A Índia como um grande player geopolítico contemporâneo: a autonomia estratégica indiana durante a guerra entre Rússia e Ucrânia

Volume 13 | Número 126 | Out. 2026
Por Giovanna Akemi Iga Fornaziero
Introdução
A reorganização da ordem internacional no século XXI, marcada pelo deslocamento gradual do centro de gravidade econômico e geopolítico para a Ásia, alterou significativamente as dinâmicas de poder da política internacional. A ascensão da China como potência global, a intensificação das disputas no Indo-Pacífico e o enfraquecimento relativo da ordem liberal liderada pelos Estados Unidos ampliaram a relevância estratégica da região e impuseram novos desafios aos Estados asiáticos, que passaram a formular diferentes estratégias de inserção internacional e de maximização de seus interesses nacionais.
Nesse contexto, a política externa constitui um importante instrumento analítico para compreender como os Estados percebem sua posição no sistema internacional e quais estratégias mobilizam para ampliar sua influência. Mais do que refletir preferências conjunturais dos governos, ela expressa condicionantes históricos, geopolíticos e econômicos que delimitam as possibilidades de ação dos formuladores de política externa. No caso indiano, tais condicionantes são particularmente relevantes em razão de sua posição geográfica singular.
Atualmente, a quinta maior economia do mundo e uma das principais potências emergentes do Sul Global, a Índia ocupa uma posição estratégica no espaço geopolítico denominado por Nicholas Spykman (1944) como Rimland. O conceito refere-se à faixa territorial que circunda o Heartland eurasiático e se estende pelas regiões costeiras e marginais da Eurásia, constituindo uma zona intermediária entre as potências terrestres e marítimas. Para Spykman, o controle do Rimland seria fundamental para o domínio da Eurásia e, consequentemente, para a projeção do poder em escala global. Com acesso privilegiado ao Oceano Índico e situada entre o Oriente Médio, a Ásia Central e a China, Nova Délhi encontra-se no centro das principais rotas marítimas e das disputas geopolíticas que estruturam a ordem internacional contemporânea. Essa localização, entretanto, não representa apenas uma vantagem estratégica. Conforme argumenta Ribeiro (2019), ela também impõe um conjunto de coerções geográficas, entendidas como limitações estruturais decorrentes da posição territorial do país, de sua vizinhança imediata e da distribuição regional de poder. Cercada por dois rivais nucleares — China e Paquistão —, e inserida em uma região marcada por disputas territoriais, competição marítima e instabilidade política, a Índia formula sua política externa sob permanentes imperativos de segurança, o que condiciona, em partes, suas escolhas diplomáticas e estratégicas.
Essas restrições e oportunidades geográficas ajudam a compreender a definição dos objetivos de longo prazo que orientam a Grande Estratégia indiana. Conforme Ribeiro (2019), esses objetivos envolvem a priorização do desenvolvimento econômico, a busca pela hegemonia no Oceano Índico, o equilíbrio da distribuição de poder no Indo-Pacífico e a obtenção do status de Grande Potência por meio de uma participação mais ativa na reforma da ordem internacional. Assim, a posição geográfica da Índia condiciona a forma pela qual o país busca converter suas capacidades econômicas, militares e diplomáticas em poder e influência internacional. Nesse sentido, a crescente atuação indiana em fóruns multilaterais e mecanismos de cooperação, como BRICS, QUAD, G20 e Organização para Cooperação de Xangai, não representa apenas uma ampliação de sua projeção internacional, mas também uma estratégia para expandir sua margem de manobra diante das restrições impostas por sua geografia e pelo ambiente estratégico regional.
Sob esse contexto, a guerra entre Rússia e Ucrânia evidenciou de forma particularmente clara essa lógica. Diante da pressão das potências ocidentais para condenar a invasão russa, como elucidado mais à frente, a Índia recusou alinhar-se automaticamente a qualquer dos polos em disputa, preservando simultaneamente suas relações estratégicas com Moscou e aprofundando sua parceria com os Estados Unidos. Tal comportamento revela a consolidação da autonomia estratégica como princípio estruturante de sua política externa, permitindo a Nova Délhi transformar sua posição geopolítica em um ativo diplomático e ampliar sua relevância em um sistema internacional cada vez mais multipolar.
Partindo desse contexto, este artigo busca compreender de que maneira a autonomia estratégica se consolidou como eixo orientador da política externa indiana. Nesse contexto, a autonomia estratégica constitui um elemento central para compreender a atuação internacional indiana. Conforme argumenta Mohan (2013), a autonomia estratégica está associada à preservação de uma determinada liberdade de ação diante das transformações da distribuição de poder internacional. Essa orientação não pressupõe o isolamento ou a rejeição da cooperação com grandes potências. Ao contrário, a Índia pode aprofundar suas relações estratégicas com diferentes atores enquanto procura evitar que tais vínculos restrinjam suas próprias opções de política externa. Nesse sentido, a autonomia estratégica pode ser compreendida como a capacidade de preservar margem de manobra para definir e ajustar seus compromissos internacionais de acordo com seus interesses nacionais. Argumenta-se que foi durante a guerra na Ucrânia que Nova Délhi passou a exercer sua autonomia estratégica de forma mais assertiva, administrando simultaneamente suas relações com grandes potências rivais e convertendo sua posição geográfica em um importante instrumento de projeção internacional.
- Conflito entre Rússia e Ucrânia: a grande guinada da geoestratégia indiana
Para compreender o posicionamento indiano histórico, há de se tratar alguns eventos históricos. Aatuação da Índia durante a Guerra ao Terror, por exemplo, constitui um importante antecedente para compreender sua postura diante da guerra entre Rússia e Ucrânia. Isso porque os atentados de 11 de setembro de 2001 reconfiguraram a política internacional ao colocar o combate ao terrorismo no centro da agenda estratégica dos Estados Unidos. Para a Índia, esse contexto representou uma oportunidade de aproximação com Washington, sobretudo diante do terrorismo transfronteiriço associado a grupos sediados no Paquistão. Nova Délhi buscou aproximar suas preocupações de segurança das prioridades norte-americanas, esperando ampliar a pressão sobre o Paquistão e fortalecer sua posição regional (VENKATSHAMY, 2012).
Entretanto, essa convergência foi limitada pelas próprias prioridades dos Estados Unidos. A campanha no Afeganistão tornou o Paquistão um parceiro estratégico indispensável, fazendo com que Washington mantivesse sua cooperação com Islamabad. Ainda assim, a relação entre Índia e Estados Unidos avançou durante a década de 2000, especialmente a partir de 2004, com o Next Steps in Strategic Partnership (NSSP), e posteriormente com o acordo de cooperação nuclear civil, anunciado em 2005 e concluído em 2008 (RAVI, 2018). Dessa forma, a aproximação com Nova Délhi coexistiu com a manutenção da parceria norte-americana com o Paquistão.
Essa experiência contribuiu para reforçar, entre os formuladores de política externa indianos, a percepção de que o país não deveria depender excessivamente de uma única potência. Conforme Ganguly (2024), isso ajuda a explicar a preferência indiana por uma ordem internacional multipolar, capaz de ampliar sua margem de manobra. Paralelamente, a Índia preservou sua relação histórica com a Rússia, especialmente no setor de defesa. Como argumenta Moraes:
Entre os principais mercados explorados pela Rússia estiveram aqueles países que desejavam importar uma grande quantidade de armas, mas que, ao mesmo tempo, encontravam-se sob embargo dos Estados Unidos e/ou da União Europeia, com destaque para os casos da China, do Irã e da Venezuela. Em relação à Índia, embora o país não seja objeto de embargos, ela não tem recebido armas dos Estados Unidos em quantidade significativa em função da aliança norte-americana com o Paquistão, o que permite à Rússia controlar um grande percentual do mercado de armas indiano. (MORAES, 2011, p.75).
Assim, a Guerra ao Terror não representou um alinhamento irrestrito entre Índia e Estados Unidos, mas uma aproximação estratégica condicionada. A cooperação em áreas de interesse comum ocorreu sem que Nova Délhi abandonasse sua autonomia decisória ou a diversificação de parceiros. Nesse sentido, sua política externa manteve um caráter pragmático e flexível, evitando a formação de alinhamentos rígidos.
No entanto, esse cenário muda com o decorrer da guerra entre Rússia e Ucrânia. Se, no início dos anos 2000, a Índia ainda buscava consolidar sua posição internacional por meio da aproximação com Washington, em 2022 o cenário era substancialmente distinto. Ao longo desse intervalo, o país ampliou significativamente suas capacidades materiais, sobretudo no âmbito econômico, em um contexto de expressiva expansão do PIB. Entre 2003 e 2010, por exemplo, a economia indiana apresentou taxas de crescimento anual próximas ou superiores a 7% na maioria dos anos, alcançando 8,5% em 2010, segundo dados do Banco Mundial. A expansão econômica contribuiu para ampliar as capacidades materiais que sustentam a atuação internacional indiana, processo acompanhado pelo fortalecimento de suas capacidades militares e de sua projeção diplomática. Nesse contexto, Nova Délhi passou a exercer sua autonomia estratégica de maneira mais assertiva, recusando-se a aderir às sanções impostas à Rússia e, simultaneamente, preservando o aprofundamento da parceria estratégica com os Estados Unidos.
A posição indiana diante da guerra entre Rússia e Ucrânia deve ser compreendida à luz do delicado contexto diplomático enfrentado por Nova Délhi após a invasão russa, em fevereiro de 2022. Ao mesmo tempo em que sofria pressão de Estados Unidos e países europeus para adotar uma postura mais crítica em relação a Moscou, a Índia buscava preservar uma parceria estratégica historicamente consolidada com a Rússia, particularmente no âmbito da defesa, sem comprometer a aproximação que vinha aprofundando com Washington.
Durante o início da guerra, a resposta articulada pelos Estados Unidos, pela OTAN e por seus aliados europeus contribuiu para a formação de uma frente diplomática voltada ao isolamento internacional da Rússia, exercendo pressão sobre Estados terceiros para que condenassem a ação russa e evitassem medidas que pudessem contribuir para o esforço de guerra de Moscou. Em declaração oficial de 25 de fevereiro de 2022, os líderes da OTAN conclamaram todos os Estados a condenarem “inequivocamente este ataque inconcebível”. A orientação foi reforçada nos meses seguintes. Além disso, na Declaração de Madri, adotada em junho de 2022, os aliados classificaram a Rússia como a “most significant and direct threat” à segurança dos membros da Aliança e à paz e à estabilidade na região euro-atlântica. Dessa forma, a guerra passou a ser enquadrada pelas potências ocidentais como uma ameaça de alcance mais amplo à ordem de segurança europeia e internacional, acompanhada por esforços diplomáticos e econômicos destinados a ampliar o isolamento de Moscou. Nesse contexto, a decisão indiana de não acompanhar integralmente a resposta ocidental ao conflito e de manter uma posição de abstenção nas votações das Nações Unidas evidenciava a tentativa de preservar a margem de manobra diante das pressões das grandes potências.
Essa postura de autonomia pode ser observada na atuação do Ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, durante o debate parlamentar sobre a situação na Ucrânia, em 24 de março de 2022. Segundo fontes do próprio governo indiano, embora o governo indiano enfatizasse a dimensão humanitária do conflito — destacando a necessidade de cessação das hostilidades, a proteção de civis, a abertura de corredores seguros e a realização da Operação Ganga para a retirada de cidadãos indianos —, sua posição também era formulada em termos dos princípios que deveriam orientar a ordem internacional. Em resposta ao Parlamento, o governo reiterou que havia defendido, tanto nas Nações Unidas quanto em seus contatos bilaterais, que “a ordem global está ancorada no direito internacional, nos princípios da Carta da ONU e no respeito à integridade territorial e à soberania dos Estados”.
A declaração de Jaishankar assumia particular relevância diante da própria natureza da guerra, uma vez que a invasão russa colocava em evidente tensão esses princípios de soberania e integridade territorial. Ainda assim, Nova Délhi evitou transformar essa defesa dos princípios do direito internacional em uma condenação explícita a Moscou. Em sua intervenção, Jaishankar afirmou que a política externa indiana era orientada pelo “interesse nacional indiano”, rejeitando implicitamente a expectativa de que a Índia deveria alinhar sua posição àquela de Washington. Dessa forma, a postura adotada durante o conflito combinava a defesa discursiva de princípios da ordem internacional com a preservação de relações estratégicas com a Rússia e, simultaneamente, a continuidade da aproximação com os Estados Unidos.
Essa combinação evidencia uma característica central da autonomia estratégica indiana: a capacidade de Nova Délhi de sustentar posições próprias diante de interesses conflitantes das grandes potências, sem necessariamente romper com qualquer um dos polos. Assim, a posição adotada diante da guerra não deve ser interpretada simplesmente como neutralidade ou como apoio à Rússia, mas como uma tentativa de preservar a liberdade de ação em um cenário de crescente competição entre grandes potências.
Outro aspecto que evidencia esse posicionamento foi a prioridade conferida pelo governo indiano à proteção de seus interesses nacionais em meio ao conflito. Segundo comunicado divulgado pelo próprio Prime Minister’s Office (PMO) da Índia, em 7 de março de 2022, o primeiro-ministro Narendra Modi manteve uma conversa telefônica com o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, durante a qual expressou profunda preocupação com o conflito e a crise humanitária dele decorrente. Na ocasião, Modi agradeceu às autoridades ucranianas pela facilitação da evacuação de mais de 20 mil cidadãos indianos e manifestou preocupação com a segurança dos estudantes que ainda permaneciam no país, enfatizando a necessidade de uma retirada rápida e segura. O comunicado também registra a reafirmação, por parte de Modi, do apelo indiano pela cessação imediata da violência e pela resolução pacífica das questões por meio do diálogo direto entre as partes.
A iniciativa evidencia que, paralelamente à preservação de sua relação estratégica com a Rússia, Nova Délhi buscava manter canais de comunicação e cooperação com o governo ucraniano, sobretudo em questões diretamente relacionadas aos seus interesses nacionais. Nesse sentido, a atuação indiana durante os primeiros meses da guerra combinava a defesa de uma solução negociada para o conflito com a proteção de seus cidadãos e a manutenção de interlocução com ambos os lados. Essa postura contribuiu para preservar a margem de manobra diplomática de Nova Délhi em um contexto de crescente polarização internacional, sem submetê-la a um alinhamento automático com qualquer dos atores envolvidos.
Dessa forma, a neutralidade adotada pela Índia diante da invasão russa da Ucrânia não decorreu de uma simples recusa em tomar partido no conflito, mas de um cálculo estratégico voltado à preservação de seus interesses de segurança. Embora Nova Délhi tenha reiterado seu compromisso com a soberania dos Estados, com a integridade territorial e com a resolução pacífica de disputas, evitou condenar explicitamente Moscou nos fóruns multilaterais, abstendo-se sucessivamente nas votações das Nações Unidas. A título de exemplificação, em 2022, a Índia se absteve na votação de uma resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU que previa o estabelecimento de uma comissão internacional independente de investigação sobre as alegadas violações de direitos humanos e do direito internacional humanitário decorrentes da agressão russa à Ucrânia, realizada em Genebra. A resolução foi aprovada por 32 votos favoráveis, dois contrários — Rússia e Eritreia — e 13 abstenções, entre elas as de Índia, China e Paquistão. O documento previa, entre outras medidas, a investigação das violações e abusos de direitos humanos, a apuração das circunstâncias e causas dos episódios e a identificação, quando possível, dos responsáveis, com vistas à responsabilização pelos crimes cometidos.
A decisão indiana ocorreu em um contexto de sucessivas abstenções em votações relacionadas ao conflito nas Nações Unidas. Na mesma semana, Nova Delhi havia se abstido de resoluções no Conselho de Segurança e na Assembleia Geral que condenavam a agressão russa. Na Assembleia Geral, especificamente, a resolução que exigia a retirada das forças russas do território ucraniano foi aprovada por 141 votos favoráveis, cinco contrários e 35 abstenções, incluindo a Índia.
Ao justificar sua abstenção, o governo posteriormente afirmou que a decisão estava relacionada à política indiana de privilegiar o diálogo e a diplomacia, considerando também a totalidade das circunstâncias presentes no conflito. Essa postura refletia menos uma concordância com a ação russa do que a percepção de que uma ruptura diplomática com o Kremlin poderia comprometer o equilíbrio geopolítico considerado essencial para os interesses indianos. Conforme argumenta Ashley Tellis (2022), a decisão indiana foi motivada sobretudo pelo receio de que o isolamento internacional da Rússia aprofundasse sua aproximação estratégica com a China e incentivasse um estreitamento das relações entre Moscou e o Paquistão, os dois principais desafios à segurança nacional da Índia.
Sob essa perspectiva, a guerra na Ucrânia é interpretada por Nova Délhi a partir de um enquadramento distinto daquele predominante entre as potências ocidentais. Enquanto Estados Unidos e Europa concebiam o conflito como uma ameaça direta à ordem liberal internacional, pode-se dizer que a liderança indiana priorizava seus próprios interesses regionais. Nesse sentido, o objetivo central não era preservar um consenso normativo sobre a condenação da agressão russa, mas impedir que Moscou se tornasse excessivamente dependente de Pequim, eliminando um importante polo de poder com o qual a Índia historicamente mantém relações. Assim, a preservação da parceria com a Rússia era compreendida como um instrumento para limitar a consolidação de um eixo sino-russo ainda mais robusto e, simultaneamente, reduzir os incentivos para uma cooperação estratégica mais profunda entre Rússia e Paquistão.
Essa lógica também explica a assimetria histórica no tratamento dispensado pela política externa indiana à Rússia e aos Estados Unidos. Como elucidado por Tellis (2022), Nova Délhi demonstrou reiteradamente maior tolerância em relação às ações russas do que às norte-americanas, mesmo quando decisões de Moscou produziram impactos negativos sobre os interesses indianos. A invasão soviética do Afeganistão, em 1979, por exemplo, alterou profundamente o ambiente estratégico do Sul da Ásia por décadas, fortalecendo a militarização regional e contribuindo para a instabilidade na vizinhança indiana. Ainda assim, a reação de Nova Délhi foi marcadamente moderada.
Para compreender adequadamente a posição indiana em relação à Rússia, é necessário considerar a memória estratégica construída ao longo da Guerra Fria. Inserida em um sistema internacional marcado pela bipolaridade, a Índia aprofundou sua aproximação com a União Soviética, que lhe ofereceu assistência militar e apoio diplomático em fóruns multilaterais (ALBUQUERQUE; LIMA, 2024). Essa aproximação, contudo, coexistiu com a participação ativa de Nova Delhi no Movimento dos Países Não Alinhados, do qual a Índia foi uma das principais lideranças (ROSS, 2013).
Nesse sentido, a União Soviética também atuou como aliada diplomática em fóruns internacionais, como o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), onde os soviéticos vetavam consistentemente em resoluções que visavam a Índia durante conflitos com o Paquistão (Albuquerque 2022). Além disso, a aproximação indo-soviética adquiriu particular relevância durante a Guerra Indo-Paquistanesa de 1971. Naquele contexto, Moscou ofereceu importante respaldo político e estratégico a Nova Delhi, inclusive no âmbito do Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao passo que a atuação dos Estados Unidos esteve associada ao apoio ao Paquistão e à sua própria reconfiguração estratégica na Ásia. Esse episódio contribuiu para reforçar, no cálculo estratégico indiano, a percepção da União Soviética como um parceiro capaz de oferecer maior respaldo às suas preocupações de segurança em momentos de crise regional (RIBEIRO, 2019).
Considerado o histórico da aliança indo-russa, entende-se que o posicionamento indiano durante a guerra da Ucrânia também desafia interpretações marcadamente eurocêntricas do conflito. Sob a ótica de Nova Délhi, uma Rússia fortalecida não constitui, em si, uma ameaça direta à segurança – como concebido pelo Ocidente de forma geral. Pelo contrário, o enfraquecimento excessivo de Moscou poderia produzir consequências estratégicas ainda mais prejudiciais ao favorecer sua crescente dependência da China. Como sintetiza Happymon Jacob (2022, tradução nossa), “uma Rússia agressiva é um problema para os Estados Unidos e para o Ocidente, não para a Índia”[1]; para Nova Délhi, o verdadeiro desafio estratégico permanece sendo a ascensão chinesa. Nesse contexto, a Índia necessita, simultaneamente, da parceria com os Estados Unidos para equilibrar o poder de Pequim no Indo-Pacífico e da manutenção de relações estáveis com Moscou para evitar que a Rússia seja absorvida pela esfera de influência chinesa.
Essa leitura ajuda a compreender por que a “neutralidade indiana” não representou equidistância moral entre os beligerantes, mas uma manifestação concreta da doutrina de autonomia estratégica, guiada pela racionalidade. Em vez de aderir às expectativas ocidentais de condenação da Rússia, Nova Délhi buscou preservar sua liberdade de ação em um ambiente internacional cada vez mais multipolar, evitando comprometer simultaneamente sua parceria crescente com Washington e sua relação histórica com Moscou.
Dessa forma, o comportamento da Índia durante a guerra da Ucrânia revela uma política externa orientada, prioritariamente, pela maximização de seus interesses nacionais e pela preservação de sua autonomia decisória. Mais do que defender uma posição neutra em termos normativos, Nova Délhi procurou impedir que o conflito alterasse desfavoravelmente a distribuição de poder na Ásia, preservando a Rússia como um polo relativamente independente da China e, ao mesmo tempo, mantendo sua cooperação estratégica com os Estados Unidos. Essa capacidade de manter relações simultaneamente funcionais com atores rivais evidencia que a autonomia estratégica indiana não consiste em uma postura de equidistância, mas na utilização pragmática das rivalidades entre as grandes potências para ampliar sua margem de manobra internacional.
- A multipolaridade como premissa para a autonomia estratégica indiana
Entender o posicionamento indiano na guerra entre Rússia e Ucrânia deflagra não somente a articulação de um dos maiores países asiáticos, mas é uma forma de entender como esse país projeta sua própria inserção no sistema internacional. Dessa forma, a defesa de uma ordem internacional multipolar ocupa posição central na política externa indiana contemporânea, não como um compromisso normativo com a redistribuição do poder global, mas como uma estratégia destinada a ampliar a autonomia decisória do Estado indiano. Segundo Ganguly (2024), a preferência de Nova Délhi pela multipolaridade decorre da percepção de que sistemas internacionais excessivamente concentrados em torno de uma potência hegemônica tendem a restringir a capacidade de Estados intermediários formularem políticas externas independentes. Em uma ordem unipolar, os custos políticos, econômicos e estratégicos de divergir das preferências da potência dominante tornam-se significativamente maiores, limitando a margem de manobra diplomática de países em desenvolvimento. Em contraste, a existência de múltiplos polos de poder amplia as possibilidades de diversificação de parcerias, de negociação simultânea com diferentes atores e de construção de estratégias externas menos condicionadas por alinhamentos exclusivos.
Essa compreensão está diretamente relacionada à trajetória histórica da política externa indiana. Conforme demonstra Ganguly (2024), parte significativa da elite diplomática de Nova Délhi permanece marcada pela experiência da Guerra Fria, período em que decisões estratégicas dos Estados Unidos frequentemente privilegiaram o Paquistão em detrimento dos interesses de segurança da Índia. O apoio norte-americano ao Paquistão durante a Guerra de 1971, a aproximação entre Washington, Pequim e Islamabad e, posteriormente, a retomada da cooperação estratégica entre Estados Unidos e Paquistão após os atentados de 11 de setembro, conforme tratado anteriormente, alimentaram a percepção de que a dependência excessiva de uma única potência compromete a autonomia da política externa indiana. Nesse sentido, a defesa da multipolaridade representa também uma resposta histórica à imprevisibilidade das alianças internacionais e à necessidade de preservar a liberdade de ação em um ambiente estratégico considerado volátil.
Sob essa perspectiva, a multipolaridade deve ser compreendida como um instrumento funcional à Grande Estratégia indiana. Como argumenta Ribeiro (2019), os objetivos permanentes da política externa da Índia incluem a promoção do desenvolvimento econômico, a consolidação de sua posição como potência predominante no Oceano Índico, o equilíbrio de poder no Indo-Pacífico e o reconhecimento como grande potência capaz de influenciar a governança internacional. A concretização desses objetivos depende da capacidade de Nova Délhi manter relações simultâneas com diferentes centros de poder, evitando compromissos que reduzam sua liberdade de decisão. A autonomia estratégica, portanto, não constitui um fim em si mesmo, mas o principal mecanismo por meio do qual a Índia procura maximizar seus interesses nacionais em um sistema internacional em transformação.
Essa interpretação converge com Mohan (2013), para quem a política externa indiana passou a combinar o princípio da autonomia estratégica com uma postura de crescente engajamento internacional. Ao invés de reproduzir a lógica clássica do não alinhamento, Nova Délhi passou a adotar uma estratégia de múltiplos alinhamentos seletivos, aprofundando simultaneamente suas relações com diferentes polos de poder conforme seus interesses específicos. A participação concomitante da Índia em iniciativas como o QUAD, os BRICS, a Organização para Cooperação de Xangai e o G20 evidencia essa estratégia de diversificação diplomática, que busca transformar a competição entre grandes potências em oportunidades de cooperação econômica, tecnológica, energética e militar.
No contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia, essa lógica tornou-se particularmente evidente. A recusa da Índia em aderir às sanções ocidentais contra Moscou, paralelamente ao aprofundamento da cooperação estratégica com os Estados Unidos, demonstra que sua política externa não foi orientada por critérios ideológicos ou por uma lógica de neutralidade passiva. Ao contrário, a postura de Nova Délhi revela uma estratégia voltada à preservação de sua autonomia decisória e à ampliação de seu poder de barganha em um cenário internacional marcado pela intensificação da rivalidade entre grandes potências. A multipolaridade, nesse contexto, deixa de representar apenas uma característica desejável da ordem internacional e passa a constituir uma condição indispensável para que a Índia maximize sua capacidade de negociação, reduza vulnerabilidades externas e fortaleça sua projeção como uma potência emergente do Sul Global.
Sob essa ótica, a guerra entre Rússia e Ucrânia reforçou a compreensão indiana de que a fragmentação relativa da distribuição de poder internacional amplia sua relevância geopolítica. Quanto maior a competição entre Estados Unidos, Rússia e China por influência na Ásia, maiores tendem a ser as oportunidades para que a Índia converta sua posição geográfica, seu peso econômico e sua crescente capacidade diplomática em instrumentos de influência internacional. A defesa da multipolaridade, portanto, deve ser compreendida como parte integrante da Grande Estratégia indiana: não se trata de promover um equilíbrio abstrato entre grandes potências, mas de criar condições estruturais que permitam à Índia exercer uma política externa efetivamente autônoma e compatível com suas ambições de ascensão internacional.
- Conclusão
O presente artigo buscou compreender em que medida a guerra entre Rússia e Ucrânia evidencia a consolidação da autonomia estratégica na política externa indiana. A análise demonstrou que esse princípio não constitui uma resposta específica ao conflito iniciado em 2022, mas o resultado de um processo gradual de construção da Grande Estratégia indiana, influenciado pelas transformações do sistema internacional, pelas relações com as grandes potências e pelas condições geopolíticas do país.
Ao longo das últimas décadas, a Índia ampliou sua capacidade de atuar de forma autônoma diante de diferentes centros de poder, preservando relações estratégicas com parceiros distintos sem se submeter a alinhamentos exclusivos. A experiência de aproximação com os Estados Unidos, especialmente no contexto da Guerra ao Terror, evidenciou os limites de uma dependência excessiva de uma única potência e contribuiu para reforçar a importância da diversificação de parcerias. Paralelamente, Nova Délhi manteve sua histórica parceria estratégica com a Rússia, sobretudo no campo da defesa, demonstrando a continuidade de uma política externa orientada pela preservação de sua margem de manobra.
Nesse sentido, a guerra entre Rússia e Ucrânia representou um momento particularmente significativo para a manifestação dessa autonomia. Diante da crescente polarização internacional, a Índia recusou aderir integralmente às pressões ocidentais para condenar Moscou, ao mesmo tempo em que preservou sua parceria estratégica com a Rússia e aprofundou a cooperação com os Estados Unidos. Sua postura não pode ser compreendida simplesmente como neutralidade, mas como uma estratégia voltada à proteção de seus interesses nacionais e à manutenção da liberdade de decisão em um cenário de intensa competição entre grandes potências.
Esse comportamento demonstra que a autonomia estratégica constitui não apenas um mecanismo de preservação da independência decisória, mas também um instrumento de projeção internacional. Ao administrar simultaneamente relações com atores rivais, a Índia transforma sua posição geográfica — marcada pela proximidade com China e Paquistão e pela centralidade do Oceano Índico — em um recurso estratégico capaz de ampliar seu poder de barganha. Nesse contexto, a defesa de uma ordem internacional multipolar mostra-se diretamente relacionada à estratégia indiana de diversificação de parceiros e de redução de vulnerabilidades externas.
Conclui-se, portanto, que a guerra entre Rússia e Ucrânia representou menos uma ruptura do que a consolidação e a manifestação mais assertiva de uma estratégia construída ao longo das últimas décadas. A principal transformação da política externa indiana não reside na adoção da autonomia estratégica, mas na crescente capacidade de exercê-la diante de um sistema internacional mais competitivo e multipolar. Ao preservar relações simultaneamente funcionais com Estados Unidos e Rússia, sem aderir a alinhamentos automáticos, a Índia amplia sua margem de manobra e fortalece sua posição como ator relevante na configuração da ordem internacional contemporânea, reafirmando sua trajetória de ascensão como grande potência no século XXI.
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[1] “An aggressive Russia is a problem for the U.S. and the West, not for India. North Atlantic Treaty Organization (NATO) expansion is Russia’s problem, not India’s.”
O Laboratório de Estudos Asiáticos – LEA – criado em 2010, tem como objetivo desenvolver atividades de pesquisa e de extensão universitária que unam professores, alunos de pós-graduação e de graduação. Vinculado aos cursos de graduação de Relações Internacionais e de Defesa e Gestão Estratégica Internacional da UFRJ, o laboratório produz estudos comparados e análises de conjuntura sobre os países que integram o continente de maior contingente populacional e extensão territorial do planeta, marcado pela diversidade e pela complexidade de suas temáticas. Desse modo, esperamos contribuir para o entendimento das questões referentes à Ásia que figuram no centro das atenções atualmente. Coordenação: Profa Dra. Marianna Albuquerque.
Giovanna Akemi Iga Fornaziero é graduanda em Relações Internacionais, na UFRJ e membro do Laboratório de Estudos Asiáticos.
