Segunda Guerra Mundial: “Lembrai-vos da Guerra”

Volume 9 | Número 90 | Mai. 2022

Por Henrique Paiva e Fernando Almeida


Introdução

Embora não seja novidade afirmar que a Segunda Guerra Mundial foi a maior e mais destruidora guerra ocorrida na trajetória da nossa espécie, não é tarefa trivial encontrar artigos recentes que descrevam com qualidade e precisão as dinâmicas de combate ocorridas nos diferentes fronts. Essa aversão aos fatos políticos possui uma justificativa teórica de fundo, sustentando-se na ruptura historiográfica com a histoire événementielle, no início do século XX, a partir da revolução realizada por Marc Bloch e Lucien Febvre, com a fundação da chamada “Escola dos Annales”. 

A nova historiografia da “Escola dos Annales” trouxe contribuições metodológicas muito relevantes, no entanto, a História Política também se renovou. René Rémond demonstrou ser possível fazer uma análise histórica consistente, sem renunciar a uma abordagem que fosse rica na observação dos fatos.

Feitas essas considerações iniciais, importa salientar que este artigo tem por objetivo justamente analisar as dinâmicas e reviravoltas que integraram os vários episódios que costumam ser agrupados sobre o nome de “Segunda Guerra Mundial”. 

Os conflitos, os fatos políticos e as decisões dos líderes são elementos presentes e necessários ao longo de todo o texto. O artigo recorre às reflexões das causas profundas e ampara sua análise em outros campos do saber, como a Economia, a Geopolítica, a Sociologia e o Direito Internacional. Busca-se, assim, oferecer ao leitor um texto que consiga apresentar os fatos essenciais, tão relevantes para a compreensão do despontar da guerra, bem como de seu desfecho, mas sem abrir mão de uma abordagem sofisticada e interdisciplinar. 


Origens e antecedentes do conflito

Os antecedentes da Segunda Guerra são vários. Para muitos, era uma tragédia anunciada. A paz imperfeita de Paris, a grande depressão econômica e o ocaso do liberalismo político-econômico tiveram impacto no mundo inteiro, tendo sido ainda pior na jovem República da Alemanha 

Os militares alemães alegavam, com certa razão, não terem perdido a Primeira Guerra, portanto, o que estava acontecendo era uma traição da elite política e da elite econômica. Traição política que foi atribuída à jovem República alemã, porque, um pouco antes do fim da guerra, o Império Alemão tinha passado o poder para os republicanos, que acabaram pagando o alto preço político de terem aceitado o infame Tratado de Versalhes. A traição econômica foi atribuída aos banqueiros do país, que resolveram parar de financiar a indústria bélica e as Forças Armadas alemãs. Culpa que foi atribuída discursivamente à população judaica como um todo, devido a origem judia de alguns financistas. Com o orgulho ferido, o discurso antissemita e ultranacionalista nazista mobilizou as massas.

O aceno dos aliados em flexibilizar o Diktat nos Acordos de Locarno fez Hitler perceber uma baixa disposição dos britânicos e dos franceses de confrontarem os alemães, enquanto os norte-americanos continuavam com sua política externa isolacionista. O III Reich logo reativou o alistamento militar obrigatório e a base industrial de defesa. 

Com um discurso biologizante da política, os alemães adotaram uma política eugênica e expansionista. O expansionismo buscava atender ao apelo por mais espaço vital de um organismo mais dinâmico em busca de outras fontes de matéria-prima, de energia, de alimentos e de mão-de-obra: é a ideia geopolítica do lebensraum, elaborada pelo geopolítico alemão Friedrich Ratzel. A eugenia defendia a superioridade de certas raças e pregava o purismo endogâmico e a eliminação dos indesejados, seja pela morte, seja pela castração. 

A ideologia da eugenia foi desenvolvida pelo britânico sir Francis Galton, com base em uma leitura enviesada de estatísticas, que representava mais a estrutura do poder do que qualquer condicionante biológico. Os britânicos têm dificuldade de reconhecer que a política de apaziguamento, além de ser uma estratégia militar, tinha relação também com afinidades ideológicas e dinásticas com os alemães.

Em 1936, Hitler publicamente ignorou o Tratado de Versalhes e assinou pactos de aliança com o Reino da Itália e com o Império do Japão, saindo da Sociedade das Nações. O exército alemão também ocupou a Renânia (às margens do rio Reno), na fronteira com a França, que deveria ter ficado desmilitarizada.

Em março de 1938, o Terceiro Reich anexou a República da Áustria, basicamente germânica, com ampla adesão popular, sem derramamento de sangue. O Anschluss foi referendado politicamente e a Áustria passou a ser a província Ostmark do Reich.

Em abril de 1938, o Reich alemão anexou a região germânica dos Sudetos, na Tchecoslováquia, após os Decretos de Carlsbad, promulgados pelo Partido Alemão dos Sudetos. Dessa vez, houve resistência do governo tcheco. 

A situação foi resolvida com a Conferência de Munique, em setembro de 1938, por Adolf Hitler, Neville Chamberlain e Édouard Daladier, com mediação de Benito Mussolini, sem a participação de plenipotenciários tchecos, que consideraram o acordo uma grande traição aliada. 

Chamberlain é saudado na sua volta ao Reino Unido, tendo declarado “peace for our time”. As potências ocidentais preferem adotar a Política do Apaziguamento (appeasement) na tentativa de deixar Hitler satisfeito no frontocidental e na esperança que ele avançasse para o front oriental sobre os povos eslavos, que faziam parte da esfera de influência soviética.

Percebendo a relutância ocidental em se envolver belicamente contra os fascistas, as potências centrais aproveitaram para desprezar a mutilação territorial sofrida com o Tratado de Versalhes. O Reino da Itália invadiu o Reino da Albânia em abril de 1939, proporcionando uma cabeça de ponte para a campanha italiana nos Bálcãs. O Terceiro Reich, em março de 1939, anexou o resto da Tchecoslováquia e a cidade livre de Danzig (Gdansk, em polonês) com seu estratégico porto que era controlado pela Sociedade das Nações. Com o controle sobre Danzig, Hitler fez o movimento de que tomaria o restante da costa da Polônia, ligando a Prússia Oriental de volta ao Reich e acabando com o corredor polonês.

Ao perceber que, dessa vez, as potências ocidentais reagiriam, o Reich resolve apostar suas fichas no frontocidental, mas, para isso, precisava assegurar um acordo com o front oriental.

A principal aprendizagem estratégica da Primeira Guerra para os alemães foi a de não se envolver em uma guerra de duas frentes simultaneamente, mas alternadamente. Para isso, como previsto no Plano Schlieffen, seria necessária uma guerra rápida no front ocidental antes de concentrar forças no front oriental.

Adolf Hitler colocou de lado seu anticomunismo e assinou um pacto de não-agressão com Josef Stalin, em agosto de 1939. O Pacto Germano-Soviético ou Ribbentrop-Molotov, que, secretamente, acordava a divisão da Polônia entre alemães e soviéticos e a anexação dos países bálticos pelos soviéticos.

Hitler sabia que, para concretizar seus planos de tornar a Alemanha uma superpotência global, seria inevitável recorrer à guerra, pois só se conquista esse status pela guerra. Em 1º de setembro de 1939, o Terceiro Reich ocupa, de fato, a República da Polônia que ainda separava a Prússia Oriental do resto do país. O Reino Unido e a República Francesa declaram guerra em 3 de setembro de 1939. Começava oficialmente a Segunda Guerra Mundial.

A máquina de guerra alemã e os êxitos iniciais do Eixo

Como acordado, os soviéticos invadiram a parte da República da Polônia que lhes cabia na divisão do Pacto Ribbentrop-Molotov e tentaram invadir a República da Finlândia, que bravamente resistiu, cedendo parte do seu território, mas mantendo sua independência, como retratado no tocante livro Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson.

Para bloquear a chegada de suprimentos, os alemães novamente usaram seus temíveis submarinos U-Boats, dando início à Guerra do Atlântico, ainda em 1939. 

Os franceses, a partir da experiência da Primeira Guerra, tinham construído a mais magnífica trincheira da história: a Linha Maginot, com 108 fortes, equidistantes em 15 quilômetros. Contudo, os franceses não chegaram com a Linha ao Mar do Norte, por escassez de recursos e de tempo, e, também, por terem apostado no respeito alemão à neutralidade belga, que juridicamente não poderia ser atacada, garantindo a inviolabilidade de suas próprias fronteiras. É exatamente pelo Reino da Bélgica que o Reich invade a República Francesa.

O sucesso da invasão alemã se deu pela revolução em assuntos militares (RAM) da Blitzkrieg, a “guerra relâmpago”, formulada pelo general Heinz Wilhelm Guderian. Carros de combate, com apoio de fogo da artilharia do exército e da força aérea, avançavam rapidamente pelo interior do território inimigo, chegando depressa aos pontos estratégicos, abrindo espaço para a ocupação terrestre, deixando os inimigos com baixa capacidade de reação.

Dessa forma, em maio de 1940, os alemães invadiram o Reino da Noruega, o Reino da Dinamarca, os Países Baixos, o Grão-Ducado de Luxemburgo e finalmente o Reino da Bélgica por onde chegaram à França, desbordando a Linha Maginot.

Ao mesmo tempo, o Reino da Itália invadia a República Francesa pelo sul, em junho de 1940, marcando a entrada das tropas de Mussolini oficialmente na guerra.

Em apenas 46 dias de batalhas, os franceses renderam-se. O marechal Phillipe Pétain assinou o armistício em junho de 1940, em Compiègne, no mesmo vagão de trem onde os franceses tinham humilhado os alemães, obrigando-os a assinar o Tratado de Versalhes, sem nem poderem negociar. É o fim da Terceira República Francesa e o início da vergonhosa França de Vichy, governo autóctone do centro-sul francês, colaboracionista dos nazistas. Ao mesmo tempo, em Londres, o general Charles de Gaulle estava iniciando a resistência francesa com mensagens de rádio diárias.

Com a ocupação de Paris, a divisão da França e o armistício assinado pelo marechal Pétain, o domínio do Terceiro Reich sobre a Europa Ocidental estava praticamente assegurado, uma vez que restavam apenas países aliados, dominados ou, no máximo, neutros – sendo os mais expressivos a Confederação Suíça, o Reino da Suécia, o Estado Novo Português e o Reino da Espanha, também sob regime fascista. Evidentemente, as colônias francesas passaram a ter forte influência do III Reich. O filme Casablanca ilustra bem esse período. 

Diante deste cenário, bastava os alemães atravessarem o canal da Mancha, para selarem a dominação sobre o Reino Unido e se apropriarem dos seus preciosos recursos financeiros e das suas poderosas indústrias. Seria o pleno domínio alemão sobre a Europa Ocidental.

A partir de julho de 1940, utilizando o território francês como cabeça de ponte aérea, o Reich alemão começou uma batalha aérea para invadir o Reino Unido: a Batalha da Inglaterra, que durou até outubro de 1940, com eventuais ataques ainda em 1941. A Luftwaffe bombardeou intensamente a Grã-Bretanha, que tentava caçar os aviões inimigos com a Royal Air Force. De junho de 1944 a março de 1945, o Reich lançou o primeiro míssil da história, a bomba voadora Vergeltungswaffe 1, a V1, ou Arma da Vingança 1, lançando 8.000 delas apenas sobre Londres; tendo logo desenvolvido e lançado a V2, primeiro míssil balístico, atingindo as camadas mais altas da atmosfera e efetuando voo suborbital usando as propriedades da gravidade para se alcançar longas distâncias. 

A experiência da Luftwaffe em apoio à aliança nacionalista – que reunia falangistas, monarquistas e carlistas sob a liderança do general Francisco Franco – na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) foi essencial para a estratégia aérea alemã na Segunda Guerra. O episódio do bombardeio aéreo da Luftwaffe à cidade de Guernica, em 1937, ficou registrado no quadro “Guernica”, de Pablo Picasso.

O trabalho da Royal Air Force prosperou graças ao desenvolvimento tecnológico do radar que acionava a esquadrilha britânica antes que a Luftwaffe chegasse ao espaço aéreo contíguo ao território insular. O bombardeio alemão de alvos civis estava minando o moral dos britânicos e poderia ter levado à rendição.

Conforme ressaltado na introdução, o artigo não vai cair na armadilha da velha historiografia événementielle, no qual os rumos da história seriam definidos exclusivamente pelas decisões dos grandes líderes. Pierre Renouvin e Jean-Baptiste Duroselle, em Introdução à História das Relações Internacionais, apresentam as forças profundas que moldam as dinâmicas internacionais: fatores geográficos, demográficos, econômicos e financeiros e o sentimento nacional, que revela ao mesmo tempo o ânimo coletivo bem como a mentalidade de seus estadistas, que não poderia ser negligenciada. Então, em certa medida, a presença de líderes carismáticos utilizando meios de comunicação de massa, para, deliberadamente, fazer propaganda para mobilizar o inconsciente coletivo da população, teve, sim, um papel relevante para o desfecho do conflito.

Em 1940, após a rápida e humilhante derrota da França, o plano de dominação mundial do Terceiro Reich nunca esteve tão perto de se concretizar. Nessa hora, a personalidade e as convicções de Winston Churchill foram determinantes para que o Reino Unido não tomasse a decisão que parecia a mais fácil no momento: realizar um acordo com a Alemanha. 

Churchill, a despeito da pressão de vários membros da elite política inglesa, optou pelo caminho mais difícil, mantendo-se firme na resistência contra a expansão do nazismo “se necessário por anos, se necessário sozinho”, como expresso no célebre pronunciamento proferido no dia 4 de junho de 1940. Essa ousada e custosa política de defesa provou-se a estratégia correta. 

Como a memória prioriza a narrativa dos vencedores, a decisão de resistir até o último homem foi celebrada como parte da mente brilhante do grande estrategista Winston Churchill. Tivesse perdido a guerra, Churchill seria retratado como o falastrão alcoólatra, racista e misógino que levou à morte seu povo, quando ainda tinha a chance de um acordo minimamente razoável. O Imperador japonês também tomou a mesma decisão de resistir à rendição e viu seu país arrasado por duas bombas atômicas, sendo retratado como um líder sádico, criminoso de guerra e desvinculado do seu povo. A ênfase nas personalidades dos líderes é muitas vezes enganosa. 

Os fatores materiais também não explicam tudo. As potências aliadas sempre tiveram, desde o início da guerra, mais tropas, mais equipamentos, mais acesso a recursos estratégicos e a vantagem tática de estarem na defensiva, ainda assim, parecia que as potências do Eixo venceriam a guerra, em 1942. O título do filme biográfico de Churchill “O Destino de uma Nação”, talvez inconscientemente, revele que, muitas vezes, o acaso pode determinar o resultado da guerra, conforme as tramas traçadas pelas moiras do destino. Quando se começa uma guerra, a sorte está lançada (alea jacta est).

Mussolini queria conquistar os Bálcãs e o Norte da África, a região do Magreb, e , para isso, lançou seu país em um projeto expansionista que citava as glórias do Império Romano. Na campanha dos Bálcãs, o Reino da Itália tentou invadir o Reino da Grécia em outubro de 1940, mas teve que voltar para o Reino da Albânia. Em abril de 1941, os alemães e os búlgaros enviaram reforços para invadirem simultaneamente e com sucesso os Reinos da Iugoslávia e da Grécia, com a tomada da estratégica ilha de Creta, no Mediterrâneo.

Na campanha no Norte da África, as tropas de Mussolini, juntamente à Líbia italiana, em junho de 1940, tentaram invadir o Reino do Egito para tomar o Canal de Suez, mas a invasão foi mal-sucedida. Essa campanha era fundamental para garantir acesso a petróleo, para bloquear a fonte de suprimento logístico e para impedir possíveis desembarques dos Aliados pelo Mar Mediterrâneo. 

O Reich decide assumir também a Guerra no Deserto, enviando a força expedicionária Afrika Korps, comandada pelo marechal Erwin Rommel, que durou de junho de 1940 a maio de 1943. As campanhas aconteceram em território egípcio, líbio, tunisiano, argelino e marroquino. Do lado aliado, lutaram americanos e britânicos, auxiliados pela Commonwealth britânica: a comunidade composta por Austrália, Nova Zelândia, Índia, União Sul-Africana e Rodésia do Sul (atual Zimbabwe).

A formação do Eixo Roma-Berlim-Tóquio havia sido oficializada com a assinatura do Pacto Tripartite entre o Terceiro Reich, o Reino da Itália e o Império do Japão, em setembro de 1940, com a posterior inclusão do Reino da Hungria, da República da Eslováquia , do Reino da Romênia e do Reino da Bulgária, em 1941.

Diante da resistência inglesa na Batalha da Inglaterra e da incompetência da ofensiva militar italiana nos Bálcãs e no Magreb, o Reich precisou buscar recursos a Leste, o que o obrigou a quebrar o Pacto Ribbentrop-Molotov e a invadir a União Soviética, o que era uma intenção dos nazistas, mas não naquele contexto. 


Do triunfalismo à preocupação: A URSS resiste

É nesse momento que entrou em cena o papel de Josef Stalin, determinado a não deixar o país cair nas mãos de Hitler, ao conduzir – com altíssimo custo humano – a heroica contraofensiva do Exército Vermelho. Dos cerca de 20 milhões de soldados mortos em batalhas durante a Segunda Guerra, a metade foi de militares russos. O Exército Vermelho pagou o maior tributo de sangue para garantir a vitória dos Aliados e os planos quinquenais, conduzidos com sucesso até então, tiveram que ser interrompidos.

Em junho de 1941, a Operação Barbarossa se iniciou, com a invasão da União Soviética pelo Reich. Os territórios russo e do Leste Europeu eram o espaço vital ideal para a colonização alemã. Os eslavos seriam dizimados e reduzidos a mera mão-de-obra servil em projetos conduzidos pelos alemães, que migrariam para colonizar e fertilizar de arianos o heartland. O termo eslavo foi a origem etimológica das palavras: slaveesclavo, escravo.

Em 1904, na Real Sociedade Geográfica de Londres, Halford Mackinder lançou o artigo O Pivot Geográfico da História, em que defendia que o controle do heartland permitiria controlar o mundo. O coração do mundo seria as férteis áreas agrícolas e ricas em recursos estratégicos que se estendem do Leste Europeu até a planícies centrais russas e centro-asiáticas. O desenvolvimento de ferrovias nessa vasta planície nas latitudes afortunadas permitiria a rápida mobilização de tropas e de recursos materiais para resistir ao ataque naval maciço dos britânicos a algum porto estratégico russo. 

Na visão de Mackinder, geopolítico britânico, a vantagem desproporcional da Armada britânica estava com seus dias contados. Makinder temia que uma aliança entre os recursos estratégicos russos, que controlavam o heartland, com a capacidade industrial alemã, criasse um grande império global, com os alemães controlando o Ocidente e os russos o Oriente. O Plano Schlieffen mostrou que os alemães não cogitavam um império com dois centros. A estratégia alemã sempre envolveu dominar os eslavos, embora o Pacto Germano-Soviético tenha assombrado o mundo em agosto de 1939.

Com um mês de campanha, a Wehrmacht, o Exército alemão, já tinha adentrado 800 quilômetros em território russo. O Exército Vermelho sofreu vários massacres terríveis, como na Batalha de Minsk e na Batalha de Kiev. Os alemães chegaram a ficar a 40 quilômetros de Moscou, mas os russos adotaram a estratégia de terra arrasada para destruir qualquer meio de subsistência que pudesse servir aos invasores, como já tinham feito quando das invasões napoleônicas. Com isso, os alemães se concentraram em outras duas grandes cidades: Leningrado (São Petersburgo) e Stalingrado (atual Volgogrado, às margens do rio Volga).

O cerco a Leningrado durou 900 dias, de 8 de setembro de 1941 até 27 de janeiro de 1944. Os alemães cortaram as linhas telefônicas, a energia elétrica, o aquecimento à gás e bloquearam as estradas que poderiam levar suprimentos. Milhares de pessoas morriam diariamente. Comiam-se animais de estimação, pombos e houve episódios de canibalismo.

O cerco a Stalingrado começou em 17 de julho de 1942 e durou até 2 de fevereiro de 1943, em constante e sangrenta batalha. Na verdade, a Batalha de Stalingrado foi a mais sangrenta da história, com quase 2 milhões de mortos e mutilados de ambos os lados. O cerco parecia ser a derrocada soviética. Novamente, o “general inverno”, aliado à estratégia de “terra arrasada”, com tropas soviéticas motivadas a não se tornarem servos dos alemães, fizeram com que a sorte da campanha virasse. 

Domenico Losurdo cita os diários de Goebbels, em que o dirigente nazista vai passando de um triunfalismo pleno à preocupação, quando começa a receber informações sobre extensas linhas ferroviárias não mapeadas e sucessivos ataques de aviões cuja existência era desconhecida. O isolamento da URSS havia criado essa falta de informações. Posteriormente, a chegada de tropas soviéticas, antes acantonadas no Extremo Oriente, pela ferrovia Transiberiana, em uniformes brancos, impactou profundamente as tropas de Hitler. 

É característica permanente da guerra o acaso como dizia Carl von Clausewitz, ou fortuna como dizia Nicolau Maquiavel. Ninguém sabe de antemão o resultado de um conflito “sob a névoa da guerra”. Em 2 de fevereiro de 1943, os russos venceram a batalha, romperam o cerco a Stalingrado e começaram a campanha vitoriosa que levaria à derrota dos alemães.


O teatro de operações do Pacífico

O Império do Japão tinha a mesma postura expansionista com base nos mesmos discursos racistas e no mesmo conceito estratégico do lebensraum. Os japoneses já tinham invadido a Manchúria em 1931 e, em 1932, criaram o Estado fantoche (puppet State) do Manchukuo, colocando no poder Pu Yi, o último imperador chinês. Pu Yi foi forçado a abdicar do trono, em 1912, após a Revolução Xinhai, que proclamou a República da China, derrubando a dinastia Qing, no poder desde 1644. A dinastia Qing não contava mais com o apoio popular, tendo perdido simbolicamente o “Mandato do Céu” do Império do Meio.

 De 1937 a 1945, teve lugar a Segunda Guerra Sino-Japonesa. Em julho de 1937, o Império do Japão invadiu Pequim, Xanghai e Nanquim, que era a capital à época. Os japoneses controlavam as principais cidades portuárias chinesas, mas o campo era defendido por guerrilheiros comunistas. Em novembro de 1939 e em agosto de 1940, nacionalistas e comunistas chineses iniciaram uma contraofensiva. Comunistas e nacionalistas chineses estavam em guerra civil desde 1927, interrompida pelo inimigo comum, e resolvida em 1949, com a vitória do Partido Comunista Chinês.

Essa foi a maior guerra da história da Ásia. Cerca de 20 milhões de civis e 4 milhões de soldados japoneses e chineses morreram. Foi na Segunda Guerra Sino-Japonesa que os japoneses perpetraram o “holocausto chinês”. O comportamento do Império do Japão na Península Coreana, sua colônia desde 1910 – embora o imperador coreano não tenha assinado o acordo imposto pelos japoneses –, também já tinha imposto à região um regime de terror.

Em 1940, os japoneses ocuparam diversas colônias europeias: a Birmânia Britânica (República do Myanmar, desde o golpe militar de 1988), a Malásia Britânica (atual República da Malásia), Singapura (cidade-Estado insular, separada por uma ponte da Malásia, que, na prática, é um enclave ocidental no Mar do Sul da China, embora seja independente desde 1965), Hong Kong (protetorado britânico que só voltou para a China em 1997), a Indochina Francesa (que envolvia os antigos Reinos da Tailândia, do Camboja, do Laos e o Vietnã: colônias de Cochinchina-Annam-Tonkin), as Índias Orientais Holandesas (atual República da Indonésia), as Filipinas (protetorado norte-americano desde o fim da Guerra Hispano-Americana, em 1898), além de importantes bases navais insulares essenciais para qualquer domínio imperialista sobre o Oceano Pacífico, fosse o imperialismo americano, fosse o imperialismo nipônico. 

Assim como nos Bálcãs e no Leste Europeu, vários países do Sudeste Asiático, depois da Segunda Guerra Mundial, entraram em guerra civil, convertendo alguns reinos em repúblicas; sendo algumas repúblicas promulgadas soborientação comunista, como Coreia, Birmânia, Camboja, Laos e Vietnã. 

Até junho de 1941, os Estados Unidos forneciam a maior parte do aço e do petróleo consumido pelo Império Japonês, contrariando sua declaração de neutralidade, embora também apoiasse a China nacionalista, lucrando nas duas pontas da guerra. Com o avanço japonês sobre o Pacífico, os americanos impuseram um embargo comercial contra os japoneses e exigiram, também, que o Império do Japão recuasse, retirando suas tropas de bases estratégicas. 

Durante muito tempo, as lideranças políticas norte-americanas preferiam manter o domínio inconteste no Hemisfério Ocidental: as Américas, afastando-se do conflituoso cenário europeu e asiático. O Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico davam o distanciamento geográfico necessário, para que os americanos pudessem continuar com sua política externa isolacionista, que lhes rendia muitos lucros com empréstimos e com a venda de material bélico, de suprimentos, de alimentos para as partes envolvidas em conflitos armados. 


Os Estados Unidos da América: entre a neutralidade e a ação

 O início formal da guerra em setembro de 1939 fez com que os Estados Unidos formalizassem sua condição de neutralidade, o que lhes impedia de vender material bélico e de conceder empréstimos para qualquer um dos lados, embora violassem o tempo todo os impedimentos de tal condição. 

Desde 1939, os Estados Unidos, estrategicamente, apresavam navios, confiscavam bens e congelavam todo o dinheiro presente nos bancos americanos que pertenciam aos países do Eixo e aos países invadidos pelas potências centrais, estrangulando-os financeiramente, ao mesmo tempo em que mantinham sua oportuna neutralidade.

Os Estados Unidos observavam com preocupação os vínculos da Alemanha com os países ao Sul do Rio Grande. O III Reich estava se tornando importante parceiro comercial da América Latina, mediante vantajoso comércio compensado, que promovia a permuta de matéria-prima por bens industriais, com câmbio negociado em uma bolsa de compensações conveniente para os latinos, acostumados com tratados desiguais, onde seus produtos primários sofriam com a deterioração dos termos de troca, que impedia os países latino-americanos de auferirem divisas suficientes para adquirirem estratégicos produtos industrializados ingleses e norte-americanos. Os estadistas norte-americanos estavam especialmente preocupados com o grande entusiasmo argentino com o nazismo e com a dimensão alemã no governo brasileiro, composto por lideranças germanófilas. No caso brasileiro, o Reich já tinha se tornado o maior parceiro comercial do Brasil, em 1938, que era também o país com a principal colônia germânica no hemisfério à época.

Em dezembro de 1940, o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt declarou que os Estados Unidos seriam o “arsenal da democracia”, o que causou resistência dos congressistas isolacionistas. Em março de 1941, Roosevelt, contrariando as elites políticas da época, faz uma manobra jurídica, criando o Lend-Lease Act, como um ato de defesa para garantir que nenhum conflito chegasse aos EUA. O programa, supostamente, não romperia a condição de neutralidade e não seria uma declaração de guerra ao Eixo. Os principais beneficiados pelo programa foram o Reino Unido, a França Livre, a União Soviética e a República da China. 

Em 1941, um documento fundamental para o desenvolvimento do conflito mundial foi redigido: a Carta do Atlântico, divulgada em 14 de agosto, assinada por Roosevelt e  Churchill, prevendo o mundo pós-derrota nazista. Continha importantes pontos: Estados Unidos e Reino Unido não buscariam nenhum ganho territorial após a guerra; os ajustes territoriais deveriam estar em conformidade com as demandas dos povos afetados; as potências vencedoras reconheceriam o direito à auto-determinação dos povos; as barreiras comerciais deveriam ser abandonadas; os mares teriam livre navegação; as potências agressoras seriam desarmadas; e regimes internacionais seriam elaborados para a cooperação econômica global e o bem-estar social dos povos.

Vê-se, no direito à auto-determinação dos povos, a posição americana em favor da dissolução dos impérios europeus e da independência de suas colônias. Com a exclusão das barreiras comerciais, os americanos já configuravam a arquitetura ideal para garantir o acesso livre aos recursos de todos os Estados, os do presente e os que viessem a surgir com a descolonização que se queria promover.

Apesar de estarem arquitetando a ordem do pós-guerra, os EUA ainda estavam neutros, pelo menos até o ataque japonês a Pearl Harbour, em dezembro de 1941.

O Império do Japão, sem o campo chinês e com o boicote do aço e do petróleo americano, lançou mão de sua arriscada ofensiva, para controlar os recursos estratégicos e humanos do Pacífico. Em 7 dezembro de 1941, kamikazesjaponeses atacaram a distante base naval de Pearl Harbour. 

Como parte do Acordo Tripartite, o Eixo declarou guerra aos Estados Unidos em 11 de dezembro de 1941. Os Estados Unidos finalmente entraram na Segunda Guerra Mundial. A chegada das tropas estadunidenses em diferentes fronts, a partir de 1942, marcou o início da virada da guerra em favor das potências aliadas.

No teatro de operações do Pacífico, a Armada japonesa passou a ser destruída nas batalhas aeronavais. A virada Aliada se dá nas batalhas do Mar de Coral, em maio de 1942; e de Midway, em junho de 1942. A derrota japonesa fica clara nas batalhas do Mar das Filipinas, em junho de 1944; de Iwo Jima e de Okinawa, em fevereiro e março de 1945.

No continente, a partir de abril de 1945, os chineses conseguem importantes e surpreendentes vitórias, expulsando os japoneses em agosto de 1945, após sete anos de ocupação.

Os americanos, sob comando do general Curtis LeMay, destruíram as principais cidades japonesas e praticamente todas as suas indústrias, com os bombardeiros B-29. Além disso, os americanos colocaram minas navais na costa navegável do Japão. Harry Truman, Winston Churcill e Chiang Kai-Shek (general líder da China Nacionalista) exigiram a rendição incondicional do Império do Japão. Como não foram obedecidos, os americanos, para completar, detonaram as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto de 1945.

A rendição japonesa só veio depois do sucesso soviético na campanha de retomada da Manchúria e do norte da Coreia. Os russos também não queriam enfrentar a Alemanha de um lado e o Japão do outro lado. O pacto nipônico-soviético de 1941 resguardava 11 anos de neutralidade entre os dois países, mas os russos romperam o pacto e iniciaram a campanha no front oriental em 7 de agosto de 1945 e já estavam na iminência da invasão do arquipélago nipônico. No dia 15 de agosto de 1945, em uma transmissão radiofônica, o povo japonês pela primeira vez ouvia a voz de um imperador. Contrariando os generais japoneses, que preferiam lutar até morrer a aceitar a desonra da rendição incondicional, o imperador Hirohito aceitava a rendição, ante a ameaça de extinção da nação japonesa.

As bombas atômicas americanas foram resultado do Projeto Manhattan. Antes mesmo do início da guerra, os Estados Unidos já estavam fazendo uma operação de brain drain dos cientistas germânicos perseguidos, dentre eles: Albert Einstein, que assinou uma carta (escrita pelo físico húngaro, radicado nos EUA, Leó Szilárd) a Roosevelt, em agosto de 1939, alertando sobre o perigo da pesquisa sobre a aplicação militar de material radioativo no Reich, que poderia desenvolver “um novo tipo de bomba extremamente poderosa”. Os Estados Unidos recrutaram esses cientistas para criar o projeto nuclear estadunidense, com apoio também do Reino Unido e do Canadá. Importante registrar que operação secreta britânica impediu que, em 1942, os alemães se abastecessem de água pesada produzida na usina norueguesa de Vermok, para chegarem a seus próprios artefatos nucleares, bem antes dos americanos.

O “sucesso” da empreitada nuclear fez os Estados Unidos acolherem, com honras inclusive, famosos cientistas nazistas, recebendo inclusive aqueles que fizeram experimentos antiéticos, para o seu staff universitário. Como aconselhava Maquiavel: a moralidade do príncipe não deveria se confundir com os interesses do Estado. Assim, por exemplo, Werner Von Braun, o cérebro por trás das bombas V1 e V2, foi ajudar no programa espacial dos EUA.

Fosse Hitler a jogar as bombas sobre Londres e Manchester e não se teria dúvidas na opinião pública sobre a sua desumanidade, como foram os vitoriosos norte-americanos, o episódio foi tratado como um mal necessário para pôr fim à guerra. Os generais derrotados foram julgados nos Tribunais de Nuremberg e de Tóquio.

Quase não se fala da ordem de Harry Truman para lançar as bombas nucleares. Quando mencionam a sua decisão, sinalizam para a quantidade de vidas que as duas bombas pouparam, ao terem, supostamente, forçado a rendição japonesa antes de um massacre total. As bombas atingiram o Japão, mas ressoaram ao mundo inteiro quem era a nova potência militar global, que detinha uma arma capaz de acabar com a humanidade. A partir de Hiroshima e Nagasaki, o máximo que se poderia em uma guerra contra os Estados Unidos era empatar, um empate fúnebre, mas empate. 

Também não é citado o plano de Truman de bombardeio nuclear da URSS, em fins dos anos 1940, antes que Stalin também tivesse bombas atômicas. Em 1949, após intensa espionagem industrial, os soviéticos fazem um teste bem-sucedido de sua bomba atômica e o plano americano é abolido, conformando a paz armada da Guerra Fria.


A campanha do Mediterrâneo

Na campanha do Mediterrâneo, o Reino da Itália foi invadido em setembro de 1943. O exército britânico, comandado pelo general Bernard Montgomery, e o americano, comandado pelo general Mark Clark, apoiado pela Força Expedicionária Brasileira, desembarcam na Sicília, para em seguida avançarem sobre o sul da península italiana, forçando a rendição alemã. 

Com a derrota, Benito Mussolini foi deposto e preso pelo Conselho de Estado, que celebrou um tratado de paz com os aliados, prevendo que os italianos deveriam declarar guerra ao Reich, fazendo-os virarem a casaca de novo, como na Primeira Guerra. 

Forças Especiais alemães resgataram Mussolini da prisão para que ele fundasse, com o apoio de Hitler, a República Social Italiana, no rico Norte italiano, ainda não ocupado pelos Aliados. A República de Saló, como ficou conhecida, durou de setembro de 1943 a abril de 1945, quando Mussolini decidiu fugir para a Suíça diante da iminente derrota, mas acabou sendo pego e morto por partigiani, guerrilheiros italianos. Seu corpo foi exposto amarrado de cabeça para baixo em praça pública na rica cidade de Milão.

A Operação Rusky de desembarque na Sicília foi possível graças ao acordo prévio do governo americano com imigrantes da máfia italiana nos Estados Unidos, cujo principal nome era o de Salvatore Lucky Luciano, que teve sua pena de 30 anos, na prática, revogada. O apoio no desembarque em seu próprio país veio condicionado à máfia poder usufruir da lavagem de dinheiro feita com jogos de azar nos cassinos de Las Vegas, tendo depois expandido seus investimentos em Cuba, protetorado americano desde 1898, como bem retratou o maravilhoso filme “O Poderoso Chefão”. 

O acordo do governo americano com a máfia revela que, na prática, ela era uma “instituição” italiana, que continuava operacional, ao passo que o Estado italiano entrara em colapso. Outras duas instituições italianas que continuaram ativas durante a guerra foram a Igreja Católica e o Partido Comunista, mas ambos estavam distantes dos interesses do governo de Washington.

Na campanha do Magreb, a virada aliada começou com a vitória britânica e de sua Commonwealth na Batalha de El Alamein, em outubro de 1942. Winston Churchill disse “Antes de Alamein nunca tivemos uma vitória, depois de Alamein, nunca tivemos uma derrota”. A manutenção da posse do Canal de Suez e do Estreito de Gibraltar pelos Aliados durante a guerra impediu os alemães de terem acesso ao petróleo do Oriente Médio e dos suprimentos que vinham das colônias da África, da Ásia e das Américas. As Forças Armadas têm dois combustíveis: sangue e petróleo. Os países pagam com sangue o petróleo que usam diariamente. 


A vitória definitiva

No front oriental, na guerra germano-soviética, os alemães não conseguiram o que tanto queriam: o domínio sobre o petróleo do Campo de Baku, no Azerbaijão, no Mar Cáspio. Desde a virada em Stalingrado, os soviéticos lançaram a contra-ofensiva com a operação Bagration, entre junho e agosto de 1944; a operação Vistula-Oder, entre janeiro e fevereiro de 1945; o Levante de Varsóvia, de agosto de 1944; e, finalmente, a Batalha de Berlim, entre 16 de abril e 2 de maio de 1945, quando os soviéticos decretaram a queda de Berlim. A cena foi imortalizada pelo fotógrafo Yevgeny Khaldei, na qual uma bandeira vermelha (posteriormente alterada com a inclusão do brasão soviético) tremula no alto do Reichstag, com vista para uma Berlim destruída e derrotada.

 No front ocidental, os Aliados prepararam três grandes operações aeronavais para retomar o controle territorial das potências ocidentais ocupadas. 

Na operação Overlord, tropas americanas, britânicas e canadenses desembarcaram em cinco praias na região da Normandia, no dia 6 de junho de 1944, conhecido como o Dia D. Adolf Hitler tinha designado o marechal Erwin Rommel para construir a “Muralha do Atlântico”, uma pesada linha defensiva para proteger a costa continental do Mar do Norte. Mesmo com muita dificuldade, as tropas aliadas conseguiram atravessar o Canal da Mancha e ocuparam o norte da França. 

Na operação Market Garden, tropas aliadas, com uso combinado de infantaria blindada com infantaria paraquedista, invadiram os Países Baixos, no dia 17 de setembro de 1944, retomando o controle desse Estado e de suas importantes vias de acesso na Europa Ocidental, e abrindo, assim, o caminho para entrar na Alemanha.

Na operação Dragão, tropas aliadas, auxiliadas pela Resistência Francesa, invadiram com sucesso o sul da França, no dia 15 de agosto de 1944, obrigando os alemães a recuarem para a Linha Siegfried, a linha defensiva alemã espelho da Linha Maginot. Em 25 de agosto de 1944, Paris era libertada do domínio nazista. Contrariando as ordens de Hitler, o general alemão se rendeu e não destruiu a cidade antes de capitular. 

A partir de janeiro de 1945, diversas operações aliadas se infiltravam pelo território alemão rumo a Berlim. Em 30 de abril de 1945, com a chegada dos soviéticos às proximidades do bunker nazista, Hitler suicida-se. Em 2 de maio de 1945, a guarnição de Berlim se rende aos russos. No dia 7 de maio de 1945, americanos e britânicos chegaram a Berlim e assinaram a rendição incondicional do Terceiro Reich. O acordo passaria a vigorar no dia 8 de maio, mas os líderes aliados acordaram em anunciar conjuntamente a vitória no dia 9 de maio. Os americanos e os britânicos ignoraram o acordo, anunciaram a grande vitória no dia 8 de maio, mas os russos mantiveram a data comemorativa em 9 de maio. O primeiro V-Day (Dia da Vitória), da rendição alemã, é no dia 8 de maio e o segundo V-Day, da rendição japonesa, é no dia 15 de agosto. Tanto no front ocidental quanto no front oriental, os russos deram o xeque-mate, mas foram os americanos e os britânicos quem organizaram o novo tabuleiro do xadrez internacional


Conclusão

Ao longo deste artigo, foi possível apresentar alguns dos principais fatos, conflitos e decisões de lideranças políticas que determinaram as origens, os rumos e o desfecho da Segunda Guerra Mundial, abordando diferentes fronts, de modo a tornar a análise o mais completa possível dentro dos marcos de um artigo. 

Diante da magnitude do conflito, é evidente que não seria possível esgotar o tema. Existem lacunas e silêncios ao longo do texto, o que evidentemente não impede a consecução do objetivo primário de tentar realizar a árdua tarefa de, entre uma verdadeira infinidade de fatos, realizar a prospecção e a análise daqueles que seriam os mais relevantes para a compreensão daqueles seis anos responsáveis pela maior e mais sangrenta guerra da história da humanidade.

Todo grande conflito internacional costuma abrir espaço para a redefinição da ordem mundial. A Segunda Guerra Mundial, com seus vencedores já definidos, permitiu a construção de uma ordem estruturada sobre os valores liberais do Ocidente, todos eles consagrados nas principais instituições criadas no imediato pós-guerra. Se o desfecho desse longo episódio fosse favorável ao Eixo, a distribuição global de poder seria completamente distinta daquela que conhecemos, assim como os princípios que norteiam o sistema internacional. 

Conhecer a Segunda Guerra Mundial é entender como a vitória aliada moldou o mundo pela construção de regimes de governança global por meio do diálogo permanente entre diferentes atores nos órgãos multilaterais, com a liderança hegemônica dos Estados Unidos. Esses regimes criaram normas que não apenas constrangem os Estados mais poderosos, como também moldam a mentalidade coletiva das pessoas no interior dos Estados. 

Diante do recrudescimento da barbárie e de certos sinais de uma nova guerra global, é necessário relembrar da tragédia da Segunda Guerra Mundial para se evitar a Terceira. “Lembrai-vos da guerra”, para defender que o ideal iluminista de busca por valores universais não seja descartado e para garantir que o esforço internacional de concertação multilateral não seja desprezado. Somente assim, parece que evitaremos a hecatombe da Terceira Guerra Mundial.


Referências Bibliográficas

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RENOUVIN, Pierre; DUROSELLE, Jean-Baptiste. Introdução à História das Relações Internacionais. São Paulo: Difusão Europeia, 1967.

HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

FERGUSON, Niall. A guerra do mundo: a era de ódio na história. São Paulo: Planeta, 2015.

SARAIVA, José Flávio Sombra. Relações Internacionais: dois séculos de história. Brasília: IBRI-Funag, 2001.



Sobre os autores

Henrique Paiva é doutor em Economia Política Internacional, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e professor no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fernando Roberto de Freitas Almeida é doutor em História Política, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e professor do Instituto de Estudos Estratégicos, da Universidade Federal Fluminense.



Como citar este artigo:

PAIVA, Henrique; ALMEIDA, Fernando Roberto de Freitas. Segunda Guerra Mundial: “Lembrai-vos da Guerra”, Diálogos Internacionais, vol.9, n.20, mai.2022. Disponível em: https://dialogosinternacionais.com.br/?p=2603 Acesso em 18 mai.2022.

Diálogos Internacionais

Divulgação científica de Relações Internacionais, Defesa e Economia Política Internacional ISSN 2596 2353