A DIPLOMACIA CLIMÁTICA INDIANA NO SÉCULO XXI: PRINCÍPIOS, ATORES E ESTRATÉGIA GEOPOLÍTICA
Volume 13 | Número 126 | Out. 2026

Por Lucas Feitosa Vidal
INTRODUÇÃO
Poucos temas expõem tão claramente as contradições da ascensão indiana quanto a mudança do clima. O país precisa ampliar a oferta de energia e criar empregos para uma população ainda marcada por carências materiais. Ao mesmo tempo, já ocupa uma posição decisiva nas emissões globais e está entre as sociedades mais expostas ao calor extremo, às monções irregulares e à elevação do nível do mar. Nenhuma estratégia internacional será efetiva se ignorar as necessidades e escolhas das grandes economias de industrialização tardia.
Para as Relações Internacionais, o caso indiano mostra como uma potência emergente combina normas distributivas, recursos materiais e aspirações de status. As negociações definem a repartição da capacidade remanescente de carbono, o acesso a financiamento e tecnologia e padrões capazes de reorganizar vantagens econômicas. Também afetam a autonomia da Índia, dependente de combustíveis importados e de tecnologias e minerais críticos concentrados na China. Nesse contexto, o clima tornou-se uma arena em que os Estados negociam desenvolvimento, segurança econômica e hierarquia internacional (NACHIAPPAN, 2026, p. 1-3).
Diante desse problema, o artigo pergunta: quais princípios, atores e condicionantes geopolíticos orientam a diplomacia climática indiana contemporânea? A literatura aponta três resultados. Primeiro, sucessivos governos mantiveram a responsabilidade histórica, a equidade per capita e o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas (CBDR, da sigla em inglês) porque o país enfrenta restrições duradouras, e não apenas por preferência retórica. Segundo, a chegada do Bharatiya Janata Party (BJP) ao poder, em 2014, preservou esses fundamentos, mas mudou o estilo, os instrumentos e a iniciativa da política externa climática. Terceiro, a Índia combina financiamento e margem de manobra na mitigação com política industrial verde e diversificação tecnológica. Nesse processo, compete com a China e constrói parcerias seletivas com Estados Unidos, União Europeia e Japão.
O primeiro resultado exige relacionar o discurso diplomático à base material do desenvolvimento. A demanda de eletricidade cresceu, o sistema depende do carvão e uma transição mal sequenciada distribuiria custos desiguais entre estados, trabalhadores e pequenas empresas. Isso não torna inevitável cada escolha do governo nem exime o país de responsabilidade. Explica, porém, por que sucessivos governos veem metas absolutas como possíveis restrições produtivas. A mesma estrutura incentiva a Índia a atrair capital, importar menos petróleo e desenvolver tecnologias de baixo carbono no próprio país (CHATURVEDI et al., 2024, p. 4-12).
O segundo resultado torna a ideia de continuidade mais precisa. Antes de 2014, a Índia já contava com instituições e missões nacionais e participava cada vez mais das negociações. O governo Modi, contudo, colocou o clima em posição mais destacada e passou a usá-lo para projetar o país internacionalmente. Iniciativas como a International Solar Alliance (ISA), a Coalition for Disaster Resilient Infrastructure (CDRI) e o programa LiFE ligaram a imagem do primeiro-ministro a uma diplomacia mais ativa, visível e voltada à oferta de soluções. Sob o BJP, o governo deixou de recorrer à equidade sobretudo como linguagem de resistência. Passou também a invocá-la para negociar margem de manobra, sustentar a política industrial e reivindicar a liderança do Sul Global. Os princípios continuaram os mesmos, mas a Índia mudou de forma substantiva sua maneira de agir e buscar status (SRIVASTAVA, 2025, p. 2-9).
O terceiro resultado insere essa mudança em um ambiente geopolítico competitivo. A Índia procura preservar sua autonomia diante do poder industrial chinês, embora ainda dependa, no curto prazo, de equipamentos que barateiam as energias renováveis. Em paralelo, recorre a acordos com Washington, Bruxelas e Tóquio para obter tecnologia, investimento e minerais críticos. Isso não significa que Nova Délhi tenha se alinhado ao Ocidente. O país continua a contestar medidas comerciais unilaterais e a insistir em financiamento concessional e responsabilidades diferenciadas. Sua diplomacia avança por acordos setoriais e combina cooperação tecnológica, competição industrial e a pretensão de representar o Sul Global (NACHIAPPAN, 2026, p. 4-6).
A partir desse pano de fundo, o restante do artigo está dividido em seis partes. A seção 2 apresenta a base material da política climática e relaciona emissões, energia e restrições macroeconômicas. A seção 3 reconstrói os princípios históricos que organizaram a posição indiana e mostra como eles se adaptaram à arquitetura prevista no Acordo de Paris, documento basilar do regime internacional de mudança do clima. A seção 4 examina o que permaneceu e o que mudou sob Modi, além dos atores e mecanismos que coordenam a política doméstica. A seção 5 analisa como Nova Délhi ordena, atualmente, financiamento, adaptação, tecnologia e mitigação. A seção 6 amplia o foco geopolítico para incluir a rivalidade com a China, as parcerias com Estados Unidos, União Europeia e Japão e a disputa pela liderança no Sul Global. Por fim, a conclusão reúne esses planos e aponta os limites da estratégia indiana.
A BASE MATERIAL
Antes de examinar a linguagem de Nova Délhi nas conferências, é preciso dimensionar a economia que sustenta suas posições. Em 2023, a Índia emitiu 4,14 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, ou 8% do total mundial, após um aumento anual de 6,1%. O país está entre os maiores emissores correntes, mas a comparação muda quando se considera a população e história. As emissões chegaram a 2,9 toneladas per capita, e a Índia respondeu por cerca de 3% do CO2 emitido entre 1850 e 2022. No mesmo período, os Estados Unidos responderam por 20% e a União Europeia, por 12%. Esse contraste ajuda a explicar por que o governo aceita reduzir a intensidade de carbono, mas resiste a um teto absoluto que desconsidere o desenvolvimento do país (PNUMA, 2024, p. 12).
O sistema energético está no centro do problema. Ele responde por três quartos das emissões nacionais, e a geração elétrica, sozinha, produz cerca de 40%. Ao mesmo tempo, a oferta precisa crescer, em uma sociedade que consome 19 gigajoules por habitante ao ano, ante 70 a 100 nos países com elevado desenvolvimento humano. Diante dessa necessidade energética, o carvão cumpre uma função tecnológica e estratégica. As usinas fornecem energia despachável, sustentam receitas estaduais e mantêm empregos em regiões pouco diversificadas. O combustível também protege parcialmente o país da volatilidade das importações. Por isso, a Índia associa o abandono dos fósseis ao acesso à energia, à segurança do abastecimento e à estabilidade das regiões produtoras (CHATURVEDI et al., 2024, p. 4-12).
Nas últimas décadas, a Índia expandiu rapidamente as energias renováveis, mas ainda existe uma distância entre o que projeta no exterior e o que executa internamente. O país pretendia alcançar 100 GW de energia solar em 2022, mas terminou o período com uma lacuna estimada em 27 GW. A maior parte do atraso ocorreu na geração distribuída. Poucos meses antes do prazo, os telhados solares somavam cerca de 11 GW, diante de uma meta de 40 GW. Enquanto isso, o país consumiu 1,251 bilhão de toneladas de carvão em 2023, 9% a mais que no ano anterior, porque as fontes renováveis não acompanharam todo o crescimento da demanda elétrica. Os dados mostram que instalar capacidade limpa não é o mesmo que reduzir a dependência das térmicas. A Índia avançou bastante no primeiro objetivo, mas o segundo ainda esbarra na rápida expansão do sistema e em problemas nas redes, no armazenamento e na distribuição (GULIA, THAYILLAM, GARG, 2022, p. 1-6; AIE, 2024, s. p.).
Essa dependência não torna a transição contrária aos interesses econômicos da Índia. Substituir petróleo importado pode aliviar a conta corrente, enquanto o mercado doméstico oferece escala para painéis solares, baterias e hidrogênio. Os benefícios dependem da ordem dos investimentos. Redes, armazenamento e distribuidoras viáveis precisam avançar com a geração. No aço, no cimento e nas pequenas manufaturas, tecnologia imatura e capital caro podem tornar equipamentos obsoletos antes que surjam alternativas competitivas. Os modelos estimam que a neutralidade em 2070 pode reduzir o PIB projetado entre 2,8% e 4,4%, conforme as hipóteses. Adiar a mitigação, por outro lado, elevaria o custo futuro. O desafio macroeconômico é coordenar investimentos e repartir riscos no tempo (CHATURVEDI et al., 2024, p. 8-10, 33-39).
Os custos também se distribuem de maneira desigual entre trabalhadores e empresas. Mais de meio milhão de pessoas empregadas em atividades ligadas ao carvão podem ser afetadas, sem contar quem trabalha informalmente. As micro, pequenas e médias empresas respondem por cerca de 30% do PIB, 45% das exportações e mais de 110 milhões de empregos. Apesar de seu peso econômico, elas têm menos acesso a crédito e tecnologia. Se o governo adotar apenas metas agregadas, poderá concentrar os custos da transição em regiões e empresas com pouca capacidade para se adaptar. É por isso que Nova Délhi leva a transição justa e o financiamento concessional às negociações internacionais. Com essas pautas, o país procura compartilhar no exterior parte dos riscos que enfrenta internamente (CHATURVEDI et al., 2024, p. 6-12).
Até os sumidouros de carbono[1] são difíceis de medir e executar. A Índia pretende criar um sumidouro adicional de 2,5 a 3 bilhões de toneladas de CO2 até 2030, mas as estimativas divergem. Inventários oficiais calcularam que o país sequestrava entre 68 e 203 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano. Estudos acadêmicos estimaram, ao contrário, que o uso da terra poderia emitir entre 185 e 198 milhões de toneladas líquidas. Parte da diferença vem de definições que classificam plantações e cultivos arbóreos como floresta. As séries sobre cobertura, estoque de carbono e qualidade dos ecossistemas também se contradizem. Isso não prova que a meta seja inviável, mas impede que o aumento da área classificada como floresta seja tomado como prova de um sumidouro adicional e permanente (DUBASH et al., 2018, p. 406-407).
Essas condições materiais explicam por que o financiamento climático ganhou tanto peso na diplomacia indiana. Para Nova Délhi, os recursos concessionais devem diminuir riscos tecnológicos e cambiais e tornar possíveis investimentos de alto retorno social, sobretudo em adaptação e infraestrutura. A NDC[2] para 2031–2035 mantém metas de intensidade, capacidade elétrica não fóssil e sumidouros, mas não limita as emissões absolutas. Esse formato permite modernizar a economia e ampliar a oferta de energia, embora também deixe espaço para que as emissões totais continuem crescendo. A escolha conecta as restrições econômicas do país aos princípios de responsabilidades diferenciadas que orientam há décadas sua atuação internacional (INDIA, 2026, p. 9-15).
PRINCÍPIOS HISTÓRICOS
Se a estrutura energética explica por que a Índia evita compromissos absolutos, os conceitos do regime climático mostram como o país justificou essa prudência. A diplomacia indiana tratou a mudança do clima como um problema de distribuição. De acordo com a Índia, o aquecimento decorre do acúmulo de emissões, e não apenas das emissões correntes, e os países industrializados usaram uma parcela desproporcional da capacidade da atmosfera. A Índia reuniu responsabilidade histórica, equidade per capita e direito ao desenvolvimento em uma mesma visão, argumentando, ainda, que proteger o clima deveria ser compatível com erradicar a pobreza e ampliar a produção nos países do Sul (DUBASH et al., 2018, p. 397-400).
O princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas e respectivas capacidades (CBDR-RC) levou essa visão às mesas de negociação. Todos os Estados teriam o dever de proteger o sistema climático, mas não deveriam assumir o mesmo encargo, pois contribuíram de maneira desigual para o problema e dispõem de recursos econômicos muito diferentes. Os países desenvolvidos deveriam liderar a mitigação. Aos demais, caberia mais tempo, financiamento e tecnologia. Essa interpretação sustentou a recusa indiana de metas quantitativas obrigatórias (PATHAK, PARRIS, 2021, p. 5-8).
A equidade per capita acrescentou outro critério à posição indiana. Ao sustentar que cada pessoa deveria ter o mesmo direito aos bens comuns da atmosfera, a Índia contestou comparações baseadas apenas nas emissões totais dos países. Em junho de 2007, em reunião do G8+5 na Alemanha, o primeiro-ministro Manmohan Singh anunciou que as emissões per capita indianas não ultrapassariam as dos países desenvolvidos, mesmo com a continuidade do crescimento econômico. A declaração foi formulada em meio às discussões sobre o regime climático pós-Kyoto[3] e à pressão para que grandes economias emergentes assumissem maiores responsabilidades, sendo reafirmada no Plano Nacional de Ação sobre Mudança do Clima de 2008. Como as emissões indianas por habitante eram muito inferiores às das economias desenvolvidas, o compromisso preservava amplo espaço para o crescimento do país, mas introduzia um limite relativo e uma referência para a convergência futura das emissões per capita (SARYAL, 2018, p. 6–11).
A Índia também vinculou esses princípios à soberania sobre seu orçamento de carbono. Na preparação para a COP15[4], realizada em Copenhague em 2009, o governo indiano definiu como limites de sua posição a recusa de metas juridicamente vinculantes de redução, de uma data obrigatória para o pico de suas emissões e da revisão internacional de ações domésticas que não recebessem financiamento ou tecnologia externos. Dois anos depois, às vésperas da COP17, em Durban, Nova Délhi propôs que a conferência discutisse o acesso equitativo ao desenvolvimento sustentável, as barreiras impostas pela propriedade intelectual à transferência de tecnologias climáticas e a proibição de medidas comerciais unilaterais adotadas em nome do clima. Essas posições expressavam o receio de que regras internacionais transferissem custos aos países em desenvolvimento e restringissem sua liberdade para organizar a modernização. Na argumentação indiana, impor controles semelhantes a países com trajetórias históricas distintas poderia reproduzir as desigualdades criadas pela industrialização colonial e transformar questões técnicas de transparência, tecnologia e comércio em disputas sobre soberania e desenvolvimento (PATHAK, PARRIS, 2021, p. 11–19).
O Acordo de Paris (2015)[5] não eliminou essa tradição, mas mudou a forma como a Índia a aplica. As contribuições nacionalmente determinadas permitiram que o país assumisse metas sem seguir uma trajetória uniforme definida no exterior. A partir de então, Nova Délhi já não precisou apoiar as responsabilidades diferenciadas apenas em uma separação fixa entre grupos de países. Passou a expressá-las também nos indicadores que escolhe, nas condições que vincula ao financiamento e na resistência a novas obrigações para setores específicos. Essa arquitetura abriu mais espaço para iniciativas voluntárias. Ainda assim, a Índia manteve a ideia de que os países só podem elevar sua ambição se também receberem os meios necessários para implementá-la (DUBASH et al., 2018, p. 409-413).
A própria literatura indiana aponta um limite nessa posição. Ao enfatizar a equidade entre Estados, o país pode ocultar desigualdades de consumo e vulnerabilidade internas. As baixas emissões médias da população pobre acabam legitimando estilos de vida intensivos em carbono entre grupos ricos. A expressão “hiding behind the poor” não nega a responsabilidade histórica dos países desenvolvidos, mas mostra que a justiça climática não se resume a comparar médias nacionais. À medida que amplia sua tecnologia e seu peso internacional, a Índia também passa a ser julgada por suas escolhas distributivas e emissões correntes (DUBASH et al., 2018, p. 398-400).
Equidade, responsabilidade histórica e soberania, portanto, não desapareceram. A Índia as adaptou a um regime mais voluntário e menos dividido entre dois blocos rígidos. Esses princípios ainda definem o que Nova Délhi considera uma distribuição legítima das obrigações. Ao mesmo tempo, novos instrumentos de cooperação e política industrial deram ao país outras maneiras de exercer influência (XAVIER, NACHIAPPAN, 2024, p. 2-3).
CONTINUIDADE E INFLEXÃO SOB MODI
A chegada do Bharatiya Janata Party (BJP) ao poder, em 2014, representou mais do que uma alternância partidária. O programa do partido combinava a promessa de uma liderança executiva forte com crescimento acelerado, expansão da infraestrutura, industrialização e segurança energética. Na área de energia, previa aumentar a produção doméstica de carvão e, simultaneamente, diversificar a matriz, fortalecer as fontes renováveis e ampliar a Missão Solar Nacional. Essa combinação exprimia uma concepção segundo a qual a transição energética deveria aumentar a capacidade produtiva e a autonomia estratégica do país, e não limitar sua modernização (BJP, 2014, p. 1–3, 34–40).
A agenda também possuía uma dimensão ideológica associada ao Hindutva, corrente de nacionalismo hindu que situa a civilização hindu no centro da identidade nacional e da projeção internacional da Índia. Esse enquadramento permitiu apresentar a sustentabilidade e as energias renováveis como expressões de valores civilizacionais indianos e como instrumentos para recuperar o prestígio do país, além de respostas às mudanças climáticas. A partir de 2023, essa orientação foi condensada na visão Viksit Bharat 2047, projeto de transformar a Índia em um país desenvolvido até o centenário de sua independência, articulando infraestrutura, manufatura, autossuficiência, crescimento verde e segurança energética. Modi constitui, portanto, um marco não por ter criado a política climática indiana do zero, mas por centralizá-la no Gabinete do Primeiro-Ministro e integrá-la de maneira mais direta ao nacionalismo desenvolvimentista e à busca de status internacional. O Plano Nacional de Ação sobre Mudança do Clima, de 2008, suas missões setoriais e os princípios de equidade e responsabilidades diferenciadas permaneceram como bases dessa política (SHARMA, 2025, p. 55–86; ÍNDIA, 2023; NACHIAPPAN, 2026, p. 2–3).
Sob Modi, o Gabinete do Primeiro-Ministro aproximou os compromissos climáticos das políticas industrial e de infraestrutura e da imagem internacional do país. Ao aderir ao Acordo de Paris e apresentar NDCs com prazo, a Índia passou a falar como demandante de justiça e provedora de soluções. ISA, CDRI e LiFE ligaram o primeiro-ministro à energia solar, à infraestrutura resiliente e ao consumo sustentável. O governo personalizou essas iniciativas e lhes deu grande visibilidade. Ainda assim, manteve os programas subordinados à autonomia econômica e às responsabilidades diferenciadas (SRIVASTAVA, 2025, p. 2-9).
Isso não representou uma ruptura completa. Como as transferências financeiras e tecnológicas dificilmente ocorreriam na escala reivindicada, o governo aproximou a mitigação da política industrial e da modernização produtiva. Também passou a recorrer à equidade e às responsabilidades diferenciadas para negociar não só obrigações, mas acesso a capital, liberdade de ação e espaço para formar indústrias nacionais. Foram a demanda por energia, a dependência do carvão, o emprego e o custo do capital que fixaram os limites do que a Índia estava disposta a conceder. A decisão do governo Modi foi transformar essas restrições em uma diplomacia de iniciativas e parcerias seletivas (NACHIAPPAN, 2026, p. 2-6).
O primeiro-ministro passou a coordenar a agenda com mais firmeza, mas lida com instituições fragmentadas. O Ministério de Meio Ambiente, Florestas e Mudanças Climáticas (MoEFCC, do inglês) atua na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, do inglês)[6], prepara inventários e acompanha o Acordo de Paris. O Ministério de Relações Exteriores (MEA, do inglês) leva as posições indianas às coalizões e relações bilaterais. Os ministérios das Finanças, da Energia, do Carvão e de Energias Novas e Renováveis controlam instrumentos decisivos. Os estados licenciam projetos, administram distribuidoras e enfrentam os efeitos sobre emprego e receita. O Prime Minister’s Office alinha anúncios e define rumos, mas não elimina os incentivos divergentes. A distância entre promessa externa e ação doméstica depende de como o governo arbitra esses conflitos (DUBASH et al., 2018, p. 411-414).
A opinião pública acrescenta um elemento menos visível. Em pesquisa nacional de 2021–2022, 54% dos indianos foram classificados como “Alarmed” e 29% como “Concerned” com o aquecimento global. A preocupação, porém, não criou uma divisão partidária própria. Entre os grupos alarmado e preocupado, 47% e 44%, respectivamente, declararam ter votado no BJP ou em sua coalizão, acima das proporções entre cautelosos e desengajados (LEISEROWITZ et al., 2023, p. 3-5, 43-44). O clima ganha peso quando se liga à poluição, ao calor, à água, à agricultura, ao emprego ou ao preço da energia, e não como tema eleitoral isolado. Com pouca polarização em torno das emissões, o governo projeta ambição no exterior sem enfrentar cobrança doméstica equivalente. Também tem razões para apresentar a transição por seus benefícios concretos.
O período Modi combinou, desse modo, comando político mais centralizado, construção de imagem e uso econômico da agenda climática. O governo abriu canais para buscar investimento e conhecimento para além das conferências anuais. Os resultados, porém, ainda dependem de os órgãos domésticos trabalharem em conjunto e transformarem anúncios em entregas verificáveis. As prioridades que a Índia leva hoje às negociações surgem desse contraste entre uma diplomacia mais ativa, princípios distributivos relativamente estáveis e uma execução interna desigual (XAVIER, NACHIAPPAN, 2024, p. 2-5).
A AGENDA ATUAL
Depois de identificar os atores e instrumentos, torna-se mais fácil entender como Nova Délhi ordena suas pautas. A Índia não rejeita a mitigação, mas sustenta que os países devem receber meios para agir antes de assumir novas obrigações, ou ao menos simultaneamente. Financiamento, tecnologia e adaptação fornecem os critérios pelos quais o governo avalia a legitimidade e a viabilidade de metas adicionais (RATHA, BARIK, 2025, p. 3-5).
O financiamento ocupa o primeiro lugar. Durante a negociação da nova meta coletiva e quantificada para o financiamento climático (NCQG), a Índia propôs um valor muito superior ao que a COP29 aprovou em 2024. Também insistiu que os países desenvolvidos oferecessem recursos públicos, novos, adicionais e concessionais. Nova Délhi prefere grants e instrumentos baratos porque empréstimos comerciais podem ampliar a dívida e transferir o risco cambial aos receptores. Essa posição também decorre da leitura que faz do artigo 9 do Acordo de Paris. Para a Índia, o capital privado pode complementar, mas não substituir, o apoio que os países desenvolvidos se comprometeram a oferecer (RATHA, BARIK, 2025, p. 10-13).
A Índia retomou essa posição no mapa do caminho Baku–Belém[7]. Em sua contribuição, tratou do custo do capital, dos ratings soberanos, do financiamento em moeda local e do acesso aos bancos multilaterais, além do volume total de recursos. Para Nova Délhi, uma meta expressiva no papel pouco muda a capacidade de investir se os projetos continuam sujeitos a juros altos, variações cambiais e procedimentos complexos. Ao discutir as condições do financiamento, o país leva às negociações climáticas uma crítica mais ampla ao funcionamento da arquitetura financeira internacional (ÍNDIA, 2025, p. 1-4).
A literatura vê essa ênfase no financiamento como uma nova forma de expressar as responsabilidades diferenciadas em Paris. O debate já não trata apenas de quem assume cada obrigação. Alcança a qualidade dos recursos, as regras de contabilização e a partilha dos riscos. A Índia aproxima, com isso, a pauta multilateral dos obstáculos no terreno. Ainda permanece uma fronteira pouco clara entre responsabilidades externas e reformas domésticas. Mais dinheiro não resolve falhas regulatórias ou dificuldades das distribuidoras. Esses problemas internos, por sua vez, não anulam a desigualdade no custo do capital (RATHA, BARIK, 2025, p. 10-15).
A adaptação vem em seguida. Os efeitos sobre a agricultura, a água, as cidades e a infraestrutura fazem da resiliência uma necessidade imediata para a Índia. Muitos desses projetos, contudo, geram benefícios sociais difusos e receitas privadas pequenas, o que dificulta a atração de capital. Nova Délhi usa o balanço global do Acordo de Paris (GST)[8] para apontar falhas na implementação e recorre à CDRI para transformar a infraestrutura resiliente em uma área de cooperação internacional. A literatura observa, no entanto, que o governo nem sempre traduz essa defesa em metas nacionais comparáveis ou em mecanismos claros de avaliação (RATHA, BARIK, 2025, p. 12-15).
Na mitigação, a Índia prefere que cada país defina sua trajetória, sem prescrições uniformes. O governo rejeita calendários universais de phase out e mantém a expressão phase down, sobretudo para o carvão. O ritmo deve considerar demanda, idade das usinas, empregos e alternativas disponíveis. Nova Délhi aplica o mesmo raciocínio ao programa de trabalho sobre mitigação (MWP), que deve facilitar cooperação e troca de experiências sem criar metas além das NDCs. A posição preserva a arquitetura de Paris, mas dificulta que diagnósticos coletivos gerem obrigações específicas (NACHIAPPAN, 2026, p. 5-7).
Tecnologia e comércio completam essa agenda. Nova Délhi procura parceiros para desenvolver armazenamento, hidrogênio e processos industriais de baixo carbono. Ao mesmo tempo, contesta o mecanismo europeu de ajuste de carbono na fronteira (CBAM), que considera uma transferência unilateral de custos e uma restrição à política industrial. A crítica ao protecionismo verde se apoia em razões distributivas, mas também protege a competitividade de setores indianos intensivos em carbono. Comércio e tecnologia definem, em conjunto, as condições nas quais a Índia pretende ingressar nas cadeias de baixo carbono (NACHIAPPAN, 2026, p. 4-6).
Em síntese, a Índia não propõe simplesmente trocar mitigação por financiamento. Ela sustenta que o ritmo do corte de emissões depende dos recursos disponíveis, do acesso à tecnologia e da margem de decisão que o país conserva. Essa posição está de acordo com seus princípios históricos e suas restrições econômicas, mas não esclarece inteiramente onde termina a responsabilidade externa e começam as reformas domésticas. A questão adquire importância estratégica porque muitas das tecnologias necessárias à transição pertencem a cadeias produtivas dominadas pela China e expostas à competição entre as grandes potências (XAVIER, NACHIAPPAN, 2024, p. 4-5).
GEOPOLÍTICA DA TRANSIÇÃO
A relação com a China reúne tensões centrais da diplomacia climática indiana. Os dois países defendem responsabilidades diferenciadas, financiamento e tecnologia em coalizões como BASIC[9] e Like-Minded Developing Countries[10]. Essa convergência convive com grande desigualdade entre suas indústrias verdes. Pequim influencia pela escala e pelo controle das cadeias produtivas. Nova Délhi se diferencia pela legitimidade de sua trajetória e por uma cooperação que apresenta como mais horizontal. Ambos defendem o espaço político do Sul, mas disputam mercados, padrões e autoridade (SINHA, 2026, p. 93-96).
Apesar do objetivo de ampliar a produção interna, a Índia depende de equipamentos e insumos produzidos ou processados na China. Módulos solares, baterias e minerais críticos chegam com escala e custo difíceis de reproduzir no curto prazo. Restringir importações estimula a produção doméstica e reduz vulnerabilidades, mas encarece a descarbonização. Mantê-las acelera as renováveis, embora aprofunde a dependência de um competidor envolvido em disputas territoriais e tecnológicas com o país (RAMAMURTHI, JARGAD, 2026, p. 6-9).
Por isso, Nova Délhi procura diversificar seus fornecedores, e não romper completamente com a China. A Índia depende integralmente de importações em dez minerais críticos, sobretudo em segmentos cujo processamento se concentra no território chinês. Os incentivos à produção doméstica podem diminuir essa vulnerabilidade, mas não reproduzem rapidamente a escala de Pequim. Tarifas aplicadas antes que surjam fornecedores alternativos também encarecem a transição. Nesse contexto, as tecnologias verdes servem ao mesmo tempo para cortar emissões, criar indústrias e exercer pressão sobre outros países. Clima, segurança econômica e autonomia estratégica passam, dessa maneira, a integrar o mesmo cálculo (CHATURVEDI et al., 2024, p. 21-23).
Os Estados Unidos ocupam um lugar importante nessa estratégia. Os dois países cooperam em energia limpa, armazenamento, hidrogênio e minerais críticos. Ambos querem cadeias menos concentradas na China, mas divergem sobre o regime climático. Washington resiste a separar rigidamente os países e evita transferências públicas na escala reivindicada. A Índia não quer converter tecnologia em alinhamento amplo nem em novas obrigações. A parceria permanece seletiva e sujeita à política interna dos dois lados (NACHIAPPAN, 2026, p. 4-6).
A União Europeia oferece capital e cooperação em hidrogênio e indústria de baixo carbono. Nova Délhi, contudo, vê seu CBAM como protecionismo capaz de punir exportações antes que existam financiamento e tecnologia equivalentes. O Japão desempenha outro papel. Sua experiência industrial e suas preocupações com a China fazem dele um parceiro em redes elétricas, mobilidade e terras raras. A Índia busca investimento e conhecimento sem abrir mão de conteúdo local nem de liberdade regulatória. Esses parceiros reduzem os riscos da concentração, mas não substituem a capacidade produtiva doméstica (CHATURVEDI et al., 2024, p. 22-24).
As disputas territoriais, por sua vez, limitam o quanto Índia e China podem cooperar. Os dois governos coordenam posições quando enfrentam pressões comuns dos países desenvolvidos, mas dificilmente isolam o clima das tensões na fronteira e no Indo-Pacífico. Especialistas e representantes dos dois países ainda trabalham juntos em canais técnicos e fóruns plurilaterais. Esses contatos acrescentam uma nova forma de interdependência à relação, mas não eliminam a rivalidade (PRYS-HANSEN, KAACK, 2024, p. 562-571).
É nesse ambiente que os dois países disputam o Sul Global. A China oferece financiamento e infraestrutura em uma escala difícil de igualar. Nova Délhi responde com capacitação, soluções adaptadas e uma linguagem menos hierárquica. A ISA e a CDRI permitem que o país forneça instituições e dialogue com economias vulneráveis e grandes potências. Sua capacidade financeira é menor, e a dependência de componentes chineses enfraquece a promessa de autonomia. A Índia não substitui simplesmente a liderança chinesa. Competição, interdependência e complementaridade variam conforme o setor e o parceiro (RAMAMURTHI, JARGAD, 2026, p. 24-27).
A expressão “Sul Global” também exige cautela. Pequenos Estados insulares, países menos desenvolvidos, exportadores de combustíveis fósseis e grandes economias emergentes não têm, necessariamente, as mesmas prioridades. A Índia apresenta uma demanda substantiva por equidade quando lembra a responsabilidade histórica dos países ricos, as restrições financeiras que enfrenta e suas emissões per capita relativamente baixas. Essa linguagem também fortalece Nova Délhi nas negociações e pode reduzir a visibilidade das diferenças entre países altamente vulneráveis e um grande emissor corrente. A literatura interpreta esse uso da identidade do Sul como uma busca por status e representação, sem reduzi-lo a solidariedade automática nem a simples expediente retórico (PATHAK, PARRIS, 2021, p. 14-20).
Para liderar, portanto, a Índia terá de oferecer recursos, tecnologia e representação a outros países, e não apenas invocar uma identidade comum. A competição com a China a incentiva a criar instituições, enquanto as relações com Estados Unidos, União Europeia e Japão ampliam suas opções tecnológicas. Nenhuma dessas parcerias resolve sozinha o conflito entre descarbonizar rapidamente, formar indústrias e preservar autonomia. A geopolítica climática indiana nasce da combinação entre cooperação Sul-Sul, negociação com o Ocidente e rivalidade asiática. Seus resultados ainda dependem da velocidade com que o país transforma a própria economia (PRYS-HANSEN, KAACK, 2024, p. 570-571).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo mostrou que não se pode reduzir a diplomacia climática indiana a uma escolha entre obstruir e liderar. Sucessivos governos ainda definem os compromissos que aceitam com base na responsabilidade histórica, na equidade per capita, no CBDR-RC e no direito ao desenvolvimento. Esses princípios persistem porque a economia indiana enfrenta demanda crescente por energia, forte uso do carvão, desigualdade e capital caro. Ao mesmo tempo, a Índia os adaptou ao Acordo de Paris e passou a criar instituições, buscar parceiros tecnológicos e atuar com mais intensidade em fóruns multilaterais e minilaterais. As normas continuam a orientar o país, mas sua diplomacia não permaneceu imóvel (DUBASH et al., 2018, p. 409-413).
A chegada do BJP ao poder tornou essa distinção mais clara. O governo Modi manteve as posições distributivas, mas concentrou decisões, personalizou iniciativas e aproximou o clima da política industrial e da busca por status. A Índia passou a oferecer plataformas, mobilizar coalizões e procurar capital e tecnologia por diferentes canais. A mudança, em paralelo, encontra limites internos. O clima raramente decide eleições, ministérios e estados nem sempre trabalham na mesma direção e os setores fósseis continuam influentes. Por isso, a imagem projetada no exterior pode avançar mais depressa que a ação doméstica. A estrutura mudou pouco, mas o governo alterou claramente o modo de conduzir a política (NACHIAPPAN, 2026, p. 2-6).
Os dados materiais tornam visível essa diferença. A Índia combina emissões históricas e per capita relativamente baixas com 8% das emissões mundiais correntes. Expandiu rapidamente a energia solar, mas não alcançou a meta de 100 GW em 2022, enquanto o consumo de carvão continuou crescendo. Também persistem dúvidas sobre quanto carbono as florestas efetivamente retiram da atmosfera. Nada disso autoriza tratar toda a diplomacia indiana como mera retórica, pois o país enfrenta restrições distributivas e tecnológicas reais. Os números mostram, porém, que anúncios, metas de intensidade e novas iniciativas não bastam para demonstrar liderança climática. É preciso observar com que velocidade e qualidade o país transforma seu sistema energético (PNUMA, 2024, p. 12; DUBASH et al., 2018, p. 406-407).
Essa transformação ocorre entre competição e dependência mútua. A China é parceira nas negociações, fornecedora indispensável e principal rival industrial. Estados Unidos, União Europeia e Japão ajudam a diversificar fornecedores, mas defendem regras que a Índia não aceita por inteiro. A identidade do Sul Global dá legitimidade a Nova Délhi e expressa demandas distributivas fundamentadas. Também serve à negociação e não elimina as diferenças entre grandes emissores e países vulneráveis. A diplomacia será mais coerente se equilibrar essas relações, beneficiar seus parceiros e aproximar as ambições externas das mudanças realizadas em casa, sem abandonar uma distribuição mais justa dos custos globais (PATHAK, PARRIS, 2021, p. 19-20).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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[1] Sumidouros de carbono são sistemas naturais ou artificiais que absorvem e armazenam mais carbono da atmosfera do que liberam. Florestas, solos, oceanos e zonas úmidas são exemplos de sumidouros naturais, pois capturam dióxido de carbono por processos biológicos, físicos e químicos, contribuindo para limitar sua concentração atmosférica. Sua capacidade de armazenamento, entretanto, pode ser reduzida ou revertida por fatores como desmatamento, queimadas, degradação ambiental e aquecimento dos oceanos.
[2] Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, do inglês) são os compromissos climáticos apresentados por cada país no âmbito do Acordo de Paris, nos quais são definidas metas e medidas nacionais de redução das emissões de gases de efeito estufa, podendo também incluir ações de adaptação às mudanças climáticas. Elaboradas conforme as circunstâncias e capacidades de cada país, devem ser atualizadas a cada cinco anos e demonstrar progressão em relação às versões anteriores, refletindo o maior nível possível de ambição.
[3] Protocolo de Kyoto é um tratado climático adotado em 1997 no âmbito da UNFCCC e vigente desde 2005, que estabeleceu metas juridicamente vinculantes de redução de emissões para países desenvolvidos, sem impor obrigações equivalentes aos países em desenvolvimento, como a Índia. Seu primeiro período de cumprimento abrangeu 2008–2012, seguido por um segundo período, de 2013 a 2020, enquanto se negociava um novo arranjo climático internacional, posteriormente consolidado pelo Acordo de Paris.
[4] Conferências das Partes (COP) são o órgão máximo de decisão da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, composto pelos países que integram o tratado e reunido, em regra, anualmente. Suas funções incluem avaliar a implementação dos compromissos climáticos, negociar novos acordos e adotar decisões sobre temas como mitigação, adaptação, financiamento, transparência, transferência de tecnologia e perdas e danos. A COP é central para o regime climático internacional porque constitui o principal espaço de negociação multilateral, no qual os países coordenam respostas coletivas, estabelecem regras comuns e acompanham o progresso global.
[5] Acordo de Paris é um tratado internacional sobre mudanças climáticas, adotado em 2015 durante a COP21, que busca manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2 °C em relação aos níveis pré-industriais, com esforços para limitá-lo a 1,5 °C. Sua implementação ocorre principalmente por meio das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), planos nos quais cada país define suas próprias metas e medidas de redução de emissões e adaptação, conforme suas circunstâncias nacionais. Atualizadas a cada cinco anos, as NDCs devem apresentar níveis crescentes de ambição. A importância do Acordo reside em ter estabelecido um marco climático de alcance praticamente universal, reunindo países desenvolvidos e em desenvolvimento em torno de objetivos comuns e de um ciclo contínuo de apresentação, avaliação e fortalecimento de compromissos.
[6] Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, do inglês) é um tratado adotado em 1992 com o objetivo de estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa em níveis que evitem interferências humanas perigosas no sistema climático. A Convenção estabeleceu os princípios e a estrutura institucional da cooperação climática internacional, incluindo as Conferências das Partes (COPs), e serviu de base para a posterior adoção do Protocolo de Quioto e do Acordo de Paris.
[7] Baku to Belém Roadmap to 1.3T (Roteiro de Baku a Belém para US$ 1,3 trilhão) é uma iniciativa conduzida conjuntamente pelas presidências da COP29, realizada em Baku, e da COP30, em Belém, destinada a orientar a ampliação do financiamento climático destinado aos países em desenvolvimento para, no mínimo, US$ 1,3 trilhão por ano até 2035. O roteiro contempla recursos públicos e privados para apoiar a redução de emissões, a adaptação climática e a implementação das metas e dos planos nacionais dos países.
[8] Global Stocktake (GST), ou Balanço Global, é o processo previsto no Acordo de Paris para avaliar, a cada cinco anos, o progresso coletivo dos países no cumprimento de seus objetivos climáticos. A análise abrange áreas como redução das emissões, adaptação aos impactos climáticos e meios de implementação, incluindo financiamento e transferência de tecnologia, e seus resultados orientam a revisão e o fortalecimento das metas climáticas nacionais.
[9] BASIC é o grupo formado por Brasil, África do Sul, Índia e China para coordenar posições nas negociações internacionais sobre o clima.
[10] Like-Minded Developing Countries (LMDCs), ou Países em Desenvolvimento com Posições Afins, é uma coalizão que coordena os interesses de países em desenvolvimento nas negociações climáticas, com ênfase em equidade, financiamento climático e responsabilidades diferenciadas.
O Laboratório de Estudos Asiáticos – LEA – criado em 2010, tem como objetivo desenvolver atividades de pesquisa e de extensão universitária que unam professores, alunos de pós-graduação e de graduação. Vinculado aos cursos de graduação de Relações Internacionais e de Defesa e Gestão Estratégica Internacional da UFRJ, o laboratório produz estudos comparados e análises de conjuntura sobre os países que integram o continente de maior contingente populacional e extensão territorial do planeta, marcado pela diversidade e pela complexidade de suas temáticas. Desse modo, esperamos contribuir para o entendimento das questões referentes à Ásia que figuram no centro das atenções atualmente. Coordenação: Profa Dra. Marianna Albuquerque.
Lucas Feitosa Vidal é graduando em Relações Internacionais pela UFRJ e membro do Laboratório de Estudos Asiáticos.
