{"id":3448,"date":"2026-01-26T15:38:16","date_gmt":"2026-01-26T18:38:16","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3448"},"modified":"2026-01-26T16:11:20","modified_gmt":"2026-01-26T19:11:20","slug":"resenha-filme-as-nadadoras-2022-entre-resiliencia-e-colonialidade-uma-analise-pos-colonial-do-humanitarismo-no-filme-as-nadadoras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3448","title":{"rendered":"Resenha: Filme &#8220;As Nadadoras&#8221;\u00a0(2022). Entre resili\u00eancia e colonialidade: uma an\u00e1lise p\u00f3s-colonial do humanitarismo no filme &#8220;As Nadadoras&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 13 | N\u00famero 123 | Jan. 2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Michaella Novais Souza, Alice Ferreira do Nascimento, <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Aline Silva Costa e Andressa Martins Passos Gomes <\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"250\" height=\"370\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jan20261.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3449\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jan20261.jpg 250w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jan20261-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><em>AS NADADORAS&nbsp;(The Swimmers). Dire\u00e7\u00e3o: Sally El Hosaini. Reino Unido; EUA: Working Title Films; Netflix, 2022. 134 min.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A intensifica\u00e7\u00e3o dos deslocamentos for\u00e7ados nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI, frequentemente enquadrada sob o r\u00f3tulo de \u201ccrise de refugiados\u201d, foi acompanhada pela expans\u00e3o de aparatos humanit\u00e1rios e pela difus\u00e3o de discursos que enfatizam a resili\u00eancia como resposta desej\u00e1vel \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia, precariedade e ex\u00edlio. Paralelamente, a produ\u00e7\u00e3o cultural de filmes e s\u00e9ries voltados ao grande p\u00fablico tornou-se um espa\u00e7o privilegiado de circula\u00e7\u00e3o de narrativas sobre ref\u00fagio, sofrimento e acolhimento. Nesse cen\u00e1rio, o filme &#8220;As Nadadoras&#8221; (2022), da diretora galesa-eg\u00edpcia Sally El Hosaini, acompanha a trajet\u00f3ria das irm\u00e3s s\u00edrias Yusra e Sarah Mardini desde a guerra at\u00e9 a chegada \u00e0 Europa. O longa-metragem oferece um campo f\u00e9rtil para examinar como subjetividades refugiadas s\u00e3o constru\u00eddas e hierarquizadas no interior de racionalidades humanit\u00e1rias contempor\u00e2neas.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista te\u00f3rico, este artigo parte da reflex\u00e3o de Giorgio Agamben em&nbsp;<em>Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I&nbsp;<\/em>(AGAMBEN, 2007), mobilizando as categorias de poder soberano, estado de exce\u00e7\u00e3o e vida nua para compreender a condi\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es deslocadas cuja sobreviv\u00eancia depende de dispositivos jur\u00eddico-humanit\u00e1rios que, muitas vezes, as reconhecem apenas como vidas a serem preservadas biologicamente, e n\u00e3o como sujeitos pol\u00edticos. Em di\u00e1logo com essa perspectiva, toma-se como refer\u00eancia o trabalho de Suzan Ilcan e Kim Rygiel (2015), que formulam o conceito de \u201chumanitarismo resiliente\u201d para descrever uma racionalidade de governan\u00e7a que reconfigura refugiados como sujeitos respons\u00e1veis, empreendedores e adapt\u00e1veis, deslocando o foco da prote\u00e7\u00e3o de direitos para a responsabiliza\u00e7\u00e3o individual. A esse quadro soma-se a contribui\u00e7\u00e3o de Sankaran Krishna (2017), que aproxima o p\u00f3s-colonialismo da Sociologia Pol\u00edtica Internacional e evidencia como o sistema internacional e suas narrativas se estruturam sobre hierarquias coloniais persistentes, bem como a discuss\u00e3o de Laura Shepherd (2013) sobre a generifica\u00e7\u00e3o dos discursos humanit\u00e1rios e securit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse referencial, o objetivo do artigo \u00e9 analisar de que modo &#8220;As Nadadoras&#8221; encena o humanitarismo e o ref\u00fagio por meio de uma gram\u00e1tica de resili\u00eancia atravessada por rela\u00e7\u00f5es de colonialidade e g\u00eanero. As quest\u00f5es centrais que orientam a investiga\u00e7\u00e3o s\u00e3o: (i) como o filme representa as protagonistas refugiadas em termos de m\u00e9rito, disciplina, vulnerabilidade e utilidade? (ii) de que forma essa representa\u00e7\u00e3o se articula com a racionalidade do humanitarismo resiliente descrita por Ilcan e Rygiel? (iii) como imagin\u00e1rios p\u00f3s-coloniais e hierarquias entre Norte e Sul globais estruturam a oposi\u00e7\u00e3o entre a \u201cEuropa salvadora\u201d e a \u201cS\u00edria ca\u00f3tica\u201d? e (iv) em que medida o filme reproduz, naturaliza ou tensiona a distin\u00e7\u00e3o entre vidas qualificadas e vidas descart\u00e1veis, tal como problematizada por Agamben?<\/p>\n\n\n\n<p>Embora exista uma literatura consolidada que analisa representa\u00e7\u00f5es do ref\u00fagio no cinema a partir de enquadramentos humanit\u00e1rios, narrativas de trauma ou pol\u00edticas da compaix\u00e3o, este artigo prop\u00f5e um deslocamento anal\u00edtico ao tratar &#8220;As Nadadoras&#8221; n\u00e3o apenas como narrativa de sensibiliza\u00e7\u00e3o moral, mas como artefato discursivo inscrito nas racionalidades da governan\u00e7a humanit\u00e1ria neoliberal, articulando humanitarismo resiliente, colonialidade e g\u00eanero no campo da Sociologia Pol\u00edtica Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de car\u00e1ter descritivo-anal\u00edtico, ancorada em uma abordagem p\u00f3s-colonial da Sociologia Pol\u00edtica Internacional. O filme \u00e9 tratado como artefato discursivo que participa da produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de sentidos sobre ref\u00fagio, viol\u00eancia e humanitarismo, sendo analisado por meio de leitura cr\u00edtica de cenas selecionadas, di\u00e1logos, enquadramentos e arcos narrativos. A escolha parte da compreens\u00e3o do cinema como linguagem e dispositivo cultural, conforme argumenta Antonio Costa (2011), para quem a an\u00e1lise f\u00edlmica envolve a considera\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos, conven\u00e7\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que estruturam a produ\u00e7\u00e3o de sentidos nas imagens cinematogr\u00e1ficas. As categorias anal\u00edticas \u201cvida nua\u201d, soberania (AGAMBEN, 2007), \u201chumanitarismo resiliente\u201d e responsabiliza\u00e7\u00e3o (ILCAN; RYGIEL, 2015), colonialidade e geografia p\u00f3s-colonial (KRISHNA, 2017), al\u00e9m da generifica\u00e7\u00e3o dos discursos humanit\u00e1rios (SHEPHERD, 2013), foram mobilizadas como lentes para interpretar de que modo o filme constr\u00f3i a figura da \u201cboa refugiada\u201d e das \u201cv\u00edtimas merecedoras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo organiza-se em tr\u00eas se\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da introdu\u00e7\u00e3o e das considera\u00e7\u00f5es finais. Na primeira, apresentam-se os fundamentos te\u00f3ricos sobre poder soberano, vida nua e humanitarismo resiliente, com foco na articula\u00e7\u00e3o entre Agamben e Ilcan e Rygiel na an\u00e1lise do ref\u00fagio contempor\u00e2neo. Na segunda, discute-se o p\u00f3s-colonialismo e a Sociologia Pol\u00edtica Internacional, enfatizando as contribui\u00e7\u00f5es de Sankaran Krishna para a cr\u00edtica das hierarquias coloniais e euroc\u00eantricas que estruturam o campo das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e das narrativas humanit\u00e1rias. Na terceira, desenvolve-se a an\u00e1lise de As Nadadoras, examinando como o filme produz a figura da refugiada resiliente, mobiliza gram\u00e1ticas de g\u00eanero e reinscreve, de forma ambivalente, tanto a colonialidade do olhar humanit\u00e1rio quanto fissuras que permitem questionar suas pressuposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Poder soberano, vida nua e &#8220;humanitarismo resiliente&#8221;: fundamentos te\u00f3ricos para a an\u00e1lise do ref\u00fagio contempor\u00e2neo <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com base no crescente interesse acad\u00eamico pelos estudos sobre ref\u00fagio e migra\u00e7\u00e3o, alimentado, em parte, pela reflex\u00e3o de Giorgio Agamben em <em>Homo Sacer: Poder Soberano e Vida Nua<\/em> (1995), o presente artigo toma como referencial anal\u00edtico o trabalho de Suzan Ilcan e Kim Rygiel (2015), \u201c<em>Resiliency Humanitarianism: Responsibilizing Refugees through Humanitarian Emergency Governance in the Camp<\/em>&#8220;. Publicado no peri\u00f3dico <em>International Political Sociology<\/em>, o estudo evidencia uma tend\u00eancia contempor\u00e2nea de engajar refugiados como sujeitos resilientes, empreendedores e respons\u00e1veis por sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, eclipsando a compreens\u00e3o desses indiv\u00edduos como sujeitos pol\u00edticos portadores de direitos (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 334).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, torna-se fundamental retomar o que se entende por sujeito pol\u00edtico e pelas garantias que o direito internacional confere a indiv\u00edduos deslocados. O sujeito pol\u00edtico, na tradi\u00e7\u00e3o moderna, \u00e9 aquele reconhecido como portador de direitos, inscrito em uma ordem jur\u00eddico-estatal capaz de garantir prote\u00e7\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o e reivindica\u00e7\u00e3o. Contudo, quando esse sistema de garantias falha, o indiv\u00edduo v\u00ea amea\u00e7ada n\u00e3o apenas sua cidadania formal, mas tamb\u00e9m sua condi\u00e7\u00e3o de sujeito de direitos. Esse deslocamento do \u00e2mbito da prote\u00e7\u00e3o para a vulnerabilidade exp\u00f5e o refugiado ao risco de tornar-se aquilo que Giorgio Agamben (2007) denomina Vida Nua (<em>nuda vita<\/em>): uma vida reduzida ao seu car\u00e1ter meramente biol\u00f3gico, despojada de media\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e submetida diretamente ao poder soberano.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua obra, Agamben (2007), inspirado pela teoria pol\u00edtica de Carl Schmitt, argumenta que a soberania se define justamente pela capacidade de decidir sobre o estado de exce\u00e7\u00e3o, suspender a ordem jur\u00eddica e, nesse gesto, colocar-se simultaneamente dentro e fora da lei (AGAMBEN, 2007, p. 23). O soberano, seja ele o Estado, um regime jur\u00eddico internacional ou uma coaliz\u00e3o de poderes, det\u00e9m o poder de suspender a norma e expor determinados indiv\u00edduos \u00e0 esfera da viol\u00eancia sem que isso seja considerado uma viola\u00e7\u00e3o da lei. O estado de exce\u00e7\u00e3o torna-se o mecanismo pelo qual vidas podem ser juridicamente desprotegidas, ainda que continuem sob o alcance do ordenamento que as abandona (AGAMBEN, 2007, p. 36).<\/p>\n\n\n\n<p>A figura do&nbsp;<em>homo sacer&nbsp;<\/em>(termo latim para \u201chomem sagrado\u201d) remonta ao Direito Romano arcaico (s\u00e9c. VIII a.C. \u2013 II a.C.), per\u00edodo marcado por uma organiza\u00e7\u00e3o social centrada na autoridade do&nbsp;<em>pater familias<\/em>, pela baixa interven\u00e7\u00e3o estatal e por forte imbrica\u00e7\u00e3o entre vida comunit\u00e1ria, moral e religiosidade. Nessa tradi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica arcaica, o&nbsp;<em>homo sacer&nbsp;<\/em>era aquele cuja vida, uma vez colocada sob a maldi\u00e7\u00e3o dos deuses, podia ser encerrada sem que isso configurasse sacrif\u00edcio ou homic\u00eddio pun\u00edvel. Agamben retoma essa figura justamente para elucidar o paradoxo da soberania moderna: um sujeito \u201cinclu\u00eddo na ordem jur\u00eddica apenas sob a forma de sua exclus\u00e3o\u201d, algu\u00e9m cuja vida \u00e9 perec\u00edvel e, ao mesmo tempo, insacrific\u00e1vel, estando exposta a uma viol\u00eancia sem san\u00e7\u00e3o, colocada na fronteira em que direito e fato se confundem (AGAMBEN, 2007, p. 91\u201399). Tal condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o decorre de uma aus\u00eancia total de rela\u00e7\u00e3o com a lei, mas de uma rela\u00e7\u00e3o em que a lei se retira, e abandona o sujeito em um limiar sem oper\u00e2ncia da prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, mas ainda sob a \u00e9gide do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa estrutura, Agamben descreve a vida nua como o produto pol\u00edtico da soberania: uma vida capturada pelo direito somente na forma de sua exclus\u00e3o (AGAMBEN, 2007, p. 34). Essa vida corresponde ao que os gregos nomeavam&nbsp;<em>zo\u00e9<\/em>: o simples fato de viver, comum a todos os seres vivos, em contraste com&nbsp;<em>b\u00edos<\/em>, que designa uma forma de vida qualificada e politicamente estruturada (AGAMBEN, 2007, p. 9). Enquanto a pol\u00edtica cl\u00e1ssica exclu\u00eda a&nbsp;<em>zo\u00e9&nbsp;<\/em>do espa\u00e7o da p\u00f3lis, a modernidade, conforme Agamben l\u00ea Foucault, introduz a vida biol\u00f3gica no centro da a\u00e7\u00e3o estatal, transformando a pol\u00edtica em biopol\u00edtica, isto \u00e9, em governo da vida enquanto tal (AGAMBEN, 2007, p. 11; p. 125).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, o estado moderno opera uma politiza\u00e7\u00e3o da vida biol\u00f3gica: a&nbsp;<em>zo\u00e9&nbsp;<\/em>passa a ser administrada, regulada e exposta a decis\u00f5es que afetam sua continuidade, sua mobilidade e sua possibilidade de tornar-se&nbsp;<em>b\u00edos<\/em>. A fronteira entre \u201capenas viver\u201d e \u201cviver bem\u201d torna-se amb\u00edgua, e o espa\u00e7o de exce\u00e7\u00e3o tende a coincidir cada vez mais com o espa\u00e7o pol\u00edtico (AGAMBEN, 2007, p. 17). A din\u00e2mica exposta \u00e9 n\u00edtida nos casos de popula\u00e7\u00f5es deslocadas, cuja sobreviv\u00eancia depende de aparatos jur\u00eddicos e humanit\u00e1rios que, muitas vezes, os reconhecem apenas enquanto vidas a serem preservadas biologicamente, e n\u00e3o enquanto sujeitos de direitos pass\u00edveis de reconhecimento e prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse ponto que se estabelece o elo entre a teoriza\u00e7\u00e3o de Agamben e o trabalho de Suzan Ilcan e Kim Rygiel. Quando o aparato humanit\u00e1rio reorganiza os campos de refugiados como espa\u00e7os de gest\u00e3o da resili\u00eancia ao contr\u00e1rio de espa\u00e7os de garantia de direitos, ele tende a reproduzir aquilo que Agamben identifica como a l\u00f3gica da exce\u00e7\u00e3o: a produ\u00e7\u00e3o de vidas administr\u00e1veis, tuteladas, mantidas, mas politicamente despotencializadas. Os refugiados s\u00e3o, simultaneamente, inclu\u00eddos no regime internacional de prote\u00e7\u00e3o e exclu\u00eddos das garantias pol\u00edticas que caracterizam o sujeito de direitos. Assim, embora n\u00e3o estejam formalmente fora da ordem jur\u00eddico-humanit\u00e1ria, s\u00e3o frequentemente capturados por ela na forma de \u201cvida nua\u201d, isto \u00e9, como vidas cuja qualifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi suspensa em nome de sua simples preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise das autoras parte da governan\u00e7a humanit\u00e1ria de emerg\u00eancia para refugiados e deslocados internos no \u00e2mbito das Na\u00e7\u00f5es Unidas, especialmente ap\u00f3s as reformas de 2005, quando ganha centralidade o que elas denominam \u201chumanitarismo resiliente\u201d. O conceito descreve uma racionalidade de cuidado e coordena\u00e7\u00e3o que emerge no interior do governo neoliberal e que redefine a fun\u00e7\u00e3o dos campos de refugiados. Em vez de conceb\u00ea-los como espa\u00e7os de \u201cperman\u00eancia tempor\u00e1ria\u201d ou mecanismos de&nbsp;<em>warehousing&nbsp;<\/em>(ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 334), os campos passam a ser imaginados como espa\u00e7os de assentamento mais duradouros, onde se pretende desenvolver comunidades autogestion\u00e1veis e indiv\u00edduos capazes de \u201cadaptar-se\u201d \u00e0s crises presentes e futuras (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 337). A leitura agambeniana ilumina esse fen\u00f4meno ao mostrar como a exce\u00e7\u00e3o pode tornar-se regra e como os campos convertem-se em paradigmas biopol\u00edticos contempor\u00e2neos, onde o cuidado e o controle se imbricam.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Through resiliency humanitarianism, camps are re-imagined away from notions of them as spaces of \u201ctemporary permanence\u201d (Diken 2004) designed to \u201cwarehouse\u201d (USCRI 2008) refugees, and toward notions of camps as more permanent spaces of settlement with the potential for developing community and entrepreneurial populations. In the process, refugees are reconstituted along the lines of the neoliberal subject, from passive recipients of aid to camp \u201cresidents\u201d and resilient subjects. (Ilcan &amp; Rygiel, 2015<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse modelo, a assist\u00eancia humanit\u00e1ria desloca-se de seu objetivo inicial de prote\u00e7\u00e3o para uma l\u00f3gica de responsabiliza\u00e7\u00e3o. As ag\u00eancias humanit\u00e1rias, em parceria com Estados, ONGs e organismos multilaterais, passam a enfatizar pr\u00e1ticas de participa\u00e7\u00e3o, empreendedorismo, trabalho comunit\u00e1rio e \u201cempoderamento\u201d. Contudo, conforme Ilcan e Rygiel demonstram, tais pr\u00e1ticas frequentemente produzem efeitos inversos: contribuem para que refugiados aceitem condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias como inevit\u00e1veis e internalizem a responsabilidade por sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, em detrimento da reivindica\u00e7\u00e3o de direitos e da contesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 338-339).<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura cr\u00edtica sobre campos de refugiados j\u00e1 reconhecia esses espa\u00e7os como arenas pol\u00edticas, onde sujeitos deslocados resistem e articulam pr\u00e1ticas de cidadania insurgentes. Outros autores tamb\u00e9m destacam a ag\u00eancia pol\u00edtica presente nesses territ\u00f3rios (RYGIEL, 2012; ILCAN, 2013, 2014; REDCLIFT, 2013, apud ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 334). Entretanto, o \u201chumanitarismo resiliente\u201d, segundo Ilcan e Rygiel, interv\u00e9m sobre essa ag\u00eancia ao reconstituir refugiados n\u00e3o como atores pol\u00edticos, mas como \u201cresilientes\u201d, sujeitos neoliberais que se autogerem e suportam crises continuamente, buscando tornar-se produtivos e adapt\u00e1veis no interior da vida campal (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 336-337).<\/p>\n\n\n\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o dos campos em \u201ccomunidades resilientes\u201d \u00e9 operada por dispositivos de governan\u00e7a como o&nbsp;<em>Cluster Approach&nbsp;<\/em>e o&nbsp;<em>Camp Coordination and Camp Management Cluster (CCCM)<\/em><sup data-fn=\"3c94f389-aa28-4988-9a32-6639ad94bf06\" class=\"fn\"><a href=\"#3c94f389-aa28-4988-9a32-6639ad94bf06\" id=\"3c94f389-aa28-4988-9a32-6639ad94bf06-link\">1<\/a><\/sup>(1), que reorganizam o espa\u00e7o por meio de parcerias multilaterais, gest\u00e3o de dados e programas de capacita\u00e7\u00e3o. Como mostram as autoras, esses instrumentos refor\u00e7am a expectativa de que refugiados se tornem sujeitos disciplinados, participativos e preparados para \u201cviver com a incerteza\u201d, reduzindo sua mobilidade e incentivando a aceita\u00e7\u00e3o da vida em campos como perman\u00eancia prolongada (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 341-345).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>The idea here is to reconstitute refugees as resilient subjects by \u201cempowering\u201d them through involvement in the life and running of the camp. Due to camp settings, the CM Toolkit stresses that people are largely dependent on others, and on the international community in particular, for the provision of goods and services, which in turn leads to feelings ofdisempowerment. For this reason, \u201cparticipation, especially in governance, mitigates those effects by giving people back some power, building self-reliance and a sense of achievement, influence and control, restoring some of the dignity that has been taken away\u201d (Norwegian Refugee Council (NRC); The Camp Management Project (CMP), 2008, p.79). (Ilcan &amp; Rygiel, 2015, p. 343)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Assim, o \u201chumanitarismo resiliente\u201d configura-se como um aparato de governan\u00e7a que combina cuidado e controle, apresentando-se como empoderamento, mas frequentemente operando de modo despolitizante. Como sintetizam Ilcan e Rygiel, trata-se de uma forma de assist\u00eancia que \u201cencoraja refugiados a adaptar-se, em vez de resistir, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de seu sofrimento humanit\u00e1rio\u201d (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 343).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O p\u00f3s-colonialismo e a Sociologia Pol\u00edtica Internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sankaran Krishna (2017) articula o p\u00f3s-colonialismo com a Sociologia Pol\u00edtica Internacional (SPI), destacando como ambos compartilham uma abordagem hist\u00f3rica e cr\u00edtica das hierarquias globais. Enquanto a SPI emerge do Ocidente, o p\u00f3s-colonialismo contribui com uma perspectiva multidisciplinar que desafia o eurocentrismo, o colonialismo e o imperialismo (Krishna, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p>A perspectiva p\u00f3s-colonial \u00e9 fundamental para entender como o mundo moderno foi moldado por rela\u00e7\u00f5es de poder coloniais, que continuam a estruturar desigualdades entre Norte e Sul. Como argumenta Krishna, o Ocidente e o Oriente se coconstitu\u00edram em uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, na qual o primeiro se apresenta como racional, civilizado e progressista, enquanto o segundo \u00e9 representado como inferior, ca\u00f3tico e emocional (Said, 1978; Krishna, 2017).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>In more mundane terms, what this means is that ideas, subjectivities, concepts, events and histories that are considered immanent to the \u2018West\u2019 are, in reality, outcomes of a global, inter-related and contrapuntal process that suffused the entire planet (Said 1993). (Krishna, 2017)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa cr\u00edtica \u00e9 essencial para desnaturalizar narrativas humanit\u00e1rias que reproduzem hierarquias coloniais, apresentando o Ocidente como salvador e o Sul Global como espa\u00e7o de crise e passividade. A SPI, por sua vez, oferece ferramentas para analisar como o sistema internacional \u00e9 atravessado por rela\u00e7\u00f5es de poder, colonialidade e resist\u00eancia, permitindo uma leitura mais situada e menos abstrata das din\u00e2micas globais.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto deste artigo, a articula\u00e7\u00e3o entre p\u00f3s-colonialismo e SPI permite examinar como o filme As Nadadoras reproduz ou tenciona imagin\u00e1rios coloniais, refor\u00e7ando a oposi\u00e7\u00e3o entre uma \u201cEuropa salvadora\u201d e uma \u201cS\u00edria ca\u00f3tica\u201d, e como a figura da \u201cboa refugiada\u201d \u00e9 constru\u00edda a partir de expectativas euroc\u00eantricas de resili\u00eancia, m\u00e9rito e utilidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As Nadadoras e a constru\u00e7\u00e3o do bom refugiado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise do filme As Nadadoras permite examinar como dispositivos humanit\u00e1rios, imagin\u00e1rios p\u00f3s-coloniais e gram\u00e1ticas de g\u00eanero operam conjuntamente na produ\u00e7\u00e3o de determinadas subjetividades refugiadas. \u00c0 luz da formula\u00e7\u00e3o de Suzan Ilcan e Kim Rygiel sobre o \u201chumanitarismo resiliente\u201d e articulando essa leitura com a abordagem p\u00f3s-colonial apresentada por Sankaran Krishna, \u00e9 poss\u00edvel compreender que o filme n\u00e3o funciona apenas como narrativa biogr\u00e1fica, mas como pr\u00e1tica discursiva que reproduz racionalidades contempor\u00e2neas acerca da governan\u00e7a migrat\u00f3ria. Nesse sentido, a an\u00e1lise dialoga com estudos sobre cinema e ref\u00fagio que compreendem as produ\u00e7\u00f5es audiovisuais como parte de regimes visuais do deslocamento for\u00e7ado. Como argumenta Stefanie Van de Peer, o chamado &#8220;refugee cinema<em>&#8221; mobiliza&nbsp;<\/em>paisagens de fronteira, travessias mar\u00edtimas e corpos em movimento para produzir gram\u00e1ticas visuais que organizam a experi\u00eancia do ref\u00fagio em termos eticamente orientados e politicamente seletivos. Para a autora, esses filmes funcionam dentro de um enquadramento no qual \u201csympathy, solidarity and feeling-with are increasingly important values as tools for cross-cultural dialogue\u201d (VAN DE PEER, 2019, p. 46), orientando o olhar do espectador para formas espec\u00edficas de identifica\u00e7\u00e3o e reconhecimento humanit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A representa\u00e7\u00e3o das irm\u00e3s Mardini \u00e9 estruturada em torno da resili\u00eancia como atributo individual, coerente com o que Ilcan e Rygiel identificam como a reconfigura\u00e7\u00e3o neoliberal do sujeito refugiado. Ainda no in\u00edcio do filme, as cenas de treinamento intensivo na piscina, marcadas por disciplina e repeti\u00e7\u00e3o, antecipam a l\u00f3gica narrativa que acompanha a trajet\u00f3ria inteira das protagonistas. No desenvolvimento da obra, a met\u00e1fora da nata\u00e7\u00e3o organiza visual e simbolicamente a hist\u00f3ria, conectando o cotidiano esportivo pr\u00e9-conflito \u00e0 travessia mar\u00edtima. L\u00f3gica esta que se torna particularmente evidente na cena do bote infl\u00e1vel, quando Yusra e Sarah entram no mar para impedir que o bote superlotado afunde, usando seus corpos e sua t\u00e9cnica esportiva como instrumento de sobreviv\u00eancia coletiva. Ao privilegiar essa sequ\u00eancia como momento her\u00f3ico, o filme desloca a crise migrat\u00f3ria de um fen\u00f4meno estrutural para um desafio moral individual, reproduzindo o mecanismo de responsabiliza\u00e7\u00e3o (responsibilization) descrito por Ilcan e Rygiel (2015, p. 338).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a sobreviv\u00eancia aparece como efeito da excel\u00eancia e da capacidade de autogest\u00e3o das protagonistas, qualidades estas que s\u00e3o fruto dos seus treinos de alto rendimento, e n\u00e3o como consequ\u00eancia direta das fronteiras deliberadamente precarizadas que tornam a travessia em um desafio mortal. Como afirmam as autoras, o humanitarismo resiliente \u201cencoraja refugiados a adaptar-se, em vez de resistir, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de seu sofrimento humanit\u00e1rio\u201d (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 343). Nesse sentido, o filme refor\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o da \u201crefugiada resiliente\u201d, uma figura que se alinha perfeitamente \u00e0 racionalidade neoliberal analisada pelas autoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio ressaltar que essa produ\u00e7\u00e3o da resili\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m atravessada por din\u00e2micas de g\u00eanero. Em seu texto Feminist Theory\/gender studies, a autora Laura Shepherd argumenta que discursos humanit\u00e1rios e securit\u00e1rios s\u00e3o generificados e dependem da mobiliza\u00e7\u00e3o de figuras particulares de feminilidade, nas quais vulnerabilidade e for\u00e7a moral coexistem como atributos esperados (SHEPHERD, 2013). Essa gram\u00e1tica de g\u00eanero se materializa de forma expl\u00edcita na cena em que Yusra sofre uma tentativa de estupro durante o percurso terrestre rumo \u00e0 Alemanha. A viol\u00eancia sexual aparece como amea\u00e7a constante e generificada, mas \u00e9 rapidamente reinscrita na narrativa da resili\u00eancia quando Yusra \u00e9 salva pela interven\u00e7\u00e3o de sua irm\u00e3, deslocando o foco da estrutura de viol\u00eancia para a for\u00e7a moral e relacional das protagonistas. Assim, o epis\u00f3dio n\u00e3o funciona como den\u00fancia das condi\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas de inseguran\u00e7a enfrentadas por mulheres refugiadas, mas como mais um teste superado que refor\u00e7a o ideal da feminilidade resiliente descrito por Shepherd (2013).<\/p>\n\n\n\n<p>A representa\u00e7\u00e3o da Europa no filme constitui outro eixo central, pois opera dentro da geografia p\u00f3s-colonial analisada por Sankaran Krishna. Ao chegar \u00e0 Alemanha, as protagonistas adentram um espa\u00e7o apresentado como racional, ordeiro e salvador, cujas institui\u00e7\u00f5es (centros de acolhida ou clubes esportivos) aparecem como inst\u00e2ncias de reden\u00e7\u00e3o. Essa oposi\u00e7\u00e3o entre o \u201ccaos\u201d da S\u00edria e a \u201cordem\u201d europeia ecoa o argumento de Krishna de que o sistema internacional \u00e9 estruturado por hierarquias coloniais persistentes (KRISHNA, 2017). Para o autor, conceitos e pr\u00e1ticas aparentemente neutras das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais s\u00e3o produtos hist\u00f3ricos da colonialidade, que estabelece o Ocidente como locus de normalidade, civilidade e progresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo emblem\u00e1tico ocorre quando, j\u00e1 integradas a um clube alem\u00e3o, Yusra e Sarah s\u00f3 s\u00e3o validadas como \u201cboas nadadoras\u201d ap\u00f3s provarem seu talento diante do treinador europeu, apesar de no passado terem sido medalhistas representando a S\u00edria internacionalmente. A necessidade de comprova\u00e7\u00e3o diante da autoridade europeia evidencia como o reconhecimento leg\u00edtimo s\u00f3 \u00e9 conferido quando mediado pelo olhar do Norte Global, refor\u00e7ando o imagin\u00e1rio colonial de mobilidade no qual sujeitos do Sul se tornam plenamente leg\u00edveis apenas quando acolhidos e avaliados pelo olhar do Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria das irm\u00e3s Mardini se insere no que Ilcan e Rygiel (2015) identificam como humanitarismo seletivo, baseado na produ\u00e7\u00e3o de \u201cv\u00edtimas merecedoras\u201d, mas pode ser ainda mais densificada \u00e0 luz do que Didier Fassin denomina&nbsp;<em>humanitarian reason<\/em>. Para o autor, o humanitarismo contempor\u00e2neo constitui uma forma de governo que opera por meio de sentimentos morais, especialmente a compaix\u00e3o, produzindo hierarquias de humanidade e legitimando interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas seletivas. Como afirma Fassin (2012), a raz\u00e3o humanit\u00e1ria governa vidas prec\u00e1rias: as vidas dos desempregados e dos requerentes de asilo, as vidas de imigrantes doentes e pessoas com AIDS, as vidas de v\u00edtimas de desastres e de conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse enquadramento, o reconhecimento humanit\u00e1rio n\u00e3o se estrutura como direito universal, mas como julgamento moral que distingue quais vidas s\u00e3o pass\u00edveis de prote\u00e7\u00e3o e visibilidade. Yusra e Sarah s\u00e3o posicionadas como refugiadas excepcionalmente talentosas, disciplinadas e \u00fateis, cuja trajet\u00f3ria esportiva funciona como capital moral dentro do regime humanit\u00e1rio. Como afirmam Ilcan e Rygiel (2015), o humanitarismo neoliberal privilegia biografias individuais de sucesso que comprovem resili\u00eancia, utilidade e responsabilidade, produzindo diferencia\u00e7\u00f5es entre sujeitos ajud\u00e1veis e n\u00e3o-ajud\u00e1veis. As Nadadoras adere a esse padr\u00e3o ao celebrar o talento ol\u00edmpico de Yusra, invisibilizando outras trajet\u00f3rias de deslocamento que n\u00e3o se encaixam na figura da \u201cboa refugiada\u201d, refor\u00e7ando a premissa impl\u00edcita de que dignidade e prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o direitos, mas recompensas por m\u00e9rito.<\/p>\n\n\n\n<p>Importante notar, contudo, os sil\u00eancios estruturais presentes no filme. A guerra na S\u00edria \u00e9 retratada de maneira descontextualizada, sem men\u00e7\u00e3o \u00e0s din\u00e2micas geopol\u00edticas, \u00e0s responsabilidades internacionais ou \u00e0 colonialidade que molda pol\u00edticas migrat\u00f3rias europeias. Como discute Krishna, a narrativa humanit\u00e1ria frequentemente apaga os elementos estruturais da viol\u00eancia para preservar a inoc\u00eancia moral do Ocidente (KRISHNA, 2017). Assim, a travessia mar\u00edtima \u00e9 apresentada como evento extraordin\u00e1rio e heroico, e n\u00e3o como consequ\u00eancia das pol\u00edticas europeias de controle que tornam rotas seguras praticamente inacess\u00edveis. A aus\u00eancia dessa dimens\u00e3o pol\u00edtica reitera o car\u00e1ter despolitizante do humanitarismo resiliente, que privilegia hist\u00f3rias de mobilidade individual em detrimento da cr\u00edtica \u00e0s estruturas de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, o filme cont\u00e9m ambival\u00eancias importantes que tensionam essa narrativa hegem\u00f4nica. Algumas cenas exp\u00f5em o racismo cotidiano, o paternalismo institucional e as burocracias desumanizantes presentes nos centros de acolhida europeus, como nos di\u00e1logos com agentes migrat\u00f3rios e nas longas esperas por documentos. Al\u00e9m disso, as protagonistas s\u00e3o retratadas com ag\u00eancia, humor, desejo e conflito, escapando parcialmente da figura homog\u00eanea da v\u00edtima d\u00f3cil. Essas fissuras no discurso humanit\u00e1rio revelam que, embora a narrativa privilegie a resili\u00eancia individual, os efeitos da fronteira europeia continuam marcados por desigualdades profundas e viol\u00eancia estrutural.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomando esses elementos em conjunto, \u00e9 poss\u00edvel interpretar a resili\u00eancia no filme como uma forma de colonialidade emocional: um mecanismo de subjetiva\u00e7\u00e3o que produz refugiados responsivos \u00e0s expectativas humanit\u00e1rias do Norte Global, atribu\u00eddos de dignidade apenas quando incorporam virtudes neoliberais como disciplina, gratid\u00e3o e utilidade. Essa racionalidade serve simultaneamente como instrumento de governamentalidade, no sentido de gerir popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis, e como narrativa globalmente diger\u00edvel que desloca a aten\u00e7\u00e3o das estruturas de poder para o m\u00e9rito individual. Como resultado, perguntas fundamentais emergem: Quem se beneficia da centralidade da resili\u00eancia? Quem desaparece desse enquadramento? E como essas narrativas colaboram para a legitima\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas migrat\u00f3rias seletivas e excludentes n\u00e3o s\u00f3 na Uni\u00e3o Europeia mas no Norte como um todo?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O percurso anal\u00edtico tra\u00e7ado ao longo deste artigo evidenciou que a produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica As Nadadoras transcende a esfera do entretenimento biogr\u00e1fico, operando como um dispositivo discursivo que reitera e leg\u00edtima racionalidades contempor\u00e2neas de governan\u00e7a global. A partir da interlocu\u00e7\u00e3o entre o conceito de &#8220;humanitarismo resiliente&#8221; de Ilcan e Rygiel, a cr\u00edtica p\u00f3s-colonial de Sankaran Krishna e as lentes de g\u00eanero propostas por Laura Shepherd, conclui-se que a narrativa das irm\u00e3s Mardini \u00e9 instrumentalizada para fabricar a subjetividade da &#8220;boa refugiada&#8221;: um sujeito apol\u00edtico, resiliente e moldado aos ideais neoliberais do Norte Global. A an\u00e1lise demonstrou que a representa\u00e7\u00e3o f\u00edlmica corrobora a tese de Ilcan e Rygiel sobre o deslocamento da l\u00f3gica humanit\u00e1ria da prote\u00e7\u00e3o para a responsabiliza\u00e7\u00e3o (responsibilization). Ao centrar a sobreviv\u00eancia na capacidade individual de supera\u00e7\u00e3o, disciplina e autogest\u00e3o das protagonistas, a obra invisibiliza as estruturas de viol\u00eancia fronteiri\u00e7a e a precariza\u00e7\u00e3o deliberada das rotas migrat\u00f3rias. A resili\u00eancia, neste contexto, deixa de ser uma qualidade intr\u00ednseca para tornar-se uma exig\u00eancia de governamentalidade, onde o refugiado &#8220;merecedor&#8221; \u00e9 aquele capaz de adaptar-se \u00e0s crises sem contestar as estruturas que as produzem, convertendo o direito ao asilo em uma recompensa por m\u00e9rito e utilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, sob a \u00f3tica p\u00f3s-colonial de Krishna, identificou-se que o filme reproduz uma geografia imagin\u00e1ria hierarquizada, na qual a Europa \u00e9 constru\u00edda como o locus da racionalidade, da ordem e da reden\u00e7\u00e3o, em contraposi\u00e7\u00e3o ao caos e \u00e0 irracionalidade atribu\u00eddos ao Oriente. A valida\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria das protagonistas ocorre fundamentalmente atrav\u00e9s do olhar ocidental, exemplificado pela necessidade de aprova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e moral das institui\u00e7\u00f5es alem\u00e3s para que suas subjetividades sejam plenamente reconhecidas. Essa din\u00e2mica reafirma a colonialidade do poder, sugerindo que a humanidade do sujeito do Sul Global s\u00f3 se completa quando integrada e sancionada pela &#8220;civilidade&#8221; europeia. Simultaneamente, a dimens\u00e3o de g\u00eanero revelou-se central na constru\u00e7\u00e3o dessa aceitabilidade. A &#8220;feminilidade resiliente&#8221; das personagens, marcada pela dualidade entre vulnerabilidade e hero\u00edsmo, atende \u00e0s expectativas de um humanitarismo que, segundo Shepherd, atribui marcadores de g\u00eanero \u00e0 seguran\u00e7a e ao cuidado. No entanto, essa visibilidade seletiva gera um efeito de exclus\u00e3o: ao elevar a trajet\u00f3ria excepcional e &#8220;ol\u00edmpica&#8221; de Yusra e Sarah, a narrativa projeta uma sombra sobre a massa de migrantes que n\u00e3o se enquadram nesses crit\u00e9rios de excel\u00eancia e docilidade, refor\u00e7ando a distin\u00e7\u00e3o entre vidas que merecem ser salvas e aquelas deixadas \u00e0 margem.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, conclui-se que narrativas como a de As Nadadoras desempenham uma fun\u00e7\u00e3o despolitizante ao silenciar as responsabilidades geopol\u00edticas e as ra\u00edzes coloniais dos conflitos e das pol\u00edticas migrat\u00f3rias restritivas. A \u00eanfase na &#8220;hist\u00f3ria de sucesso&#8221; individual atua como um mecanismo de apaziguamento moral para o p\u00fablico ocidental, mascarando a continuidade da viol\u00eancia estrutural. Portanto, uma abordagem cr\u00edtica de Sociologia Pol\u00edtica Internacional faz-se urgente para desconstruir tais discursos, revelando que a exalta\u00e7\u00e3o da resili\u00eancia, quando desacompanhada de justi\u00e7a pol\u00edtica e social, serve apenas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de um Sistema Internacional excludente e desigual.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>AGAMBEN, Giorgio.&nbsp;<strong>Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>AS NADADORAS&nbsp;(The Swimmers). Dire\u00e7\u00e3o: Sally El Hosaini. Reino Unido; EUA: Working Title Films; Netflix, 2022. 134 min.<\/p>\n\n\n\n<p>COSTA, Antonio.&nbsp;<strong>Compreender o cinema<\/strong>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 2011. <\/p>\n\n\n\n<p>FASSIN, Didier.&nbsp;<strong>Humanitarian Reason: A Moral History of the Present.<\/strong> Tradu\u00e7\u00e3o de Rachel Gomme. Berkeley: University of California Press, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>ILCAN, Suzan; RYGIEL, Kim.&nbsp;Resiliency humanitarianism: responsibilizing refugees through humanitarian emergency governance in the camp.&nbsp;<strong>International Political Sociology,<\/strong> v. 9, n. 4, p. 333\u2013351, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>KRISHNA, Sankaran.&nbsp;Postcolonialism and International Political Sociology. In: GUILLAUME, Xavier; BILGIN, Pinar (Ed.).&nbsp;<strong>Routledge Handbook of International Political Sociology<\/strong>. London; New York: Routledge, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>SAID, Edward.&nbsp;<strong>Orientalism<\/strong>. New York: Vintage, 1978.<\/p>\n\n\n\n<p>SHEPHERD, Laura.&nbsp;Feminist Theory\/gender studies. In: GUILLAUME, Xavier; BILGIN, Pinar (Ed.).&nbsp;<strong>Routledge Handbook of International Political Sociology<\/strong>. London; New York: Routledge, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>VAN DE PEER, Stefanie.&nbsp;Seascapes of solidarity: refugee cinema and the representation of the Mediterranean.&nbsp;<strong>Alphaville: Journal of Film and Screen Media<\/strong>, n. 18, p. 38\u201353, 2019. DOI: 10.33178\/alpha.18.04.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"3c94f389-aa28-4988-9a32-6639ad94bf06\">1. No \u00e2mbito da Ag\u00eancia da ONU para as Migra\u00e7\u00f5es, o CCCM refere-se ao conjunto de fun\u00e7\u00f5es de coordena\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de campos e abrigos coletivos para popula\u00e7\u00f5es deslocadas em contextos de emerg\u00eancia, enquanto o\u00a0<em>Cluster Approach\u00a0<\/em>(ONU\/ACNUR) \u00e9 um modelo de coordena\u00e7\u00e3o usado em emerg\u00eancias humanit\u00e1rias n\u00e3o relacionadas a refugiados, projetado para melhorar a organiza\u00e7\u00e3o, previsibilidade, responsabilidade e efic\u00e1cia das respostas humanit\u00e1rias internacionais. Dispon\u00edvel em:https:\/\/www.iom.int\/camp-coordination-and-camp-management <a href=\"#3c94f389-aa28-4988-9a32-6639ad94bf06-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Michaella Novais Souza&nbsp;<\/strong>\u00e9 graduanda em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Universidade Federal do Rio de <em>Janeiro (UFRJ). Sua produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica concentra-se nas \u00e1reas de Economia Pol\u00edtica Internacional e Organiza\u00e7\u00f5es Internacionais, com \u00eanfase no BRICS e na Pol\u00edtica Externa Brasileira. Atuou como pesquisadora e assessora de comunica\u00e7\u00e3o em projetos de pesquisa e extens\u00e3o da UFRJ, com destaque para o projeto Debates P\u00f3s e Decoloniais e para o N\u00facleo de Aux\u00edlio a Pessoas Refugiadas e Imigrantes no Ensino Superior (NAPIES). Atualmente, investiga as interse\u00e7\u00f5es entre Necropol\u00edtica, Seguran\u00e7a Cibern\u00e9tica e Regimes de Controle Migrat\u00f3rio. Lattes:&nbsp;https:\/\/lattes.cnpq.br\/1472947506201985<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Alice Ferreira do Nascimento\u00a0<\/strong>\u00e9 graduanda em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, comp\u00f5e o grupo de pesquisa em p\u00f3s-colonialismos do IRID-UFRJ e a equipe de escrita acad\u00eamica do NAPIES. Lattes:\u00a0https:\/\/lattes.cnpq.br\/3641001300527985<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Aline Silva Costa\u00a0<\/strong>\u00e9 graduada em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). J\u00e1 participou de grupos de pesquisa sobre pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina e sobre China e R\u00fassia. Foi bolsista de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica pelo Laborat\u00f3rio de Estudos de Seguran\u00e7a e Defesa (LESD\/UFRJ), com orienta\u00e7\u00e3o de Diogo Dario. Lattes:\u00a0http:\/\/lattes.cnpq.br\/2227057673281389<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Andressa Martins Passos Gomes&nbsp;<\/strong>\u00e9 graduanda em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente faz parte do grupo de pesquisa: Rela\u00e7\u00f5es Bilaterais do Brasil do IRID-UFRJ. Lattes:&nbsp;https:\/\/lattes.cnpq.br\/5016021905685808<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 13 | N\u00famero 123 | Jan. 2026 Por Michaella Novais Souza, Alice<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3449,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"1. 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