar din\u00e2mico, destacado pela exporta\u00e7\u00e3o de drones e pela sua posi\u00e7\u00e3o como a maior economia do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, a Era Erdo\u011fan representa um ponto de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria da Pol\u00edtica Externa turca. A Turquia abandonou o papel de aliado perif\u00e9rico e alinhado para se afirmar como um centro de poder aut\u00f4nomo, que negocia com base em seus pr\u00f3prios interesses nacionais e civilizacionais. Seu caminho \u00e9 marcado pela pr\u00e1tica constante do&nbsp;<em>Hedging<\/em>, pela reivindica\u00e7\u00e3o de um papel de lideran\u00e7a no mundo sunita e por uma postura revisionista que questiona acordos territoriais e de seguran\u00e7a herdados do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>A trajet\u00f3ria do pa\u00eds \u00e9 marcada por tentativas incans\u00e1veis de equilibrar suas ambi\u00e7\u00f5es regionais com a busca pela estabilidade interna e pelo crescimento econ\u00f4mico, bem como de navegar nas crescentes tens\u00f5es entre as grandes pot\u00eancias. \u00c9 poss\u00edvel notar, atrav\u00e9s desta pesquisa, que a Turquia sob o comando de Erdo\u011fan redefiniu, pelo menos por ora, seu lugar no mundo. Ou seja, n\u00e3o se comporta como mais uma ponte passiva entre Oriente e Ocidente, mas sim, como um ator estrat\u00e9gico que constr\u00f3i suas pr\u00f3prias pontes e que busca reconhecimento como um poder decisivo e indispens\u00e1vel na geopol\u00edtica do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>AHMAD, Feroz.&nbsp;<strong>The making of modern Turkey.<\/strong>&nbsp;London: Routledge, 1993.<\/p>\n\n\n\n<p>AK\u00c7ALI, Emel; PERIN\u00c7EK, Mehmet. Kemalist Eurasianism: An emerging geopolitical discourse in Turkey.&nbsp;<strong>Geopolitics<\/strong>, v. 14, n. 3, p. 550-569, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>ATAMAN, Muh\u0130tt\u0130n.&nbsp;<strong>July 15 Coup Attempt in Turkey: Context, Causes and Consequences.<\/strong>&nbsp;Turkey: Seta, 2017. 276 p.<\/p>\n\n\n\n<p>BRZEZINSKI, Zbigniew.&nbsp;<strong>O grande tabuleiro mundial: a supremacia americana e seus imperativos geoestrat\u00e9gicos<\/strong>. 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Acesso em: 22 abr. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>Ver mais em: Memorando assinado entre Turquia e L\u00edbano no ano de 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.un.org\/depts\/los\/LEGISLATIONANDTREATIES\/PDFFILES\/TREATIES\/Turkey_11122019_%28 HC%29_MoU_Libya-Delimitation-areas-Mediterranean.pdf. Acesso em: 11 abr. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>Ver mais em: https:\/\/www.statista.com\/statistics\/584286\/number-of-military-personnel-in-nato-countries\/. Acesso em: 22 abr. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>Ver mais em: https:\/\/www.globalfirepower.com\/countries-listing-nato-members.php. Acesso em: 29 abr. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>Ver mais em:&nbsp;&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/why-is-turkey-blocking-swedish-finnish-nato-membership-2023-01-25\/?utm_source=chatgpt.com\">https:\/\/www.reuters.com\/world\/why-is-turkey-blocking-swedish-finnish-nato-membership-2023-01-25\/<\/a>. Acesso em: 22 abr. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>Ver mais em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brecorder.com\/news\/40360350\/russias-gazprom-returns-to-annual-profit-in-2024-earning-148bn\">https:\/\/www.brecorder.com\/news\/40360350\/russias-gazprom-returns-to-annual-profit-in-2024-earning-148bn<\/a>. Acesso em: 30 abr. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>Ver mais em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/business\/energy\/turkey-discovers-new-75-bcm-natural-gas-reserve-black-sea-erdogan-says-2025-05-17\/\">https:\/\/www.reuters.com\/business\/energy\/turkey-discovers-new-75-bcm-natural-gas-reserve-black-sea-erdogan-says-2025-05-17\/<\/a>. Acesso em: 17 mai. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>Ver mais em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.turkiyetoday.com\/turkiye\/istanbul-canal-gains-traction-as-projects-gear-up-whats-new-in-turkiyes-largest-ever-infrastructure-investment-144556?utm_source=chatgpt.com\">https:\/\/www.turkiyetoday.com\/turkiye\/istanbul-canal-gains-traction-as-projects-gear-up-whats-new-in-turkiyes-largest-ever-infrastructure-investment-144556?utm_source=chatgpt.com<\/a>. Acesso em: 14 abr. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>Ver mais em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.aa.com.tr\/en\/turkey\/canal-istanbul-opens-new-page-in-turkey-s-development-president-erdogan\/\">https:\/\/www.aa.com.tr\/en\/turkey\/canal-istanbul-opens-new-page-in-turkey-s-development-president-erdogan\/<\/a>. Acesso em: 22 abr. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/8038DA83-768F-4F1B-88BC-E0C06AF7FD39#_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>Ver mais em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.iletisim.gov.tr\/english\/haberler\/detay\/president-erdogan-muslims-should-now-take-responsibility-for-the-security-and-future-of-all-humanity-and-raise-their-voices-against-the-injustices-they-witness\">https:\/\/www.iletisim.gov.tr\/english\/haberler\/detay\/president-erdogan-muslims-should-now-take-responsibility-for-the-security-and-future-of-all-humanity-and-raise-their-voices-against-the-injustices-they-witness<\/a>. Acesso em: 22 abr. 2025.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Dominique Marques de Souza<\/strong> \u00e9 doutora em Economia Pol\u00edtica Internacional na UFRJ. Bacharel em Defesa e Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica Internacional (DGEI) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2015. Pesquisadora desde 2015 no N\u00facleo de Avalia\u00e7\u00e3o da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC\/EGN) com sua pesquisa voltada para Turquia e Oriente M\u00e9dio. Pesquisadora do Boletim Geocorrente. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 12 | N\u00famero 122 | Dez. 2025 Por Dominique Marques de Souza<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1951,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[646,645],"tags":[],"class_list":["post-3442","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-edicao-atual"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3442","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3442"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3442\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3443,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3442\/revisions\/3443"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1951"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3442"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3442"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3442"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}