Resenha: Filme “As Nadadoras” (2022). Entre resiliência e colonialidade: uma análise pós-colonial do humanitarismo no filme “As Nadadoras”
Volume 13 | Número 123 | Jan. 2026
Por Michaella Novais Souza, Alice Ferreira do Nascimento,
Aline Silva Costa e Andressa Martins Passos Gomes

AS NADADORAS (The Swimmers). Direção: Sally El Hosaini. Reino Unido; EUA: Working Title Films; Netflix, 2022. 134 min.
Introdução
A intensificação dos deslocamentos forçados nas primeiras décadas do século XXI, frequentemente enquadrada sob o rótulo de “crise de refugiados”, foi acompanhada pela expansão de aparatos humanitários e pela difusão de discursos que enfatizam a resiliência como resposta desejável às condições de violência, precariedade e exílio. Paralelamente, a produção cultural de filmes e séries voltados ao grande público tornou-se um espaço privilegiado de circulação de narrativas sobre refúgio, sofrimento e acolhimento. Nesse cenário, o filme “As Nadadoras” (2022), da diretora galesa-egípcia Sally El Hosaini, acompanha a trajetória das irmãs sírias Yusra e Sarah Mardini desde a guerra até a chegada à Europa. O longa-metragem oferece um campo fértil para examinar como subjetividades refugiadas são construídas e hierarquizadas no interior de racionalidades humanitárias contemporâneas.
Do ponto de vista teórico, este artigo parte da reflexão de Giorgio Agamben em Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I (AGAMBEN, 2007), mobilizando as categorias de poder soberano, estado de exceção e vida nua para compreender a condição de populações deslocadas cuja sobrevivência depende de dispositivos jurídico-humanitários que, muitas vezes, as reconhecem apenas como vidas a serem preservadas biologicamente, e não como sujeitos políticos. Em diálogo com essa perspectiva, toma-se como referência o trabalho de Suzan Ilcan e Kim Rygiel (2015), que formulam o conceito de “humanitarismo resiliente” para descrever uma racionalidade de governança que reconfigura refugiados como sujeitos responsáveis, empreendedores e adaptáveis, deslocando o foco da proteção de direitos para a responsabilização individual. A esse quadro soma-se a contribuição de Sankaran Krishna (2017), que aproxima o pós-colonialismo da Sociologia Política Internacional e evidencia como o sistema internacional e suas narrativas se estruturam sobre hierarquias coloniais persistentes, bem como a discussão de Laura Shepherd (2013) sobre a generificação dos discursos humanitários e securitários.
A partir desse referencial, o objetivo do artigo é analisar de que modo “As Nadadoras” encena o humanitarismo e o refúgio por meio de uma gramática de resiliência atravessada por relações de colonialidade e gênero. As questões centrais que orientam a investigação são: (i) como o filme representa as protagonistas refugiadas em termos de mérito, disciplina, vulnerabilidade e utilidade? (ii) de que forma essa representação se articula com a racionalidade do humanitarismo resiliente descrita por Ilcan e Rygiel? (iii) como imaginários pós-coloniais e hierarquias entre Norte e Sul globais estruturam a oposição entre a “Europa salvadora” e a “Síria caótica”? e (iv) em que medida o filme reproduz, naturaliza ou tensiona a distinção entre vidas qualificadas e vidas descartáveis, tal como problematizada por Agamben?
Embora exista uma literatura consolidada que analisa representações do refúgio no cinema a partir de enquadramentos humanitários, narrativas de trauma ou políticas da compaixão, este artigo propõe um deslocamento analítico ao tratar “As Nadadoras” não apenas como narrativa de sensibilização moral, mas como artefato discursivo inscrito nas racionalidades da governança humanitária neoliberal, articulando humanitarismo resiliente, colonialidade e gênero no campo da Sociologia Política Internacional.
Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo-analítico, ancorada em uma abordagem pós-colonial da Sociologia Política Internacional. O filme é tratado como artefato discursivo que participa da produção e circulação de sentidos sobre refúgio, violência e humanitarismo, sendo analisado por meio de leitura crítica de cenas selecionadas, diálogos, enquadramentos e arcos narrativos. A escolha parte da compreensão do cinema como linguagem e dispositivo cultural, conforme argumenta Antonio Costa (2011), para quem a análise fílmica envolve a consideração dos códigos, convenções e condições históricas que estruturam a produção de sentidos nas imagens cinematográficas. As categorias analíticas “vida nua”, soberania (AGAMBEN, 2007), “humanitarismo resiliente” e responsabilização (ILCAN; RYGIEL, 2015), colonialidade e geografia pós-colonial (KRISHNA, 2017), além da generificação dos discursos humanitários (SHEPHERD, 2013), foram mobilizadas como lentes para interpretar de que modo o filme constrói a figura da “boa refugiada” e das “vítimas merecedoras”.
O artigo organiza-se em três seções, além da introdução e das considerações finais. Na primeira, apresentam-se os fundamentos teóricos sobre poder soberano, vida nua e humanitarismo resiliente, com foco na articulação entre Agamben e Ilcan e Rygiel na análise do refúgio contemporâneo. Na segunda, discute-se o pós-colonialismo e a Sociologia Política Internacional, enfatizando as contribuições de Sankaran Krishna para a crítica das hierarquias coloniais e eurocêntricas que estruturam o campo das Relações Internacionais e das narrativas humanitárias. Na terceira, desenvolve-se a análise de As Nadadoras, examinando como o filme produz a figura da refugiada resiliente, mobiliza gramáticas de gênero e reinscreve, de forma ambivalente, tanto a colonialidade do olhar humanitário quanto fissuras que permitem questionar suas pressuposições.
Poder soberano, vida nua e “humanitarismo resiliente”: fundamentos teóricos para a análise do refúgio contemporâneo
Com base no crescente interesse acadêmico pelos estudos sobre refúgio e migração, alimentado, em parte, pela reflexão de Giorgio Agamben em Homo Sacer: Poder Soberano e Vida Nua (1995), o presente artigo toma como referencial analítico o trabalho de Suzan Ilcan e Kim Rygiel (2015), “Resiliency Humanitarianism: Responsibilizing Refugees through Humanitarian Emergency Governance in the Camp“. Publicado no periódico International Political Sociology, o estudo evidencia uma tendência contemporânea de engajar refugiados como sujeitos resilientes, empreendedores e responsáveis por sua própria sobrevivência, eclipsando a compreensão desses indivíduos como sujeitos políticos portadores de direitos (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 334).
Nesse contexto, torna-se fundamental retomar o que se entende por sujeito político e pelas garantias que o direito internacional confere a indivíduos deslocados. O sujeito político, na tradição moderna, é aquele reconhecido como portador de direitos, inscrito em uma ordem jurídico-estatal capaz de garantir proteção, participação e reivindicação. Contudo, quando esse sistema de garantias falha, o indivíduo vê ameaçada não apenas sua cidadania formal, mas também sua condição de sujeito de direitos. Esse deslocamento do âmbito da proteção para a vulnerabilidade expõe o refugiado ao risco de tornar-se aquilo que Giorgio Agamben (2007) denomina Vida Nua (nuda vita): uma vida reduzida ao seu caráter meramente biológico, despojada de mediações políticas e submetida diretamente ao poder soberano.
Em sua obra, Agamben (2007), inspirado pela teoria política de Carl Schmitt, argumenta que a soberania se define justamente pela capacidade de decidir sobre o estado de exceção, suspender a ordem jurídica e, nesse gesto, colocar-se simultaneamente dentro e fora da lei (AGAMBEN, 2007, p. 23). O soberano, seja ele o Estado, um regime jurídico internacional ou uma coalizão de poderes, detém o poder de suspender a norma e expor determinados indivíduos à esfera da violência sem que isso seja considerado uma violação da lei. O estado de exceção torna-se o mecanismo pelo qual vidas podem ser juridicamente desprotegidas, ainda que continuem sob o alcance do ordenamento que as abandona (AGAMBEN, 2007, p. 36).
A figura do homo sacer (termo latim para “homem sagrado”) remonta ao Direito Romano arcaico (séc. VIII a.C. – II a.C.), período marcado por uma organização social centrada na autoridade do pater familias, pela baixa intervenção estatal e por forte imbricação entre vida comunitária, moral e religiosidade. Nessa tradição jurídica arcaica, o homo sacer era aquele cuja vida, uma vez colocada sob a maldição dos deuses, podia ser encerrada sem que isso configurasse sacrifício ou homicídio punível. Agamben retoma essa figura justamente para elucidar o paradoxo da soberania moderna: um sujeito “incluído na ordem jurídica apenas sob a forma de sua exclusão”, alguém cuja vida é perecível e, ao mesmo tempo, insacrificável, estando exposta a uma violência sem sanção, colocada na fronteira em que direito e fato se confundem (AGAMBEN, 2007, p. 91–99). Tal condição não decorre de uma ausência total de relação com a lei, mas de uma relação em que a lei se retira, e abandona o sujeito em um limiar sem operância da proteção jurídica, mas ainda sob a égide do poder.
A partir dessa estrutura, Agamben descreve a vida nua como o produto político da soberania: uma vida capturada pelo direito somente na forma de sua exclusão (AGAMBEN, 2007, p. 34). Essa vida corresponde ao que os gregos nomeavam zoé: o simples fato de viver, comum a todos os seres vivos, em contraste com bíos, que designa uma forma de vida qualificada e politicamente estruturada (AGAMBEN, 2007, p. 9). Enquanto a política clássica excluía a zoé do espaço da pólis, a modernidade, conforme Agamben lê Foucault, introduz a vida biológica no centro da ação estatal, transformando a política em biopolítica, isto é, em governo da vida enquanto tal (AGAMBEN, 2007, p. 11; p. 125).
Nesse sentido, o estado moderno opera uma politização da vida biológica: a zoé passa a ser administrada, regulada e exposta a decisões que afetam sua continuidade, sua mobilidade e sua possibilidade de tornar-se bíos. A fronteira entre “apenas viver” e “viver bem” torna-se ambígua, e o espaço de exceção tende a coincidir cada vez mais com o espaço político (AGAMBEN, 2007, p. 17). A dinâmica exposta é nítida nos casos de populações deslocadas, cuja sobrevivência depende de aparatos jurídicos e humanitários que, muitas vezes, os reconhecem apenas enquanto vidas a serem preservadas biologicamente, e não enquanto sujeitos de direitos passíveis de reconhecimento e proteção.
É nesse ponto que se estabelece o elo entre a teorização de Agamben e o trabalho de Suzan Ilcan e Kim Rygiel. Quando o aparato humanitário reorganiza os campos de refugiados como espaços de gestão da resiliência ao contrário de espaços de garantia de direitos, ele tende a reproduzir aquilo que Agamben identifica como a lógica da exceção: a produção de vidas administráveis, tuteladas, mantidas, mas politicamente despotencializadas. Os refugiados são, simultaneamente, incluídos no regime internacional de proteção e excluídos das garantias políticas que caracterizam o sujeito de direitos. Assim, embora não estejam formalmente fora da ordem jurídico-humanitária, são frequentemente capturados por ela na forma de “vida nua”, isto é, como vidas cuja qualificação política foi suspensa em nome de sua simples preservação.
A análise das autoras parte da governança humanitária de emergência para refugiados e deslocados internos no âmbito das Nações Unidas, especialmente após as reformas de 2005, quando ganha centralidade o que elas denominam “humanitarismo resiliente”. O conceito descreve uma racionalidade de cuidado e coordenação que emerge no interior do governo neoliberal e que redefine a função dos campos de refugiados. Em vez de concebê-los como espaços de “permanência temporária” ou mecanismos de warehousing (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 334), os campos passam a ser imaginados como espaços de assentamento mais duradouros, onde se pretende desenvolver comunidades autogestionáveis e indivíduos capazes de “adaptar-se” às crises presentes e futuras (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 337). A leitura agambeniana ilumina esse fenômeno ao mostrar como a exceção pode tornar-se regra e como os campos convertem-se em paradigmas biopolíticos contemporâneos, onde o cuidado e o controle se imbricam.
Through resiliency humanitarianism, camps are re-imagined away from notions of them as spaces of “temporary permanence” (Diken 2004) designed to “warehouse” (USCRI 2008) refugees, and toward notions of camps as more permanent spaces of settlement with the potential for developing community and entrepreneurial populations. In the process, refugees are reconstituted along the lines of the neoliberal subject, from passive recipients of aid to camp “residents” and resilient subjects. (Ilcan & Rygiel, 2015
Nesse modelo, a assistência humanitária desloca-se de seu objetivo inicial de proteção para uma lógica de responsabilização. As agências humanitárias, em parceria com Estados, ONGs e organismos multilaterais, passam a enfatizar práticas de participação, empreendedorismo, trabalho comunitário e “empoderamento”. Contudo, conforme Ilcan e Rygiel demonstram, tais práticas frequentemente produzem efeitos inversos: contribuem para que refugiados aceitem condições precárias como inevitáveis e internalizem a responsabilidade por sua própria sobrevivência, em detrimento da reivindicação de direitos e da contestação política (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 338-339).
A literatura crítica sobre campos de refugiados já reconhecia esses espaços como arenas políticas, onde sujeitos deslocados resistem e articulam práticas de cidadania insurgentes. Outros autores também destacam a agência política presente nesses territórios (RYGIEL, 2012; ILCAN, 2013, 2014; REDCLIFT, 2013, apud ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 334). Entretanto, o “humanitarismo resiliente”, segundo Ilcan e Rygiel, intervém sobre essa agência ao reconstituir refugiados não como atores políticos, mas como “resilientes”, sujeitos neoliberais que se autogerem e suportam crises continuamente, buscando tornar-se produtivos e adaptáveis no interior da vida campal (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 336-337).
A transformação dos campos em “comunidades resilientes” é operada por dispositivos de governança como o Cluster Approach e o Camp Coordination and Camp Management Cluster (CCCM)1(1), que reorganizam o espaço por meio de parcerias multilaterais, gestão de dados e programas de capacitação. Como mostram as autoras, esses instrumentos reforçam a expectativa de que refugiados se tornem sujeitos disciplinados, participativos e preparados para “viver com a incerteza”, reduzindo sua mobilidade e incentivando a aceitação da vida em campos como permanência prolongada (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 341-345).
The idea here is to reconstitute refugees as resilient subjects by “empowering” them through involvement in the life and running of the camp. Due to camp settings, the CM Toolkit stresses that people are largely dependent on others, and on the international community in particular, for the provision of goods and services, which in turn leads to feelings ofdisempowerment. For this reason, “participation, especially in governance, mitigates those effects by giving people back some power, building self-reliance and a sense of achievement, influence and control, restoring some of the dignity that has been taken away” (Norwegian Refugee Council (NRC); The Camp Management Project (CMP), 2008, p.79). (Ilcan & Rygiel, 2015, p. 343)
Assim, o “humanitarismo resiliente” configura-se como um aparato de governança que combina cuidado e controle, apresentando-se como empoderamento, mas frequentemente operando de modo despolitizante. Como sintetizam Ilcan e Rygiel, trata-se de uma forma de assistência que “encoraja refugiados a adaptar-se, em vez de resistir, às condições de seu sofrimento humanitário” (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 343).
O pós-colonialismo e a Sociologia Política Internacional
Sankaran Krishna (2017) articula o pós-colonialismo com a Sociologia Política Internacional (SPI), destacando como ambos compartilham uma abordagem histórica e crítica das hierarquias globais. Enquanto a SPI emerge do Ocidente, o pós-colonialismo contribui com uma perspectiva multidisciplinar que desafia o eurocentrismo, o colonialismo e o imperialismo (Krishna, 2017).
A perspectiva pós-colonial é fundamental para entender como o mundo moderno foi moldado por relações de poder coloniais, que continuam a estruturar desigualdades entre Norte e Sul. Como argumenta Krishna, o Ocidente e o Oriente se coconstituíram em uma relação dialética, na qual o primeiro se apresenta como racional, civilizado e progressista, enquanto o segundo é representado como inferior, caótico e emocional (Said, 1978; Krishna, 2017).
In more mundane terms, what this means is that ideas, subjectivities, concepts, events and histories that are considered immanent to the ‘West’ are, in reality, outcomes of a global, inter-related and contrapuntal process that suffused the entire planet (Said 1993). (Krishna, 2017)
Essa crítica é essencial para desnaturalizar narrativas humanitárias que reproduzem hierarquias coloniais, apresentando o Ocidente como salvador e o Sul Global como espaço de crise e passividade. A SPI, por sua vez, oferece ferramentas para analisar como o sistema internacional é atravessado por relações de poder, colonialidade e resistência, permitindo uma leitura mais situada e menos abstrata das dinâmicas globais.
No contexto deste artigo, a articulação entre pós-colonialismo e SPI permite examinar como o filme As Nadadoras reproduz ou tenciona imaginários coloniais, reforçando a oposição entre uma “Europa salvadora” e uma “Síria caótica”, e como a figura da “boa refugiada” é construída a partir de expectativas eurocêntricas de resiliência, mérito e utilidade.
As Nadadoras e a construção do bom refugiado
A análise do filme As Nadadoras permite examinar como dispositivos humanitários, imaginários pós-coloniais e gramáticas de gênero operam conjuntamente na produção de determinadas subjetividades refugiadas. À luz da formulação de Suzan Ilcan e Kim Rygiel sobre o “humanitarismo resiliente” e articulando essa leitura com a abordagem pós-colonial apresentada por Sankaran Krishna, é possível compreender que o filme não funciona apenas como narrativa biográfica, mas como prática discursiva que reproduz racionalidades contemporâneas acerca da governança migratória. Nesse sentido, a análise dialoga com estudos sobre cinema e refúgio que compreendem as produções audiovisuais como parte de regimes visuais do deslocamento forçado. Como argumenta Stefanie Van de Peer, o chamado “refugee cinema” mobiliza paisagens de fronteira, travessias marítimas e corpos em movimento para produzir gramáticas visuais que organizam a experiência do refúgio em termos eticamente orientados e politicamente seletivos. Para a autora, esses filmes funcionam dentro de um enquadramento no qual “sympathy, solidarity and feeling-with are increasingly important values as tools for cross-cultural dialogue” (VAN DE PEER, 2019, p. 46), orientando o olhar do espectador para formas específicas de identificação e reconhecimento humanitário.
A representação das irmãs Mardini é estruturada em torno da resiliência como atributo individual, coerente com o que Ilcan e Rygiel identificam como a reconfiguração neoliberal do sujeito refugiado. Ainda no início do filme, as cenas de treinamento intensivo na piscina, marcadas por disciplina e repetição, antecipam a lógica narrativa que acompanha a trajetória inteira das protagonistas. No desenvolvimento da obra, a metáfora da natação organiza visual e simbolicamente a história, conectando o cotidiano esportivo pré-conflito à travessia marítima. Lógica esta que se torna particularmente evidente na cena do bote inflável, quando Yusra e Sarah entram no mar para impedir que o bote superlotado afunde, usando seus corpos e sua técnica esportiva como instrumento de sobrevivência coletiva. Ao privilegiar essa sequência como momento heróico, o filme desloca a crise migratória de um fenômeno estrutural para um desafio moral individual, reproduzindo o mecanismo de responsabilização (responsibilization) descrito por Ilcan e Rygiel (2015, p. 338).
Assim, a sobrevivência aparece como efeito da excelência e da capacidade de autogestão das protagonistas, qualidades estas que são fruto dos seus treinos de alto rendimento, e não como consequência direta das fronteiras deliberadamente precarizadas que tornam a travessia em um desafio mortal. Como afirmam as autoras, o humanitarismo resiliente “encoraja refugiados a adaptar-se, em vez de resistir, às condições de seu sofrimento humanitário” (ILCAN; RYGIEL, 2015, p. 343). Nesse sentido, o filme reforça a construção da “refugiada resiliente”, uma figura que se alinha perfeitamente à racionalidade neoliberal analisada pelas autoras.
Além disso, também é necessário ressaltar que essa produção da resiliência é também atravessada por dinâmicas de gênero. Em seu texto Feminist Theory/gender studies, a autora Laura Shepherd argumenta que discursos humanitários e securitários são generificados e dependem da mobilização de figuras particulares de feminilidade, nas quais vulnerabilidade e força moral coexistem como atributos esperados (SHEPHERD, 2013). Essa gramática de gênero se materializa de forma explícita na cena em que Yusra sofre uma tentativa de estupro durante o percurso terrestre rumo à Alemanha. A violência sexual aparece como ameaça constante e generificada, mas é rapidamente reinscrita na narrativa da resiliência quando Yusra é salva pela intervenção de sua irmã, deslocando o foco da estrutura de violência para a força moral e relacional das protagonistas. Assim, o episódio não funciona como denúncia das condições sistemáticas de insegurança enfrentadas por mulheres refugiadas, mas como mais um teste superado que reforça o ideal da feminilidade resiliente descrito por Shepherd (2013).
A representação da Europa no filme constitui outro eixo central, pois opera dentro da geografia pós-colonial analisada por Sankaran Krishna. Ao chegar à Alemanha, as protagonistas adentram um espaço apresentado como racional, ordeiro e salvador, cujas instituições (centros de acolhida ou clubes esportivos) aparecem como instâncias de redenção. Essa oposição entre o “caos” da Síria e a “ordem” europeia ecoa o argumento de Krishna de que o sistema internacional é estruturado por hierarquias coloniais persistentes (KRISHNA, 2017). Para o autor, conceitos e práticas aparentemente neutras das Relações Internacionais são produtos históricos da colonialidade, que estabelece o Ocidente como locus de normalidade, civilidade e progresso.
Um exemplo emblemático ocorre quando, já integradas a um clube alemão, Yusra e Sarah só são validadas como “boas nadadoras” após provarem seu talento diante do treinador europeu, apesar de no passado terem sido medalhistas representando a Síria internacionalmente. A necessidade de comprovação diante da autoridade europeia evidencia como o reconhecimento legítimo só é conferido quando mediado pelo olhar do Norte Global, reforçando o imaginário colonial de mobilidade no qual sujeitos do Sul se tornam plenamente legíveis apenas quando acolhidos e avaliados pelo olhar do Ocidente.
A história das irmãs Mardini se insere no que Ilcan e Rygiel (2015) identificam como humanitarismo seletivo, baseado na produção de “vítimas merecedoras”, mas pode ser ainda mais densificada à luz do que Didier Fassin denomina humanitarian reason. Para o autor, o humanitarismo contemporâneo constitui uma forma de governo que opera por meio de sentimentos morais, especialmente a compaixão, produzindo hierarquias de humanidade e legitimando intervenções políticas seletivas. Como afirma Fassin (2012), a razão humanitária governa vidas precárias: as vidas dos desempregados e dos requerentes de asilo, as vidas de imigrantes doentes e pessoas com AIDS, as vidas de vítimas de desastres e de conflitos.
Nesse enquadramento, o reconhecimento humanitário não se estrutura como direito universal, mas como julgamento moral que distingue quais vidas são passíveis de proteção e visibilidade. Yusra e Sarah são posicionadas como refugiadas excepcionalmente talentosas, disciplinadas e úteis, cuja trajetória esportiva funciona como capital moral dentro do regime humanitário. Como afirmam Ilcan e Rygiel (2015), o humanitarismo neoliberal privilegia biografias individuais de sucesso que comprovem resiliência, utilidade e responsabilidade, produzindo diferenciações entre sujeitos ajudáveis e não-ajudáveis. As Nadadoras adere a esse padrão ao celebrar o talento olímpico de Yusra, invisibilizando outras trajetórias de deslocamento que não se encaixam na figura da “boa refugiada”, reforçando a premissa implícita de que dignidade e proteção não são direitos, mas recompensas por mérito.
Importante notar, contudo, os silêncios estruturais presentes no filme. A guerra na Síria é retratada de maneira descontextualizada, sem menção às dinâmicas geopolíticas, às responsabilidades internacionais ou à colonialidade que molda políticas migratórias europeias. Como discute Krishna, a narrativa humanitária frequentemente apaga os elementos estruturais da violência para preservar a inocência moral do Ocidente (KRISHNA, 2017). Assim, a travessia marítima é apresentada como evento extraordinário e heroico, e não como consequência das políticas europeias de controle que tornam rotas seguras praticamente inacessíveis. A ausência dessa dimensão política reitera o caráter despolitizante do humanitarismo resiliente, que privilegia histórias de mobilidade individual em detrimento da crítica às estruturas de dominação.
Apesar disso, o filme contém ambivalências importantes que tensionam essa narrativa hegemônica. Algumas cenas expõem o racismo cotidiano, o paternalismo institucional e as burocracias desumanizantes presentes nos centros de acolhida europeus, como nos diálogos com agentes migratórios e nas longas esperas por documentos. Além disso, as protagonistas são retratadas com agência, humor, desejo e conflito, escapando parcialmente da figura homogênea da vítima dócil. Essas fissuras no discurso humanitário revelam que, embora a narrativa privilegie a resiliência individual, os efeitos da fronteira europeia continuam marcados por desigualdades profundas e violência estrutural.
Tomando esses elementos em conjunto, é possível interpretar a resiliência no filme como uma forma de colonialidade emocional: um mecanismo de subjetivação que produz refugiados responsivos às expectativas humanitárias do Norte Global, atribuídos de dignidade apenas quando incorporam virtudes neoliberais como disciplina, gratidão e utilidade. Essa racionalidade serve simultaneamente como instrumento de governamentalidade, no sentido de gerir populações vulneráveis, e como narrativa globalmente digerível que desloca a atenção das estruturas de poder para o mérito individual. Como resultado, perguntas fundamentais emergem: Quem se beneficia da centralidade da resiliência? Quem desaparece desse enquadramento? E como essas narrativas colaboram para a legitimação de políticas migratórias seletivas e excludentes não só na União Europeia mas no Norte como um todo?
Conclusão
O percurso analítico traçado ao longo deste artigo evidenciou que a produção cinematográfica As Nadadoras transcende a esfera do entretenimento biográfico, operando como um dispositivo discursivo que reitera e legítima racionalidades contemporâneas de governança global. A partir da interlocução entre o conceito de “humanitarismo resiliente” de Ilcan e Rygiel, a crítica pós-colonial de Sankaran Krishna e as lentes de gênero propostas por Laura Shepherd, conclui-se que a narrativa das irmãs Mardini é instrumentalizada para fabricar a subjetividade da “boa refugiada”: um sujeito apolítico, resiliente e moldado aos ideais neoliberais do Norte Global. A análise demonstrou que a representação fílmica corrobora a tese de Ilcan e Rygiel sobre o deslocamento da lógica humanitária da proteção para a responsabilização (responsibilization). Ao centrar a sobrevivência na capacidade individual de superação, disciplina e autogestão das protagonistas, a obra invisibiliza as estruturas de violência fronteiriça e a precarização deliberada das rotas migratórias. A resiliência, neste contexto, deixa de ser uma qualidade intrínseca para tornar-se uma exigência de governamentalidade, onde o refugiado “merecedor” é aquele capaz de adaptar-se às crises sem contestar as estruturas que as produzem, convertendo o direito ao asilo em uma recompensa por mérito e utilidade.
Ademais, sob a ótica pós-colonial de Krishna, identificou-se que o filme reproduz uma geografia imaginária hierarquizada, na qual a Europa é construída como o locus da racionalidade, da ordem e da redenção, em contraposição ao caos e à irracionalidade atribuídos ao Oriente. A validação da trajetória das protagonistas ocorre fundamentalmente através do olhar ocidental, exemplificado pela necessidade de aprovação técnica e moral das instituições alemãs para que suas subjetividades sejam plenamente reconhecidas. Essa dinâmica reafirma a colonialidade do poder, sugerindo que a humanidade do sujeito do Sul Global só se completa quando integrada e sancionada pela “civilidade” europeia. Simultaneamente, a dimensão de gênero revelou-se central na construção dessa aceitabilidade. A “feminilidade resiliente” das personagens, marcada pela dualidade entre vulnerabilidade e heroísmo, atende às expectativas de um humanitarismo que, segundo Shepherd, atribui marcadores de gênero à segurança e ao cuidado. No entanto, essa visibilidade seletiva gera um efeito de exclusão: ao elevar a trajetória excepcional e “olímpica” de Yusra e Sarah, a narrativa projeta uma sombra sobre a massa de migrantes que não se enquadram nesses critérios de excelência e docilidade, reforçando a distinção entre vidas que merecem ser salvas e aquelas deixadas à margem.
Por fim, conclui-se que narrativas como a de As Nadadoras desempenham uma função despolitizante ao silenciar as responsabilidades geopolíticas e as raízes coloniais dos conflitos e das políticas migratórias restritivas. A ênfase na “história de sucesso” individual atua como um mecanismo de apaziguamento moral para o público ocidental, mascarando a continuidade da violência estrutural. Portanto, uma abordagem crítica de Sociologia Política Internacional faz-se urgente para desconstruir tais discursos, revelando que a exaltação da resiliência, quando desacompanhada de justiça política e social, serve apenas à manutenção de um Sistema Internacional excludente e desigual.
Referências
AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I. Tradução de Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
AS NADADORAS (The Swimmers). Direção: Sally El Hosaini. Reino Unido; EUA: Working Title Films; Netflix, 2022. 134 min.
COSTA, Antonio. Compreender o cinema. Lisboa: Edições 70, 2011.
FASSIN, Didier. Humanitarian Reason: A Moral History of the Present. Tradução de Rachel Gomme. Berkeley: University of California Press, 2012.
ILCAN, Suzan; RYGIEL, Kim. Resiliency humanitarianism: responsibilizing refugees through humanitarian emergency governance in the camp. International Political Sociology, v. 9, n. 4, p. 333–351, 2015.
KRISHNA, Sankaran. Postcolonialism and International Political Sociology. In: GUILLAUME, Xavier; BILGIN, Pinar (Ed.). Routledge Handbook of International Political Sociology. London; New York: Routledge, 2017.
SAID, Edward. Orientalism. New York: Vintage, 1978.
SHEPHERD, Laura. Feminist Theory/gender studies. In: GUILLAUME, Xavier; BILGIN, Pinar (Ed.). Routledge Handbook of International Political Sociology. London; New York: Routledge, 2017.
VAN DE PEER, Stefanie. Seascapes of solidarity: refugee cinema and the representation of the Mediterranean. Alphaville: Journal of Film and Screen Media, n. 18, p. 38–53, 2019. DOI: 10.33178/alpha.18.04.
- 1. No âmbito da Agência da ONU para as Migrações, o CCCM refere-se ao conjunto de funções de coordenação e gestão de campos e abrigos coletivos para populações deslocadas em contextos de emergência, enquanto o Cluster Approach (ONU/ACNUR) é um modelo de coordenação usado em emergências humanitárias não relacionadas a refugiados, projetado para melhorar a organização, previsibilidade, responsabilidade e eficácia das respostas humanitárias internacionais. Disponível em:https://www.iom.int/camp-coordination-and-camp-management ↩︎
Michaella Novais Souza é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua produção acadêmica concentra-se nas áreas de Economia Política Internacional e Organizações Internacionais, com ênfase no BRICS e na Política Externa Brasileira. Atuou como pesquisadora e assessora de comunicação em projetos de pesquisa e extensão da UFRJ, com destaque para o projeto Debates Pós e Decoloniais e para o Núcleo de Auxílio a Pessoas Refugiadas e Imigrantes no Ensino Superior (NAPIES). Atualmente, investiga as interseções entre Necropolítica, Segurança Cibernética e Regimes de Controle Migratório. Lattes: https://lattes.cnpq.br/1472947506201985
Alice Ferreira do Nascimento é graduanda em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, compõe o grupo de pesquisa em pós-colonialismos do IRID-UFRJ e a equipe de escrita acadêmica do NAPIES. Lattes: https://lattes.cnpq.br/3641001300527985
Aline Silva Costa é graduada em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Já participou de grupos de pesquisa sobre política na América Latina e sobre China e Rússia. Foi bolsista de iniciação científica pelo Laboratório de Estudos de Segurança e Defesa (LESD/UFRJ), com orientação de Diogo Dario. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2227057673281389
Andressa Martins Passos Gomes é graduanda em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente faz parte do grupo de pesquisa: Relações Bilaterais do Brasil do IRID-UFRJ. Lattes: https://lattes.cnpq.br/5016021905685808
