{"id":3482,"date":"2026-10-27T09:00:00","date_gmt":"2026-10-27T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3482"},"modified":"2026-10-07T01:59:09","modified_gmt":"2026-10-07T04:59:09","slug":"migracao-qualificada-indiana-no-seculo-xxi-fuga-de-cerebros-ou-estrategia-nacional-de-protagonismo-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/?p=3482","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00e3o Qualificada Indiana no S\u00e9culo XXI: fuga de c\u00e9rebros ou estrat\u00e9gia nacional de protagonismo global?"},"content":{"rendered":"\n<p>Volume 13 | N\u00famero 126 | Out. 2026<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ed-esp-estudos-asiaticos-819x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3474\" style=\"aspect-ratio:0.7998058723610774;width:381px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ed-esp-estudos-asiaticos-819x1024.png 819w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ed-esp-estudos-asiaticos-240x300.png 240w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ed-esp-estudos-asiaticos-768x960.png 768w, https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ed-esp-estudos-asiaticos.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Giuliane Costa e Silva e L\u00edvia Fernandes de Souza<\/p>\n\n\n\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A intensifica\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o e o avan\u00e7o da economia baseada no conhecimento&nbsp;transformaram os fluxos migrat\u00f3rios internacionais ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Se, durante grande parte do s\u00e9culo XX, a mobilidade humana esteve fortemente associada \u00e0 busca por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e oportunidades de trabalho, o s\u00e9culo XXI consolidou a expans\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o de profissionais altamente qualificados como uma das principais caracter\u00edsticas da economia global contempor\u00e2nea. Assim, cientistas, engenheiros, m\u00e9dicos, pesquisadores e especialistas em tecnologia passaram a desempenhar um papel estrat\u00e9gico na competi\u00e7\u00e3o entre os Estados, uma vez que a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e a capacidade cient\u00edfica se tornaram pilares essenciais para o desenvolvimento econ\u00f4mico e sua capacidade de proje\u00e7\u00e3o de poder no sistema internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a \u00cdndia se destaca como um dos casos mais emblem\u00e1ticos da migra\u00e7\u00e3o qualificada contempor\u00e2nea. De acordo com a World Migration Report de 2024 da OIM\/ONU, o pa\u00eds possui atualmente a maior di\u00e1spora do mundo, composta por aproximadamente 19 milh\u00f5es de emigrantes, distribu\u00eddos principalmente entre os Estados Unidos, Emirados \u00c1rabes Unidos, Ar\u00e1bia Saudita, Reino Unido, Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia. Al\u00e9m de representar um importante contingente populacional, essa di\u00e1spora exerce um significativo impacto econ\u00f4mico, pois a \u00cdndia permanece como o maior receptor mundial de remessas financeiras, tendo recebido cerca de US$ 129 bilh\u00f5es em 2024, valor superior ao de qualquer outro pa\u00eds e equivalente a uma das principais fontes de ingresso de recursos externos para a economia indiana (WORLD BANK, 2024).<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, a \u00cdndia se estabeleceu como uma das principais economias do conhecimento do mundo. Desde as reformas de liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica iniciadas em 1991, o pa\u00eds expandiu significativamente seu sistema de ensino superior, fortaleceu sua ind\u00fastria de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o e se tornou refer\u00eancia global na forma\u00e7\u00e3o de engenheiros, cientistas e profissionais da computa\u00e7\u00e3o (PANAGARIYA, 2008). Dessa forma, empresas indianas como Infosys, Tata Consultancy Services (TCS) e Wipro passaram a ocupar posi\u00e7\u00e3o de destaque no mercado internacional (SAXENIAN, 2006), enquanto profissionais indianos assumiram cargos de lideran\u00e7a em algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo (KAPUR, 2010). Esse cen\u00e1rio evidencia que a migra\u00e7\u00e3o qualificada indiana n\u00e3o ocorre paralelamente ao desenvolvimento nacional, mas integra um processo mais amplo de inser\u00e7\u00e3o da \u00cdndia na economia global baseada no conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, a abordagem tradicional entende esse fen\u00f4meno a partir do conceito de fuga de c\u00e9rebros, simbolizando a perda de capital humano altamente qualificado por parte dos pa\u00edses em desenvolvimento para economias mais avan\u00e7adas. Essa perspectiva foca nos preju\u00edzos decorrentes da sa\u00edda de profissionais cuja forma\u00e7\u00e3o foi financiada, direta ou indiretamente, pelo Estado, destacando a redu\u00e7\u00e3o da capacidade cient\u00edfica, tecnol\u00f3gica e produtiva dos pa\u00edses de origem. No entanto, a amplia\u00e7\u00e3o das redes transnacionais de conhecimento, dos investimentos internacionais e da circula\u00e7\u00e3o global de profissionais deu origem a novas interpreta\u00e7\u00f5es que problematizam essa vis\u00e3o. Conceitos como ganho de c\u00e9rebros e circula\u00e7\u00e3o de c\u00e9rebros passaram a explicar que a migra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra qualificada tamb\u00e9m pode gerar benef\u00edcios aos pa\u00edses de origem.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso indiano, essa mudan\u00e7a de paradigma se torna particularmente relevante. Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, o Estado indiano passou a desenvolver pol\u00edticas voltadas ao fortalecimento dos v\u00ednculos com sua di\u00e1spora, reconhecendo a possibilidade para impulsionar investimentos, inova\u00e7\u00e3o, coopera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e influ\u00eancia internacional. A crescente participa\u00e7\u00e3o de profissionais indianos em setores estrat\u00e9gicos da economia global, especialmente nas \u00e1reas de tecnologia, engenharia e pesquisa cient\u00edfica, ampliou a capacidade do pa\u00eds de estabelecer conex\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas e cient\u00edficas com os principais centros de inova\u00e7\u00e3o do mundo. Dessa forma, a migra\u00e7\u00e3o qualificada deixa de ser compreendida apenas como consequ\u00eancia das assimetrias entre pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento e passa a ser analisada como um poss\u00edvel instrumento de inser\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da \u00cdndia no sistema internacional. Nesse vi\u00e9s, a di\u00e1spora indiana ultrapassa sua dimens\u00e3o demogr\u00e1fica e econ\u00f4mica, assumindo tamb\u00e9m import\u00e2ncia pol\u00edtica e diplom\u00e1tica, ao contribuir para a proje\u00e7\u00e3o internacional do pa\u00eds e para a consolida\u00e7\u00e3o de sua imagem como pot\u00eancia tecnol\u00f3gica emergente.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o presente trabalho busca responder se a migra\u00e7\u00e3o qualificada indiana no s\u00e9culo XXI representa uma perda estrutural de capital humano, ou pode ser compreendida como parte de uma estrat\u00e9gia de protagonismo global da \u00cdndia? Partindo da hip\u00f3tese de que, embora persistam custos associados \u00e0 sa\u00edda de profissionais altamente qualificados, a experi\u00eancia indiana evidencia uma transforma\u00e7\u00e3o na natureza desse fen\u00f4meno. Dessa maneira, a di\u00e1spora deixou de representar exclusivamente uma perda para se converter em um ativo estrat\u00e9gico capaz de promover a circula\u00e7\u00e3o internacional de conhecimento, tecnologia, investimentos e influ\u00eancia pol\u00edtica, contribuindo para o fortalecimento da posi\u00e7\u00e3o da \u00cdndia na economia e na pol\u00edtica internacional. Para tanto, o artigo realiza uma revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica sobre os debates relativos \u00e0 migra\u00e7\u00e3o qualificada, articulando as contribui\u00e7\u00f5es da literatura sobre fuga de c\u00e9rebros, circula\u00e7\u00e3o internacional de talentos, di\u00e1sporas, desenvolvimento e rela\u00e7\u00f5es internacionais, com o objetivo de compreender de que maneira a mobilidade de profissionais qualificados passou a integrar o processo de ascens\u00e3o internacional da \u00cdndia. Para estruturar essa argumenta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m desta introdu\u00e7\u00e3o e da conclus\u00e3o, o texto est\u00e1 dividido em quatro se\u00e7\u00f5es principais. A segunda se\u00e7\u00e3o apresenta a evolu\u00e7\u00e3o do debate te\u00f3rico, transitando da perspectiva de fuga de c\u00e9rebros para os conceitos de ganho e circula\u00e7\u00e3o internacional de talentos. A terceira se\u00e7\u00e3o analisa a forma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica indiana, destacando os investimentos hist\u00f3ricos em educa\u00e7\u00e3o e as reformas econ\u00f4micas que impulsionaram o setor. A quarta se\u00e7\u00e3o examina como o Estado indiano converteu sua di\u00e1spora em um ativo estrat\u00e9gico de proje\u00e7\u00e3o de soft power e atra\u00e7\u00e3o de investimentos. Por fim, a quinta se\u00e7\u00e3o discute os limites e as contradi\u00e7\u00f5es dessa t\u00e1tica, abordando as desigualdades estruturais e os desafios sociais persistentes no desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DA FUGA DE C\u00c9REBROS \u00c0 CIRCULA\u00c7\u00c3O INTERNACIONAL DE TALENTOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><\/ol>\n\n\n\n<p>Embora o fen\u00f4meno da migra\u00e7\u00e3o de trabalhadores especializados n\u00e3o seja recente, as interpreta\u00e7\u00f5es acerca de seus impactos sobre os pa\u00edses de origem sofreram muitas transforma\u00e7\u00f5es ao longo do tempo. Nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, portanto, era predominante uma vis\u00e3o pessimista que associava a emigra\u00e7\u00e3o qualificada ao enfraquecimento das capacidades nacionais de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira formula\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica desse debate ficou conhecida como teoria da fuga de c\u00e9rebros (<em>brain drain<\/em>). Desenvolvida principalmente a partir da d\u00e9cada de 1960, essa perspectiva sustentava que os pa\u00edses em desenvolvimento sofriam perdas significativas ao investir recursos p\u00fablicos na forma\u00e7\u00e3o de profissionais altamente qualificados que, posteriormente, migravam para economias desenvolvidas em busca de melhores sal\u00e1rios, infraestrutura cient\u00edfica, oportunidades profissionais e melhores condi\u00e7\u00f5es de pesquisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os principais formuladores dessa abordagem se destaca o autor Harry G. Johnson (1967), que definiu a fuga de c\u00e9rebros como uma transfer\u00eancia internacional de capital humano capaz de ampliar as desigualdades entre pa\u00edses ricos e pobres. Para Johnson, a migra\u00e7\u00e3o de profissionais altamente qualificados representava uma esp\u00e9cie de subs\u00eddio involunt\u00e1rio concedido pelos pa\u00edses em desenvolvimento \u00e0s economias industrializadas, que recebiam trabalhadores j\u00e1 formados sem arcar com os elevados custos de sua educa\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o. Sob essa ideia, a mobilidade internacional agravava as assimetrias existentes na economia mundial, comprometendo o potencial da periferia internacional. Nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, portanto, predominava uma vis\u00e3o pessimista que associava a emigra\u00e7\u00e3o qualificada ao enfraquecimento das capacidades nacionais de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas interpreta\u00e7\u00f5es foram fortemente influenciadas pelo contexto econ\u00f4mico e pol\u00edtico do p\u00f3s-Segunda Guerra, marcado pela intensifica\u00e7\u00e3o das desigualdades entre pa\u00edses centrais e marginalizados em rela\u00e7\u00e3o em \u00e2mbito global. De acordo com Bhagwati e Hamada (1974), o desenvolvimento da \u00e9poca compartilhava a preocupa\u00e7\u00e3o de que a sa\u00edda de cientistas, m\u00e9dicos, engenheiros e pesquisadores aprofundaria a depend\u00eancia tecnol\u00f3gica das economias perif\u00e9ricas, reduzindo sua capacidade de industrializa\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o. Sob essa \u00f3tica, a migra\u00e7\u00e3o qualificada era entendida como um processo de transfer\u00eancia unilateral de conhecimento em favor dos pa\u00edses centrais, refor\u00e7ando a l\u00f3gica da divis\u00e3o internacional do trabalho e dificultando a constru\u00e7\u00e3o de capacidades nacionais aut\u00f4nomas.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1990, esse entendimento come\u00e7ou a ser questionado. A migra\u00e7\u00e3o deixou de representar, necessariamente, uma ruptura definitiva entre indiv\u00edduo e Estado nacional, dando lugar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de redes transnacionais capazes de conectar diferentes economias por meio da circula\u00e7\u00e3o de conhecimento, coopera\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o. Diante desse cen\u00e1rio, emerge uma segunda abordagem, conhecida como ganho de c\u00e9rebros (<em>brain gain<\/em>). Diferentemente da perspectiva anterior, essa corrente argumenta que a migra\u00e7\u00e3o qualificada pode produzir efeitos positivos para os pa\u00edses de origem, tanto direta quanto indiretamente. Um dos principais expoentes dessa abordagem est\u00e1 no livro \u201c<em>A brain gain with a brain drain<\/em>\u201d<em>&nbsp;<\/em>(1997),<em>&nbsp;<\/em>de Oded Stark, em que ele rompe com a interpreta\u00e7\u00e3o tradicional ao defender que a possibilidade de migra\u00e7\u00e3o internacional pode estimular investimentos individuais em educa\u00e7\u00e3o. Segundo o autor, a perspectiva de acessar mercados de trabalho mais remunerados leva um n\u00famero crescente de pessoas a buscar qualifica\u00e7\u00e3o profissional, ampliando o estoque de capital humano dispon\u00edvel no pa\u00eds de origem. Mesmo quando parte desses profissionais emigra, &#8220;[&#8230;] o pa\u00eds de origem pode acabar com um n\u00edvel m\u00e9dio mais alto de capital humano por trabalhador&#8221; (STARK; HELMENSTEIN; PRSKAWETZ, 1997),, produzindo efeitos positivos sobre o desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar desses avan\u00e7os, ambas abordagens partiam de uma l\u00f3gica relativamente bin\u00e1ria e simplista, centrada na ideia de perda ou benef\u00edcio para o pa\u00eds de origem. A intensifica\u00e7\u00e3o das redes globais de inova\u00e7\u00e3o e da economia baseada no conhecimento deu origem, ent\u00e3o, a uma terceira perspectiva, hoje amplamente difundida na literatura, a da circula\u00e7\u00e3o de c\u00e9rebros (<em>brain circulation<\/em>). Tal vis\u00e3o parte do pressuposto de que a mobilidade internacional de profissionais qualificados n\u00e3o deve ser compreendida como um fluxo unidirecional e permanente, mas como um processo cont\u00ednuo de circula\u00e7\u00e3o de pessoas, conhecimento, tecnologia e investimentos entre diferentes Estados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que um fen\u00f4meno estritamente corporativo ou financeiro, essa din\u00e2mica prop\u00f5e uma reavalia\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de poder no sistema internacional, desafiando a l\u00f3gica convencial de depend\u00eancia centro-periferia caracter\u00edstica de muitas an\u00e1lises do per\u00edodo p\u00f3s-colonial. Em vez de simbolizarem unicamente como capital humano extra\u00eddo de forma desigual pelas pot\u00eancias ocidentais, os migrantes qualificados passam a atuar como agentes ativos na geopol\u00edtica contempor\u00e2nea. Essa atua\u00e7\u00e3o permite que na\u00e7\u00f5es emergentes utilizem as posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas alcan\u00e7adas por sua di\u00e1spora nos polos hegem\u00f4nicos para reconfigurar hierarquias tecnol\u00f3gicas e projetar seus pr\u00f3prios interesses em escala global (KAPUR, 2010).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de romper completamente seus v\u00ednculos com o pa\u00eds de origem, muitos emigrantes mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, acad\u00eamicas e institucionais que contribuem para a cria\u00e7\u00e3o de redes transnacionais de inova\u00e7\u00e3o e desenvolvimento. A autora que escreveu essa perspectiva \u00e9 AnnaLee Saxenian, em sua obra \u201c<em>The New Argonauts<\/em>\u201d (2006). Ao analisar as trajet\u00f3rias de empreendedores origin\u00e1rios da \u00cdndia, China e Taiwan estabelecidos no Vale do Sil\u00edcio, ela demonstra que esses profissionais al\u00e9m de contribu\u00edrem para o desenvolvimento tecnol\u00f3gico dos Estados Unidos, tamb\u00e9m desempenharam papel decisivo na internacionaliza\u00e7\u00e3o dos setores de alta tecnologia de seus pa\u00edses de origem. Foi notado que muitos retornaram para fundar empresas, estabelecer centros de pesquisa, investir em startups, financiar universidades ou criar parcerias empresariais, enquanto outros permaneceram no exterior, mantendo intensas redes de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e cient\u00edfica com suas sociedades de origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Saxenian (2006), a circula\u00e7\u00e3o internacional de talentos possibilita a forma\u00e7\u00e3o de comunidades transnacionais capazes de conectar mercados, universidades, empresas e governos. Dessa forma, o conhecimento deixa de estar territorialmente limitado e passa a circular por meio das rela\u00e7\u00f5es estabelecidas pelos pr\u00f3prios profissionais migrantes. Assim, ao criar &#8220;fluxos bidirecionais muito mais complexos e descentralizados de habilidades, capital e tecnologia&#8221; (SAXENIAN, 2006), a di\u00e1spora se transforma em recurso estrat\u00e9gico para&nbsp;&nbsp;a internacionaliza\u00e7\u00e3o produtiva e a inser\u00e7\u00e3o competitiva dos pa\u00edses na economia global.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse \u00ednterim, a experi\u00eancia da \u00cdndia desafia as interpreta\u00e7\u00f5es tradicionais da migra\u00e7\u00e3o qualificada e evidencia a necessidade de compreender esse fen\u00f4meno como parte das transforma\u00e7\u00f5es mais amplas da globaliza\u00e7\u00e3o e da economia do conhecimento. \u00c9 justamente a partir dessa evolu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica (da fuga de c\u00e9rebros \u00e0 circula\u00e7\u00e3o internacional de talentos) que se torna poss\u00edvel analisar a di\u00e1spora qualificada indiana como somente uma consequ\u00eancia das desigualdades internacionais, assim como tamb\u00e9m um componente da estrat\u00e9gia de desenvolvimento e proje\u00e7\u00e3o internacional adotada pelo Estado indiano ao longo do s\u00e9culo XXI.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A FORMA\u00c7\u00c3O TECNOL\u00d3GICA INDIANA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A compreens\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o qualificada indiana exige uma an\u00e1lise das transforma\u00e7\u00f5es estruturais ocorridas na economia e no sistema educacional do pa\u00eds ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Afinal, a consolida\u00e7\u00e3o de uma di\u00e1spora altamente especializada n\u00e3o pode ser entendida como um resultado da atra\u00e7\u00e3o exercida pelos pa\u00edses desenvolvidos, e sim como uma consequ\u00eancia de um longo processo de investimento estatal em educa\u00e7\u00e3o superior, ci\u00eancia e tecnologia. Nesse sentido, a ascens\u00e3o da \u00cdndia como uma das principais fornecedoras mundiais de profissionais est\u00e1 relacionada \u00e0s estrat\u00e9gias de desenvolvimento adotadas desde a independ\u00eancia, incluindo \u00e0s reformas econ\u00f4micas implementadas a partir da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo ap\u00f3s a independ\u00eancia, em 1947, o governo indiano identificou a forma\u00e7\u00e3o de capital humano como um dos pilares para a constru\u00e7\u00e3o de um Estado moderno e economicamente aut\u00f4nomo (PANAGARIYA, 2008). Sob a lideran\u00e7a de Jawaharlal Nehru, foram realizados investimentos significativos na cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas voltadas ao ensino superior, \u00e0 pesquisa cient\u00edfica e \u00e0 engenharia. Entre essas iniciativas se destaca a funda\u00e7\u00e3o dos&nbsp;<em>Indian Institutes of Technology (IITs)<\/em>, cuja primeira unidade foi criada em 1951, em Kharagpur, seguida por diversos outros institutos distribu\u00eddos pelo pa\u00eds. Inspirados em modelos internacionais de educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, os IITs foram concebidos para formar uma elite t\u00e9cnica capaz de conduzir o processo de industrializa\u00e7\u00e3o e reduzir a depend\u00eancia tecnol\u00f3gica da \u00cdndia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s economias desenvolvidas (KAPUR, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p>Nas d\u00e9cadas seguintes, o sistema de ensino superior indiano passou por uma expans\u00e3o significativa. Embora persistissem limita\u00e7\u00f5es relacionadas ao acesso e \u00e0s desigualdades sociais, esses investimentos permitiram a forma\u00e7\u00e3o de uma parcela crescente de profissionais altamente qualificados, criando as bases para o desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico do pa\u00eds. Entretanto, a partir das reformas econ\u00f4micas de 1991, houve uma intensifica\u00e7\u00e3o do papel que o capital humano passou a desempenhar na inser\u00e7\u00e3o internacional da \u00cdndia. Diante de uma grave crise cambial e fiscal, o governo promoveu um programa de liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, reduzindo barreiras comerciais, privatizando setores da economia e ampliando a integra\u00e7\u00e3o do pa\u00eds aos mercados globais. Essas reformas abriram espa\u00e7o para a r\u00e1pida expans\u00e3o dos setores intensivos em conhecimento (PANAGARIYA, 2008).<\/p>\n\n\n\n<p>A abertura econ\u00f4mica coincidiu com profundas transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas em escala global. O avan\u00e7o da inform\u00e1tica, da internet e da terceiriza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os impulsionou a demanda internacional por profissionais especializados em tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, engenharia e desenvolvimento de software. Beneficiando-se de uma ampla oferta de trabalhadores qualificados, dom\u00ednio da l\u00edngua inglesa e custos relativamente baixos de produ\u00e7\u00e3o, a \u00cdndia se tornou um dos principais polos mundiais de exporta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os tecnol\u00f3gicos (CASTELLS, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p>A consolida\u00e7\u00e3o desse setor foi acompanhada por um expressivo crescimento da forma\u00e7\u00e3o de profissionais qualificados. Segundo dados da UNESCO Institute for Statistics, a \u00cdndia figura entre os pa\u00edses que mais formam graduados nas \u00e1reas da ci\u00eancia, tecnologia, engenharia e matem\u00e1tica no mundo (UNESCO INSTITUTE FOR STATISTICS, 2024). Paralelamente, o setor de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o se tornou um dos principais motores da economia nacional. Dados da&nbsp;<em>National Association of Software and Service Companies&nbsp;<\/em>(NASSCOM) indicam que a ind\u00fastria indiana de tecnologia e servi\u00e7os digitais ultrapassou US$ 280 bilh\u00f5es em receita em 2023, empregando mais de 5,4 milh\u00f5es de trabalhadores e respondendo por cerca de 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do pa\u00eds. Esses n\u00fameros evidenciam que a forma\u00e7\u00e3o de profissionais altamente qualificados deixou de representar meramente uma pol\u00edtica educacional, convertendo-se em uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento econ\u00f4mico e inser\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Paradoxalmente, o fortalecimento desse sistema educacional tamb\u00e9m intensificou a emigra\u00e7\u00e3o de profissionais altamente especializados. A elevada qualidade da forma\u00e7\u00e3o oferecida pelos IITs e outras institui\u00e7\u00f5es de excel\u00eancia passou a despertar crescente interesse por parte de empresas multinacionais, universidades e centros de pesquisa localizados, principalmente, nos Estados Unidos, Reino Unido, Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia. Sal\u00e1rios mais atrativos, melhores condi\u00e7\u00f5es de pesquisa, infraestrutura cient\u00edfica avan\u00e7ada e maiores oportunidades de ascens\u00e3o profissional constitu\u00edram importantes fatores de atra\u00e7\u00e3o diversos indianos (KAPUR, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa din\u00e2mica se torna evidente ao observar a crescente presen\u00e7a de indianos em posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas nas maiores empresas de tecnologia do mundo. Executivos como Sundar Pichai (Google), Satya Nadella (Microsoft) e Arvind Krishna (IBM) ilustram a capacidade da \u00cdndia de formar profissionais que ocupam posi\u00e7\u00f5es centrais na economia digital mundial. Embora esses casos n\u00e3o representem a totalidade da di\u00e1spora indiana, possuem forte valor simb\u00f3lico ao evidenciar a inser\u00e7\u00e3o crescente do pa\u00eds nos principais centros internacionais de inova\u00e7\u00e3o e tecnologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, a ascens\u00e3o tecnol\u00f3gica da \u00cdndia n\u00e3o pode ser explicada apenas pelo crescimento econ\u00f4mico ou pela expans\u00e3o de seu sistema educacional. Ela se trata de um processo que combina fatores como investimentos estatais de longo prazo em capital humano, reformas econ\u00f4micas orientadas para a abertura internacional e a constru\u00e7\u00e3o de redes globais de conhecimento. Assim, essa combina\u00e7\u00e3o permitiu ao pa\u00eds formar uma das maiores comunidades de profissionais altamente qualificados do mundo, e tamb\u00e9m utilizar essa di\u00e1spora como elemento de fortalecimento de sua competitividade econ\u00f4mica e de sua proje\u00e7\u00e3o internacional. \u00c9 justamente essa transforma\u00e7\u00e3o que possibilita compreender a migra\u00e7\u00e3o qualificada indiana n\u00e3o mais como um fen\u00f4meno exclusivamente associado \u00e0 perda de capital humano, mas como parte de uma estrat\u00e9gia mais ampla de desenvolvimento e protagonismo global.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A DI\u00c1SPORA COMO ATIVO ESTRAT\u00c9GICO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A atua\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora indiana produz impactos que v\u00e3o muito al\u00e9m da circula\u00e7\u00e3o de pessoas, exercendo influ\u00eancia direta sobre os fluxos de investimento estrangeiro, a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e a inser\u00e7\u00e3o internacional da \u00cdndia. \u00c9 poss\u00edvel notar que profissionais estabelecidos em posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas em empresas multinacionais frequentemente atuam como intermedi\u00e1rios entre investidores estrangeiros e o mercado indiano, reduzindo assimetrias de informa\u00e7\u00e3o, fortalecendo rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a e facilitando a instala\u00e7\u00e3o de empresas e centros de pesquisa no pa\u00eds. Segundo Kapur (2010), a exist\u00eancia de comunidades altamente qualificadas no exterior favorece tanto a atra\u00e7\u00e3o de investimentos estrangeiros diretos quanto a expans\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os intensivos em conhecimento, contribuindo para a consolida\u00e7\u00e3o da \u00cdndia como um dos principais destinos mundiais para investimentos em tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, desenvolvimento de software e pesquisa aplicada.<\/p>\n\n\n\n<p>Outrossim, esses efeitos econ\u00f4micos tamb\u00e9m produzem importantes consequ\u00eancias pol\u00edticas e diplom\u00e1ticas. Sob a perspectiva das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, essa din\u00e2mica pode ser compreendida como soft power, desenvolvido por Joseph Nye (2004). Para o autor, a capacidade de um Estado influenciar outros atores internacionais n\u00e3o depende exclusivamente de recursos militares ou econ\u00f4micos, mas tamb\u00e9m de sua habilidade em gerar atra\u00e7\u00e3o, legitimidade e prest\u00edgio. Nesse sentido, a di\u00e1spora altamente qualificada constitui uma importante fonte de poder indireto. Ao ocupar posi\u00e7\u00f5es de destaque em universidades, centros de pesquisa, empresas multinacionais e organiza\u00e7\u00f5es internacionais, profissionais indianos fortalecem a reputa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica da \u00cdndia, ampliam sua visibilidade internacional e contribuem para consolidar sua imagem como uma pot\u00eancia inovadora e produtora de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhecendo esse potencial, o Estado indiano passou, ao longo das \u00faltimas duas d\u00e9cadas, a incorporar a di\u00e1spora em sua estrat\u00e9gia de pol\u00edtica externa e de desenvolvimento. A cria\u00e7\u00e3o do programa&nbsp;<em>Overseas Citizenship of India<\/em>&nbsp;(OCI), em 2005, ampliou os v\u00ednculos institucionais entre o governo e os emigrantes ao facilitar investimentos, viagens e a participa\u00e7\u00e3o em atividades econ\u00f4micas no pa\u00eds. Paralelamente, iniciativas como o Pravasi Bharatiya Divas, encontro anual promovido pelo governo indiano, passaram a incentivar a coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica entre membros da di\u00e1spora e institui\u00e7\u00f5es nacionais. Sob os governos de Narendra Modi, essa pol\u00edtica ganhou ainda mais relev\u00e2ncia, refletindo o reconhecimento da di\u00e1spora como um instrumento estrat\u00e9gico para ampliar a presen\u00e7a e a influ\u00eancia internacional do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o entre \u00cdndia e Estados Unidos constitui um dos exemplos mais expressivos desse processo. A forte presen\u00e7a de profissionais indianos no Vale do Sil\u00edcio, em universidades estadunidenses renomadas e em grandes empresas de tecnologia contribuiu para aprofundar as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas entre os dois pa\u00edses. Essas redes transnacionais facilitaram a expans\u00e3o dos investimentos bilaterais, da coopera\u00e7\u00e3o em pesquisa e desenvolvimento e do com\u00e9rcio de servi\u00e7os intensivos em conhecimento, al\u00e9m de refor\u00e7arem o papel da \u00cdndia como parceira estrat\u00e9gica dos Estados Unidos em \u00e1reas relacionadas \u00e0 inova\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o digital e competi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, o caso indiano evidencia que a migra\u00e7\u00e3o qualificada n\u00e3o pode mais ser interpretada apenas como um processo de perda de capital humano. A experi\u00eancia do pa\u00eds demonstra que, quando acompanhada por pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos com os emigrantes e ao aproveitamento de suas redes internacionais, a di\u00e1spora pode ser convertida em um importante instrumento de desenvolvimento e proje\u00e7\u00e3o internacional. Mais do que exportar profissionais, a \u00cdndia passou a projetar conhecimento, inova\u00e7\u00e3o e capacidade de articula\u00e7\u00e3o global, transformando sua di\u00e1spora em um dos principais pilares de sua estrat\u00e9gia de ascens\u00e3o como pot\u00eancia tecnol\u00f3gica, econ\u00f4mica e diplom\u00e1tica no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">OS LIMITES DA T\u00c1TICA DA DI\u00c1SPORA QUALIFICADA<\/h4>\n\n\n\n<p>Embora a experi\u00eancia indiana frequentemente seja apresentada como um exemplo bem-sucedido da transforma\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora em ativo estrat\u00e9gico, uma an\u00e1lise cr\u00edtica revela que os benef\u00edcios desse processo encontram importantes limita\u00e7\u00f5es. A interpreta\u00e7\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o qualificada como instrumento de desenvolvimento n\u00e3o elimina as desigualdades estruturais que caracterizam a sociedade indiana, tampouco garante que os ganhos produzidos pela circula\u00e7\u00e3o internacional de talentos sejam distribu\u00eddos de forma homog\u00eanea para a populacao. Nesse sentido, compreender a di\u00e1spora como componente do protagonismo internacional da \u00cdndia exige reconhecer tamb\u00e9m suas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira delas refere-se ao acesso desigual \u00e0s oportunidades educacionais. Apesar da reconhecida excel\u00eancia dos IITs e de outras institui\u00e7\u00f5es de ensino superior, o ingresso nesses centros permanece altamente competitivo e socialmente concentrado. Milh\u00f5es de estudantes disputam anualmente um n\u00famero reduzido de vagas, favorecendo aqueles que possuem melhores condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas para investir em prepara\u00e7\u00e3o especializada. Embora pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa tenham ampliado parcialmente o acesso de grupos historicamente marginalizados, persistem desigualdades relacionadas \u00e0 renda, \u00e0 origem regional e \u00e0s diferen\u00e7as entre \u00e1reas urbanas e rurais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa quest\u00e3o dialoga diretamente com a concep\u00e7\u00e3o de desenvolvimento formulada por Amartya Sen (1999). Para o autor, o desenvolvimento deve ser compreendido como expans\u00e3o das capacidades humanas e das liberdades substantivas, e n\u00e3o apenas como crescimento econ\u00f4mico. Sob essa perspectiva, o sucesso internacional de parte da elite t\u00e9cnica indiana n\u00e3o significa, necessariamente, que toda a sociedade se beneficie da economia do conhecimento. Permanecem desafios relacionados ao acesso desigual \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0s disparidades regionais e \u00e0 exclus\u00e3o de amplos segmentos da popula\u00e7\u00e3o das oportunidades geradas pela globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto relevante refere-se \u00e0 pr\u00f3pria distribui\u00e7\u00e3o territorial dos benef\u00edcios da inova\u00e7\u00e3o. O desenvolvimento tecnol\u00f3gico indiano concentra-se principalmente em estados como Karnataka, Telangana, Maharashtra e Tamil Nadu, onde se localizam cidades como Bangalore, Hyderabad, Pune e Chennai. Essas regi\u00f5es atraem investimentos, empresas multinacionais e profissionais altamente qualificados, enquanto outras \u00e1reas do pa\u00eds permanecem relativamente distantes desse dinamismo econ\u00f4mico. Como observa Saskia Sassen (2001), a globaliza\u00e7\u00e3o tende a produzir uma concentra\u00e7\u00e3o espacial de recursos econ\u00f4micos, tecnol\u00f3gicos e financeiros em determinados centros urbanos, ampliando desigualdades tanto entre pa\u00edses quanto dentro deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que a circula\u00e7\u00e3o internacional de talentos n\u00e3o substituiu completamente a fuga de c\u00e9rebros. Embora muitos profissionais mantenham v\u00ednculos permanentes com a \u00cdndia, uma parcela significativa estabelece carreira definitiva no exterior, especialmente em universidades e centros de pesquisa que oferecem melhores sal\u00e1rios, infraestrutura cient\u00edfica e financiamento para inova\u00e7\u00e3o. \u00c1reas como pesquisa biom\u00e9dica, f\u00edsica, intelig\u00eancia artificial e engenharia avan\u00e7ada ainda registram elevada perman\u00eancia de pesquisadores indianos em institui\u00e7\u00f5es estrangeiras, limitando parcialmente a capacidade nacional de absorver determinados conhecimentos estrat\u00e9gicos (KAPUR, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, os benef\u00edcios gerados pela di\u00e1spora dependem da exist\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es nacionais capazes de transformar conhecimento em desenvolvimento econ\u00f4mico. A simples presen\u00e7a de profissionais qualificados no exterior n\u00e3o garante automaticamente inova\u00e7\u00e3o, investimentos ou coopera\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Como demonstra Devesh Kapur (2010), o sucesso da experi\u00eancia indiana resulta da combina\u00e7\u00e3o entre pol\u00edticas p\u00fablicas, crescimento do setor tecnol\u00f3gico, fortalecimento institucional e manuten\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos permanentes entre Estado e di\u00e1spora. Em pa\u00edses que n\u00e3o disp\u00f5em dessas condi\u00e7\u00f5es, a migra\u00e7\u00e3o qualificada pode continuar produzindo predominantemente perdas de capital humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a valoriza\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora tamb\u00e9m levanta questionamentos acerca da depend\u00eancia simb\u00f3lica em rela\u00e7\u00e3o aos centros tradicionais de poder. O reconhecimento internacional frequentemente decorre do sucesso de profissionais indianos em universidades e empresas norte-americanas ou europeias, refor\u00e7ando a centralidade desses espa\u00e7os como legitimadores da excel\u00eancia cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica. Assim, embora a \u00cdndia tenha ampliado significativamente sua capacidade de inova\u00e7\u00e3o, parte de seu prest\u00edgio internacional continua vinculada \u00e0s estruturas globais de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento dominadas pelas economias centrais.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, a experi\u00eancia indiana n\u00e3o invalida completamente a teoria da fuga de c\u00e9rebros, mas demonstra que seus efeitos tornaram-se mais complexos na economia global contempor\u00e2nea. A di\u00e1spora altamente qualificada constitui, simultaneamente, uma fonte de inova\u00e7\u00e3o, investimentos e proje\u00e7\u00e3o internacional, bem como um fen\u00f4meno marcado por desigualdades internas, assimetrias globais e desafios persistentes relacionados \u00e0 inclus\u00e3o social. Reconhecer essas limita\u00e7\u00f5es n\u00e3o reduz a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica da di\u00e1spora; ao contr\u00e1rio, permite compreender que seu potencial depende da capacidade do Estado de transformar redes internacionais de conhecimento em benef\u00edcios efetivos para o desenvolvimento nacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A migra\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra qualificada consolidou-se como um dos principais fen\u00f4menos da globaliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, especialmente diante da crescente import\u00e2ncia da economia do conhecimento, da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e das redes transnacionais. Nesse contexto, o caso da \u00cdndia demonstra que a mobilidade internacional de profissionais altamente especializados n\u00e3o pode ser compreendida apenas como uma perda de capital humano. Embora a teoria da fuga de c\u00e9rebros continue relevante, as transforma\u00e7\u00f5es ocorridas nas \u00faltimas d\u00e9cadas mostram que a circula\u00e7\u00e3o de talentos tamb\u00e9m pode gerar benef\u00edcios econ\u00f4micos, tecnol\u00f3gicos e pol\u00edticos para os pa\u00edses de origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Este texto buscou analisar se a migra\u00e7\u00e3o qualificada indiana representa uma perda estrutural de capital humano ou uma estrat\u00e9gia de protagonismo global. A partir da revis\u00e3o da literatura e da an\u00e1lise das transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e institucionais da \u00cdndia, verificou-se que essas interpreta\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o excludentes. A migra\u00e7\u00e3o qualificada produz perdas, mas tamb\u00e9m pode gerar ganhos quando o Estado \u00e9 capaz de manter v\u00ednculos com sua di\u00e1spora e transformar esses profissionais em agentes de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Conclui-se, portanto, que a migra\u00e7\u00e3o qualificada indiana deve ser compreendida como um fen\u00f4meno complexo, marcado pela coexist\u00eancia de perdas e oportunidades. Mais do que exportar profissionais, a \u00cdndia conseguiu transformar parte de sua di\u00e1spora em um recurso estrat\u00e9gico para o desenvolvimento e a proje\u00e7\u00e3o internacional. Desse modo, a experi\u00eancia indiana evidencia que, na economia global do conhecimento, a capacidade de produzir, conectar e mobilizar talentos tornou-se um importante elemento de poder e competitividade internacional, contribuindo para consolidar o pa\u00eds como uma das principais pot\u00eancias emergentes do s\u00e9culo XXI.<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n\n\n\n<p>BHAGWATI, Jagdish; HAMADA, Koichi.&nbsp;<em>The brain drain, international integration of markets for professionals and unemployment: a theoretical analysis<\/em>.&nbsp;<em>Journal of Development Economics<\/em>, Amsterdam, v. 1, n. 1, p. 19-42, 1974.<\/p>\n\n\n\n<p>CASTELLS, Manuel.&nbsp;<em>A sociedade em rede<\/em>. 21. ed. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>JOHNSON, Harry G.&nbsp;<em>Some economic aspects of the brain drain<\/em>.&nbsp;<em>Pakistan Development Review<\/em>, Islamabad, v. 7, n. 3, p. 379-411, 1967.<\/p>\n\n\n\n<p>KAPUR, Devesh.&nbsp;<em>Diaspora, development, and democracy: the domestic impact of international migration from India<\/em>. Princeton: Princeton University Press, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>NASSCOM.&nbsp;<em>Strategic Review 2025: Beyond Disruption \u2013 Staying Future-Ready Today<\/em>. New Delhi: National Association of Software and Service Companies, 2025. Dispon\u00edvel em:<a href=\"https:\/\/nasscom.in\/communities\/nasscom-insights\/technology-sector-india-strategic-review-2025\">&nbsp;<\/a><a href=\"https:\/\/nasscom.in\/communities\/nasscom-insights\/technology-sector-india-strategic-review-2025\">https:\/\/nasscom.in\/communities\/nasscom-insights\/technology-sector-india-strategic-review-2025<\/a>. Acesso em: 15 jul. 2026.<\/p>\n\n\n\n<p>NYE JR., Joseph S.&nbsp;<em>Soft power: the means to success in world politics<\/em>.&nbsp;New York: PublicAffairs, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p>OIM \u2013 ORGANIZA\u00c7\u00c3O INTERNACIONAL PARA AS MIGRA\u00c7\u00d5ES.&nbsp;<em>World Migration Report 2024<\/em>. Genebra: Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es, 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/publications.iom.int\/books\/world-migration-report-2024.<\/p>\n\n\n\n<p>PANAGARIYA, Arvind.&nbsp;<em>India: the emerging giant<\/em>. New York: Oxford University Press, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>SASSEN, Saskia.&nbsp;<em>The global city: New York, London, Tokyo<\/em>. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>SAXENIAN, AnnaLee.&nbsp;<em>The new Argonauts: regional advantage in a global economy<\/em>. Cambridge: Harvard University Press, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p>STARK, Oded; HELMENSTEIN, Christian; PRSKAWETZ, Alexia.&nbsp;<em>A brain gain with a brain drain<\/em>.&nbsp;<em>Economics Letters<\/em>, Amsterdam, v. 55, n. 2, p. 227\u2013234, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p>UNESCO INSTITUTE FOR STATISTICS.&nbsp;<em>UIS Database: Education, Science, Technology and Innovation<\/em>.&nbsp;Montreal: UNESCO Institute for Statistics, 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/uis.unesco.org\/.WORLD BANK.&nbsp;<em>In 2024, remittance flows to low- and middle-income countries are expected to reach $685 billion, larger than FDI and ODA combined<\/em>. Washington, DC: World Bank Blogs, 18 dez. 2024. Dispon\u00edvel em:<a href=\"https:\/\/blogs.worldbank.org\/en\/peoplemove\/in-2024--remittance-flows-to-low--and-middle-income-countries-ar\"><\/a><a href=\"https:\/\/blogs.worldbank.org\/en\/peoplemove\/in-2024--remittance-flows-to-low--and-middle-income-countries-ar\">https:\/\/blogs.worldbank.org\/en\/peoplemove\/in-2024&#8211;remittance-flows-to-low&#8211;and-middle-income-countries-ar<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>O Laborat\u00f3rio de Estudos Asi\u00e1ticos \u2013 LEA \u2013 criado em 2010, tem como objetivo desenvolver atividades de pesquisa e de extens\u00e3o universit\u00e1ria que unam professores, alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e de gradua\u00e7\u00e3o. Vinculado aos cursos de gradua\u00e7\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e de Defesa e Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica Internacional da UFRJ, o laborat\u00f3rio produz estudos comparados e an\u00e1lises de conjuntura sobre os pa\u00edses que integram o continente de maior contingente populacional e extens\u00e3o territorial do planeta, marcado pela diversidade e pela complexidade de suas tem\u00e1ticas. Desse modo, esperamos contribuir para o entendimento das quest\u00f5es referentes \u00e0 \u00c1sia que figuram no centro das aten\u00e7\u00f5es atualmente. Coordena\u00e7\u00e3o: Profa Dra. Marianna Albuquerque.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Giuliane Costa e Silva<\/strong> \u00e9 graduanda em Defesa e Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica Internacional da UFRJ e membro do Laborat\u00f3rio de Estudos Asi\u00e1ticos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>L\u00edvia Fernandes de Souza <\/strong>\u00e9 graduanda em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRJ e membro do Laborat\u00f3rio de Estudos Asi\u00e1ticos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volume 13 | N\u00famero 126 | Out. 2026 Por Giuliane Costa e Silva<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3474,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[645],"tags":[],"class_list":["post-3482","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-edicao-atual"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3482","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3482"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3482\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3483,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3482\/revisions\/3483"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3474"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dialogosinternacionais.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}