A evolução da Política Externa na Turquia de Erdoğan (2003-2025)

Volume 12 | Número 122 | Dez. 2025

Por Dominique Marques de Souza

INTRODUÇÃO

A Turquia se tornou uma República independente no ano de 1923, após sucessivas guerras contra a Europa. Seu principal líder e primeiro presidente, Mustafa Kemal, estava em busca de melhorar as severas punições territoriais e as condições impostas pela Europa, após a queda do Império Otomano, com a Primeira Guerra Mundial. 

Com um vasto território, muito estratégico geopoliticamente, e com uma ampla reserva de recursos naturais, o Império Otomano já era cobiçado pelas potências europeias, antes mesmo da sua queda oficial. No ano de 1916, o secreto acordo de Sykes-Picot, dividia em áreas de influência francesas e britânicas, o império que se esfacelaria, após lutar ao lado da Alemanha Imperial. Dito isto, cabe ressaltar a relevância da aproximação entre os impérios alemão e otomano, como motivo da eclosão da guerra de 1914 (MCMEEKIN, 2010; SOUZA, 2019).

Atrasada na unificação do seu Estado Nacional, a Alemanha de Guilherme II, buscava suas colônias, dado que o mundo já estava dividido entre França e Inglaterra. A aproximação de Guilherme com o Sultão Abdulhamid II despertou os olhares dos vizinhos europeus, que prontamente se movimentaram para impedir que a Alemanha, também com posição geográfica central na Europa, conseguisse expandir o seu império para os quintais da própria Europa (MCMEEKIN, 2010). 

            Temos aqui, um primeiro esboço da importância estratégica da Turquia, que será a principal herdeira deste império que se expandiu por Ásia, África e Europa, durante quase seis séculos. A simples possibilidade de uma aproximação alemã com os otomanos, foi capaz de mudar todo o sistema europeu de equilíbrio de poder, que vinha funcionando magistralmente durante o século XIX, capaz de promover os 100 anos de paz, como descreveu Polanyi (2013), e de permitir o amadurecimento do capitalismo que nascia. O sistema de alianças formado contra as potências nascentes, Alemanha e Itália, seria um relógio com contagem regressiva para a eclosão da guerra imperialista. 

Imperialismo é o que define a disputa por territórios otomanos, tal como discutido em Sykes-Picot, 6 anos antes de a Turquia conquistar a sua independência. Tão logo se tornou uma República, o país seguiu por um período de alinhamento com o Ocidente, que durou de 1923 até o fim da Guerra Fria, quando se iniciou um processo de mudanças na Política Externa turca, em busca de uma postura mais independente e autônoma, com relação ao Ocidente (MURINSON, 2006; 2012; HAUGOM, 2019; SOUZA, 2024).

Terminada a bipolaridade mundial e a necessidade de alinhamento a um dos blocos, o mundo passou a experimentar uma maior liberdade de atuação por parte dos Estados e, assim, o então presidente em exercício, Turgut Özal, já deu início a um primeiro estágio de mudança de postura na forma de se relacionar com os países vizinhos, que ficou conhecido como neo-Otomanismo, buscando também, se aproximar de países de origem túrquica (MURINSON, 2006; KAPLAN, 2013).

Akşin (2010) destaca que o governo de Turgut Özal (1983-1993) representou grande transformação paradigmática na Política Externa e identitária da Turquia, marcando uma clara ruptura com o legado kemalista, de Mustafa Kemal, o primeiro presidente da Turquia anteriormente citado, e que adotou uma política mais amigável ao Ocidente, algo que moldou por décadas a Política Externa turca e que, ainda hoje, representa a principal oposição ao partido AKP. 

Partindo do princípio de que Erdoğan deu continuidade ao processo iniciado por Özal, representando uma ruptura progressiva com o alinhamento automático ao Ocidente, a favor de uma estratégia autônoma, buscamos responder como esta pesquisa: Como se deu esse processo progressivo de transformação entre o Kemalismo e o Erdoganismo, enquanto uma variante do neo-Otomanismo, iniciado com Özal?

Para entendermos estas mudanças, como base para a nossa análise na Política Externa de Erdoğan junto ao AKP, faremos uma breve retrospectiva na primeira sessão, sobre como se deram as trocas de influência entre Ocidente e Turquia; A segunda sessão, traremos a trajetória de Erdoğan e do AKP, dentro da lente do Realismo Neoclássico e dos conceitos de Diplomacia Pendular, Geopolítica e o conceito de Hedging. Na terceira sessão, evidenciaremos as atuações turcas no teatro internacional, passando pelos conflitos regionais, pela participação da Turquia em diferentes blocos de atuação e pela relação entre Turquia e Ocidente nos últimos anos, evidenciando uma mudança de postura com relação aos governos anteriores, alinhados automaticamente ao Ocidente.

Para isto, este artigo se utilizará de uma breve reconstrução histórica, adotando uma abordagem qualitativa, de caráter analítico-interpretativo, utilizando o estudo de caso da Turquia para analisar a evolução de sua Política Externa entre 2003 e 2025, com os governos de Recep Tayyip Erdoğan como Primeiro-Ministro e Presidente. 

O recorte temporal nos permite identificar as continuidades e rupturas/inflexões na atuação internacional turca e a análise é orientada, fundamentalmente, pelo Realismo Neoclássico, articulando com variáveis sistêmicas do Sistema Internacional e com fatores domésticos, como liderança política, ideologia partidária e percepções estratégicas. 

Do ponto de vista procedimental, a pesquisa baseia-se em levantamento bibliográfico e documental, incluindo literatura acadêmica especializada, documentos oficiais, discursos governamentais e relatórios de organizações internacionais. Os dados serão examinados de forma cronológica e temática, buscando identificar padrões de comportamento, mudanças discursivas e práticas diplomáticas que evidenciem a crescente autonomia e assertividade da política externa turca no período analisado, bem como sua redefinição das relações com o Ocidente e com os demais atores regionais e globais.

1. A Turquia entre 1923 e 1990: um breve panorama

O período que compreende a independência da Turquia, no ano de 1923 até o fim da Guerra Fria é marcado por uma série de tentativas de se priorizar questões mais voltadas aos interesses nacionais, mesmo com um alinhamento ao Ocidente. 

A aproximação da Turquia com o Ocidente, ao qual chamamos aqui, os Estados Unidos (EUA) e Europa, se formalizou com a entrada da Turquia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), na primeira expansão da aliança, formada em 1949. Junto à Grécia, ambas se tornaram uma espécie de escudo de proteção contra a expansão soviética no contexto da Guerra Fria.

Este alinhamento com a OTAN não passou todas as décadas até 1990 sem nenhum desafio. A década de 1970 foi marcada pela tentativa turca de garantir os seus interesses na ilha do Chipre, representando o momento de maior instabilidade nas relações entre ambos, durante todo este período. Por outro lado, a maior parte do tempo, foi marcada por momentos de alinhamento aos interesses do bloco Ocidental. 

A aproximação da Turquia com o Ocidente vem de raízes traumáticas sobre o fim do Império Otomano. Assim que conquistou a independência, Kemal buscou um novo tipo de identidade para o país recém-formado. Era importante, neste momento, desfazer associações entre a Turquia e o falido império, marcado pela derrota e pelo esfacelamento. 

Desta forma, de modo a desvincular a imagem de fracasso imperial, da nova República, Kemal e os intelectuais que o auxiliavam, propuseram um Estado laico, indo em direção oposta à associação religiosa, muito presente no Império Otomano. Além disso, algumas medidas de ocidentalização foram aplicadas. Um amplo programa de reformas secularizantes e modernizadoras foi implementado. O código civil foi baseado no código suíço, o código penal, influenciado pelo sistema penal italiano e, no comércio, houve muita influência do modelo francês. Kemal também aboliu as escolas religiosas, proibiu vestimentas eclesiásticas fora das mesquitas, adotou o alfabeto latino e vestimentas ocidentais. Houve uma redefinição no papel das mulheres na sociedade turca, onde a igualdade de gênero passou a ser fundamental para a modernização. Nesta direção, estabeleceu a Comissão para garantir os Direitos Civis das Mulheres, a qual resultou em direitos iguais no casamento, direito à propriedade e, posteriormente, no ano de 1930, as mulheres passaram a ter o direito de votar e de se candidatar a Conselhos Municipais. Para além dessas mudanças diretamente ligadas à população, cidades tiveram seus nomes alterados, assim como, os nomes dos cidadãos, que passaram a ser registrados de forma diferente da época do império (SULLIVAN, 2018).

O objetivo de Kemal, através dessas mudanças, para além de romper com o passado otomano, era forjar uma homogeneidade para a sociedade que se constituía. É importante destacar que o império contava com diversas culturas, povos e religiões e a nova Turquia, deveria ter uma identidade própria. Esse projeto demandava uma construção quase anacrônica da nova sociedade, em contraste com o passado tribal, de base rural e de grande pluralidade, dos otomanos. Segundo Zeydanlioğlu (2008, p.5), esse projeto representava muito mais do que a formação da nova sociedade. Era uma “encenação política destinada a negociar o lugar da Turquia no mundo moderno”.

Todas essas transformações influenciariam na forma como a Turquia se relaciona com o restante do mundo, atuando diretamente na política turca entre as décadas de 1920 e 1990. Segundo Ataman (2017), o posicionamento pró-Ocidente aprofundou uma cisão interna na sociedade turca, onde os governos militares se autoproclamavam os “guardiões do secularismo kemalista”. Assim, elites governamentais defensoras do alinhamento Ocidental, começavam a ganhar resistência de outros setores da população, descontentes com esta atuação.

A disputa com os militares se fez clara já na década de 1960, quando o então Primeiro-Ministro, Adnan Menderes foi acusado de adotar posturas autocráticas e anti-kemalistas, ao evitar a participação dos militares no governo do então presidente Celâl Bayar. Esta acusação levou a um golpe militar, em 1960, onde mantiveram o alinhamento com os EUA, mesmo acusando o governo anterior de ser excessivamente pró-EUA. Como destaca Surid (2017), os militares sabiam que tinham prestígio, desde que a Turquia aderiu à OTAN e, inclusive, fortaleceram alianças com Washington. Com a Constituição feita em 1961, a qual permitia maior liberdade democrática, cada vez mais opiniões contra o alinhamento aos EUA passaram a surgir e ganhar força. 

Na década de 1970, dentro do contexto de combate das ideologias de esquerda e direita, a Turquia passou pelo “Golpe por Memorando”, no ano de 1971, onde as Forças Armadas buscavam maior intervenção para reestabelecer a ordem, gerando forte instabilidade interna. O ápice que marcou este período foi a invasão turca ao norte do Chipre, em 1974, após um governo de direita assumir na Grécia, o qual estimulou a Enosis, buscando unir o Chipre à Grécia (ZÜRCHER, 2017; AHMAD, 1993).

O período das décadas de 1960 e 1970 foi marcado por uma tensão crescente entre a busca por maior autonomia e as limitações impostas pelo alinhamento ao Ocidente. A Política Externa turca evidenciou problemas domésticos e pressões inerentes ao sistema bipolar. 

Já a década de 1980, buscando reorganizar estas tensões domésticas, foi marcada por um golpe militar, liderado pelo General Kenan Evren, com o apoio dos EUA, para realinhar fortemente o país ao bloco Ocidental. A justificativa era recuperar a ordem interna, cada vez mais marcada pela anarquia e violência política. A proposta era reafirmar o Kemalismo como doutrina predominante, em vista a conter ideologias de esquerda e islamistas. A Constituição de 1982 ampliava ainda mais o poder dos militares, que seguiam fortemente a Doutrina Carter, colocando a Turquia como um Estado-tampão na contenção soviética (AKŞIN, 2010; NASSER; ROBERTO, 2016).

A análise de Laçiner (2009) destacou que, toda vez que o Kemalismo era posto em evidência por conta destas questões domésticas, os militares, com o apoio dos EUA, entravam em ação, para defender seus interesses: “The Americans even said that the Turkish military coup was no ordinary coup but a necessary intervention in politics. The ideological background of the 12 September Coup leaders also helped to improve relations. Most of the coup generals were proWestern” (LAÇINER, 2009, p. 172). 

Murinson (2006), observa que o fim da Guerra Fria marcou o início de uma transformação na Política Externa turca, que vinha rigidamente alinhada ao Kemalismo por 70 anos e Kaplan (2013) destaca que a inclinação turca à Europa, deixando de lado suas raízes otomanas, é um fator chave para entender o movimento do “neo-Otomanismo”, trazido, inicialmente, por Turgut Özal e, posteriormente, explorado por Erdoğan.

O governo de Özal é marcado por transformações na Política Externa. Ele observou que a Turquia estava em uma situação delicada ao final da Guerra Fria, com dificuldades em se relacionar entre Leste e Oeste. Buscando inserir a Turquia no mundo capitalista, Özal buscou ampliar suas parcerias internacionais, se aproximando de países túrquicos na Ásia Central, participou ativamente do conflito de Nagorno-Karabakh (1988-1994). O seu discurso de que a Turquia não precisava “escolher um lado”, entre ser europeia ou turca (islâmica), destacando que existiam “muitas outras civilizações no mundo”, foi entendido como anti-kemalista pela oposição. Özal descrevia os turcos como os “europeus islâmicos” e destacava que a Turquia não precisava mudar sua personalidade para fazer parte da Europa. (ÖZAL, 1991). 

Seu governo foi interrompido por sua morte súbita e deixou as sementes para a transformação que viria com Erdoğan e o AKP, que serão analisadas a seguir.

2. O Teatro Geopolítico do pós-Guerra Fria e o nascimento do AKP

O início dos anos 2000 é marcado pela ascensão do partido AKP ao poder. Erdoğan, seu líder, havia sido prefeito de Istambul entre 1994 e 1998 e buscava soluções para a crise turca. O país passava por forte fragmentação política, por instabilidade, com colapso bancário, forte desvalorização da lira, aumento do desemprego e inflação e forte intervenção do FMI com programas de ajustes fiscais. 

Anteriormente, o país havia passado por um golpe de Estado, que ficou conhecido como o “Golpe pós-moderno” quando, em 1997, o Conselho de Segurança Nacional, liderado pelos militares impôs uma série de medidas ao então Primeiro-Ministro, Necmettin Erbakan, cujo partido era islamista. Os militares, defendendo o secularismo Kemalista, impuseram restrições a escolas religiosas, vigilância sobre associações islâmicas e realizaram pressões sobre a mídia, o judiciário e burocracia estatal.

Diante deste cenário doméstico, Erdoğan recitava neste mesmo ano de 1997, versos de um poema amplamente conhecido, de Ziya Gökalp, que dizia: “As mesquitas são nossos quartéis, as cúpulas nossos capacetes, os minaretes nossas baionetas e os fiéis nossos soldados”. Este episódio marcou definitivamente a trajetória de Erdoğan, que foi preso após ser interpretado como incitador de um discurso anti-kemalista. O caso foi visto pela população como um símbolo do autoritarismo secular e marcou a ruptura entre a ala reformista e a ala tradicional do islamismo turco. 

Nesse contexto, o AKP foi criado a partir da ala reformista, vestindo-se de um partido distanciado do islamismo político clássico, se apresentando como conservador-democrático, defensor do Estado-laico e pró-União Europeia. Essa estratégia foi fundamental para reduzir resistência dos militares, agradar elites econômicas e ganhar apoio internacional Ocidental, especialmente dos EUA e da UE.

No contexto internacional, os EUA aplicavam a sua estratégia geopolítica postulada por Brzezinski e Kissinger, que seguiam a Geopolítica Clássica de Mackinder (1904), colocando a Eurásia como algo central para a segurança dos EUA. Em sua obra, “O Grande Tabuleiro Mundial” (1997), Brzezinski entendia que a “Pax Americana” só poderia existir quando os EUA controlassem a Eurásia, fundamental para a sua supremacia militar. Controlar a Eurásia representaria um meio de se evitar a formação de alianças adversárias, protegendo assim, seus interesses, especialmente, no Oriente Médio. 

A fim de compreender a dinâmica da geopolítica global, Brzezinski formulou os conceitos de “Estados Geoestratégicos” e “Estados Pivôs Geopolíticos”, os quais se tornaram centrais para a compreensão da geoestratégia global dos EUA e para a análise do papel desempenhado pelas diferentes nações na manutenção da ordem internacional.

Os “Estados Geoestratégicos” correspondem àqueles países que dispõem de uma posição geográfica estratégica, cuja localização lhes confere relevância particular na estrutura do poder internacional. Devido à essa condição, tais Estados conseguem exercer influência significativa sobre o equilíbrio de poder, tanto em âmbito regional quanto global, sendo capazes de moldar dinâmicas estratégicas mais amplas.

Já os Estados “Pivôs Geopolíticos” são definidos como países que, embora não detenham projeção global direta comparável à dos Estados geoestratégicos, desempenham um papel crucial nas dinâmicas regionais. Esses Estados disfrutam do potencial de alterar equilíbrios de poder em suas respectivas regiões ou de influenciar as interações entre diferentes espaços geopolíticos.

Dessa forma, ambos os conceitos assumem papel fundamental na formulação e na aplicação da estratégia geopolítica dos EUA no período analisado, ao fornecerem uma estrutura analítica para a identificação de prioridades estratégicas e para a orientação de sua Política Externa. 

Brzezinski entende a Turquia como um Estado Pivô, assim como Ucrânia, Azerbaijão, Irã e Coreia do Sul, justamente por sua posição estratégica entre Europa, Oriente Médio e Ásia e seu papel na dinâmica do poder eurasiático. Não coincidentemente, fez questão de tê-la como aliada durante a Guerra Fria. Para Padula (2018): “A geopolítica de contenção praticada pelos Estados Unidos frente à expansão da URSS seguiu a ideia de que a Eurásia seria o continente basilar na disputa de poder global”. Neste sentido, a estratégia que os EUA vinham aplicando desde o fim da Segunda Guerra Mundial, apenas ficou mais evidente, com o fim do conflito bipolar, onde os EUA se empenharam fortemente nas guerras regionais do tabuleiro do Oriente Médio. 

Essa postura do então, líder global, estimulou reações das nações que não estavam dispostas a aceitar o Status Quovigente e que, agora, possuíam oportunidade de questionar a balança de poder global, devido a não necessidade de alinhamento, como ocorria anteriormente. Akçali e Perinçek (2009) tratam do Renascimento Euroasiático, o qual seria uma reação natural, encabeçada pela Rússia, que buscaria resgatar laços culturais de nações como Turquia, o Irã, a China, os países da Ásia Central e, também, o Paquistão, além de propor uma política econômica após entender que as pressões Ocidentais, em especial, do FMI, prejudicavam suas economias. A reação, portanto, seria uma proposta de união de forças entre estes países, para tentar superar os desafios impostos por este sistema e pelo fim da Guerra Fria. Os líderes que vêm apoiando este movimento são, em grande parte, os governos de direita e os ultranacionalistas, que se opõem aos movimentos de globalização dos anos 90. 

É exatamente aqui, que as políticas externa e doméstica se conectam em nossa análise. Para isso, nos utilizaremos da corrente do Realismo Neoclássico, derivada da corrente Realista, para entendermos esse processo. Seguindo a lógica da corrente realista, os autores do Realismo Neoclássico, Ripsman, Taliaferro e Lobell (2016), assumem que a segurança é o objetivo final na esfera internacional. Para atingi-la, os Estados vir a perseguir alianças, ou seja, atrair outros Estados, assim como vimos com o “renascimento euroasiático”. Ao mesmo tempo, os autores desta corrente entendem que a política doméstica, ou seja, questões internas, influenciam na forma como um Estado se comporta no ambiente internacional. 

Dessa forma, essa corrente teórica considera sim, que o ambiente internacional molda o comportamento dos Estados, mas ao mesmo tempo, como questões domésticas influenciam igualmente, os autores desta teoria buscam entender como os Estados mobilizam os recursos necessários para perseguir suas políticas de segurança desejadas e quanto poder os atores domésticos possuem quando os Estados buscam mobilizar estes recursos, de diferentes setores da sociedade. Além disso, buscam entender, como os Estados buscam extrair estes recursos? Sob quais circunstâncias os Estados vão criar instituições militares inteiramente novas, meios de agir e tecnologias, em um esforço de conseguir vantagens de Estados rivais? A resposta, segundo esta corrente teórica, sugere que o poder do Estado, ou seja, a habilidade relativa deste Estado em extrair ou mobilizar recursos da sua sociedade, seja através de suas instituições, do nacionalismo ou de suas ideologias, influenciam e moldam os tipos de estratégia de balanceamento interno que um Estado é suscetível a perseguir (RIPSMAN; TALIAFERRO; LOBELL, 2016).

Ou seja, o processo doméstico pelo qual a Turquia passava, conforme visto anteriormente, consequente das disputas domésticas entre militares e reformistas, entre Kemalistas e neo-Otomanistas, entre nacionalistas e entreguistas (alinhados ao Ocidente), moldaram a forma como a Turquia passaria a se portar no Sistema Internacional, especialmente após o fim da necessidade de alinhamento, o que deu aos países, maior liberdade de atuação e autonomia com relação aos seus objetivos nacionais.  

Neste sentido, vimos a criação do partido reformista do AKP, como uma reação não somente aos excessos dos militares, que controlavam a política da Turquia há décadas, como também, uma busca por reduzir a influência de Estados de fora, na política da Turquia, dentro de uma estratégia de “agradar a todos”, tal como a Diplomacia Pendular, estudada por Stanley Hilton (1975). 

Segundo o autor, o país que pratica a Diplomacia Pendular, alterna seus posicionamentos entre dois lados de pressões opostas, buscando tirar vantagens para suas próprias estratégias nacionais. Assim, ao mesmo tempo em que Erdoğan e o AKP buscavam o objetivo de se emancipar e recuperar a soberania turca, buscavam manter boas relações com o Ocidente, se apresentando de forma mais cautelosa e pouco chamativa, com o objetivo de conquistar o espaço e poder necessários para começar a colocar em prática, os projetos nacionalistas turcos, que colocariam limites nas relações deste país com o Ocidente, rompendo com o padrão de alinhamento automático, praticado entre 1923 e 1990.

3. A atuação da Turquia de Erdoğan do cenário internacional: do revisionismo à liderança regional

Como vimos, o AKP surgiu de um contexto de crise doméstica na Turquia, no início dos anos 2000. Fundado por Erdoğan e Abdulah Gül, o partido venceu as eleições de 2002, com maioria absoluta e, assim, Erdoğan assumiu como Primeiro-Ministro em 2003, dando início ao longo ciclo de hegemonia política.

O período entre 2002 e 2007 foi marcado por uma espécie de “ocidentalismo pragmático”, com o objetivo de conquistar legitimidade doméstica e externa. Uma tentativa de aproximação com a União Europeia (EU) ficou evidente. A abertura formal das negociações de adesão à EU se iniciou em 2005. Além disso, direitos civis foram pauta do governo, somados à busca pela redução do poder dos militares. O alinhamento com a OTAN e com os EUA marcaram uma fase de calmaria na Política Externa turca, com o objetivo de garantir a consolidação interna, necessária ao partido.

Os anos de 2008 a 2011, foram marcados pela política de Davutoğlu, de “zero problemas com os vizinhos”, havendo boas relações com Síria, Irã, Iraque e Rússia. O período foi marcado por diplomacia econômica, pelo Soft Powere pela mediação regional. 

Já após a eclosão da Primavera Árabe, o intervalo entre 2011 e 2016 foi marcado pelo início de uma ruptura com a fase anterior, onde Erdoğan começou a demonstrar apoio explícito à Irmandade Muçulmana, tirando o caráter secularista que marcou o início do governo do AKP. Erdoğan também rompeu o apoio a Assad e as relações com Egito, Israel e Arábia Saudita começaram a demonstrar sinais de desgaste, colapsando com a ideia de “zero problemas com os vizinhos”, de Davutoğlu. Aqui, a Política Externa turca se torna mais intervencionista. 

Com a tentativa de Golpe de Estado no ano de 2016, o período que se estendeu entre este ano e 2020, foi marcado pela prioridade absoluta à segurança do regime. A tentativa de golpe contava com dez mil homens, 35 aviões, 37 helicópteros, 246 blindados e 3 navios, evidenciando uma forte organização e preparo. Durante cerca de duas horas, os militares tomaram as principais partes de Istambul e Ankara, anunciando o novo governo. A reação da população ao golpe foi convocada por Erdoğan, pelo Facetime e, logo após, milhares de pessoas se colocaram nas ruas para impedir o avanço das tropas. A reação contra os manifestantes foi violenta e, logo após, o Parlamento Nacional e o Palácio Presidencial foram bombardeados (ESEN; GÜMÜŞÇÜ, 2017). 

Como vimos, as relações entre Erdoğan e o Exército turco, nunca foram fáceis. Erdoğan se elegeu buscando conter o poder dos militares, que tanto marcaram a história da Turquia, com autoritarismos e golpes em defesa do Kemalismo. A ocasião não representava um fato novo ou inesperado para os turcos, representando o sexto golpe de Estado no país. Os anteriores foram nos anos de 1960, 1971, 1980 e 1997. Assim, mais uma vez, o golpe foi planejado por tropas de ponta do exército turco nas Forças de Intervenção Rápida da OTAN, que eram as mesmas tropas que combatiam no Afeganistão sob o comando de John F. Campbell. Dessa forma, temos que seria muito pouco provável que ocorressem movimentações sem a autorização ou o conhecimento dos EUA. Ainda assim, os EUA, que já haviam apoiado golpes militares em outras ocasiões na Turquia, disseram não saber dos aviões cisternas que decolaram da base aérea de Incirlik (base turco-estadunidense), que abasteceram os caças a serviço do golpe (MAESTRI, 2016)[1].

Por fim, a reação do governo de Erdoğan foi rápida e forte, com prisões em poucas horas e uma lista de nomes daqueles que teriam participado do golpe. Cerca de 250 pessoas morreram e a política passou a ser tratada como questão de segurança onde a oposição passou a ser tratada como um risco em potencial. O país entrou em Estado de Emergência, com decretos presidenciais e uma concentração extrema de poder no Executivo. Como consequências, houve uma mudança de regime político no ano seguinte, em 2017, quando o sistema mudou de parlamentarista para presidencialista, através de um referendo. Isso afetou diretamente a desconfiança com o Ocidente, levando à uma aproximação com a Rússia e, ao mesmo tempo, levantando a retórica sobre a retomada da soberania turca (Ibid).

No mesmo ano de 2017, a Turquia assinou o contrato de compra do sistema de mísseis anti-aéreos com a Rússia onde a entrega começou a ocorrer em 2019. A reação turca à tentativa de golpe foi demonstra à OTAN que a Turquia poderia não romper com a aliança, mas que poderia buscar novas alternativas. Foi uma sinalização estratégica para a OTAN, de que a Turquia tinha novas possibilidades de parceria. Aqui, temos um claro exemplo de Hedging.

Hedging é uma estratégia intermediária adotada por Estados que não querem nem se alinhar completamente (bandwagoning) nem confrontar abertamente (balancing) uma grande potência. O objetivo é reduzir riscos diante da incerteza sobre as intenções futuras das grandes potências, sobre a estabilidade do sistema internacional ou sobre a credibilidade de alianças existentes. Neste caso, o Estado mantém opções abertas, diversifica parcerias e evita apostas definitivas (GOH, 2005; CHENG-CHWEE, 2016)

A compra dos S-400 da Rússia representou o momento mais crítico entre a Turquia e a OTAN, desde a crise no Chipre, na década de 1970. A partir deste momento, a Turquia foi impedida de participar do programa dos F-35 e sofreu as consequências de não poder vender as peças que produzia para esses caças. Perder contratos bilionários com empresas de outros países da OTAN prejudicou a sua economia. Além disso, sofreu sanções dos EUA. Respaldados pela lei chamada CAATSA (Countering America’s Adversaries Through Sanctions Act), os EUA aplicaram sanções à Turquia com base na seção 231, que prejudicaram a sua indústria nacional de defesa. Contudo, é importante destacar que a decisão de comprar materiais bélicos da Rússia não foi uma atitude impensada, pois pode ser entendida como a estratégica de Hedging, reconhecida por autores das Relações Internacionais e apresentada anteriormente, como forma de tentar um reequilíbrio após o golpe de 2016.

Importante destacar que a Turquia já vinha com alternativas de parcerias que não somente as Ocidentais, conforme visto na sessão dois, reduzindo os impactos das consequências da compra dos S-400 da Rússia. Desde Özal, a Política Externa turca vinha em direção à diversificação de parcerias, conforme veremos a seguir.

Em 2012, tão logo as negociações com a União Europeia foram travadas, a Turquia se aproximou da Cooperação de Xangai (SCO) como parceira de diálogo, buscando autonomia estratégica. Erdoğan muitas vezes se referia ao grupo Oriental como uma alternativa à EU. 

Já com relação à aproximação com os Estados Túrquicos, iniciada na década de 1990, teve mais um passo em 2009, quando houve a criação de um Conselho Túrquico, composto por Turquia, Azerbaijão, Cazaquistão, Quirguistão. Este conselho evoluiria no ano de 2021 para a Organização dos Estados Túrquicos (OET), após o conflito em Nagorno-Karabakh, ocorrido em 2020. Essa organização conta com cooperação cultural, linguística, econômica, de infraestrutura, de segurança leve, mas não compõe uma aliança militar formal. Entretanto, representa-se como parte de uma importante estratégia geopolítica turca. 

Sobre a sua aproximação com o mundo islâmico, esta se torna mais evidente no ano de 2016, quando Erdoğan assumiu a presidência da Organização da Cooperação Islâmica (OCI), em abril deste ano. A Turquia é membro fundador desta organização, existente desde 1969 a qual era mais reconhecida como um fórum simbólico do que uma plataforma estratégica. Neste momento, entre a criação da organização até os anos 2000, a Turquia apenas participava, sem funções de liderança. Já em 2004, Istambul sediou a Cúpula da OCI dando sinais de que, mesmo pertencente à organização militar ocidental e mesmo buscando aproximação com a EU, ainda era muçulmana. Em 2005, o turco Ekmeleddin İhsanoğlu foi eleito Secretário-Geral, tendo seu mandato até o ano de 2014. Com isso, a Turquia institucionalizou o seu papel na organização. Neste período, a Turquia assumia o papel de ponte entre o Islã e o Ocidente. Como consequência, Erdoğan assumiu a presidência, no contexto de Primavera Árabe, onde a Turquia buscava já exercer o seu papel de liderança no mundo islâmico, tal como o Império Turco-Otomano representou um dia. Cerca de 3 meses depois, a Turquia sofreu a tentativa de golpe e então, Erdoğan assumiu um discurso mais assertivo, colocando-se ativamente sobre Israel e Palestinos, sobre a Islamofobia e sobre a questão de Jerusalém. 

O apoio dos países árabes à Turquia foi importante na situação do golpe, pois evidenciou que Erdoğan não estava isolado. Ele representava a liderança legítima do mundo islâmico e, assim, muitos países da OCI reconheceram rapidamente o governo Erdoğan após o golpe. A OCI já representava uma plataforma política e não só, diplomática, como anteriormente. Aqui, mais uma vez, a Turquia demonstrava que não dependia do Ocidente para sobreviver, ampliando e diversificando suas parcerias com Rússia, China, com Estados Túrquicos e com o mundo islâmico. 

Além disso, a Turquia vem investindo em se tornar um importante ator da geopolítica energética, em busca de autossuficiência e, também, de melhorar suas condições econômicas e retomar sua autonomia em relação ao Ocidente. Na página do Ministério das Relações Exteriores da Turquia[2], encontramos como parte principal da sua estratégia geopolítica, se tornar um grande produtor e exportador de energia. 

No ano de 2018, a Turquia rejeitou o acordo de demarcação marítima entre Chipre e Egito, realizado em 2003. A Turquia buscava, então, o direito de explorar as reservas de gás descobertas no Chipre em 2011, especialmente, no ano de 2018, quando foi descoberto o campo Calypso, ainda maior do que o anterior, chamado Afrodite (OLIVEIRA, 2025). 

Em 9 de fevereiro de 2018, a Marinha turca bloqueou um navio de perfuração operado pela empresa italiana Eni, licenciado pela República de Chipre, que estava operando em blocos que Nicósia considera parte de sua Zona Econômica Exclusiva (ZEE). E assim, em maio de 2019, a Turquia iniciou o envio de navios de perfuração, operando sob licenças concedidas pela República Turca do Chipre do Norte, reconhecida somente pela Turquia, desde a Questão do Chipre, na década de 1970. A situação foi ficando cada vez mais tensa e, em 2020, quase houve um conflito bélico entre Grécia e Turquia (MARQUES, 2020).   

A disputa envolveu inclusive ameaças de sanções pela UE e mobilização de fragatas e aeronaves, em particular vindas da França, em apoio à Grécia e a Chipre. A possibilidade de um combate naval nesta ocasião foi muito evidente e foi o momento mais crítico entre a Turquia e a Europa/OTAN, em toda a história comum entre os atores.

Para além da questão cipriota, a Turquia também contesta a configuração territorial do Mar Egeu, cujas ilhas ficaram, majoritariamente, sob soberania grega a partir dos tratados firmados no início do século XX. Gradualmente, Erdoğan passou a questionar a validade e a interpretação desses acordos, defendendo a necessidade de sua revisão. 

Nesse contexto, em 2018, o então Ministro da Defesa da Turquia, Hulusi Akar, apresentou publicamente o conceito de Blue Homeland (Mavi Vatan), referente a uma extensa área marítima considerada de interesse estratégico turco, abrangendo aproximadamente 462.000 km² no Mar Egeu, no Mediterrâneo Oriental, no Mar Negro e nas águas adjacentes a Chipre. Até então, o termo era empregado predominantemente no âmbito da Marinha turca, em estudos geopolíticos e análises especializadas, sem assumir o caráter de uma doutrina estatal formal de projeção de poder. A partir de 2018, contudo, o conceito passou a ser incorporado ao discurso oficial e à estratégia governamental turca, adquirindo maior centralidade na política externa e de defesa do país (KOKKINIDIS, 2022).

Esse posicionamento consolidou-se com a assinatura, no ano de 2019, do Memorando de Entendimento entre a Turquia e o Governo de Acordo Nacional da Líbia, referente à delimitação marítima e à navegabilidade no Mediterrâneo Oriental. O acordo estabeleceu uma linha de delimitação da plataforma continental e da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) entre os dois países, abrangendo aproximadamente 18,6 milhas náuticas[3].

Embora Ancara sustente que o memorando esteja em conformidade com os princípios da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), o acordo foi amplamente contestado e condenado por diversos atores internacionais, incluindo Grécia, Egito, Rússia, Estados Unidos, União Europeia e Israel. No texto do memorando, a Turquia argumenta que ilhas localizadas no lado oposto da linha mediana entre dois continentes não podem gerar jurisdição marítima plena, defendendo a primazia do princípio da equidade na delimitação marítima, bem como a consideração proporcional do comprimento das linhas costeiras. 

Com base nesse entendimento, Ancara sustenta que, por possuir a maior costa continental do Mediterrâneo Oriental, as ilhas gregas e a fachada ocidental de Chipre não deveriam produzir direitos marítimos além do limite das águas territoriais, não sendo, portanto, passíveis de gerar ZEE ou plataforma continental própria (MOU, 2019).

Todas estas questões marcaram um distanciamento entre Turquia e EU, abalando o equilíbrio da OTAN, onde potências amigas dentro da aliança, entraram em disputa de interesses. Neste cenário, Erdoğan deixou claro que poderia contestar questões históricas com seus vizinhos, mesmo fazendo parte da OTAN, demonstrando capacidade de autonomia e decisão, em contraste com os governos anteriores, que atuavam em alinhamento automático com o Ocidente. 

Como ator geopolítico atuante, o país vem se destacando em conflitos internacionais, como o da Síria, de Nagorno-Karabakh e na Ucrânia. 

Na Síria, Erdoğan se posicionou de modo a proteger a fronteira com a Turquia, colocando os Curdos que lutavam contra o Estado Islâmico (ISIS), apoiados pelos EUA, como terroristas, uma vez que estes poderiam buscar criar uma região autônoma, devido ao vácuo de poder na Síria. Além disso, realizou operações militares oficiais, especialmente após 2016, como a Operação Escudo do Eufrates, que durou até 2017. Nessa operação, a Síria buscou proteger territórios sob influência dos Curdos e expulsar o ISIS. Na operação, usou tanques Leopard 2A4, artilharia pesada, forças especiais e aviação tática. Já em 2018, na Operação Ramo de Oliveira, além da força bélica utilizada na operação anterior, a Turquia passou a colocar em cena seus drones, que ficaram famosos na questão de Nagorno-Karabakh. Nesta operação, a Turquia ocupou Afrin, expulsando os Curdos. Em 2019, na Operação Fonte da Paz, logo após a retirada dos EUA do norte da Síria, a Turquia criou uma zona de segurança, com o objetivo de afastar a Unidade de Proteção Popular (YPG), dos Curdos, da fronteira. Essa operação consolidou a revolução turca na guerra com drones, ao se utilizar massivamente dos drones Bayraktar TB2. Desde 2019, a Turquia segue com operações contínuas em Idlib (HOVSEPYAN; MANUKYAN, 2022). 

Neste sentido, temos que a guerra proxy na Síria, serviu de palco para a Turquia colocar em prática a sua artilharia. Drones armados, como o Bayraktar TB2 e o Anka-S, foram utilizados fortemente. Além disso, caças F-16; tanques Leopard; artilharia autopropulsada; sistemas de guerra eletrônica e forças especiais, foram utilizados. 

Já com relação à Nagorno-Karabakh, em 2020, a Turquia não atuou diretamente, mas foi a principal patrocinadora militar, tecnológica, política e estratégica do Azerbaijão. Com o conflito congelado desde 1994, no ano de 2020, a Turquia entrou como aliado estratégico do Azerbaijão, fornecendo os drones Bayraktar TB2, sistemas de comando, controle e inteligência, além de treinamento militar prévio às forças azeris e assessoria tática/doutrinária. Seus drones foram centrais para destruir tanques armênios, neutralizar artilharia e eliminar defesas antiaéreas, mudando completamente o equilíbrio do campo de batalha. Os treinamentos com o Azerbaijão já haviam sido iniciados mesmo antes da eclosão do conflito. Quando houve a eclosão, Erdoğan anunciou apoio ao Azerbaijão de maneira explícita, rejeitando qualquer neutralidade. Isso fez resgatar questões históricas com os armênios, que foram mortos pelos turcos no passado, no episódio conhecido como “Genocídio Armênio”, não reconhecido pela Turquia até hoje. A participação da Turquia neste conflito foi essencial para a vitória do Azerbaijão, que reconquistou Shusha e grandes áreas ao redor de Nagorno-Karabakh (KINIK; ÇELIK, 2021). 

O resultado para a Turquia foi uma forte propaganda internacional dos drones turcos, servindo como uma prova da sua projeção de poder sem tropas e como uma consolidação da Turquia como um forte ator militar no Cáucaso. Assim, com este conflito, os drones turcos ganharam mercado global e Ancara passou a ser vista como potência militar tecnológica intermediária. 

É importante ressaltar que a Turquia representa a segunda maior força militar da OTAN, em termos de pessoal[4], e a 4ª maior força militar da aliança[5]. O investimento feito pelo Ocidente neste país, o colocou como um forte ator militar, além de ter aumentado os investimentos turcos em indústria de defesa. Isso transformou a Turquia em uma forte potência militar que, junto ao reconhecimento da sua força geopolítica, vem transformando a Turquia em um ator central, que vem atuando de maneira cada vez mais autônoma, conforme podemos perceber, nas atuações internacionais, como o acordo feito com a UE, em 2016, sobre os Refugiados, deixando claro que a relação entre ambos é codependente, mesmo que a Turquia nunca se torne membro da união (MARQUES, 2016). Ou nos vetos que Erdoğan fez à entrada da Finlândia e da Suécia na OTAN, devido a embates diplomáticos entre a Turquia e esses países (REUTERS, 2023)[6].

Com relação ao conflito na Ucrânia, a Turquia mostrou que não se manteria neutra, ao mesmo tempo em que não se alinharia com nenhum dos lados, demonstrando novamente, capacidade autônoma de atuação no cenário internacional. Ao mesmo tempo em que não reconheceu a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, não aderiu às sanções internacionais contra a Rússia. Ao mesmo tempo em que fornece armamentos à Ucrânia, mantém diálogos políticos, econômicos e energéticos com Moscou. Ao mesmo tempo em que os drones turcos também participaram no conflito, para destruir blindados russos, Ancara não fechou o espaço aéreo russo, manteve o comércio bilateral, Erdoğan manteve contato direto com Putin e se manteve como um hub para transações e para o turismo na Rússia (ÖNIŞ; ULUYOL, 2024).

Esta atuação é permitida e tolerada por Moscou, dado o poder estratégico da Turquia, que controla os Estreitos de Bósforo e Dardanelos, controlando a saída russa para o Mediterrâneo e, também, pela parceria energética entre ambas. É importante destacar que o gasoduto Turkstream, entre Turquia e Rússia, foi inaugurado em 2020, pouco antes da eclosão do conflito na Ucrânia, após 3 anos de obras e de um custo de US$ 8 bilhões. O gasoduto é essencial para a economia russa. Em 2024, a estatal russa, Gazprom, reportou um lucro líquido consolidado de US$ 14,8 bilhões (1,2 trilhão de rublos), algo que foi essencial para a recuperação russa de um prejuízo recorde no ano anterior (REUTERS, 2025)[7]. Temos assim, que o Turkstream foi crucial que a Rússia pudesse manter o fluxo para o mercado europeu.

Como visto anteriormente, a aproximação entre as potências euroasiáticas é um movimento reconhecido como parte de um projeto revisionista, onde a colaboração entre estas serviria como um facilitador na tentativa de recuperação dos seus papéis estratégicos e históricos, enquanto grandes potências regionais e globais. 

Conforme abordado ao longo deste artigo, temos que a Política Externa turca diante da atuação de Erdoğan e do seu partido, o AKP, vem dando sinais de que o país está se posicionando internacionalmente de maneira cada vez mais forte e autônoma, diferentemente dos governos anteriores, que mantinham um alinhamento automático com a OTAN e com os EUA, conseguindo atuar em vários cenários, mantendo sua autonomia, sem criar inimizades com nenhum país e sem se isolar diplomaticamente. Isso se deve, em grande parte, pela sua importância geográfica e geopolítica, que lhe dá poderes de barganha com diversos atores que a cercam. Importante destacar que a Turquia conta com a maior costa do Mediterrâneo, com o domínio dos Estreitos, que garantem a saída do Mar Negro para as águas quentes e, além disso, conta com a maior economia do Oriente Médio, maior ainda, que a economia de Israel. 

Dado isto, o país segue ativamente a estratégia de se tornar uma potência energética. No ano de 2020, Erdoğan anunciou a maior descoberta de gás realizada no Mar Negro, até então. Com o navio de perfuração chamado Fatih, Erdoğan deixa clara a intenção de se recuperar a força turca. Isso porque Fatih é uma referência a Maomé, o Conquistador, o Sultão otomano que tomou Constantinopla, em 1453. A descoberta do campo de Sakarya, em 2020, já eram promissoras (ÖZERTEM, 2020). Em maio de 2025, Erdoğan anunciou uma nova descoberta, com cerca de 75 bilhões de metros cúbicos (bcm), no poço Goktepe-3, com valor econômico estimado em US$ 30 bilhões. Assim, as reservas totais descobertas, somadas às de 2020, equivalem a, aproximadamente, 710 a 785 bcm[8]. Com isto, a Turquia poderá reduzir a sua dependência de importação de energia e poderá se tornar um ator mais forte em termos de exportação e obtenção de lucros, mudando sua condição econômica e fortalecendo o país.

Nesta mesma direção, Erdoğan está desenvolvendo o projeto da criação do Canal de Istambul. Com o planejamento iniciado em 2011, somente em 2021 que houve a cerimônia de início simbólico da obra. A previsão seria de que ficaria pronto em 7 anos (OZGUR KIRCA; MUTLU SUMER, 2025). Até o ano de 2025, a infraestrutura associada à construção do canal vem sendo executada, como a construção de pontes e estradas de acesso, como a importante Sazlıdere Bridge, que conta com pilares de cerca de 90 metros de altura. Também estão sendo desenvolvidos ao longo da rota, centros urbanos, como conjuntos habitacionais e obras públicas). A escavação do canal em si ainda não começou de forma significativa[9].

A partir deste canal, Erdoğan busca ampliar o controle estratégico da Turquia sobre a rota entre Mar Negro e Mediterrâneo, sem tocar na Convenção de Montreux, de 1936. Com o novo canal, a Turquia ganharia uma via alternativa, que não está submetida à convenção. A Turquia poderia cobrar pela passagem de navios, o que poderia contribuir com a economia turca, que sofre com inflação e desvalorização de câmbio. O canal poderia dar mais poder de barganha para a Turquia nas suas relações com OTAN e Rússia, reduzindo suas vulnerabilidades estruturais e ampliando suas opções estratégicas, através da diminuição da dependência de um único Chokepoint (no caso, os Estreitos turcos), reforçando o papel da Turquia como um ator de peso marítimo e aumentando o seu valor sistêmico para grandes potências. Erdoğan apresenta o projeto como um símbolo da “Nova Turquia”, como uma propaganda otimista de futuro para o país[10].

Essa propaganda reforça a narrativa de grandeza nacional, além de deixar um marco físico duradouro do seu governo. O projeto, assim, seria símbolo de um legado, e não apenas, de um governo. Em termos geopolíticos, o canal redefine o mapa urbano de Istambul, criando novas zonas imobiliárias e deslocando centros populacionais. Isso representa muito mais do que um projeto para salvar a economia turca, mas sim, uma redefinição da infraestrutura do país, através da engenharia social e política, gerando capital político, redistribuindo poder econômico e fortalecendo redes próximas ao governo. Em suma, o projeto do canal evidencia que Erdoğan está colocando a Turquia para agir como uma potência regional autônoma, que não aceita os limites impostos pelo Status Quo, transformando seu território estrategicamente a seu favor. 

Por fim, como vimos anteriormente, a Turquia vem se apresentando como líder no mundo muçulmano[11] e isso a coloca em disputa de influência com Irã e Arábia Saudita, uma vez que a Turquia representa o Califado Otomano e a Arábia Saudita representa as cidades sagradas de Meca e Medina. Assim, a Turquia representaria uma espécie de competidora pela liderança sunita e, ao mesmo tempo, um desafio ao Irã xiita. Porém, ainda assim, há uma boa convivência entre a Turquia e seus vizinhos. 

CONCLUSÃO

Este artigo se propôs a analisar a trajetória da Política Externa turca desde a fundação da República até os dias atuais, com foco especial na era de Recep Tayyip Erdoğan (2003-2025), a fim de analisar a progressão das mudanças que narraram a transformação de uma Turquia Kemalista para uma Turquia neo-Otomanista/Erdoganista. 

Ao longo da pesquisa, conseguimos evidenciar um processo de transformação profunda, marcado pela passagem de um alinhamento quase automático com o Ocidente para uma postura cada vez mais assertiva, autônoma e multifacetada, que reposicionou a Turquia como um ator geopolítico central e revisionista no tabuleiro internacional.

As raízes dessa mudança remontam ao fim da Guerra Fria e ao governo de Turgut Özal, que lançou as sementes do chamado “neo-Otomanismo” e da diversificação de parcerias. No entanto, foi com a ascensão do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) e a liderança de Erdoğan que essa reorientação ganhou contornos mais definidos e institucionais. Aplicando a lente do Realismo Neoclássico, observamos como fatores domésticos, como a luta pelo poder civil contra a ideologia kemalista-militar, a construção de uma nova identidade política conservadora e a busca por legitimidade popular, interagiram com variáveis sistêmicas, como a reorganização do poder global e a erosão da ordem unipolar, para moldar uma estratégia externa singular.

A Política Externa de Erdoğan evoluiu de um “ocidentalismo pragmático” inicial para uma diplomacia de pendulação (Hedging) cada vez mais sofisticada. A Turquia demonstrou capacidade de manter relações complexas e simultâneas com atores antagônicos, como EUA e Rússia; OTAN e Organização de Cooperação de Xangai; União Europeia e mundo islâmico. Atos simbólicos e concretos, como a compra do sistema de defesa russo, S-400, o apoio decisivo ao Azerbaijão em Nagorno-Karabakh, as intervenções militares na Síria, a promoção agressiva da doutrina Mavi Vatan (Pátria Azul) no Mediterrâneo Oriental e a mediação ativa na guerra da Ucrânia, sinalizam uma clara disposição de desafiar o status quo e expandir sua esfera de influência.

Economicamente, a Turquia busca transformar sua posição geográfica em poder tangível. A descoberta de vastas reservas de gás no Mar Negro, o projeto do Canal de Istambul e as ambições de se tornar um hub energético e logístico apontam para uma estratégia de longo prazo de reduzir dependências externas e alavancar novos recursos de poder. Embora enfrente desafios econômicos internos significativos, como inflação e desvalorização cambial, o país consolida-se como uma potência média industrializada, com um complexo industrial-militar dinâmico, destacado pela exportação de drones e pela sua posição como a maior economia do Oriente Médio.

Em síntese, a Era Erdoğan representa um ponto de inflexão na história da Política Externa turca. A Turquia abandonou o papel de aliado periférico e alinhado para se afirmar como um centro de poder autônomo, que negocia com base em seus próprios interesses nacionais e civilizacionais. Seu caminho é marcado pela prática constante do Hedging, pela reivindicação de um papel de liderança no mundo sunita e por uma postura revisionista que questiona acordos territoriais e de segurança herdados do século XX.

A trajetória do país é marcada por tentativas incansáveis de equilibrar suas ambições regionais com a busca pela estabilidade interna e pelo crescimento econômico, bem como de navegar nas crescentes tensões entre as grandes potências. É possível notar, através desta pesquisa, que a Turquia sob o comando de Erdoğan redefiniu, pelo menos por ora, seu lugar no mundo. Ou seja, não se comporta como mais uma ponte passiva entre Oriente e Ocidente, mas sim, como um ator estratégico que constrói suas próprias pontes e que busca reconhecimento como um poder decisivo e indispensável na geopolítica do século XXI.

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[1]Ver mais em: 
https://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11872:turquia-um-golpe-by-usa-otan-fracassado&catid=72:imagens-rolantes. Acesso em: 22 abr. 2025.

[2]Ver mais em: https://www.mfa.gov.tr/default.pt.mfa. Acesso em: 22 abr. 2025.

[3]Ver mais em: Memorando assinado entre Turquia e Líbano no ano de 2021. Disponível em: https://www.un.org/depts/los/LEGISLATIONANDTREATIES/PDFFILES/TREATIES/Turkey_11122019_%28 HC%29_MoU_Libya-Delimitation-areas-Mediterranean.pdf. Acesso em: 11 abr. 2025.

[4]Ver mais em: https://www.statista.com/statistics/584286/number-of-military-personnel-in-nato-countries/. Acesso em: 22 abr. 2025.

[5]Ver mais em: https://www.globalfirepower.com/countries-listing-nato-members.php. Acesso em: 29 abr. 2025.

[6]Ver mais em:  https://www.reuters.com/world/why-is-turkey-blocking-swedish-finnish-nato-membership-2023-01-25/. Acesso em: 22 abr. 2025.

[7]Ver mais em: https://www.brecorder.com/news/40360350/russias-gazprom-returns-to-annual-profit-in-2024-earning-148bn. Acesso em: 30 abr. 2025.

[8]Ver mais em: https://www.reuters.com/business/energy/turkey-discovers-new-75-bcm-natural-gas-reserve-black-sea-erdogan-says-2025-05-17/. Acesso em: 17 mai. 2025.

[9]Ver mais em: https://www.turkiyetoday.com/turkiye/istanbul-canal-gains-traction-as-projects-gear-up-whats-new-in-turkiyes-largest-ever-infrastructure-investment-144556?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 14 abr. 2025.

[10]Ver mais em: https://www.aa.com.tr/en/turkey/canal-istanbul-opens-new-page-in-turkey-s-development-president-erdogan/. Acesso em: 22 abr. 2025.

[11]Ver mais em: https://www.iletisim.gov.tr/english/haberler/detay/president-erdogan-muslims-should-now-take-responsibility-for-the-security-and-future-of-all-humanity-and-raise-their-voices-against-the-injustices-they-witness. Acesso em: 22 abr. 2025. 

Dominique Marques de Souza é doutora em Economia Política Internacional na UFRJ. Bacharel em Defesa e Gestão Estratégica Internacional (DGEI) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2015. Pesquisadora desde 2015 no Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN) com sua pesquisa voltada para Turquia e Oriente Médio. Pesquisadora do Boletim Geocorrente.

Diálogos Internacionais

Divulgação científica de Relações Internacionais, Defesa e Economia Política Internacional ISSN 2596 2353